quinta-feira, 3 de junho de 2021

Metal Hero: A franquia não-oficial dos heróis metálicos

Mesmo não sendo uma franquia oficial, os heróis metálicos da Toei Company formam uma das linhagens mais queridas entre os fãs de tokusatsu!

Policial do Espaço Gavan

No mundo dos super-heróis do tokusatsu, os efeitos especiais japoneses, o personagem número um para os fãs brasileiros é O Fantástico Jaspion, que chegou ao Brasil em 1988 junto com o Esquadrão Relâmpago Changeman. O sucesso de Jaspion fez as emissoras de TV trazerem os heróis similares a ele que o antecederam e também seus sucessores diretos na TV japonesa, todos produzidos pela Toei Company. 

Em uma área que hoje é dominada por grandes linhagens, como Ultraman, Kamen Rider e Super Sentai, a franquia mais querida do público brasileiro atende pelo nome de Metal Hero, que abriga Jaspion, Jiraiya, Sharivan, Winspector e outros. Mas, tal franquia nunca existiu de fato, tendo sua denominação se originado no meio dos fãs japoneses. 

No jargão da cultura pop, ou da cultura nerd/geek/otaku, a própria palavra "franquia" se popularizou bastante nos últimos anos, mas poucos sabem sua origem e significado. 

"Franquia" vem de "franchise", um
termo do mundo dos negócios.

ENTENDENDO O TERMO

Tradução direta de "franchise", o termo "franquia" vem do mundo dos negócios e do marketing, e indica quando uma marca, produto ou serviço é licenciado por diferentes pessoas jurídicas. É um modelo de negócios que lida com marcas, patentes e pagamento de direitos. Como exemplo, podemos citar uma rede de fast food como o McDonald´s, que tem lanchonetes espalhadas pelo mundo. Qualquer pessoa que deseje abrir uma filial do McDonald´s para administrar deve submeter um pedido a uma central de negócios e atender às exigências, que incluem uma estimativa de faturamento (vinculada, no caso, à população de sua cidade), bem como comprometimento contratual de seguir à risca os padrões de qualidade, programação visual e manual de procedimentos da empresa.

Levando isso para o mundo do entretenimento, temos o licenciamento de produções e produtos envolvendo personagens. Pegue a marca Pokémon, por exemplo. Uma fábrica de camisetas que queira estampar os personagens oficialmente em seus produtos, deve procurar o escritório de licenciamento correspondente e fazer os procedimentos jurídicos. Foi assim que Pokémon, que surgiu nos games, também ganhou versões em animê e mangá, tudo mediante contratos comerciais.

Se tem produtos licenciados, é franquia.

Em 1990, a Tikara Filmes e a Alien International licenciaram a marca Jaspion para a Editora Abril, após passagem pela Editora EBAL, para produzir com autores nacionais a revista em quadrinhos oficial do herói, que ainda traria outros personagens licenciados junto à Toei. Isso fora brinquedos, camisetas, máscaras e fitas de vídeo lançadas na época. Assim, Jaspion é uma franquia, um universo ficcional e também uma marca, assim como Pokémon.

FRANQUIAS OU UNIVERSOS?

Uma obra que exista em várias mídias diferentes é sempre uma franquia, mas já vi pessoas se referirem a uma obra que só existe em mangá como sendo uma franquia, o que é totalmente equivocado. Se ninguém ainda licenciou para outras mídias ou versões, e somente o autor original está produzindo, não é uma franquia. 

Quando existem produtos de merchandising (roupas, bonecos, etc...), para a série ou personagem, já dá pra chamar de franquia, apesar disso não ser muito usado na prática. E existem franquias gigantescas, que na verdade agregam outras franquias que se sustentam por si próprias, como a Liga da Justiça, que agrega Batman, Superman, Mulher Maravilha, Aquaman e Flash, todos eles com quadrinhos (de onde surgiram, aliás), filmes, séries e animações independentes da Liga. Se lembrarmos do Universo Marvel, mais até do que o Universo DC, teremos uma medida sobre as proporções de grandes marcas. Ninguém se refere à Marvel e DC como sendo franquias, mas sim como "universos" (ok, "multiversos") ou mesmo marcas, que é o que elas são de fato.

Assim, "franquia" é um termo banalizado e geralmente impreciso, sendo que, na maioria dos casos, as pessoas usam a palavra para se referir a um universo ficcional. Experimente, por exemplo, trocar "franquia" por "universo" e veja se não faz sentido

Os Policiais do Espaço.

DE GAVAN A ROBOTACK

Voltando ao caso dos Metal Heroes, o precursor deles foi o Policial do Espaço Gavan, de 1982. Projeto arrojado, seu sucesso se deve a muitos profissionais criativos, com destaque para Susumu Yoshikawa (produtor), Shozo Uehara (roteirista) e Katsushi Murakami (designer). Seu sucessor direto foi Sharivan (83), seguido por Shaider (84). Jaspion (85) veio em seguida, mas não seguia a mesma cronologia, o mesmo universo, apenas tinha um design similar. Idem para Spielvan (86), que de tão parecido visualmente foi até batizado no Brasil de Jaspion 2 - Spielvan

Em 1987, houve uma grande mudança de estilo visual e narrativo, com o advento de Metalder - O Homem Máquina. Depois dele, veio Jiraiya - O Incrível Ninja (1988), uma retomada do tema clássico do herói ninja. Jiraiya usava uma "armadura" com partes de couro e alguns adereços metálicos. Consta que, devido a seu sucesso, seria sucedido por um outro ninja, mas o sucesso mundial de Robocop incentivou a Toei a buscar um similar infantil, o que deu origem ao Policial de Aço Jiban (89), um herói tecnológico. 

Winspector, Solbrain e Exceedraft.

Em 1990, veio o Esquadrão Especial Winpector, com grande mudança narrativa, o que agradou em cheio o público e acabou inaugurando a linha Rescue Police. Winspector foi sucedido por Solbrain (1991) e Exceedraft (92), formando assim a segunda trilogia de heróis metálicos. 

Uma nova reviravolta no estilo de produção veio com Janperson (93), um herói robótico como Jiban, porém sem uma identidade humana. Em 1994, a Toei emplacou outro acerto, com Blue SWAT, trazendo designs mais realistas com seus heróis com protetores metálicos (colete e capacete) que não constituíam exatamente o que se pode chamar de armadura. Em 1995, o estilo de herói de armadura completa voltou com B-Fighter, sucedido por BF Kabuto (96). 

B-Fighter e B-Fighter Kabuto

As séries seguintes, B-Robo Kabutack (97) e Tetsuwan Tantei Robotack (98) traziam personagens metálicos, mas eram propostas mais voltadas à comédia infantil com toques de aventura, algo talvez mais próximo da linha Fushigi Comedy ("Comédias Maravilhosas") de Shotaro Ishinomori. Por esse motivo, muitos fãs não consideram essas séries como sendo Metal Heroes

A Toei não usava ou reconhecia o termo Metal Hero Series. Isso surgiu no meio dos fãs, que chamavam assim a coletividade dos heróis produzidos de Gavan a BF Kabuto, ou de Gavan a Robotack, mesmo que Jiraiya dificilmente pudesse ser chamado de "herói metálico". 

Livro oficial da Toei,
reconhecendo a linhagem,
ou universo dos Metal Heroes.

O RECONHECIMENTO DA TOEI

Ao longo do tempo, a empresa percebeu que seria interessante usar a nomenclatura dos fãs para fortalecer os personagens e, nos anos 90, surgiram as primeiras coletâneas em vídeo, livros e CDs que usavam os termos Metal Hero, Metal Heroes ou Metal Hero Series. Porém, vale lembrar que a Toei nunca tratou esses heróis como sendo de uma mesma linhagem (como Kamen Rider, por exemplo), mas um conjunto de heróis soltos e outros interligados em linhagens próprias. 

Gavan é sempre lembrado como o primeiro da trilogia Uchuu Keiji ("Policial do Espaço"), da mesma forma que Winspector inaugurou a trilogia Rescue Police. B-Fighter e BF Kabuto também integram uma única continuidade. E há os crossovers, como o final de B-Fighter, que trouxe de volta Janperson, seu parceiro Gun Gibson e Blue SWAT como aliados. Ou mesmo a participação de Manabu, o irmão de Jiraiya, em um episódio de Jiban.

Em 2012, para os 30 anos de Gavan, a Toei trouxe de volta o herói clássico e apresentou seu sucessor, o Gavan Type-G, que estreou em Gavan The Movie e depois participou de várias produções. Em 2013, surgiu o filme Kamen Rider vs Super Sentai vs Uchuu Keiji, deixando claro quais linhagens a Toei reconhece como suas franquias, ou melhor, como universos ficcionais específicos. 

Conforme seu interesse, a Toei pode tratar Metal Hero da mesma forma que trata Kamen Rider e Super Sentai futuramente mas, para os fãs ao redor do mundo (e especialmente no Brasil), isso pouco importa. Afinal, a linhagem, mesmo não sendo exatamente uma franquia, reúne personagens queridos e evoca um período nostálgico de produções repletas de aventura e emoção. 

🍣🍣🍣🍣🍣

Saiba mais:

Katsushi Murakami - Desenhista de heróis e brinquedos

SENSEI! Shozo Uehara e os Metal Heroes

🍣🍣🍣🍣🍣

Apoio coletivo ~ Sushi POP:

Colabore com a continuidade de minhas atividades como redator e divulgador cultural, com qualquer valor a partir de R$ 5,00. 

Pode ser contribuição única ou recorrentepública ou anônima. Agradeço de qualquer forma. 

ApoioColetivo 

🍣🍣🍣🍣🍣

- Compartilhe o conteúdo do Sushi POP em suas redes sociais! Divulgue cultura pop japonesa.

14 comentários:

Jorge Hakaider disse...

Perfeita a explicação. Admito que eu mesmo me confundi e chamava de franquia os Metal Heroes, mas agora entendi perfeitamente! Obrigado. 😊

tuneldotempotv disse...

Mais um excelente texto, descomplicando os termos que usamos para os tokusatsu no Brasil. Creio que o fato da Toei chamar as séries de Metal Hero nos anos 90 foi algo similar à decisão da Tsuburaya em chamar O Regresso de Ultraman como Ultraman Jack nos anos 80, tentando descomplicar para o público. Realmente os heróis da linhagem / universo Metal Hero marcaram muito no Brasil, pois além de serem ótimos, foi o estilo de tokusatsu que mais passou em nossa TV. Parabéns por mais um excelente trabalho, Nagado!

Abraço. Deus o abençoe!

Bruno - Canal Túnel do Tempo TV

Alexandre Nagado disse...

Valeu, Jorge. Eu espero que o fandom receba bem a postagem, pois sempre tenho receio de soar um cara chato. Bom, a parte que não lê vai ignorar mesmo, ah ah.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno.

Eu li e reli várias vezes o texto e ainda não estou satisfeito quanto à clareza, mas foi assim mesmo, ah ah.

O povo é muito preso em franquias, ou em "famílias" de personagens. Tanto que alguns acreditam que existe uma "franquia" chamada "other hero", só porque alguns fóruns antigos usavam esse termo para agrupar discussões sobre heróis sem uma linhagem específica. Para o fã nostálgico, claro que nada disso importa, mas para a gente, que cria conteúdo, a parte teórica é importante.

Valeu a força! Abraço!

Leandro Pereira disse...

Belo artigo, Ale! Complementou muito bem àquele seu vídeo na Resistência Tokusatsu. Eu apenas acrescentaria que o Jaspion, numa edição da revista Terebi de 1985 (a de nº10), já era apresentado - num conto em mangá - como um integrante do mesmo universo dos policiais do espaço, porém sendo na realidade um ancestral do trio (o que foi indiretamente confirmado no filme Space Squad: Gavan vs. Dekaranger). Portanto, podemos dizer que, antes de Hollywood começar a modinha dos prequels, lá estava a Toei fazendo isso com os primeiros Metal Heroes.

Abração!

anderson disse...

Segundo a wikipedia japonesa,além de um remake espiritual de Kikaider,Metalder foi uma tentativa da Toei e Bandai de aproveitar o sucesso de Saint Seiya,trocando os "monstros da semana" por guerreiros com seus próprios estilos de combate e códigos de honra.Jiraya
também teve alguma influência dos cavaleiros de Athena,mas também tinha elementos dos heróis espaciais tentando evitar o fracasso de Metalder.

Adelmo Veloso disse...

Excelente texto! Lembro de ter visto o termo pela primeira vez no Tokudoc. Não associava como não oficial, até porque não sabia ao certo o significado de franquia. Estou lendo um livro bacana que define arte, cultura e nossa tão querida cultura pop, além de mostrar a diferença entre nerd e geek.
É sempre muito bom poder aprender mais por aqui!

Fabiano disse...

Sem dúvida essa turma dos heróis metálicos é muito popular entre nós e pensar aqui nos quadrinhos alguns personagens compartilhavam do mesmo universo, bem antes de nos acostumamos com isso hoje em dia com os filmes da Marvel e DC e até a Toei com Space Squad. Não vi as últimas séries dos Metal Herpes, são boas?

Alexandre Nagado disse...

Fala, Leandro. Realmente, foi depois que gravei o vídeo para a Resistência Tokusatsu que eu fiquei com vontade de aprofundar o assunto, deixar um registro aqui no Sushi POP. É um tema curioso mesmo.

Obrigado e apareçam mais vezes por aqui. Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson. Sim, e os guerreiros de Neroz eram um show à parte. Era diferente do "monstro da semana", visto que já começava com um exército de super seres. Alguns eram muito estilosos, e sem dúvida tinha potencial para uma saga maior. Mas, ao menos a produção manteve coerência até o final, não foi uma série sem rumo como fora o RX.

Valeu, abraços!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo. Obrigado, sempre tento trazer algum conteúdo diferenciado por aqui. E eu vi sua dica de livro no Instagram. Acho que esse eu vou conferir em breve.

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Fabiano!

Das duas últimas séries eu não vi um único episódio. Kabutack e Robotack não me chamaram a atenção. Das outras eu conferi todas. B-Fighter, apesar do visual não me agradar muito, era uma série bem legal.

Valeu! Abraços!

Diego Kalixto disse...

Excelente matéria, tu és uma autoridade no assunto, meu amigo, meus parabéns! ! Curto muito tokusatsu, assisti nesses dias o Space Squad vs Kyuranger, muito bom

Alexandre Nagado disse...

Olá, Diego.

Aqui no blog tem umas matérias sobre Space Squad. Eu até gostei do Kyranger vs Space Squad, mas achei o primeiro filme mais interessante. Pena que a Toei abandonou o projeto, que prometia ser bem legal se tivesse continuado.

Valeu! Abraço!