terça-feira, 13 de abril de 2021

Patrulha Estelar Yamato: O mangá

A NewPOP Editora lança no Brasil a mais famosa obra de um dos mais reverenciados mestres dos quadrinhos japoneses. 

A histórica edição brasileira.

Um antigo sucesso da animação japonesa tem finalmente sua versão em mangá lançada oficialmente no Brasil. No início da década de 1980, a saudosa TV Manchete apresentou as aventuras da valente Patrulha Estelar em suas batalhas para defender a humanidade contra invasores espaciais. Série icônica em seu país, o animê tem seu mangá oficial produzido pelo co-criador da saga, o lendário Leiji Matsumoto.

Após décadas de espera, chega aos leitores brasileiros uma compilação com todas as histórias que foram produzidas pelo artista, simultaneamente às duas primeiras séries de TV. A título de registro, o público brasileiro viu a segunda e a terceira série da saga original, bem como a aclamada versão live-action, já exibida no canal pago HBO

Na trama, no ano de 2199, a Terra se tornou um deserto árido e radioativo, com sua população sobrevivente ocupando enormes abrigos subterrâneos. A culpa é do conquistador Império Gamilas, que decide ocupar a Terra, pois a vê como o refúgio ideal para seu povo, já que seu planeta está condenado devido a um colapso em seu interior.

As bombas emitem uma radiação inócua para os habitantes de Gamilas, mas fatal para os seres humanos. Para ocupar o planeta, gigantescas espaçonaves rumam para a Terra. O líder da invasão é o implacável Desslar, chamado de Desslock quando a saga foi exibida no Brasil.

Do distante planeta Iskandar, vem uma mensagem da rainha Star-sha, que oferece ajuda à Terra. Ela transmite informações e planos de engenharia que permitem a criação de uma espaçonave à partir da carcaça de um antigo navio afundado na Segunda Guerra Mundial, o Couraçado Yamato

Equipado com a inovadora tecnologia do Motor de Ondas, o renascido Yamato pode realizar saltos dimensionais, sendo assim capaz de viajar rapidamente aonde naves terrestres jamais haviam chegado. Além disso, a imensa energia gerada pode ser canalizada para a proa, onde se aloja o destrutivo Canhão de Ondas, a arma definitiva do Yamato. [Nota: Na versão para os EUA, a nave se chamava Argo e foi eliminada sua relação com o navio verdadeiro.]

Então, uma tripulação é reunida às pressas para que a nave possa cumprir sua missão, que é chegar até Iskandar para receber de Star-sha o mecanismo Cosmo Cleaner, capaz de limpar a atmosfera terrestre. Em linhas gerais, essa é a trama da série original, adaptada por seu próprio autor para o mangá. 

A versão da NewPOP utiliza a nomenclatura original japonesa, mantendo apenas o título da obra alusivo à versão em animê exibida no Brasil. 

Capa da edição original.

Na ponte de comando, está o veterano Capitão Juzo Okita, que na adaptação americana era chamado de Capitão Avatar. Sob suas ordens, Susumu Kodai (ou Derek Wildstar no ocidente), Shiro Sanadá (Sandor), Daisuke Shima (Marc Ventury), Yuki Mori (Nova nos EUA, Lola no Brasil), Aihara (Rohmer) e muitos outros jovens e destemidos oficiais juram sacrificar a própria vida para salvar a Terra. Entre os veteranos, além de Okita, estavam o dr. Sado (Dr. Sam) e o chefe de engenharia Tokugawa (chamado de Orion na versão americana). O robô ajudante, que era conhecido por aqui como IQ-9, foi batizado de Analista, uma tradução do nome original, Analyser

O mangá do Yamato foi publicado no Japão entre novembro de 1974 a abril de 1975, na hoje extinta revista mensal Bouken Ou ("Rei da Aventura"), da editora Akita Publishing Company. Essa série original em mangá foi feita simultaneamente à saga na TV, que teve participação ostensiva de Matsumoto, desenhando story-boards, criando artes conceituais e dirigindo episódios. No entanto, o curto número de páginas por edição acabou fazendo com que o mangá fosse uma edição extremamente condensada da história, com saltos que atropelam a narrativa. O próprio autor meio que se desculpou por isso, dizendo que o mangá seria mais um resumo dos acontecimentos do animê. A impressão fica mais forte no final, certamente. 

O ápice da história, que seria a chegada a Iskandar mais o grande confronto em Gamilas, acaba sendo contado em flashback, como se fosse uma recordação para quem tivesse assistido aos fatos correspondentes na série de TV. Essa aventura, a que mais importa, conclui na página 243 da edição brasileira, menos de metade da edição.

Impossível explicar sobre os percalços da versão em mangá sem dissociar do animê. A baixa audiência da série de TV acabou reduzindo a duração da saga, e isso se refletiu no final apressado do mangá. No entanto, a exibição em cinemas de uma compilação da série fez um sucesso inesperado em 1977, e no ano seguinte foi lançada a continuação, um grandioso filme com a batalha contra o Cometa Império
Traço bem cartunizado
e maquinário rebuscado, uma
combinação fascinante.
(A edição brasileira
não tem páginas coloridas)

Começava o chamado Anime Boom, a febre por animê que varreu o Japão, conquistando um público juvenil e adulto. O novo longa fez muito sucesso em 1978, mas seu final trágico levou a produtora a anunciar que aquela seria uma história "alternativa" e a saga foi reformulada para se transformar na série 2 do Yamato, ainda naquele mesmo ano de 1978. Esta é, inclusive, a série que ficou mais conhecida no Brasil. 

Para tentar capitalizar aquele ressurgimento do título e a nova temporada na TV, Leiji Matsumoto começou a produzir uma nova série em mangá, que durou entre julho de 1978 e janeiro de 1980, na mesma revista Bouken Ou. Infelizmente, a repercussão da adaptação ficou aquém do esperado e o mangá foi deixado incompleto. Em suas páginas, chega a aparecer, com destaque, a nave Andrômeda e seu comandante, Hijikata, chamado de Gideon na versão americana da série 2. 

Nesse segmento introdutório ao Cometa Império, a narrativa é muito mais contemplativa, e tem-se a impressão de que os assistentes de arte tiveram um papel muito destacado na produção, pela irregularidade do traço, especialmente em uma página dupla com a tripulação reunida na ponte de comando (págs. 396 e 397). Ainda assim, o mangá do Yamato tem partes maravilhosas, mesmo não sendo um dos trabalhos favoritos de Matsumoto, que tem como destaques em sua vasta obra os épicos espaciais o Galaxy Express 999 e o Pirata Espacial Capitão Harlock

Entre uma série e outra, houve também um conto em mangá sobre a esposa e a filha de Desslar, que foi incluída na edição de agosto de 1976 da revista Play Comic. A história é ambientada durante a viagem para Iskandar e tem boas passagens, com um drama bastante intenso e tocante. 

Essas duas sagas, uma completa e outra incompleta, mais a história curta, foram reunidas em três volumes pela Sunday Comics. Com todo o material reunido em volume único, a edição brasileira apresenta todas as histórias do Yamato produzidas por Leiji Matsumoto.

Yamato: Divisor de águas na
animação japonesa.

Os que acompanharam a série animada na TV Manchete, ou que conhecem o reboot Yamato 2199 poderão estranhar bastante o traço original de Leiji Matsumoto. Bastante identificado com o cartum e a caricatura, sem preocupação com proporções rígidas, o desenho do autor é expressivo, com maquinários complexos e fantasiosos, onde o visual se sobrepõe à funcionalidade.

Sua narrativa visual é poética e sua diagramação é arrojada, com quadros estreitos e elegantes que emolduram seu traço, com acabamento de pincel traçado de forma quase caligráfica. É um material belíssimo para quem aprecia linhas mais estilizadas. 

Matsumoto se baseou vagamente nas orientações do produtor do animê, Yoshinobu Nishizaki, e produziu uma versão bastante pessoal da obra. Inclusive, há uma sequência em que ele apresenta um protótipo do que seria seu mais importante e representativo personagem, o já citado Harlock

Mesmo tendo sido uma obra encomendada, Yamato traz muitos elementos caros ao autor, como a valorização dos sentimentos de honra, lealdade e senso de dever. 

Patrulha Estelar Yamato é o primeiro lançamento oficial de uma obra de Leiji Matsumoto no Brasil. Autor cultuado, era o último dos grandes mestres do mangá a permanecer inédito em nosso país. A adaptação do reboot da franquia, intitulado Yamato 2199 (sem a participação do mestre), também está nos planos de lançamento da editora. 

Mesmo com os problemas já mencionados, e sendo uma obra inacabada e abandonada pelo autor, esse lançamento do selo Prime da NewPOP Editora é um marco na publicação de mangá no Brasil. É o registro, belamente impresso e luxuosamente apresentado, de uma obra representativa de um dos mais importantes autores dos quadrinhos japoneses, em todos os tempos. 

Título: Patrulha Estelar Yamato
Título original: Uchuu Senkan Yamato (1974)
Roteiro e arte: Leiji Matsumoto 

Tradução: Thiago Nojiri
Prefácio: Levi Trindade

Formato: 15 x 21,06 cm, com 648 páginas
Total: Volume único
Lançamento no Brasil: NewPOP Prime (2021)
- Classificação indicativa: 16 anos

🍣🍣🍣🍣🍣

- Nostalgia - Memórias da Patrulha Estelar!

Yamato - Muito além da Patrulha Estelar 👈 

- Mais resenhas de mangá 

🍣🍣🍣🍣🍣

Campanha de Apoio Coletivo:

- Curte minhas publicações? Acompanha meus textos faz tempo? Colabore com a continuidade do meu trabalho, com qualquer valor a partir de R$ 5,00, em contribuição única ou recorrente, pública ou anônima: 

ApoioColetivo - Ale Nagado e Sushi POP

13 comentários:

Jorge Hakaider disse...

Olá Nagado. Assisti Patrulha Estelar na época da Manchete, em 1983. Adoro a obra do Leiji Matsumoto, com certeza irei comprar esse mangá. Sou fã do Capitão Harlock, gostaria muito que lançassem algo desse personagem aqui no Brasil. Aliás, existem mangás dele lançado no Japão?

BRENO O PERUIBENSE disse...

Patrulha Estelar sempre terá um lugar reservado em meu coração.

stéphano bahia disse...

Adoro a trilha sonora de Yamato....
até aprendi a cantar

Alexandre Nagado disse...

Fala, Jorge!

Sim, o Harlock tem mangá, mas eu nunca li, só sei que o mangá original tem cinco volumes. Se o Yamato vender bem, arrisco dizer que tem chances de pintar por aqui.

Valeu! Abraço!

Jorge Hakaider disse...

Tomara que lancem mesmo, ficarei na torcida.

Jefferson disse...

Olá Nagado.
Esse anime eu não peguei mas me recordo de ver alguma reprise durante a tarde na Rede Manchete. Soube que fez bastante sucesso no Brasil pré Cavaleiros do Zodíaco. Tem algumas histórias da época que gostaria que confirmasse: tamanho sucesso fez com que a emissora jogasse uma exibição para o horário nobre logo antes do telejornal e como alguma temporada demorou via EUA, a Manchete/licenciante foram direto ao Japão adquirir a fase seguinte e acabamos por ter Isao Sasaki cantando na abertura por aqui, procede?
Cheguei a adquirir um VHS da serie na época da implosão do mercado de locações mas não me chamou muita atenção. Era por volta do ano de 2002 e eu, otaku nos termos da época, fui ver se era tudo isso mas achei datada. Hoje sinto mais satisfação em "caçar" os primórdios dessa cultura pop do que coisas recentes. Harlock tbm saiu um vhs dublado que cheguei a alugar e não entendi nada rs. Parece que nunca ficamos sem algum anime disponível no Brasil pré Cavaleiros, eles só não eram percebidos como tal.
Valeu, abraços.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Jefferson!

Sim, a série III foi trazida direto do Japão, o que nos brindou com a abertura e encerramento em japonês, bem como cenas mais violentas na íntegra. Eu conto melhor sobre isso - e o impacto que causou em mim - no post "Nostalgia - Memórias da Patrulha Estelar" (https://nagado.blogspot.com/2019/01/nostalgia-memorias-da-patrulha-estelar.html)


Abraço!

Riojin disse...

Bela materia. Yamato eu nao assisti e nao é uma serie que tenha me entusiasmado. O maior contato que tive com o material do Leiji Matsumoto, foi por conta daquela sequancia de clipes do Daft Punk.
Mas o que queria comentar é que esse selo Prime da Newpop tem algo que nao me agrada. As capas, essas cores chapadas quase monocromaticas tiram a beleza de uma capa. Parece coisa de colecao de classicos que viriam de brinde com os jornais de domingo, por mais R$ 9,90. Tem mangás do Tezuka lançados pela propria Newpop com capas simples e bonitas, dando destaque pra arte da obra. Acho um erro desse selo Prime essas capas.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Riojin. Esta resenha ficou enorme, mas tinha muita coisa importante pra falar para o pessoal entender o contexto, que é complexo. Por isso fiquei sem comentar a capa, que achei horrorosa. Matsumoto tem cores tão bonitas, a capa poderia ter sido muito boa, mas ficou essa coisa sisuda demais.

Quem for ver somente em busca de reviver as emoções do animê, vai se desapontar um pouco.

Valeu! Abração!

Usys 222 disse...

Curioso saber que o próprio autor original fez a quadrinização na Bouken Ou. E que ele também enfrentou o desafio de condensar os eventos do mês inteiro em poucas páginas, ou de ter de pegar os mais relevantes. Era bem assim mesmo inclusive para Macross e Dunbine, nessa mesma revista.

E tenho sensações bem conflitantes com o lançamento por aqui. De um lado fico contente com o lançamento em si. Por outro lado, chateado por ter chegado aqui só agora. Realmente estamos bem atrasados. Deve ter apelo para o público mais velho, mas será que tem força para os mais novos? A arte, claro que sim, mas a narrativa truncada pode ser um empecilho.

Mesmo assim é válido para trazer as obras dos Mestres para que mais gente tenha a oportunidade de conhecê-los. E logo virá Shotaro Ishinomori com Kamen Rider, que era estranho já não ter vindo para cá.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys! É, estamos tirando um atraso gigante, com obras de Go Nagai, Matsumoto e Ishinomori. Eu realmente temo que não conquiste um público novo. A narrativa da parte referente ao Cometa Império é bem desenvolvida, com grandes tomadas de cena. O que é um problema, pois acaba de repente, deixando a trama apenas com sua primeira parte. A capa, como o Riojin apontou, não ajuda muito.

Espero que a editora tenha um retorno satisfatório. Eu gostaria muito de ver o Galaxy Express 999 por aqui, mas nem está nos planos de alguma editora, até onde sei.

Abraço!

Detonation Uchiha disse...

Que bacana ver este mangá publicado por aqui, por mais que eu não conheço muito a história (só vi apenas alguns episódios da versão "2199", apesar de ter interesse em futuramente ver a série original), sempre acho importante que obras de autores clássicos sejam resgatadas. Ao que parece esta edição seguirá o padrão das recentes publicações do Go Nagai no Brasil e infelizmente o preço não está nada camarada, embora eu entenda que se trata de um material de luxo, talvez no futuro eu adquira este mangá para minha coleção, quem sabe...

Fred disse...

Muito obrigado por esses informações contextualizando o mangá, Alexandre. Terminei a leitura recentemente e, como não assisti a série quando passou no Brasil, fiquei meio confuso e curioso quanto a algumas coisas. Acho que a edição da Newpop poderia ter vindo com um posfácio explicando os cortes a presença da história extra no final, enfim, ter dado toda a contextualização sobre a produção do mangá na época. Mas tirando isso achei uma leitura bem interessante, e um lançamento bem importante. Espero que lancem a outra adaptação da história, assim como as outras obras do autor.