domingo, 14 de março de 2021

Quando o herói erra no final - Os casos de Maskman, RX e Jiban

Três super-heróis clássicos do tokusatsu da década de 1980 que tiveram atitudes duvidosas no final de suas séries. 

Maskman, Kamen Rider BLACK RX e Jiban

Todos gostamos de relembrar aqueles momentos legais de séries que acompanhamos. E quando o final é épico, relembramos por toda a vida. Mas tem aqueles finais que desapontam. Não pela luta final, ou pela conclusão da trama em si, mas pela atitude (ou falta dela) do herói principal, sempre pelas mãos de roteiristas e produtores que não se preocuparam em fechar a saga do herói com chave de ouro ou não souberam como fazê-lo. 

O texto abaixo analisa os finais de três séries específicas: Maskman, Kamen Rider BLACK RX e Jiban. Só funciona se você viu os finais e se lembra deles. Leia por sua conta e risco, mas não dá pra chamar de spoiler comentários sobre a conclusão de séries com mais de 30 anos e que foram exibidas no Brasil há mais de 20. 

São análises bastante pessoais e subjetivas, e estou apenas compartilhando minhas impressões, sem a pretensão de dar um veredito sobre as séries, todas elas bastante divertidas em suas propostas. Não discuto memórias afetivas ou como cada produção pode ter marcado o leitor. O que analiso abaixo, na condição de roteirista e crítico, é a questão de como os roteiristas se despediram dos personagens, citando três casos em que, na minha opinião, os realizadores não fecharam bem as jornadas de seus heróis. 

Defensores da Luz Maskman (1987~88)

- Maskman foi uma grande série, com grande momentos, mas seus minutos finais realmente poderia ter sido melhores. Red Mask passa toda a série tentando salvar sua amada, a Princesa Yan, traidora do Império Tube. Quando consegue salvar a moça e destruir o Imperador Zeba junto com seus amigos, o herói dá um vacilo gigante. Yan parte para iniciar a árdua reconstrução do Reino Subterrâneo e se despede de seu amado Takeo, que a deixa ir embora sem qualquer resistência. 

Com os monstros destruídos e sua missão concluída, o que impedia Red Mask de partir para ajudar Yan a reconstruir seu reino? Coisa alguma. Isso teria permitido um final dramático, com a equipe se desfazendo. Mas, quiseram deixar um final engraçadinho, com os heróis correndo e brincando na praia, como adolescentes. Finais bobinhos à parte, o herói perdeu uma grande chance de continuar a ser o protetor de sua amada, deixando ela ir embora para encarar grandes desafios sozinha. 

O roteirista Hirohisa Soda fez no geral um bom trabalho, e minha única queixa foi ele ter perdido uma grande chance de dar um final coerente a Red Mask. Ainda assim, Maskman é uma série que considero muito boa. 

Kamen Rider BLACK RX (1988~89)

- No final da série que deu sequência a Kamen Rider BLACK, o simpático casal Sahara, com quem Issamu Minami vivia, é assassinado pelo Império Crisis, na frente dos filhos, que são crianças. Outrora alívio cômico da série, os dois morrem de forma cruel e isso aumenta a fúria do herói contra os invasores. 

Após destruir o imperador, e inspirado pelos 10 Kamen Riders que o antecederam e ajudaram na fase final da guerra de Crisis, Issamu resolve partir para a América a fim de se aprimorar e aprender mais sobre como ser um herói. 

Ok, bacana, um final de Kamen Rider com o herói pilotando sua moto sozinho, rumo a novas aventuras e tal... PORÉM, ele morava com a família Sahara, viu as crianças que o tinham como um irmão mais velho ficarem órfãs de repente e pede pra amiga Kyoko Matoba, uma aliada contra Crisis, para cuidar das crianças. Em momento algum ele pensa em ficar por perto para oferecer apoio a duas crianças em situação tão delicada. E o herói protetor dos inocentes? 

E quanto a Reiko Shiratori, sua aliada que, no começo da série, era sua NAMORADA? Nada é dito, nada é explicado e eles se despedem como aliados de batalha. A impressão é que, pelo final da série, todos se esqueceram que Reiko era namorada de Issamu. 

A verdade é que RX sentiu a falta que faz um bom planejamento e um bom roteirista. O experiente Takashi Ezure escreveu a maior parte da série com competência, mas não conseguiu justificar a presença de 10 Kamen Riders ajudando RX na fase final da saga. Sua chegada empolgou o público, mas a ação deles é irrelevante todo o tempo, e o roteirista pode ter sido persuadido pelos produtores a incluir os heróis na trama contra a sua vontade. A reunião foi histórica, a participação, nem um pouco.

No caso de RX, os bons produtores Susumu Yoshikawa e Nagafumi Hori não conseguiram dar unidade às séries de Kamen Rider BLACK e BLACK RX, com finais bastante descuidados e apressados. RX tem momentos legais, mas teve muito mais problemas de roteiro do que BLACK. 


JIBAN - O Policial de Aço (1989~90) - Com um atraso de muitos anos, o final de Jiban, que não havia sido exibido na TV Manchete, foi dublado para lançamento da série em DVD. Sendo sincero, a longa espera foi decepcionante. Jiban havia passado toda a fase final da série tentando resgatar das garras de Biolon a menina Ayumi, neta do cientista que o criou, que o vê como irmão mais velho. A luta final é intensa, com as máquinas vivas de Jiban se sacrificando de forma heroica. Jiban e Ayumi finalmente se reencontram e voltam para a casa da família dela. Porém...

Na primeira manhã em que acorda em casa, Ayumi encontra uma carta de despedida de Naoto. O herói resolveu partir pelo mundo para ajudar pessoas em dificuldades. Mas... como assim? Com a sensibilidade e o tato de um ogro, e uma pressa que não se justificava, Naoto Tamura vai embora e sequer deixa Ayumi reviver a convivência familiar que havia antes de seu desaparecimento. 

Considerações finais

Uma impressão que sempre tive é que os finais das séries da Toei Company eram feitos só pra "cumprir tabela" na hora de fechar a trama, com os esforços do estúdio sempre voltados mais para a próxima série a estrear. Isso deixa o final de RX ainda pior, pois não ele não teve um sucessor imediato e os Riders entraram em hiato após seu encerramento. 

As exceções foram poucas, valendo menção honrosa para os finais emocionantes de Jaspion e Flashman. Nesse aspecto, a Tsuburaya Pro (da franquia Ultraman) sempre entregou finais épicos, dramáticos e com um senso de conclusão. A Toei, muitas vezes, produziu finais apressados e insatisfatórios, perdendo várias chances de fechar uma obra com chave de ouro. 

Claro que não é justo julgar uma série pelo seu final, mas faz uma diferença enorme quando a despedida de um herói faz jus à sua jornada. 


Leia mais:

- Primeiras impressões de clássicos do tokusatsu dos anos 80

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14 comentários:

tuneldotempotv disse...

Olá, Nagado.
Coincidentemente, estou revendo os tokusatsu clássicos exibidos no Brasil há algum tempo. Tive as mesmas impressões com os finais de Jiban e Maskman, onde os heróis lutam arduamente para derrotar os impérios inimigos e estar ao lado de pessoas amadas. Após derrotarem os vilões, parece que já estavam tão acostumados a lutar, que já não queriam momentos de paz entre família. Concordo que isso não faz das séries ruins, mas com certeza foram atitudes que deixaram o público pensativo. Quanto a Kamen Rider Black RX, estou revendo neste momento, ainda chegando à metade da série. Mas sem problema, como dito em uma postagem sua, nossas gerações são diferentes da atual, que se importa com os tais "spoilers"...kkkk

Ótima análise. Abraço!

Ass: Bruno (Canal Túnel do Tempo TV)

Jorge Hakaider disse...

Kamen Rider Black RX nunca me agradou. Sempre achei uma continuação sem sentido de Black. E quanto aos 10 Kamen Riders que aparecem no momento ápice da série RX, eu sempre me perguntei onde eles estavam quando Black foi morto e o Japão estava em caos pelas mãos dos Gorgom e Shadow Moon? Talvez se eles tivessem aparecido em Black teria sido mais épico do que foi em RX. E parabéns pelo grande texto Nagado! Abraços.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Este post eu esbocei faz muito tempo, mas estava evitando concluir para postar, pois achava que poderia ser mal interpretado (já que interpretar errado um texto está muito na "moda" hoje em dia). Como eu me interesso por bastidores e roteiro, achei pertinente levantar a bola e focar nessas três séries, que colocaram atitudes incoerentes nos heróis, na minha opinião.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Jorge. Eu sempre tive para mim que RX deveria ser mesmo uma outra série, independente de Black, e que só virou continuação por conta da popularidade enorme do Tetsuo Kurata. A aparição dos 10 Riders foi muito alardeada e festejada, mas na prática, foi uma decepção total. Mesmo quando Crisis ressuscitou vários monstros e todos estavam lutando, o RX destruiu todos os monstros e guerreiros ressuscitados sozinho e de uma vez. Figurantes de luxo.

Grande abraço!

anderson disse...

No caso de Jiban ,a única explicação para esse desfecho desajeitado poderia ser o roteirista
querendo homenagear o final do Oitavo Homem original(que fazia bem mais sentido).Deve-se notar
que embora seu visual seja inspirado em Robocop,Jiban no geral parece mais uma releitura do
8TH Man(que também inspirou a história de Alex Murphy).De qualquer modo os japoneses parecem
gostar desse final do herói solitário "cavalgando" para o desconhecido(típico em Westerns),aparecendo em vários clássicos como Tiger Mask e até em coisas como o Bakugan original.

Bruno Seidel disse...

Bem interessante essa análise sobre três finais de séries que, concordo, foram decepcionantes. O último episódio de Maskman eu acho um balde de água fria, com os heróis derrotando o Zeba como se ele fosse só mais um monstro da semana e aquela despedida bem água com açúcar do Takeo e da Yan na beira da praia. Bem diferente da carga emocionante que vimos nos finais de Changeman e Flashman. Já o Jiban foi uma frustração em dobro pelos anos de espera para ver o desfecho de uma saga que teve momentos épicos como a própria morte e ressurreição do herói. Sem dúvida, merecia um final mais digno. E o RX realmente pecou em trazer os Riders anteriores basicamente para assistirem de camarote o herói apanhando e derrotando, sozinho, os grandes inimigos. Talvez a única menção honrosa desse arco final da série, a nível de alívio cômico, vá para a bem bolada (porém fracassada) estratégia dos vilões em se infiltrar entre os heróis através de uma cópia do Kamen Rider Nº 1, já que ele e o Nº 2 eram basicamente idênticos, o que faria o infiltrado passar despercebido. hehehehehehe!

E só pra não ficar falando de finais "ruins", vamos aqui mencionar aqueles que eu considero os melhores em suas respectivas franquias: Jaspion, Metalder e Sharivan (dentre os Metal Heroes); Changeman, Flashman, Jetman e Dairanger (dentre os Super Sentais); Kuuga, Fourze e Gaim (dentre os Kamen Riders) e; Ultraman, Seven, O Regresso de Ultraman, Tiga, Ginga, X e Z (dentre os Ultras). Também merecem destaque os finais de Spectreman, Lionamn e Cybercops.

anderson disse...

Também deve-se considerar que originalmente KR Black seria um total reboot da franquia ,com seu primeiro episódio parecendo um remake mais sofisticado do início do Kamen Rider original,
mas a busca pela audiência fez KR Black RX ser colocado no mesmo universo dos riders clássicos.A mesma coisa ocorreu antes com Shin Kamen Rider-Skyrider (os primeiros episódios estão no canal da Toei) que inicialmente era um reboot ,com todos agindo como se ele fosse o
primeiro herói a se chamar Kamen Rider,até que a busca por audiência forçou um retcon para a
continuidade habitual(o poder de voô também foi exigência dos executivos para aproveitar o sucesso de um certo filme com Christopher Reeve).O inverso aconteceu com KR Agito que seria
uma sequência direta de KR Kuuga,mas no fim isso foi diminuido para algumas pequenas referências.

Alexandre Nagado disse...

Boas observações, Anderson. Especialmente em RX, o retcom para incluir ele na cronologia clássica canônica fez um mal danado para a série. Com tantos personagens a mais para se preocupar em mostrar, ficaram perdidos.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Bruno, talvez eu ainda escreva um Top 10 dos melhores finais. Só não resolvi ainda se eu faço em separado para séries de animê e tokusatsu, ou se junto os meus 10 favoritos, reunindo um pouco de cada. Vamos ver.

Abraço!

Jefferson disse...

Fala Nagado, muito boas suas observações.

Cada caso é um caso mas creio que no geral exista um ideal de herói trágico, com um amor impossível e solitário. Não tem muitas formas de terminar uma serie sem se tornar repetitivo na realidade.

Acho que é o caso de Maskman. Talvez Takeo tenha se dado conta que não haveria espaço nesse mundo subterrâneo pra ele e esse amor era muito mais da parte dele que dela. Ele teria sido muito mais uma tábua de salvação que amor propriamente dito. Só tentando justificar, rs.

Jiban tbm é complicado, eu ligaria com a criação do Winspector (Reson - Fire, Vaican - Biker e Spylas - Highter) seria mais coerente, com o projeto de Jiban sendo utilizado na criação dos trajes, já que se parecem tanto. Com Jiban aparecendo em algum episódio especial.

RX padeceu de outro problema que ninguém comenta (não garanto que seja verdade) que foi um escândalo de um serial killer capturado que possuía todos os episódios de todos os Kamen Riders gravados até a data. Foi um balde de água fria a ponto de darem um tempo com as series, se limitando aos especiais e filme até o ano 2000.
Como acabar RX de forma diferente? Eu faria RX absorver toda a energia do imperador Crises em sua King Stone e liberar em seguida, revertendo toda destruição e morte causadas pelo mesmo, como um sol iluminando a escuridão do alto, caindo exaurido mas vivo. Claro, apagando a memória de todos e retomando a vida como sempre foi. Somente ele se lembraria.

Desculpe o textão, me empolguei pq sou mega fã de Tokusatsu.

Mata ne!

つづく

Jason Scott disse...

Lembro do dia que passou esse episódio do casal Sahara, fiquei decepcionado por eles terem morrido... E depois me decepcionei de novo ao saber que o Issamu não ficou com a Reiko para cuidar dos sobrinhos dela...

Fabiano disse...

Maskman não assisti a série inteira mas pelos relatos do final parece ser decepcionante o Takeo não ficar a mulher que ele ama no fim depois de tudo pelo que passou.
Kamen Rider Black RX senti este problema do final quando assisti pela primeira vez, os Riders aparecem do nada e quase não participarem da luta final e parece mesmo que o relacionamento do herói com a Reiko é esquecido, sem esquecer o retorno desperdiçado do Shadow Moon meio da série.
Jiban fica também estranho o final ele partir em viagem e nem ficar por um tempo com a Ayumi depois de passar quase a metade do seriado atrás dela.
Tenho a impressão que os japoneses seguiam o padrão do heróis ser uma pessoa solitária e uma vez derrotado o inimigo partiriam em uma jornada de aprimoramento de suas técnicas e desenvolvimento interior.

Fabiano disse...

Lembrei rapidamente de outra série que achei o final ruim e confuso envolvendo até viagem no tempo e aparentemente teve problemas na sua produção o Spielvan.

Unknown disse...

Eu vejo a ideia de final com o herói abandonando os entes queridos pra se manter no campo de batalha algo coerente embora entenda que pra muitos soe decepcionante. Aí na verdade o bom ou ruim é mais questão de gosto, eu por exemplo gosto de finais assim desde que obviamente seja dentro de algo coerente com o roteiro pois caso contrário aí não tem como defender mesmo. Agora quando o negócio se trata de toei esqueçam finais muito profundos e ideias mastigadas, o lema da Toei é "se vira aí pra entender o final fera que a gente tá muito ocupado com a venda dos produtos licenciados "