quarta-feira, 3 de março de 2021

Ikigai - A força motriz da vida e a cultura pop

O caminho para uma vida longa, feliz e produtiva, segundo os japoneses.

Slam Dunk, exemplo de ikigai
encontrado entre atletas dedicados.

Ikigai [生きがい] é uma palavra originária de Okinawa, a região tropical na parte sul do Japão e que é recordista em longevidade de seus moradores. Não tem uma tradução precisa em português, mas significa algo como "razão de viver" ou "razão de ser". É algo que dá prazer, sentido e intensidade à vida. Não tem relação com grandes ideais, coisas grandiosas ou ambições e objetivos na vida. Um idoso aposentado pode ter um ikigai rico e uma vida intensa, muito mais que um jovem perdido e sem rumo na vida. 

Trata-se de ter o conhecimento pessoal daquilo que é importante ou que dá alegria e força em sua vida. Ainda, não é necessariamente uma coisa só e nem sempre é a mesma coisa a vida toda. 

O ikigai de alguém pode envolver esporte, arte, música, família, vocação, profissão, hobby, religião, voluntariado, atividades sociais ou mesmo algo pelo qual se é pago. Pode estar no cuidado com os filhos, no trato de animais, em uma horta, em organizar atividades na igreja ou associação de bairro; pode estar no simples prazer de preparar uma refeição, aumentar uma coleção ou compartilhar conhecimento. 

Seja como for, o ikigai é apontado como um dos segredos para uma vida longa e feliz. Aposentar-se e ficar encostado, vendo a vida passar, é algo que vai totalmente contra esse conceito, que mesmo em uma pessoa hiperativa, pode estar totalmente disperso entre coisas feitas por obrigação e sem dedicação. 

Há também autores que fazem treinamento empresarial que direcionam o conceito de ikigai para "fazer coisas grandiosas" ou "realizar grandes conquistas", colocando um verniz de sabedoria oriental em algo voltado à ambição profissional, o que é uma deturpação. O sentido da vida de cada um pode envolver, de modo ideal, um bem para a sociedade ou ao próximo, mas não é esse o ponto fundamental. 

Não se trata de buscar motivação para fazer algo, e sim ter algo (ou um conjunto de coisas) que seja capaz de motivar a ação e cuja realização seja fonte de alegria. A isso se somam outros conceitos filosóficos, como aceitar as imperfeições da vida (o que é chamado de "wabi-sabi") ou valorizar cada momento como sendo único (o "ichigo ichie"). [Nota: As explicações aqui são bem superficiais, só para introduzir os temas. Há muitas referências na internet e esses assuntos podem ainda ser explorados futuramente no Sushi POP.]

Existem livros que explicam esses conceitos e existe um famoso gráfico (mostrado acima) que coloca o ikigai na intersecção de vários elementos importantes para cada um. O importante é perceber e reconhecer seu ikigai como a força motriz de sua vida, agregando mais elementos a ele. 

As narrativas japonesas sempre colocam ênfase em personagens que têm um norte bem definido, uma vontade que os move, e isso é bastante marcante em muitas obras.

Ash Ketchum (Pokémon)

Ash Ketchum, de Pokémon, tem seu ikigai concentrado no desejo de se tornar o maior treinador Pokémon do mundo. Para isso abriu mão de sua infância para viajar pelo mundo em busca desse sonho, que sempre o faz acordar de bom humor rumo a uma nova aventura. E aventura é o que não falta na vida de um pirata, nosso próximo exemplo. 

Monkey D. Luffy, de One Piece, tem um objetivo claro, que pode soar estranho para muitos. Ele quer ser o Rei dos Piratas, o que para ele é um símbolo máximo de liberdade individual, e o faz movido por sentimentos de honra, justiça e solidariedade. Desbravar horizontes, aprender coisas novas, ajudar pessoas em dificuldades, tudo isso faz parte de seu ikigai. Já o protagonista de Naruto busca ser o maior dos ninjas de sua aldeia, o líder, o hokage. Porém, isso só vai valer à pena se ele treinar muito, proteger e ajudar pessoas no processo. 

Em Demon Slayer, o habilidoso Tanjiro Kamado tem no centro de seu ikigai o desejo de proteção da família. Ele luta para restaurar a humanidade de sua irmã Nezuko e luta para exterminar os demônios devoradores de gente, para que outras famílias não sejam destruídas como a dele foi. 

De modo geral, histórias para meninos e rapazes (a demografia shonen) são plenas de personagens com motivações fortes. Já em obras para um público mais maduro, a falta de um ikigai pode ser o ponto de partida para uma jornada interior de descobertas e desafios. 

Shonen Jump: Berço de heróis
com um ikigai pleno e vigoroso.

No animê para adultos Sing Yesterday For Me, o protagonista Rikuo Uozumi começa a história se sentindo perdido, com um diploma na mão, mas fazendo bico para sobreviver e sem coragem de investir em um relacionamento amoroso. Um cara perdido, sem energia, sem grana e se sentindo um pária da sociedade. Após refletir e chegar à conclusão de que se tornou um excluído da sociedade por sua própria culpa, resolve fazer o caminho de subida, correndo atrás da antiga aspiração, que era trabalhar com fotografia, bem como dando uma chance a seus sentimentos por uma antiga colega. Rikuo rejeitou o vitimismo e, aos poucos, as coisas começaram a se encaixar e ele foi amadurecendo, encontrando seu caminho e entendendo melhor seus próprios sentimentos. 

Histórias sobre esporte são as mais ricas em mostrar personagens com um ikigai definido e forte. Em Super Campeões, a razão de viver de Oliver Tsubasa e seus amigos se manifesta no desejo pela vitória no futebol, enquanto no clássico Speed Racer, o foco estava no automobilismo. 

Na franquia Street Fighter, o karateca Ryu tem a motivação de um peregrino das artes marciais, sempre em busca de aperfeiçoamento e desafios para suas habilidades, sem deixar de lado o senso de honra e o comprometimento com a amizade. Relembrando outra obra icônica ligada à disciplina do esporte, Slam Dunk, vemos o encrenqueiro Hanamichi Sakuragi encontrar uma razão de viver ao descobrir o basquete. O esporte lhe desperta a paixão e dedicação, o que acaba acarretando transformações profundas em sua vida e modo de agir. Quando o assunto envolve esporte, aliás, a famosa dedicação oriental ganha ares míticos; com muitos personagens famosos na cultura pop, alguns oriundos da vida real, como no clássico de artes marciais Sawamu - O Demolidor

Os exemplos são inúmeros e a cultura pop japonesa tem uma rica tradição em apresentar personagens fortes e determinados que, mesmo sem definir isso verbalmente, personificam todos aqueles que têm ou descobriram uma razão para viver plenamente. Isso é o ikigai

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7 comentários:

Fabiano disse...

Este texto causou a forte reflexão em meu interior e penso a busca pelo sentido da vida, assim como a discussão sobre a vocação de cada um deveria ser levada a sério por todos e as escolas, Igreja, família deveria ajudar nisso. Bom perceber que os animes contendo temática esportiva possuem personagens com Ikigai forte deveriam ser exibidos com maior frequência nos canais que ainda exibem desenhos animados. Por fim quem sabe encontre meu Ikigai um dia.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Fabiano!

Que bom que despertou uma reflexão em você, mesmo que tenha trazido mais dúvidas do que respostas. Na verdade, eu acredito que é mais fácil o ikigai encontrar a gente do que o contrário. Ou é algo que não nos damos conta, mas já está em nós, só falta dar mais atenção e investir mais tempo no que faz bem pra gente.

O tema já deu origem a livros e vídeos mundo afora, e a intenção aqui foi apenas introduzir o tema. Então, que sua busca dê frutos, ou melhor, que você perceba o que já pode estar em sua vida (ou ao seu alcance) e precisa ser mais percebido e valorizado.

Abraço!

Rafael oliveira disse...

Gostei muito do tema desse texto. Nos leva a refletir e nos questionar sobre o nosso Ikigai. Parabéns

Alexandre Nagado disse...

Obrigado, Rafael. Fico contente por ter trazido um tema que extrapola os assuntos deste blog, mas ao mesmo tempo, se conecta com eles.

Abraço!

Bruno Seidel disse...

Muito interessante ver esse assunto sendo trazido, aqui no blog, com exemplos da própria cultura pop japonesa. Já faz alguns anos que eu venho lendo bastante sobre "Ikigai" e muito já refleti sobre essa famosa mandala ilustrada no post (aliás, tem uns subintens ali que eu desconhecia). Há quem diga que "encontrar seu Ikigai" é algo que você "sente na hora" quando chega. É tipo o "ver a santa". Logo, algumas pessoas passam a vida inteira tentando achar ou até se autoconvencendo de que acharam (muitas vezes até para ostentarem uma felicidade e realização pessoal nas mídias sociais), sendo que eu também, assim como o Nagado, acho que é muito mais fácil o Ikigai nos encontrar do que o contrário. Ainda nos exemplos extraídos de mangás e animes, eu adicionaria o protagonista Saitama, de One Punch Man, que, apesar de ter a força que tem, se sente deprimido e vazio vivendo uma vida sem obstáculos. Já o personagem Dan Shimaru, de Lionman, também é um caso interessante que passa por todo um arquétipo inicialmente motivado por vingança pela morte do irmão e que, conforme o amadurecimento do personagem e as relações que ele vai construindo durante a série, seu propósito vai ficando cada vez mais claro, a ponto dele seguir sua jornada de herói (abandonando os amigos) mesmo após a queda da Família de Mantor. Quando uma produção consegue transmitir essa relação do personagem com seu próprio Ikigai, a obra ganha um significado a mais, serve de reflexão, inspira valores e molda gerações.

Alexandre Nagado disse...

Boas lembranças essas, Bruno!

Quando li pela primeira vez sobre o tema, há alguns anos, me dei conta de que já tinha um conjunto de coisas que podia identificar como formadoras do ikigai em mim. Mas de um ano para cá, isso se solidificou ainda mais.

E concordo com sua conclusão. Uma das razões por eu me desdobrar para manter este blog é que tanto escrever, quando transmitir informação e promover bons valores são parte do que forma meu ikigai.

Valeu! Abraço!

Spider-Phoenix disse...

Bom texto.

Sobre o caso do Ash, é bom apontar que nas novelizações dos primeiros episódios da série original feitos pelo Takashi Shudo, finado roteirista principal da mesma, meio que indicam que o objetivo do Ash tem bastante a ver com querer mostrar que é melhor que o pai, que é um treinador fracassado e que deixou a família pra trás depois de não conseguir conquistar nada.

Tá certo que hoje em dia, é pouco provável que os roteiristas do anime tenham essa mesma visão, mas pelo menos no contexto da época e como o personagem foi originalmente concebido, a ideia parecia ir nessa linha.