quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Memórias: Lendo de trás para a frente

Uma pergunta curiosa, em mais uma jornada nas recordações do autor deste blog.

"Como será que vai acabar?"

O sistema de escrita japonesa é derivado do chinês, tendo se desenvolvido por volta do século V. É uma escrita baseada em ideogramas, os chamados kanji. Especificamente no sistema japonês, foram criados outros dois alfabetos, de base fonética (ou seja, pelo som emitido) que visavam simplificar a linguagem escrita para auxiliar os mais jovens. 

O primeiro alfabeto simplificado foi o hiraganá, seguido pelo katakaná, criado para representar nomes e termos estrangeiros. É um sistema de leitura feito primeiro de cima para baixo, e da direita para a esquerda. Depois, evoluiu para permitir a leitura da esquerda para a direita, porém mantendo a organização de páginas de um livro, caderno ou revista do jeito original, ou seja, da direita para a esquerda, bem como a ordem de leitura de quadrinhos e balões em um mangá.

Dito isso, vamos recordar que as primeiras publicações de mangá no Brasil foram em sentido ocidental de leitura (com as páginas invertidas), como Lobo Solitário, Akira e alguns outros que vieram antes da explosão do início deste século. Muitos leitores brasileiros tiveram contato com o estilo mangá (sem saber desse termo) ainda nos anos 1960, com a publicação de trabalhos de Cláudio Seto e Minami Keizi

Nos anos 80 e 90, algumas tentativas foram publicadas, sendo a mais bem sucedida (até hoje) foi Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, que rendeu 40 edições e alguns especiais relacionados. Os mangás brasileiros tradicionalmente seguem a ordem de leitura ocidental, mas alguns autores, como Riojin e o Futago Estúdio, optaram pela ordem de leitura japonesa, mesmo escrevendo em português. [Nota: O tema já foi amplamente debatido no Sushi POP. Já fui contra a ordem de leitura oriental em obras originais brasileiras, mas hoje sou indiferente a isso.]

Desde 2000, a Panini e a JBC estavam publicando mangás originais em sentido oriental de leitura e a receptividade do público estava excelente, com boas vendagens graças a títulos como Cavaleiros do Zodíaco, Samurai X e Dragon Ball. Isso criou finalmente uma explosão do mangá no mercado editorial brasileiro, e vários setores da mídia perceberam e noticiaram isso. Toda essa retrospectiva e contextualização foi feita, na verdade, para contar um caso muito pitoresco ocorrido em algum momento de 2003.

Eu estava em minha casa na época, quando uma jornalista de um periódico de outra cidade entrou em contato por telefone. Queria umas informações para uma reportagem sobre mangá. Fez várias perguntas, invariavelmente as mesmas respondidas tantas vezes. A certa altura, ela comentou sobre alguns mangás que ela viu na banca, em sentido oriental de leitura, claro. 

Ela perguntou qual o motivo dos japoneses começarem a ler um volume pela última página (!), e arriscou uma hipótese. Indagou se isso acontecia por que os japoneses gostam de saber logo como a história termina (!!!). É sério. Respirei fundo (depois de quase engasgar) e expliquei pacientemente as origens do idioma. 

Até hoje, essa permanece como a pergunta mais incrivelmente sem noção que já me fizeram, em décadas. Claro, várias chegaram perto, mas essa foi muito original, nunca mais ouvi de ninguém. Precisava registrar isso enquanto ainda lembro. 

"Mas como ninguém pensou nisso
antes?" Kkkkkkkkk

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5 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Grande Nagado! Que onda essa pergunta! Percebe-se que foi sem noção e aparentemente sem malícia!

O primeiro mangá que lembro ter lido foi Video Girl Ai, que pegava emprestado com uma amiga da escola em 2002. Cheguei a ter uma boa coleção, mas transformei ela inteirinha em figuras de ação, que ainda brinco com muito carinho.

tuneldotempotv disse...

Mais uma postagem interessante e informativa, Nagado! Sucesso sempre!

Bruno Seidel disse...

HAHAHAHAHAHAHAHA!!!! Cheguei a rir alto aqui. Parece piada, né?! Acho que esse tipo de indagação, além de cômico, beira o ofensivo, como aquelas pessoas que deduzem que os "olhos grandes" dos personagens de mangá são assim porque os japoneses têm "complexo" devido aos olhos puxados. Engraçado que eu nunca vi algum japonês ou descendente fazendo barraco, textão ou militância raivosa por causa de declarações como essa, que já ouvi tantas vezes. Por que será?!

Alexandre Nagado disse...

Bruno, já ouvi essa sobre os complexo de olhos pequenos ou puxados muitas vezes, e já me perguntaram seriamente sobre isso. Não dá pra responder a sério, simplesmente. É quase como aquela frase famosa do "abre o olho, japonês!", que também cansei de ouvir, até de quem tinha, notadamente, olhos mais puxados que os meus, mas sem ascendência oriental.

Mas olha, eu vi uma vez um vídeo de um nikkei dando chilique histérico no Youtube por causa de piadas de japonês nesse nível. Deu vergonha alheia, só isso.

Abraço!

Riojin disse...

Ótimo texto! Lembro que me falou que vinha mudando de opiniao quanto à ordem de leitura e outras caracteristicas do quadrinho japonês, sendo usadas por um artista brasileiro. Lembro de trr ficado bem feliz em saber disso. Eu já tinha lido a materia sobre o Futago Studio quando saiu. Nao lembro o que pensei à época. Mas quando comecei a publicar, fiz de proposito pra romper paradigmas (nunca fui grande, mas devo ter contribuido indiretamente com algo).
Fiquei muito feliz em ser citado!