sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Grandes antologias de mangá: AFTERNOON

Breve histórico da maior revista em quadrinhos de todos os tempos.
Capa da edição de
dezembro de 2020, lançada
em 24/10.
No destaque: Vinland Saga

O grande divulgador do mangá no ocidente durante os anos 80 foi o autor de quadrinhos e diretor de cinema Frank Miller. Em sua introdução à primeira edição de Lobo Solitário nos EUA (lançada no Brasil em 1988), Miller contou como foi seu primeiro contato com um quadrinho japonês. Disse que havia ganho de presente uma "lista telefônica com um desenho de samurai na quarta capa". A quarta capa, graças à ordem de leitura oriental, era na verdade a capa frontal, enquanto o tal samurai era Itto Ogami, o Lobo Solitário. Essa percepção da imagem do almanaque de mangá com centenas de páginas, similar mesmo às ultrapassadas listas telefônicas, representa bem uma característica do mercado japonês, que é o absurdo volume de produção.

Com uma indústria forte e uma população que lê muito, as antologias de mangá com muitas séries por exemplar são leitura corriqueira para milhões de japoneses, que depois colecionam as compilações de suas séries favoritas. 

Nesse cenário, onde revistas com mais de 400 páginas são comuns, uma se destaca de longe, exatamente pelo tamanho. É a revista mensal Afternoon, da editora Kodansha, que apresenta cerca de 800 páginas e já teve em seu auge edições com até 1.000 páginas.

Esse gigantesco mix de quadrinhos é voltado à demografia seinen, que engloba o público masculino que vai do ensino médio até o jovem adulto. Durante muito tempo, foi a maior revista em quadrinhos do mundo em volume de páginas por edição. 

A comédia romântica
"Oh my Goddess!", de
Kousuke Fujishima.

Afternoon estreou no Natal de 1986, com data de capa bem mais à frente, indicando fevereiro de 1987 (uma prática comum no mercado editorial japonês). A revista surgiu como uma espécie de título-irmão da Morning (de 1982), publicação semanal da Kodansha mais enxuta, com menos páginas. A publicação gerou outros desdobramentos, como a quinzenal Evening (lançada em 2001) e a good! Afternoon (2012), sendo todas publicações de mangá seinen.

Na década de 1990, a Afternoon possuía uma circulação estimada em 200 mil exemplares por edição, época em que atingiu o número impressionante de mil páginas e pesava quase 1kg. Olhando de longe, nem parecia tão grande, por ser impressa em um papel jornal mais fino que a maioria das outras publicações. Custando 480 ienes (menos de 5 dólares), oferecia uma excelente relação custo-benefício, o que incluía brindes que iam de pôsteres até canetas profissionais para desenho. Atualmente custa 636 ienes (pouco mais de 6 dólares), ainda um ótimo preço pela quantidade de páginas. 

Entre os títulos que passaram por suas páginas, estão Vinland Saga, Oh my Goddess!, Gunsmith Cats, Tokko, Blade of The Immortal, Eden, Parasyte, Blame!, Genshiken, Knights of Sidonia e vários outros que se tornaram grandes sucessos internacionais. 

Vinland Saga, de Makoto Yukimura, estreou em abril de 2005 na Shonen Magazine e migrou para a Afternoon no final do mesmo ano, sendo um dos maiores sucessos da publicação. No Brasil, é publicado desde 2014 pela Panini/Planet Mangá. Igualmente famoso no Brasil é Blade of The Immortal, de Hiroaki Samura, lançado em 2004 de forma incompleta pela Editora Conrad e posteriormente retomado pela Ed. JBC em 2015, que publicou a obra de forma completa. 

Além de séries originais, a Afternoon também já publicou adaptações de longas de Makoto Shinkai, como Voices of a Distant Star, The Place Promised in Our Early Days e Weathering With You

Edição brasileira de Blade,
um grande sucesso
originário da Afternoon.

O mercado editorial impresso japonês diminuiu significativamente com o avanço das mídias digitais, mas a Afternoon ainda segura uma circulação mensal de 60 mil exemplares, mantendo a média de 800 páginas por edição. Note-se, porém, que o último relatório oficial divulgado é de 2018. Mesmo longe dos bons tempos, permanece uma das revistas mais relevantes do mercado de mangá, tendo sido o ponto de partida de muitas séries que ganharam versões em animê e live-action.

No cenário atual, que pode ser considerado um período de transição, e com uma tiragem modesta, a publicação encolheu bastante e seu futuro como mídia impressa é incerto. Porém, ela é fundamental para se conhecer a História do mangá. 

Outras revistas já tiveram edições especiais com muito mais de mil páginas, mas como publicação regular, a Afternoon detém um recorde que dificilmente será batido algum dia. Em sua fase áurea, foi o símbolo de uma época de grande efervescência criativa e comercial dos quadrinhos no Japão. 

- Site oficial: afternoon.kodansha.co.jp  

Edição de janeiro de 1999.
De tão grossa a revista,
parava fácil em pé.


Leia mais:

- Mangá digital e o futuro do mercado

- Grandes antologias de mangá: Shonen Sunday

4 comentários:

Usys 222 disse...

A Afternoon eu já não conhecia muito bem. Só ouvi falar de Ah! My Goddess. Mas dá para ver que ela é altamente relevante para o mercado.

E imagino a cara do Frank Miller quando viu como eram as publicações japonesas. Em países ocidentais geralmente são mensais e ainda por cima histórias avulsas. Aqui ao menos tínhamos em coletâneas como "Heróis da TV" ou "Superaventuras Marvel". Mas nada tão volumoso quanto uma Sunday ou uma Jump.

Em alguns sites já disponibilizam os "almanaques" em formato digital. Inclusive é possível comprar histórias avulsas, ainda que o preço final de um Tankobon seja bem mais em conta.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Eu soube da Afternoon através do livro "Dreamland Japan", do Fred Schodt, isso por volta de 1997. Dois anos depois, ganhei de presente de um aluno que havia ido ao Japão o exemplar que fotografei para o fim da matéria. A caneta-pincel que veio de brinde era de melhor qualidade do que as que eu comprava em lojas de material de desenho no Brasil. A relação custo-benefício era incomparável!

Esse modelo de revista mix curiosamente é a base do mercado japonês, teve força no Brasil e em alguns países da Europa, mas nunca pegou nos EUA. Com o avanço da mídia digital, acredito que num futuro próximo poucas revistas impressas irão resistir. Está sendo bem interessante acompanhar esse rearranjo de um mercado que permaneceu intocado por décadas, como aconteceu no Japão.

Valeu! Abraço!

Detonation Uchiha disse...

Muito interessante esta publicação, soa meio engraçado quando pensamos no número gigantesco de novos mangás que aparecem por dia no Japão, o país de fato produz quadrinhos em escala industrial. Isso me leva a pensar um pouco na quantidade de histórias boas e interessantes que acabam meio pedidas no meio de tantos lançamentos e dificilmente acabam chegando ao conhecimento do grande público, principalmente no Brasil, visto que a maioria das vezes pra um mangá ser publicado por aqui, ele tem que ter conseguido algum relativo sucesso lá fora no mínimo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Uchiha!

Aqui só vemos uma pequena parte da produção japonesa, muito maior do que podemos imaginar. E além de tudo isso, há muitas revistas de assuntos variados com uma série de tiras ou mangás curtos. Impossível catalogar tudo o que já saiu lá.

O mercado japonês é uma prova que qualidade só se extrai de muita quantidade, muita produção.

Falou! Abraço!