sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

J-Pop vs K-Pop: A desvantagem do Japão

Algumas considerações sobre o embate musical entre duas potências da cultura pop.
SKE48, um dos muitos grupos de idols japonesas.
Na metade da década de 1990, a edição derradeira da revista GENERAL (Ed. ACME) trazia uma grande reportagem sobre cultura pop japonesa (onde este que vos escreve colaborou) e um dos autores da matéria (creio que o André Barcinski) arriscava uma previsão: No futuro, os filhos dos leitores teriam pôsteres de alguma banda japonesa no quarto. Foi uma opinião certeira, vinda antes da explosão da internet e baseada em tímidos e curiosos movimentos investigativos sobre o pop que se fazia na Terra do Sol Nascente. 

Passados mais de 25 anos do exercício de futurologia, muitos artistas japoneses já fizeram shows no Brasil e a era do streaming veio facilitar o garimpo de novidades do outro lado do mundo. Mas não é apenas o Japão que passou a exportar música e cultura pop, mas também a desenvolvida Coréia do Sul. 

Avançando rapidamente sobre o público jovem, o pop coreano, o K-Pop, literalmente atropelou o J-Pop e conquistou o grande público ocidental, sem pegar carona em trilhas sonoras de animações ou séries de TV. A "Hallyuu", ou "Onda Coreana", é um fenômeno cultural que começou timidamente nos anos 1990 e explodiu mundialmente neste século, graças à internet e sua ampla divulgação de bandas, novelas (os K-Drama) e os quadrinhos locais (chamados de "manhwa"), estes por sua vez inspirados no mangá japonês. 
O K-Pop literalmente atropelou o J-Pop na preferência
do grande público. Em parte, graças à internet.
Mas, se os coreanos souberam aproveitar magistralmente a internet e a usaram para divulgar seus artistas para além de suas fronteiras, no Japão o movimento já foi quase o oposto. 

Sob o pretexto de combater a pirataria e preservar os direitos autorais, muitos empresários japoneses ainda tratam a internet como inimiga dos negócios. Não pode haver outra justificativa para a decisão de se liberar algum produto cultural na internet e bloquear em algumas regiões do planeta. Se é algo que gera renda através de anúncios e mais visualizações significam mais dinheiro, fica difícil defender esse isolamento. 

Alguém irá baixar, copiar e distribuir? Isso já acontecia sem o streaming oficial a preços convidativos. O mercado musical japonês ainda é baseado na venda de CDs e os empresários lá ainda estão tentando preservar isso, mas tiveram que se render lentamente às plataformas digitais. 
Akina Nakamori: Uma das maiores idols
dos anos 80 segue em atividade, mas
pouquíssimas canções dela estão disponíveis
no Spotify para o público mundial.
Há canais oficiais japoneses no YouTube que restringem a exibição fora do país, e não apenas de músicas, mas também de séries e animês. Idem para muitos artistas japoneses no Spotify. Não é possível salvar músicas do Spotify em MP3 (não de modo simples, pelo menos) e os artistas e gravadoras são remunerados a cada audição. Não seria muito mais vantajoso, em uma plataforma mundial, que o maior número possível de fãs pudesse ouvir suas músicas favoritas e assim aumentar os lucros de criadores, intérpretes e produtores? Por incrível que pareça, muitos executivos no Japão não pensam assim. 

A música japonesa, através das trilhas sonoras de animê e tokusatsu, ganhou milhões de fãs pelo mundo, que podem apreciar oficialmente seus artistas favoritos em plataformas oficiais como YouTube, DeezerSpotify ou iTunes. Então, por qual motivo muitos ainda bloqueiam o acesso em certas regiões? Talvez seja falta de informação ou o medo de perder o controle sobre seu produto. 

Indo na contramão, o K-Pop, um dos maiores produtos de exportação da Coréia do Sul, sempre trabalhou com a internet a seu favor. Planejado para agradar a uma audiência planetária, o K-Pop é ainda mais pensado em termos de marketing do que o J-Pop. 

Ídolos pré-fabricados (e com cirurgias plásticas), sensualidade ensaiada exaustivamente, música produzida em escala industrial e artistas que seguem rigorosos contratos de comportamento, sendo meros funcionários de gravadora. Tudo isso existe tanto no J-Pop quanto no K-Pop, ainda mais em termos de pop idols, mas é óbvio que o produto musical coreano, que chegou bem depois, atropelou totalmente o modelo que o inspirou. Há um ponto importante sobre o estilo musical do pop coreano ser mais antenado com o som de grandes astros e estrelas do ocidente, mas há também o elemento marketing. 
Wagakki Band: Uma poderosa combinação sonora
de rock e instrumentos tradicionais japoneses.
Todo o acervo deles está disponível no Spotify,
incluindo lançamentos. Há outros artistas japoneses
seguindo o mesmo caminho de conquista de espaços.
Nas áreas onde concorrem mais intensamente, que é no campo das boys bands e girls bands, o pop japonês perde muito para o coreano em termos de popularidade. Em parte pelo J-Pop ser muito mais pensado apenas para o público local e suas peculiaridades, como na forma de apresentação mais contida das moças. No J-Pop, ainda é muito comum a figura da idol estilo "bonequinha de porcelana", de aspecto de virgem pura e sonhadora a ser venerada por senhores de meia-idade, enquanto as contrapartes coreanas possuem, em geral, uma atitude mais provocativa sexualmente. Mas, sem dúvida, o peso da divulgação na internet é decisivo para a popularização maior dos artistas sul-coreanos. 

Não se trata aqui de julgar méritos criativos, artísticos ou técnicos de nenhum lado, apenas constatar que o modelo de negócios japonês não tem conseguido acompanhar a mudança dos paradigmas de mercado. 

Todas as questões aqui apresentadas não se restringem somente a alguns estilos e artistas. Toda a música japonesa sofre esse tipo de restrição em plataformas oficiais fora de seu território e isso acaba fortalecendo a pirataria e dando espaço para quem saiba aproveitar a web para sua divulgação e veiculação. 

Em uma era onde as mídias físicas estão fadadas ao desaparecimento e o Japão se abre lentamente para as facilidades do streaming, muitos executivos japoneses precisam rever seus conceitos. Isso se quiserem tentar expandir mercado e enfrentar o K-Pop, que amparado por uma forte estrutura comercial, tomou a dianteira e não dá sinais de que está esgotando sua fonte de inspiração. 


*******************
Dica: No Spotify, procure a playlist Sushi POP, com várias dicas musicais abrangendo várias épocas e estilos. 

Artistas japoneses para procurar no Spotify:

Wagakki Band, Masayuki Suzuki, chay, JAM Project, THE ALFEE, misono, Yukari Miyake, Akina Nakamori, NEW SCHOOL LEADERS, Eir Aoi, Chage, The Checkers, Anzen Chitai, SCANDAL, Girlfriend, Fumiya Fujii, Masaki Kyomoto, Hironobu Kageyama, Seiko Matsuda, CoCo, Ribbon, AKB48, Nogizaka 46, Rimi Natsukawa, BEGIN, Wink, fox capture plan, Play.Goose, Bank Band, Yuko Kanai, Onyanko Club, Suzuko Mimori, Mami Ayukawa, Masaaki Endo, Akira Kushida, Takayuki Miyauchi, Mojo, Go Hiromi, Saint Four, RC Connection, Barbee Boys, Toshihiko Takamizawa, Puffy AmiYumi...

16 comentários:

Jefferson disse...

Olá Nagado,

Já pensei muito a esse respeito também. Você não acha que na verdade o Japão é um país tão autossuficiente culturalmente que não tem o menor interesse que seus produtos saiam de lá ao contrário, por exemplo, dos americanos que querem vender pro mundo? E como a Coréia tomou a iniciativa vai nadando de braçada nessa demanda mundial por cultura oriental.

Seul é Tóquio pra turma mais jovem, com seu futurismo e cultura exótica. E dorama é novela coreana.

Praticamente tudo que tivemos acesso por aqui de Japão foi porque alguém importou e não porque eles tem essa visão de difusão em nome do Soft Power. Do ocidente só ligam pros Estados Unidos e algum país europeu.

A cultura japonesa do Brasil é do pre guerra. Da cultura contemporânea a única iniciativa deles que me ocorre e a "recente" Japan House. Mas aí a festa já tinha começado e quem chegou primeiro sentou no melhor lugar...

A questão da difusão digital é um ponto interessante pois eles vão acabar com várias cadeias produtivas que formam a indústria, já conhecida e controlada. Se mudarem, as cartas vão ser reembaralhadas e talvez o jogo mude pra outras mãos.

Dependendo do produto até perde o encanto.

Forte abraço!

Diego Miyabi disse...

Já ouviu falar sobre a Marcia, uma cantora japonesa que nasceu aqui no Brasil?

Deixo o link de uma música dela em português caso tenha curiosidade.
https://twitter.com/ririxuxatotosno/status/1174659707161563137

Jonhsx disse...

Há muito tempo o k-pop deixou de ser simplesmente aquela vertente "meio estranha" que muita gente descobriu com Gangnam Style lá em 2012 para ser reconhecida até por pessoas que nunca tiveram contato com musicas asiáticas antes... Digo isso por já ter ouvido várias vezes na escola o grupo de meninas que seguem fielmente o 'mainstream' discutindo sobre os novos clipes de BTS :P

Espero que o mundo moderno um dia reconheça o talento de artistas como Tatsuro Yamashita e outros músicos da década de 80 que ainda continuam na ativa.

Ótima postagem!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Jefferson!

Isso que comentou sobre uma cultura autossuficiente procede totalmente. Foram os americanos que foram atrás de mangá pra publicar. E foi uma luta pra convencer os japoneses, pelos relatos que li. Sempre houve muita resistência em vários setores culturais em exportar seus produtos para o resto do mundo.

A queda da indústria de CDs no Japão está sendo lenta, mas está ocorrendo. Décadas atrás, era bom negócio um single estar entre os 50 mais vendidos, pois representava dezenas de milhares de cópias vendidas. Hoje, um título na posição 50 não vende mais que 2 mil cópias, o que é irrisório.

A ideia do soft power foi "descoberta" um pouco tarde no Japão, depois da Coréia do Sul tomar a dianteira, com produtos culturais exatamente inspirados nos modelos japoneses. Muito irônico, isso, não é mesmo?

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Jonhsx!

Eu não conheço K-pop além da superfície e já me disseram que há várias vertentes mais melódicas que não são conhecidas fora do país. Mas de J-pop posso falar e sei que há uma riqueza melódica que merece ser descoberta. O maior empecilho é a mentalidade de empresários locais.

O lance do Spotify também ter bloqueio de região eu descobri por acaso. No Twitter, o amigo Usys222 indicou o canal da cantora Mitsuko Komuro e eu comentei sobre. Daí, a própria cantora entrou na conversa (em inglês) e foi bem simpática, agradeceu os comentários e tal. Daí, eu disse que gostaria de ouvir material dela no Spotify. Ao que ela enviou o link de um de seus álbuns disponíveis. Ao clicar, descobri que era bloqueado para fora do Japão. O nome dela sequer aparece na busca interna. Foi isso que motivou esta postagem. Não há motivo algum para artistas japoneses serem impedidos de ser ouvidos fora do Japão. Esse tipo de coisa é frustrante e espero que mude um dia.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Diego!

Sim, conheço um pouco do trabalho da Marcia, pois a descobri no antigo programa Japan Pop Show, que passou até meados dos anos 90, bem como o Imagens do Japão. E não conhecia essa música, não. Muito bonita, por sinal, valeu por ter indicado. Já repliquei no Twitter.

Abraço!

stéphano bahia disse...

De fato o Japão deveria abraçar a flexibilidade e a "Realpolitik".

K-pop(sulista)? não suporto.. não vejo qualidade alguma......
Até mesmo o K-pop (do grupo Moranbong) da Coreia do Norte é melhorzinho... (falo a melodia em si...)...
https://youtu.be/ycdDHP7QfWo

Usys 222 disse...

Hum... Pelo que vejo então aquele contato com a Mitsuko Komuro resultou em uma matéria, embora não fosse exatamente a que eu esperava. Mas ainda assim é uma questão pertinente.

Bem observado. Enquanto o Japão se acomodou com seu público interno, os coreanos já decidiram ousar e abraçar o mundo. E aí está o resultado, em que o BTS está conquistando as paradas de sucesso.

Tem artistas japoneses que criticam esse tipo de pensamento retrógrado, como a dubladora/cantora Atsuko Enomoto. E pelo que entendi, a própria Mitsuko Komuro não sabia desse bloqueio, que deve ter sido imposto pela gravadora.

Realmente não dá para entender como pensam os empresários japoneses. Não sei dizer se há algum tipo de restrição contratual ou qualquer outra coisa, mas é fato que eles estão perdendo terreno.

Mesmo assim, aparentemente a Bandai percebeu que é preciso que as pessoas vejam os programas para poder vender seus produtos. Eles colocaram em seu canal no YouTube várias séries de desenhos animados sem restrição de região e até mesmo com legendas em inglês, ainda que por tempo limitado. Espero que isso se torne uma tendência. Mas ainda assim eles restringem a venda de produtos exclusivos da sua loja virtual. Mais uma vez não consigo entender a lógica.

Detonation Uchiha disse...

Muito bem observado, Nagado. Como você disse e vários aqui nos comentários ressaltaram, aparentemente o Japão tem algum tipo de receio em exportar seus produtos (ou falta de vontade), querendo ou não o J-Pop só chegou ao conhecimento da maioria do público do ocidente graças ao apelo dos animês e tokusatsu, creio que sem eles provavelmente a indústria musical japonesa passaria completamente em branco para grande parte do mundo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stephano.

Já ouvi alguns K-pop de linha mais melódica e suave, ou então mais para o rock. Tem muita coisa boa, mas esse material de girls bands e boys bands que invadiu o ocidente, é insuportável aos meus ouvidos.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Sabe que eu até veria algum sentido em ter artistas japoneses liberados para o mundo, mas bloqueados no Japão, pois lá a indústria ainda depende da venda de CDs, de mídia física. O que não faz sentido, por exemplo, é bloquear Mitsuko Komuro, Yoko Minamino, Hiroko Yakushimaru e outros nomes por aqui.

Espero que isso mude aos poucos, pois, como mencionei na matéria, há artistas que têm todo o acervo no Spotify, como a Wagakki Band, THE ALFEE ou o JAM Project. Que venham mais!

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

E aí, Uchiha!

Sim, graças às séries, muita coisa é conhecida por aqui, mas as trilhas sonoras representam uma parte apenas do imenso universo musical japonês. Pelo que andei pesquisando, o Spotify é o que mais tem artistas japoneses disponíveis, mas ainda tem muita coisa bloqueada, o que é uma pena.

Valeu! Abraço!

Adelmo Veloso disse...

Só soube da existência do K-Pop por apresentação de um amigo, em 2011, com as Girl Generation, Wonder Girls e outras. Não fazia ideia de que tinha esse movimento todo pela Ásia. Já tinha visto alguma coisa do J-Pop em 2010, com Miss A. Acabei me rendendo a alguns K-Dramas e isso acabou passando para a minha família e a da minha esposa! O pessoal se amarra nas histórias coreanas e chinesas.

Por volta de 2014-2016, cheguei a ler uma matéria da Super Interessante que descrevia como os coitados sofrem para alcançar e manter a fama na Coreia do Sul. Um trabalho praticamente escravo para as gravadoras.

Não consigo entender essa do Japão, seja com os animês exclusivos, seja com os super-heróis e, claro, com as músicas... Ainda não se deram conta do poder do streaming e de outras formas de faturar.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo!

Acredito que logo o Japão vai suspender as restrições de área que ainda existem. Se não há produto oficial sendo vendido por aqui, não há motivo para bloquear acesso de streaming. Sabe-se que o streaming paga muito pouco para o criador de conteúdo e depende de muita audiência, mas se não há outra opção, tem que liberar mesmo, pra capitalizar alguma coisa. Ou deixar tudo pra pirataria, que é o que acaba acontecendo.

Valeu! Abraço!

Bruno Seidel disse...

E eis que um filme sul-coreano acaba de ser premiado com o Oscar de Melhor Filme. É a primeira vez que uma produção de outro idioma (que não o inglês) vence esse prêmio.

Jefferson disse...

Se isso não é estar antenado eu não sei o que é.