quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Cosplay - Paixão que atravessa gerações

Cosplay: A arte de se transformar
em um personagem.
De todos os termos ligados à cultura pop japonesa, um que extrapolou as fronteiras do fandom e invadiu a mídia tradicional em tempos mais recentes é o cosplay. A arte e hobby de se fantasiar e interpretar um personagem ficcional é uma verdadeira febre entre fãs das mais diferentes atividades e até faixas etárias, apesar da predominância de jovens. Mas a história dessa prática é bastante antiga, com mais de um século de existência. 

Sem contar fantasias para festejos populares, vamos seguir a definição de cosplay para uma fantasia baseada em personagem ficcional, veiculado em alguma mídia, em oposição a figuras folclóricas. Assim, um dos primeiros registros conhecidos de algo próximo de um cosplay foi relacionado a histórias em quadrinhos (HQ) de ficção científica.

A série Mr. Skygack, from Mars, do cartunista A.D. Condo, conquistou muitos fãs nos EUA na primeira década do século XX, sendo apontado o primeiro quadrinho de ficção científica. Em 1908, um casal, o sr. William Fell e sua esposa, apareceram em um rinque de patinação na cidade de Cincinnati, estado de Ohio (EUA), vestidos como personagens dessa HQ. Dois anos depois, uma mulher cujo nome se perdeu nos registros ganhou um concurso em Washington com uma fantasia também inspirada nessa HQ. 
Mr. Skygack e o primeiro registro
conhecido de cosplay, muito antes
da definição ser inventada (1908).
Mais de 30 anos depois, veio o primeiro registro em um evento temático. Foi na Worldcon, a convenção mundial de ficção científica que começou nos EUA em 1939. Nesse ano, uma mulher chamada Myrtle R usou um vestido que apareceu no filme Things to Come, clássico da ficção científica de 1936. Ao seu lado, o editor de ficção científica Forest J. Ackerman usou um traje futurista de criação própria. Depois de uma interrupção em 1941 por causa da Segunda Guerra Mundial, a Worldcon voltou a acontecer em 1946 e está firme até hoje, sendo coordenada pela entidade The World Science Fiction Society

A atividade de se fantasiar de personagens começou a ganhar forma com as convenções sobre Star Trek, que tiveram início em 1972 nos EUA. Pessoas usando uniformes da Frota Estelar se tornaram figuras comuns, mas alguns iam mais longe, caracterizando-se como algum personagem específico da longeva franquia. Hoje, não há convenção ligada a quadrinhos, desenhos animados, cinema e games que não tenha a presença de cosplayers, seja em concursos ou transitando pelo local. Mas o país que mais abraçou o cosplay foi a Terra do Sol Nascente, especialmente com personagens de mangá, animê, game e tokusatsu.

Cosplay de Shampoo,
da série Ranma 1/2.
Foto: Ample Cosplay
O termo cosplay foi cunhado no Japão pelo produtor Nobuyuki Takahashi, do Studio Hard. Ele usou o termo em um artigo que escreveu para a edição de junho de 1983 da revista My AnimeJuntando as palavras anglófonas "costume" (de "roupa") e "play" (de "brincar" ou "interpretar"), ele definiu um hobby que já estava sendo praticado por uma parte do público otaku japonês. Até então, a atividade era chamada no Japão de "kasô". Logo, o termo cosplay se popularizou e hoje é usado em todo o mundo. 

A evolução criou nichos específicos, como os praticantes que se especializaram em fazer cosplay com mudança de gênero. As mulheres que fazem cosplay masculino são chamadas "dansô", enquanto os homens que fazem cosplay feminino são "josô". Um termo que tem se espalhado no ocidente para esses cosplayers é o crossplay. A palavra, porém, não é usada no Japão, onde essa opção de cosplay não está necessariamente ligada à orientação sexual do praticante. 
Cosplay de Anko Mitarashi, de Naruto.
Foto: Daily Cosplay
Os cosplayers, que não só se vestem como também interpretam seus personagens favoritos, começaram a virar atração nos eventos onde comparecem, como os badalados Comiket e Tokyo Game Show

Comiket, ou Comic Market, é a maior feira de quadrinhos do mundo, com público estimado em mais de 550 mil pessoas. Basicamente uma feira de fanzines e revistas independentes, o evento surgiu modestamente em 1975 e agigantou-se de tal forma que é um dos maiores eventos de cultura pop do mundo, sendo um sucesso até hoje, com dois eventos anuais: um em agosto e outro em dezembro. 
Cosplay de Mika Jougasaki, da série
THE IDOLM@STER CINDERELLA GIRLS
(Foto: Ample Cosplay)
Já o Tokyo Game Show existe desde 1996 e é uma feira empresarial onde os grandes fabricantes mostram seus produtos. Mais de 260 mil pessoas frequentam o evento, que acontece anualmente em agosto. No TGS, cosplayers profissionais são contratados para animar os estandes, tamanho o fascínio que exercem no público. A área se profissionalizou no Japão, com cosplayers ganhando para sessões de fotos promocionais, algo que atrai muitos fãs para muitos personagens e franquias. 

No Brasil, o cosplay começou a ser praticado nos eventos temáticos e hoje são atrações tão valorizadas em eventos quanto são no Japão. Os dois maiores eventos de cultura pop no Brasil, o CCXP (Comic Con Experience) e o Anime Friends são invadidos por animados e caprichosos cosplayers em cada edição. E não apenas esses que acontecem em São Paulo, mas cada evento de animê ou cultura pop no Brasil tem a presença marcante de cosplayers, mostrando que a atividade veio para ficar. 

Além disso, no concurso internacional World Cosplay Summit, realizado anualmente em Tokyo, três edições já foram vencidas por brasileiros, mostrando que há muitos talentos no país. 

O que começou há muito tempo como uma brincadeira chega aos dias de hoje combinando costura, maquiagem e teatro para compor verdadeiras encarnações de personagens da ficção. Para quem faz e quem assiste, é sempre uma diversão e um encantamento.
- Agradecimentos especiais ao cosplayer
brasileiro que vive no Japão, Michel Matsuda.

Links selecionados:


Ample Cosplay: ample-cosplay.com

Cosplay Brasil: cosplaybr.com.br

Daily Cosplay: dailycosplay.com 


::: E X T R A :::

- Você conhece todos os personagens abaixo?
Fotos de cosplay no evento Comiket (2016). Acervo pessoal de Michel Matsuda:

















::: C O N V O C A Ç Ã O :::

Você faz cosplay? Quer mostrar aos leitores do Sushi POP? Você pode entrar na seção de comentários e deixar links para suas fotos. Participe! 

12 comentários:

Cláudio Roberto disse...

Oi Nagado. Sempre acompanho e seu blog e... Resolvi comentar acerca do assunto "Cosplay". De certa forma - aqui no Brasil - o termo surgiu junto com as primeiras revistas informativas entre 1996/1997 e... Com o primeiro evento aberto ao público: A MangaCon II em 1997 (A MangaCon I de 1996 foi um evento apenas para os associados da Abrademi).

Era um ambiente TOTALMENTE diferente. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, animes eram vistos na TV aberta e a cabo. Os jovens da época começaram a difundir cada vez mais o hobby. E em meados da década - numa observação BEM pessoal - a 1a. seletiva do WCS em 2006 e programas como "A Grande Chance" na TV Bandeirantes foram a 'ruptura' do hobby como algo "amador": O Brasil tinha neste hobby uma forma de expressão de uma tribo urbana que consumia cultura de forma ativa. Plasmando-se numa atração a parte que continua presente - mesmo com a crise que os eventos passam hoje em dia.

Vinte anos após o surgimento do hobby no país, podemos ver Cosplayers em novelas e até como "figurantes/funcionários" em eventos de Rock ("Game XP" no Rock in Rio 2017). Apesar de que, muita picuinha rolou neste meio tempo (o que não é o alvo deste comentário).

Enfim, é isso!...

https://www.youtube.com/watch?v=ucT5O38s34A

Alexandre Nagado disse...

Olá Cláudio!

Muito bom você ter comentado sobre esse início do cosplay no Brasil. Realmente, hoje a ingenuidade do começo ficou pra trás, com os concursos e a busca pelos holofotes, mas acho que é a evolução natural. Foi a mesma coisa com o Carnaval.

Obrigado pela participação e apareça mais vezes!

Abraço!

Cláudio Roberto disse...

Ok Nagado. Se possível, convido a vc e a todos que frequentam o seu blog para darem uma passada no meu canal no You Tube (onde disponibilizo um pouco de tudo sobre a cultura pop... Além de algo relativo a cosplay, é claro):

http://www.youtube.com/culturanime2

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Sugestão anotada, Cláudio!
Vou conferir depois.

Grande abraço e sucesso para o seu canal!

Bruno Seidel disse...

Muito interessante essa análise histórica sobre o surgimento do cosplay e sua evolução até se tornar uma das principais representaçõesda cultura geek. Hoje em dia, os cosplays são basicamente o oxigênio de eventos de quadrinhos, anime e cultura pop em geral. Lembro que a primeira vez que eu me deparei com pessoas caracterizadas desses personagens foi no Anime Friends de 2003. Na época, o anime Dragon Ball GT estava em alta no CN e, possivelmente por isso, um dos cosplays mais comuns era o da personagem Pan. Nesse evento tinha também um cara fantasiado de Buba (vilão dos Changeman) que chegou a arrancar elogios eufóricos do Hiroshi Watari. E lembro também que eu tirei várias fotos com cosplays que me encantaram. Um deles era o Toshi, que fazia cosplay de Kamen Rider Kuuga. Na época, nem o conhecia, mas depois acabamos virando amigos pela internet.

Já fui jurado e apresentei concursos de cosplay, o que eu acho algo muito divertido. Também cheguei a conhecer alguns cosplayers profissionais como a Jéssica "Pandy", que foi uma das campeãs mundiais representando o Brasil no Japão. Incrível como esse universo pode ser levado a sério e com um requinte exemplar.

Nunca cheguei a fazer cosplay de algum personagem que eu admiro (sempre digo, em tom de brincadeira, que a fantasia de Blast Red não conta porque é o personagem original, e não uma "inspiração). Mas acho lindo demais um cosplay bem feito (e os mal feitos também, quando entram na divertida categria "cospobre").

E falando em cospobre, acho válido compartilhar esse link aqui desse tailandês que é um verdadeiro gênio da criatividade:
http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=42106

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Esse cosplay do Buba ficou famoso na época. Quem fez foi o Alessandro Von Victor, um velho conhecido e um dos melhores cosplayers que já vi. Inclusive, ele aparece no clipe On The Rocks do Ricardo Cruz. Ele é o General Victor, inimigo do herói.

Também já fui jurado algumas vezes, é algo bem divertido mesmo.

Agora, esse "cospobre" que indicou é inacreditável, ah ah! Muito legal!!

Valeu! Grande abraço!

Stefano Barbosa disse...

Adoro esse universo !!! Inclusive eu fiz "cospobre" de Trevor (GTA V).

Alexandre Nagado disse...

Ah ah, que legal, Stefano! Podia ter postado foto.

Usys 222 disse...

Cosplay. Essa é uma arte fascinante! É incrível o empenho despendido por quem faz as fantasias e por isso chamo de arte.

Eles usam os mais diversos materiais, desde o simples papelão até outros mais sofisticados como o FRP. E até esses dois em conjunto. É um trabalho de artesania impressionante. Outro ponto a se notar é a pesquisa extensa para fazer o mais fiel possível ao original.

Tem alguns que chegam ao cúmulo de fazer fantasias baseadas em versões mais elaboradas dos personagens, como o Saver (https://twitter.com/Saver666), cujos trabalhos são baseados na linha de brinquedos S.I.C., que reimagina os Kamen Riders e outros heróis da Toei. Ficou tão perfeito que quem é incauto acha que é foto de algum novo filme (bem que podia ser).

E existem aqueles cosplays que literalmente unem gerações. Um artesão que trabalha nesse sentido é o コスプレ父 (Cosplay Chichi, algo como "Papai Cosplay"), que tem filhos pequenos, que ajudam em partes mais simples. E tem outro vídeo bem simpático de quando ele começou, ao se vestir de Kamen Rider W para que o filho passasse a comer pimentão (https://www.youtube.com/watch?v=S6TjIvSMaK8). Tem etapas do processo de feitura e até uma receita de pimentão recheado. Só que no final ele revela que tem uma filha também e...

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Boas dicas essas que trouxe! E tem razão, o cosplay tem praticantes que elevaram o hobby ao status de arte. Já faz tempo que eu queria fazer uma pauta sobre o assunto e vejo que foi bom ter escrito.

Obrigado! Abraço!

Aniki disse...

Fala, Nagado.

Já tive minhas experiências como cosplayer(Mousse, Deka Red civil e Clark) e sempre levei a coisa mais pelo lado da diversão do que a competição. O nível das roupas e das competições só tende a aumentar com o passar dos anos, bem como ouvi rumores do surgimento de certas rixas entre alguns participantes. Mas deve ser consequência da evolução dos eventos, afinal não dá para agradar a todos.

Mas enfim, eu prefiro o lance inocente do passado. Onde a diversão, mesmo com fantasias não tão boas, era mais evidente.

Aliás, nunca pensou em vestir um uniforme do GAM? Hehehehehe. Eu lembro até que a Nike um tempo atrás chegou a vender uma camiseta que lembrava muito o uniforme do GAM.

Abraços.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Aniki!

É como eu digo: cosplay perdeu certa espontaneidade e ganhou em profissionalismo, assim como o Carnaval.

Olha, nunca pensei em fazer cosplay, nem camiseta de personagens eu usava. Mas essa camiseta que mencionou eu cheguei a ver. O Marcelo Del Greco tem uma. Acho que vou procurar também, eh eh.

Valeu! Grande abraço!