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Olá! O blog está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bate-papo: A cultura pop e a intelectualidade

Cosplayer do personagem
Kakashi, de Naruto.
A cultura pop é respeitada
nos meios intelectuais?
Você acha que a Cultura POP já conquistou o respeito dos círculos mais intelectuais da sociedade ou ainda é vista como superficial e juvenil?
- Rogério Prado Mendonça

Olá! Eis uma questão bastante interessante e complexa. Eu não pertenço ao meio acadêmico, mas não sou estranho a ele. Já dei muitas palestras em faculdades, já fiz parte de banca examinadora de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e li muitos livros que nasceram a partir de trabalhos acadêmicos. Então, darei meus pitacos. 

Não existe uma única resposta possível, até porque a cultura pop engloba muita coisa e o entretenimento e lucratividade ditam as regras para as empresas envolvidas. Mas existe material com profundidade e autores que trazem temas instigantes e com inteligência, levando o entretenimento a outro nível e é sobre o reconhecimento disso que certamente quer falar. 

Quando a pesquisadora Sonia Luyten escreveu sua tese de mestrado Mangá - O Poder dos Quadrinhos Japoneses, causou estranhamento no meio acadêmico, mas seu trabalho logo foi ganhando reconhecimento por sua qualidade. Ganhou prêmio em Lucca, na Itália, foi publicado no Brasil em 1991 e ganhou reedições posteriores. Esse trabalho, que foi inspirador pra mim, chamou a atenção de parte da mídia para o fato de que os quadrinhos são uma manifestação cultural com potencial para contar histórias poderosas e impactantes, não apenas entretenimento ligeiro e escapista. 

Capa da 3a edição de
Mangá - O Poder
dos Quadrinhos Japoneses,
de Sonia Luytern (Ed. hedra)
Na segunda metade de década de 1980 para o começo da de 1990, os quadrinhos viveram um grande momento no Brasil. A publicação de obras como Watchmen e Batman - O Cavaleiro das Trevas atraíram grande visibilidade aos quadrinhos, sendo depois vieram as Graphic Novels e muito material inovador. Todos os grandes jornais tinham uma página semanal dedicada aos lançamentos de quadrinhos e muitos novos leitores surgiram. Infelizmente, depois houve nova retração nesse movimento, mas as sementes já haviam sido lançadas. 

Trazendo o papo para a cultura pop japonesa, vejo que os filmes de Hayao Miyazaki conquistaram perante muitos críticos o peso de uma Disney ou Pixar. No mangá, Gen Pés Descalços já rendeu muitas reportagens por seu triste e impressionante retrato da guerra. 

Mas apesar disso, muitos críticos ainda torcem o nariz quando vão falar de animação japonesa, se prendendo a produções mais descuidadas feitas para a TV. Além disso, o tokusatsu ainda é visto com risos perante a maior parte da sociedade. Quem já não ouviu alguém se referir a Jaspion como um "desenho"? Será que é "ruim" demais pra ser chamado de seriado e chamando de desenho já se classifica como programa infantil? E infantil tem que ser sinônimo de raso e sem conteúdo? Certamente que não, mas essa percepção somente tem quem possui uma ligação com a cultura pop além do simples consumo. 

A percepção geral da sociedade não mudou, mas essa sociedade, em termos gerais, é desinformada, preconceituosa e vai atrás do que faz sucesso de massa. É nesse ponto, entretanto, que os super-heróis se mostram parte da cultura popular. Quando milhões de pessoas comuns, que não leem HQ, vão ao cinema ver Os Vingadores ou aguardam ansiosamente pra ver Batman v Superman, vemos o que é realmente cultura pop, consumida pelas massas. 

Eu acredito que, da parte mais instruída da sociedade, aqueles ligadas nas áreas de humanas (como artes e comunicação) sejam mais esclarecidos. Esses podem perceber que há filmes, seriados, desenhos animados e quadrinhos para diferentes faixas etárias, com diferentes níveis de elaboração, existindo obras com grande profundidade e uma abordagem inteligente. Não que entretenimento precise de tudo isso pra cumprir seu objetivo (que é entreter) ou para ser respeitado como produto de uma indústria cultural. Na área de comunicação é notável o crescimento das teses acadêmicas que se baseiam em quadrinhos, alguns dos quais já li e resenhei aqui no Sushi POP. 

Já pensando em acadêmicos das áreas de exatas e biológicas, acredito plenamente que a percepção deles sobre cultura pop seja igual à média da sociedade. Ou seja, veem apenas o lado de entretenimento superficial, sem dar o devido reconhecimento de sua relevância artística e cultural ou sua capacidade de explorar temas relevantes para reflexão. 

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Participe da seção Bate-papo!

- Envie sua pergunta ou tema de discussão sobre cultura pop japonesa, HQ e afins para nagado71@hotmail.com, colocando no assunto da mensagem: 
Bate-papo Sushi POP 

13 comentários:

Rogério disse...

Boa noite,

Muito obrigado por aceitar minha sugestão de discussão.

Provavelmente eu vou abordar isso pelo lado mais emocional, mas lá vai:

Durante a última cerimônia do Oscar Alejandro González Iñárritu disse que a verdadeira arte havia vencido por seu filme, Birdman, ter sido o grande vencedor da noite.

Tal declaração (junto com outras de outros "diretores independentes") na época, provocou uma resposta apaixonada de James Gunn, diretor do delicioso Guardiões da Galáxia: "Se você acha que as pessoas que fazem filmes de super-heróis são burras, saia e diga que nós somos burros. Mas se você, como um cineasta independente ou um cineasta "sério", acha que coloca mais amor em seus personagens do que os Irmãos Russo no Capitão América, ou Joss Whedon faz o com Hulk, ou eu coloco num guaxinim falante, você está simplesmente equivocado."

Para mim, quando saio de uma sessão de cinema, ou quando leio uma HQ, etc, é isso que realmente me importa: se fui arrebatado por aquela obra. Se me importo e me encanto com os personagens. Se sinto que aquela criação "tem coração".

O importante é isso que Gunn disse: mesmo que estas obras sejam bancadas por grandes e gananciosas corporações, e elas são mesmo(com exceção provavelmente do Estúdio Ghibli que acabou até se desligando da Tokuma Shoten), as pessoas que trabalham nelas, os criadores, não são menos apaixonados e competentes.
E se elas estiverem realmente empenhadas nas obras temos coisas com "sinceridade emocional" como o próprio Guardiões, ou BH6, ou Vidas ao Vento, ou Millennuim Actress, etc.

Do meu ponto de vista, como você disse, entretenimento pode ser intelectualmente e emocionalmente autêntico, e muitas vezes a visão acadêmica é prejudicada por esta abordagem delas apenas como produto econômico, esquecendo-se de suas qualidade intrínsecas e do amor e dedicação que seus autores podem colocar nelas, apesar de toda pressão dos executivos e acionista.


Ale Nagado disse...

Fala, Rogério. Eu que agradeço por sua colaboração. O pessoal aqui é meio tímido pra enviar sugestões ou perguntas para o bate-papo.

Essa questão "comercial x autoral" é interessante. Muitos colocam uma separação quase moral entre o que é autoral e o que é comercial. Mas certa vez o André Forastieri escreveu que o primeiro filme de Star Wars, uma das maiores máquinas de fazer dinheiro de todos os tempos, era um filme tremendamente autoral. George Lucas teve a ideia, escreveu o roteiro, dirigiu o filme, supervisionou efeitos especiais e até a montagem final. Totalmente autoral.

E eu sempre lembro de uma entrevista com a banda Metrô, nos anos 1980. Perguntados sobre o que achavam das críticas de que seu trabalho seria muito "comercial", um deles (acho que era Yann, o tecladista) respondeu mais ou menos assim: "Olha, acho que quem faz um trabalho e coloca pra comercializar quer mais é que o trabalho seja aceito e venda bem." Isso dimensiona bem essa questão de que o "comercial" seria algo feio, algo que denigre. Dá pra ser autoral e mainstream com sinceridade. O som dos Beatles pode ser chamado hoje de comercial, mas na época, muitas canções causaram estranheza por suas inovações e abordagens inusitadas, depois criaram entusiasmo e então, viraram objeto de culto. Mas antes de vender milhões, muitos singles foram vistos como algo extravagante.

Então, concordo totalmente com os exemplos que usou. Um bom trabalho autoral pode ser também extremamente comercial e lucrativo.

Abraço!

Stefano disse...

o tokusatsu hoje quase ninguém fala (aparentemente) . só mesmo a galera que assistiu na época.

Ale Nagado disse...

Falou uma verdade, Stefano. Hoje, quando se fala em cultura pop japonesa, o povo cita mangá, anime, cosplay, game, j-pop, j-drama, light novels... Só fãs específicos de tokusatsu incluem essa modalidade na equação.

Ultraman tem voltado a ganhar espaço na mídia e relevância, mas fãs hardcore de Ultraman são uma categoria à parte dentro do tokusatsu, assim como fãs hardcore de Beatles em relação ao rock em geral.

Esse afastamento do tokusatsu é real e é uma pena, mas eu estou entre os poucos que lutam contra isso e tratam tokusatsu como é no Japão: parte integrante do que se chama cultura pop japonesa.

Stefano disse...

certamente pq o tokusatsu se desgastou....
imagino...
por falar em ultraman....
Ultraman - Lançamento do Mangá
https://www.facebook.com/events/162096634127936/

Stefano disse...

Já que vocês tocaram no assunto música... adoro de paixão músicas pop, new wave etc 80's!! (mesmo as comerciais)..
acredito que fãs hardcore de sons 80's sejam inúmeros !

Ale Nagado disse...

Na verdade, se desgastou perante o público brasileiro. No Japão, continua com produções inéditas a cada ano e continua sendo algo relevante.

Rogério disse...

Bom dia,

Sobre o tokusatsu: talvez o "desgaste" no ocidente tenha a ver com a prevalência de seu "filho bastardo", a franquia dos Powers Rangers.

Bruno Seidel disse...

Excelente paura pra discussão! Adoro esse tipo de assunto. Até porque eu não vejo a Cultura Pop tão distante assim dos "círculos intelectuais da sociedade". Isso parte de um raciocínio lógico: que tipo de conteúdo, valores, lições de vida e reflexões esse tipo de produção cultural transmite aos seus "consumidores"? Próxima pergunta: "esse conteúdo, valores, lições ou reflexões são menos profundos do que um best seller da literatura mundial? Para um intelectual clássico, seria um absurdo imensurável comparar um romance de Shakespeare a um anime comercial, por exemplo. Contudo, eu costumo dizer sempre que uma pessoa "culta" não é exatamente aquela que transita somente entre as expressões artísticas mais sofisticadas. Isso, pra mim, é ser "elitizado culturalmente". Somente isso. Cultura significa saber reconhecer e transitar em qualquer tipo de manifestação artística: de um concerto de ópera a um funk de periferia (Atenção: não significa que você precisa gostar). O culto é aquele cara que consegue conversar com qualquer outra pessoa, desde o favelado analfabeto ao doutor em Letras.
Um dos animes que mais sacudiu a minha cabeça e me fez pensar sobre "a vida, o universo e tudo mais" foi Cyborg 009 (um dos principais trabalhos do lendário Shotaro Ishinomori). Uma obra basicamente comercial, mas que encoraja debates muito acirrados sobre religião, crença no espiritual, mitologia, transhumanismo... Na minha opinião, é uma obra completa. Agora peguemos séries de Tokusatsu que, num consenso geral, são avaliadas como produções infantilõides e meramente comerciais: Ultraman Nexus discute bastante a filosófica diferença entre conformar-se com a mentira ou encarar a realidade (uma discussão bem "Matrix"). Kamen Rider OOO trabalha muito bem a ambição humana e suas consequências.
No clássico "Família Dinossauros", temos vários episódios com um subtexto interessantíssimo, que dariam excelentes pautas para discussões de nível acadêmico.
Numa recente conversa que tive com o quadrinista Daniel HDR (pode ser conferida nesse link aqui: youtu.be/w6gTqN5VQYM) eu lhe perguntei sobre o papel da Cultura POP no ambiente acadêmico. A resposta dele foi muito interessante e bate bem com aquilo que eu penso. Quero acreditar que aquilo que hoje é considerado "subcultura" muito em breve terá o seu devido lugar no meio acadêmico. A Cultura Pop possui uma representação muito forte e esse blog aqui é um excelente exemplo de como discussões inteligentes surgem a partir de pautas aparentemente banais.

Ale Nagado disse...

Rogério, acho que houve sim um desgaste, mas não por culpa dos Power Rangers. Foi o exagero de exibições de tokusatsu nos canais que saturou esse tipo de seriado, com efeitos negativos sentidos até hoje.

Ale Nagado disse...

Bruno, seu comentário foi daqueles que me fazem sentir que vale a pena manter um espaço como este blog. Dizem que na internet a palavra escrita morreu, mas eu prefiro ser lido por poucas centenas que pensam e elaboram raciocínio complexo do que ser visto por milhares que têm preguiça mental de se informar sobre qualquer coisa.

Obrigado por sua contribuição ao debate. E vem mais por aí.

Abraço!

Stefano disse...

pq a tv passou de forma repetitiva os tokusatsus?

Ale Nagado disse...

Hum, não queria perder o foco do debate, mas vamos lá: como as séries estavam fazendo muito sucesso (audiência e lucros), os canais e as distribuidoras resolveram só investir nisso. Deu no que deu.