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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bate-papo: O fim da indústria do animê, segundo Hideaki Anno

O depressivo Shinji Ikari, de Evangelion.
Momento de depressão também
na indústria do animê?
Nagado:
Eu li este artigo sobre a opinião de Hideaki Anno (de Evangelion) e gostaria muito de saber sua impressão sobre o assunto, se possível. 
Certamente não é a primeira vez que alguém faz tal previsão, mas Anno sendo um criador de peso, chama sempre muita atenção.
Rogério Prado Mendonça


Fala, Rogério! Obrigado pela participação!

Bom, antes de mais nada, deixe-me explicar um pouco a matéria que indicou, para aqueles que não têm um bom domínio do inglês. No caso, o diretor Hideaki Anno, famoso por seu trabalho com Evangelion, contou a um jornal russo que está bastante pessimista com os rumos da indústria da animação em seu país. Sua previsão mais negra é que, no período de 5 a 20 anos, a indústria do animê irá acabar. Mas ele não acredita que o Japão vá parar de fazer animações, mas sim que o país deixará de ser um grande centro produtor, perdendo espaço, por exemplo, para outros países asiáticos com boas produções locais. No texto, ele também crê que um colapso da indústria será seguido, um tempo depois, de um ressurgimento. Ele enfatiza a importância da atualização técnica e diz que a animação no Japão está "movida por inércia", enquanto em Taiwan há paixão e energia nos trabalhos. 



Hideaki Anno: Pessimista
com o futuro do animê
Na matéria extraída do site Kotaku, não se comenta sobre o que teria levado Anno a ser tão pessimista, mas posso tecer algumas suposições baseadas em meu conhecimento e emitir algumas opiniões. 

Um fato que deve ser levado em conta é que a população japonesa está envelhecendo cada vez mais e também está diminuindo. Os índices de natalidade têm caído muito, o que obviamente faz diminuir o número de crianças e adolescentes. 

O ator Hiroshi Watari (Spielvan e Sharivan) certa vez comentou que o mercado de licenciamento japonês anda em crise há anos por conta das constantes quedas nos índices de natalidade. Não é só audiência e venda de espaços publicitários nos intervalos que faz a renda de um animê. É preciso licenciar produtos e vender brinquedos e produtos variados. Com o número de crianças cada vez menor, vende-se cada vez menos produtos de séries infantis. Depois, a situação obviamente chega aos adolescentes, que também vão ficando em número cada vez menor e isso também vai diminuir a venda de produtos voltados ao público dos adultos jovens. 

A proliferação cada vez maior de títulos também vai criando nichos de mercado cada vez mais especializados. O chamado "fan service" (que sempre existiu, diga-se de passagem), que pode incluir cenas de heroínas com calcinhas à mostra e situações maliciosas vai tomando conta das produções, numa escala cada vez maior conforme a faixa etária. Tudo pra tentar "fidelizar" a audiência. 

Com séries criadas para nichos de mercado (por exemplo, homens acima de 30 anos que gostam de garotinhas sedutoras e infantilizadas), criam-se produtos caríssimos que precisam gerar lucro mesmo vendendo algumas centenas ou poucos milhares de exemplares. E esses a pirataria atinge mortalmente. 

Um fato já dito por vários profissionais é que a indústria dos animês já viveu dias melhores. Produções mais apelativas, perdas de audiência, concorrência com a internet e a sempre presente pirataria acabam reduzindo os lucros. E as quedas são constantes, afastando investidores. Vale lembrar que o Japão, em sua luta contra a pirataria, não sabe ainda lidar bem com a internet, vendo-a mais como inimiga do que como aliada. Um exemplo disso é que o K-Pop (por coreano), em poucos anos, ultrapassou o J-Pop e ganhou legiões de fãs no ocidente, inclusive no Brasil, graças à divulgação no YouTube, um site visto como vitrine de pirataria - e não de divulgação - para a maioria dos empresários japoneses. 


One Piece: Blockbusters e modas são
necessárias, mas não é só isso o que faz um mercado
economicamente viável
Quando estive no Japão, em 2008, um executivo da Production IG deu uma palestra onde contou sobre as crescentes dificuldades pelas quais o mercado vêm passando, e a queixa com relação à pirataria foi intensa. Os salários dos desenhistas de animação parece que nunca estiveram tão baixos e tem sido difícil manter bons profissionais na área. Nas décadas de 1980 e 90, muitos estúdios japoneses eram contratados para produzir animação para criações americanas (como Thundercats, por exemplo), mas esse espaço tem sido ocupado agora pela Coréia do Sul e Taiwan, que também têm investido em criações locais. 

Realmente, o cenário não é muito inspirador, mas não consigo ser pessimista como Anno. Acredito numa retração do mercado, mas títulos de apelo popular sempre têm aparecido para puxar a audiência, como One Piece, por exemplo. E coisas assim são necessárias, mas um mercado saudável deve buscar dialogar com o maior número de pessoas. Buscar uma segmentação também é importante, para atender diferentes nichos, mas o caminho é perigoso e pode transformar a cultura pop - popular, das massas - em cultura de gueto, mais restrita, cara e hermética. 

Nos anos 1970, o Yamato mudou a face da indústria da animação no Japão e no mundo, dando início ao primeiro Anime Boom. Está na hora de um novo evento desses. Verdadeiros fenômenos não podem ser previstos, mas eles só acontecem num cenário que permita inovação. Com o mercado cada vez mais amedrontado e com os empresários querendo arriscar cada vez menos, as chances de surgimento de obras instigantes e inovadoras voltadas ao grande público - e não a nichos herméticos - vai diminuindo. O futuro da animação japonesa enquanto indústria cultural depende não apenas de seus autores, mas de empresários e produtores conscientes de que é preciso mudar as estruturas, repensar suas estratégias e trabalhar com ousadia para que as previsões de Hideaki Anno não se concretizem. 

Leia também: Sensibilidade artística, cultura otaku e a polêmica de Miyazaki 

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- Envie sua pergunta sobre cultura pop japonesa, HQ e afins para nagado71@hotmail.com, colocando no assunto da mensagem: Bate-papo Sushi POP

5 comentários:

pierrot disse...

E novamente a questão do problema mais evidente do povo japonês na atualidade. A questão da renovação da população. Um quadro bastante dificil de se reverter visto o ambiente de crise que vivemos em todo o globo, somado a algumas "inovações" que existem na terra do sol nascente como por exemplo aqueles produtos feito sob medida para suprir a solidão das pessoas como aplicativos ou bonecos., apesar disso depender do "desvio mental" da pessoa em questão.
Talvez essa nova forma de se assistir séries, o chamado streaming, possa ser uma alternativa não? O Cruncyroll está ai.

Bruno Seidel disse...

Sei lá me parece que o Hideaki Anno tá se comportando como uma espécie de "Alan Moore dos animes" (tem até um post aqui no blog que divaga mais sobre esse lado polêmico dos quadrinistas Alan Moore e Frank Miller). Acho precipitado e extremista demais esse termo "o fim da indústria do anime". Isso não acontece de uma hora pra outra, por mais que tenhamos a interferência de fatores externos como crise econômica, queda na taxa de natalidade e pirataria. O que eu acredito que vá acontecer em um futuro bem próximo é uma nova forma de pensar e rever sua própria indústria (mesmo que sejam forçados a isso). Mas isso não significa um "fim". Concordo que o Japão tem dificuldades de bater de frente com a pirataria. Talvez esteja na hora de trocar a palavra "problema" por "oportunidade".

Natália Maria disse...

Que pessimismo!! Meu deus!!
Se bem que o que você disse, percebe-se que a industria japonesa não está sabendo utilizar a internet a seu favor, por isso, talvez, venha perdendo mercado.

Será que ele quis dizer que a se a industria do anime não se reinventar, vai acabar indo para o limbo? É como eu disse, a indústria precisa saber utilizar a internet ao seu favor, e não ver o youtube como vilão. E sei lá, tentar não abusar muito do fan service... hehe

Até mais

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Muito grato por aceitar minha sugestão de discussão!

Você fez uma excelente análise da relação da crise na indústria japonesa de Animação e sua relação com o panorama social no Japão atual. Não vi nada parecido. Nem em sites estrangeiros. Ótimo texto Alexandre.

É difícil saber o que realmente resultará deste tipo de previsão sobre o estado da Cultura POP. Há alguns anos havia quem jurasse que a Disney fecharia seu departamento de Animação e a Pixar reinaria sozinha. E nenhum analista anteviu o "boom" dos super-heróis(eles próprios estavam se tornando um nicho nos EUA) na cultura de massa mundial.

É verdade que outros países asiáticos tem investido muito em Animação, mas eles ainda não conseguiram gerar nenhum produto de apelo mundial com as características do anime: identidade local e apelo internacional.

É curioso que Anno fale na matéria que o Japão precise aderir à computação gráfica, porque umas das coisas que os fã mais admiram na Animação nipônica é a persistência do uso de desenho animado ao invés de CGI.

Já há algum tempo leio matérias sobre as duras condições de trabalho dos animadores japoneses e que isto acabaria tornando a profissão menos atrativa.Dizem que um dos motivos da "crise" no Estúdio Ghibli é que ele sempre ofereceu melhores condições ao seus animadores e que sem os filmes de Miyazaki arrecadando grandes bilheterias este modelo mais "justo" de trabalho seria financeiramente inviável.

Este problema da falta de crescimento populacional no Japão é assustador. Onde isso
vai parar?


Luiz disse...

Concordo que a questão da renovação da população é algo fundamental, mas temos que ver que algo semelhante ocorre nos quadrinhos americanos (cujo diálogo com o cinema é o grande impulsor de vendas atual). Inclusive podemos colocar ambos num problema de repetividade que chega ao seu apogeu reciclando todo o material possível dos anos 80. Não que eu não acompanhe as novas animações de Cavaleiros ou Dragon Ball, mas a falta de criatividade é sombria para muita coisa produzida. E falamos de anime de países vizinhos do Japão, mas a França anda usando a estética anime para produções de ótima qualidade também. Existe material bom de diversas origens aparecendo e talvez a mundialização será a verdadeira chave pra criação de um novo boom. A qualidade e sucesso de Knights of Sidonia é um bom exemplo.