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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Ryoichi Ikegami - Mestre do gekigá

Ele foi um dos primeiros artistas de mangá a ter grande reconhecimento no ocidente e está perto de completar 70 anos. Conheça um pouco sobre a carreira de Ryoichi Ikegami, um dos mais habilidosos desenhistas de sua geração. 

Crying Freeman, o assassino romântico que conquistou fãs
no ocidente com o elegante traço de Ryoichi Ikegami
Muito antes do mangá ter conquistado leitores no mundo inteiro, houve um movimento de se projetar os quadrinhos japoneses nos EUA como porta de entrada para o mercado ocidental, no final da década de 1980. 

Em 1987, Lobo Solitário (Kozure Okami) foi publicado pela primeira vez em inglês, com as páginas invertidas para leitura ocidental. As onomatopéias eram redesenhadas nos EUA, tudo para não causar muito estranhamento ao leitor. A iniciativa, apadrinhada pelo astro das HQs Frank Miller (que fez as primeiras capas da edição americana), chegou ao Brasil em 1988, pela Cedibra, mas não durou muito tempo, apenas 9 edições formato americano. Mas a repercussão na mídia especializada (que tinha espaço em grandes jornais na época) foi boa, e outras iniciativas logo apareceram.


Crying Freeman: Romance
em um mundo repleto
de morte e destruição
Logo depois da experiência da Cedibra, a Ed. Globo veio com Akira, de Katsuhiro Otomo, também adaptado à leitura ocidental e ainda por cima colorido, conforme a versão publicada nos EUA. Com a boa aceitação nas bancas, a pequena editora Nova Sampa lançou Crying Freeman, de Kazuo Koike (o roteirista de Lobo Solitário) e Ryoichi Ikegami

Assim como Lobo Solitário, Freeman (Ed. Shogakukan, 1986) era um autêntico gekigá (literalmente, "desenhos dramáticos" - leia "guekigá"), categoria de mangá voltado ao público adulto, com toda sua dramaticidade e complexidade. 

A história de um assassino condicionado pela máfia chinesa, e que chora a cada morte que causa, fascinou muitos leitores. Ação violenta, sexo e romance se misturavam numa combinação explosiva que ganhava ares épicos com o desenho de Ikegami. 

Quatro volumes (de um total de 9) foram publicados no Brasil, registrando apenas o primeiro arco de aventuras. A mesma sequência foi adaptada nos cinemas em um bom filme de 1995, dirigido pelo francês Christophe Gans e estrelado por Mark Dacascos. Se tiver curiosidade, foi lançado no Brasil como O Combate - As Lágrimas do Guerreiro. No Japão, Freeman também virou um animê em 5 partes lançado direto para vídeo, além de um obscuro filme live-action

De traço mais realista que a maioria dos autores de mangá, Ikegami era capaz de trabalhar com precisão usando referências fotográficas para criar uma atmosfera cinematográfica. A beleza de seus protagonistas e a expressividade do traço conquistaram o público nos EUA. Era a consagração no ocidente de um dos mais respeitados desenhistas de mangá, especializado em material adulto. 

Nascido em 29 de maio de 1944, Ikegami foi assistente do lendário autor Shigeru Mizuki, que havia visto um trabalho dele na revista alternativa Garo. 
Ryoichi Ikegami em seu estúdio, com três
assistentes, em foto publicada no livro
Manga Super Technique
(Ed. Bijutsu Shuppan, 1988)

Com o mercado de quadrinhos em ascensão no início da década de 1990 e com o mangá ganhando prestígio, a Editora Abril resolveu entrar no jogo, lançando Mai - A Garota Sensitiva, uma obra de Ikegami sem grande repercussão em seu país que também havia sido lançada antes nos EUA e Europa.
Mai - A Garota Sensitiva

A imprensa especializada, na época, dizia que Mai era o primeiro mangá "normal", adolescente, a ser publicado aqui. Uma definição até que acertada, exceto pela arte de Ikegami, com poucos rivais em sua qualidade técnica e realismo. Saído das páginas da revista semanal para meninos Shonen Sunday, Mai era um mangá sobre uma adolescente paranormal que se vê no centro de um grande esquema de dominação mundial por parte de uma organização secreta. O traço de Ikegami, sobre roteiro de Kazuya Kudo, está bem mais solto e estilizado do que nos trabalhos adultos. A protagonista Mai é um primor de delicadeza e força, em uma história que, mesmo sendo para um público jovem, não deixou de ter discretas cenas de nudez, algo que praticamente não pode faltar em um trabalho do autor. 

No Brasil, Mai fez sucesso, mas nos EUA o trabalho chamou a atenção do diretor Tim Burton, que quase produziu um filme sobre a personagem. Dos EUA para o resto do mundo, Ryoichi Ikegami se tornou um dos primeiros astros do mangá perante toda uma geração de leitores. 

Homem-Aranha no mangá: Ao invés
de Peter Parker, Yu Komori
  
Em 1998, o primeiro trabalho dele por uma grande editora (no caso, a Asahi Sonorama) foi publicado no Brasil, através da Ed. Mythos. Em Homem-Aranha Mangá, Ikegami recriou o famoso herói da Marvel Comics para adaptá-lo ao gosto médio japonês. 

O trabalho, produzido entre 1970 e 71, começou sendo roteirizado por Ikegami, que ao longo da série passou o roteiro para Kazumasa Hirai. A versão de Ikegami bebe na fonte dos antigos trabalhos de Stan Lee e Steve Ditko, mas adaptando ao ritmo japonês. A obra, que rendeu 5 volumes encadernados (no Brasil, foram 4 edições com duas HQs cada somente) e não tem relação alguma com a versão tokusatsu do herói, produzida pela Toei Company.  (A série é mencionada aqui.)


Sanctuary: Sexo e violência
no crime organizado
e nos bastidores da política
Ikegami: Um mestre
do mangá para adultos
Bastante humilde, o artista já declarou não ter o nível cultural dos roteiristas que admira, preferindo ficar "apenas" desenhando. Ele é um grande fã do desenhista americano Neal Adams, que revolucionou a indústria dos comics na década de 1970 com sua arte realista e sua postura profissional ética e arrojada. Não é exagero dizer que Ikegami, com sua arte realista se destacando entre a maioria que produzia material mais estilizado, foi o Neal Adams dos mangás. 

Outra obra de Ikegami publicada no Brasil saiu pela Conrad Editora de forma incompleta, com 6 volumes de um total de 12. É Sanctuary (1990), escrita por Sho Fumimura, renomado autor conhecido também como Buronson - pseudônimo que homenageia o antigo ator de ação Charles Bronson e com o qual Fumimura escreveu seu maior sucesso, Hokuto no Ken (Fist of The North Star).

Sanctuary retrata a trajetória de dois amigos sobreviventes de campos de refugiados do Camboja. Decididos a mudar a sociedade japonesa, um se torna um grande líder yakuzá e o outro ingressa na política. História forte, densa e recheada de ação e erotismo. Rendeu um longa em live-action e dois em animê, sendo um dos pontos altos da carreira de Ikegami. 

No início de 2014, concluiu o mangá Ha~Lord, outra aclamada parceria com Buronson. Entre desenhistas, é comum que a idade e a natural diminuição do apuro visual obriguem autores a optarem por artes mais simplificadas, mas Ikegami mostra que ainda é um desenhista de extrema precisão e segue encantando gerações com um dos estilos mais elegantes e sensuais dos quadrinhos japoneses. Com seu trabalho, roteiristas interessados em dialogar com um público adulto encontraram um artista capaz de inserir realismo visual sem perder a expressividade e dinamismo tão característicos do mangá. 

Site oficial: www.ne.jp/asahi/ocl/irdb/

Lord: Mesmo com a idade
já avançada, o desenho
de Ikegami não perdeu precisão
ou detalhamento.
Executando uma arte-final
com bico-de-pena e nanquim
em foto da década

de 1980

9 comentários:

Rogério disse...

Ótima matéria.

Quando li Crying Freeman pela primeira vez fiquei espantado pela alta qualidade da arte.
Eu não apenas lia, mas parava para apreciar a beleza, fluidez e apuro técnico da obra.
A analogia com Neal Adams é ótima.
Tanta coisa sendo relançada por aqui e várias obras deste mestre merecendo relançamentos ou sua primeira publicação por aqui.
Também gostei muito de Mai. Até hoje tenho minhas surradas edições guardadas.

Usys 222 disse...

Excelente a matéria sobre um mestre do desenho.

Li alguns capítulos dessa versão do Homem Aranha, que é fascinante. A ambientação no Japão, com personagens japoneses é muito bem feita e a adaptação dos vilões é bem pensada. Tem até alguns elementos que estariam presentes nas séries Kamen Rider.

Também acompanhei outra série de quadrinhos desenhada por Ikegami, Ouritsuin Kumomaru no Shougai, com roteiro de Ouji Hiroi. Foi bem interessante, tendo entre seus personagens o escritor Ernest Hemingway como amigo do personagem principal.

JJ Marreiro disse...

Ikegami é sem dúvida um excelente artista. Acho que aqui no Brasil deve ser muito conhecido pelos leitores mais antigos por conta de Crying Freeman, Mai, Homem-Aranha e Sanctuary. Ótima matéria como sempre.

Ale Nagado disse...

Fala, Rogério!!
Fala, Usys!!

Meu primeiro contato com a arte de Ikegami foi com Seiunji, série de ficção científica e fantasia que saia na Shonen Sunday em 1984. Fiquei completamente abismado. Depois, só com os lançamentos nacionais é que eu voltaria a ter contato com o trabalho dele.

Quando eu percebi que ele estava perto de completar 70 anos, achei que era hora de escrever uma justa homenagem a ele.

Abraços!

Natália Maria disse...

Olá!!

Já ouvi/li sobre essas obras, mas nunca havia lido nada sobre o artista. Nem preciso comentar que nunca li suas obras né? Embora seja uma arte limpa nunca tive oportunidade de ler algum desses títulos que você citou e que existe em versão em português!!

Depois de muito sem vir aqui, resolvi aparecer!! n_n''

Até mais

Ale Nagado disse...

Fala, Naty!

Obrigado pela visita aqui, é sempre bom tê-la comentando.

Fico contente por apresentar artistas que merecem mais divulgação por aqui. Se quiser uma dica pra começar, tente achar o Crying Freeman. E depois veja a adaptação em filme com o Marc Dacascos. Várias cenas do mangá serviram como story-board e a produção é bastante fiel. Gostei muito do filme quando assisti, anos atrás.

Abraço!

Rogério disse...

Bom Naty, eu tenho as edições de Mai - A Garota Sensitiva lançadas pela Abril. Se quiser ler é só falar.

The Laughing Man disse...

Caiu em mãos o número 1 do Seiunji, estou tentando usar para aprender o japonês. Uma rápida olhada e a arte salta fácil aos olhos. Esse é Mestre!

Ale Nagado disse...

Apesar de ser considerada uma obra menor no conjunto da carreira de Ikegami, Seiunji foi o primeiro que vi dele, em uma Shonen Jump.

Um dia, espero ver essa série completa.

Abraço!