domingo, 16 de fevereiro de 2014

Toru Hirayama: Gestor de super-heróis


Poucas pessoas sabem o que faz um produtor em um filme ou programa de TV. A função tem variáveis que dependem do profissional e das empresas envolvidas mas, em geral, um produtor age como um coordenador-geral, um gestor de produção. Ele estará envolvido com a escolha da equipe criativa (os responsáveis por roteiro, direção, trilha sonora, filmagens, etc) e também com o elenco. 

Muitos produtores também criam personagens ou séries inteiras, ou dão orientações e diretrizes sobre o que querem ver colocado em prática, mudando rumos durante a realização da obra (no caso da TV) para alavancar audiência. 

No caso dos heróis japoneses, os produtores também precisam, mais do que suas contrapartes ocidentais, equacionar os roteiros com a necessidade de apresentar veículos, personagens e acessórios que irão virar brinquedos. 

O Homem Aranha japonês e Kamen Rider V3:
Heróis com o toque de Hirayama, em
foto promocional da década de 1970.
Há muitos e muitos casos em que a escolha dos atores corretos lança uma série ao sucesso ou ao fracasso. Cabe ao produtor lidar com o orçamento, adequar a necessidade de filmagens, locações e efeitos, discutindo detalhes de produção com diretores e roteiristas. Ele também deve nortear o trabalho, aprovando e sugerindo alterações quando preciso. Em filmes isolados para cinema, é normal que o mérito maior seja do diretor. Mas com uma série ou programa de TV, por onde passam diferentes diretores e escritores, quem coordena tudo são os produtores. Assim, ter um bom produtor é decisivo para o sucesso ou fracasso de um seriado.
Toru Hirayama, lenda do tokusatsu.
É com esse trabalho gerencial que Toru Hirayama marcou seu nome no mundo da cultura pop japonesa, sendo um dos mais importantes nomes envolvidos com a indústria do tokusatsu. 


O Robô Gigante de Mitsuteru
Yokoyama
, uma das principais
séries da Toei Company
da década de 1960.
Nascido no Japão em 19 de março de 1929, Toru começou a trabalhar na Toei Company em 1954, em dramas de época com samurais. Na década de 1960, chegou a fazer alguns trabalhos como diretor, mas seu talento mesmo era ser produtor, fomentando ideias, organizando equipes e proporcionando entretenimento a gerações inteiras. Já em 1967, coordenou o grande sucesso Giant Robo (ou Robô Gigante, como foi lançado no Brasil), baseado em mangá de Mitsuteru Yokoyama

Foi de Hirayama o projeto para criar um novo tipo de super-herói mascarado, um motoqueiro superpoderoso que enfrentaria monstros de tamanho humano, eliminando os custos de maquetes que, por mais simples que fossem, tomavam muito tempo e orçamento. 

O projeto passou por várias mãos até que Shotaro Ishinomori, na época famoso por seu Cyborg 009, entrasse em cena. Inicialmente, seria usado seu herói Skull Man, mas o conceito geral foi considerado muito assustador para crianças. Então, chegou a uma forma mais agradável, com um herói baseado em gafanhoto e com a força de um herói ciborgue. 


O primeiro visual do
Kamen Rider n. 1
Em 3 de abril de 1971, estreava Kamen Rider, um dos mais icônicos personagens japoneses. A produção do mangá foi quase simultânea à da série de TV, sendo resultado de uma parceria entre a Toei e a Ishimori Pro

Depois, com sucessivas produções estabelecendo a linhagem dos Kamen Riders, o trabalho criativo de Hirayama era maior que o de Ishinomori. Muito ocupado com seus mangás, Ishinomori pouco se envolveu em algumas séries, geralmente contribuindo com linhas gerais de enredo e esboços básicos. O trabalho criativo mais expressivo acabava sendo feito por artistas anônimos contratados da Toei, sempre coordenados por Hirayama. Consta, inclusive, que Kamen Rider Stronger é muito mais uma criação de Hirayama do que de Ishinomori.


A situação é parecida com a criação da Patrulha Estelar, projeto inicial do produtor Yoshinobu Nishizaki que ganhou vida como mangá e animê graças ao desenhista Leiji Matsumoto. (Leia mais aqui.) A diferença é que Toru Hirayama não era o dono do estúdio e seu nome nos créditos nunca foi citado como sendo nada mais que produtor. E ele nunca recebeu royalties sobre as séries, mesmo tendo sido coautor de muitos personagens. 


Na década de 1970, começou a aparecer nos créditos de seriados da Toei o nome Saburo Yatsude como criador dos heróis. O nome é um pseudônimo para as equipes de criação rotativas da Toei e foi originalmente usado por Toru Hirayama quando este escreveu roteiros para seriados de samurai para a empresa Toushin TV. É seguro dizer que, nos primeiros anos em que esse nome fictício apareceu, Toru Hirayama era a grande força motriz liderando os profissionais de criação da Toei. 


Não por acaso, o pesquisador americano August Ragone já se referiu a ele como coautor de Kamen Rider e de cada série que produziu. Não estava errado pois, se Ishinomori criou o visual e enredo básico de Kamen Rider e Gorenger (o primeiro Super Sentai, de 1975), foi Hirayama quem deu diretrizes e fez os personagens funcionarem como série de TV, além de ter acrescentado muitos elementos pessoais. 


Esquadrão Secreto Gorenger
Kamen Rider Stronger (à dir.),
em foto promocional.
Em 1978, foi o maior responsável pela controversa adaptação (ou reinvenção) do Homem-Aranha da Marvel na forma de um seriado tokusatsu. O herói foi recriado como Takuya Yamashiro, que luta contra monstros usando seu poder alienígena. 

O robô gigante do aracnídeo, Leopardon, fez tanto sucesso que acabou impulsionando novamente o tokusatsu no gosto do público. Graças a esse robô, a Toei resolveu criar um grupo com um robô gigante similar. Nascia Battle Fever J (1979), originalmente uma ideia de nova parceria com a Marvel que acabou sendo alterada e pertencendo somente à Toei. Era a gênese do chamado Super Sentai, gênero de sucesso até hoje. 

Posteriormente, a Toei reconheceu a importância da equipe original Goranger e sua sucessora Jakkar (JAQK, 1977) e incluiu essas criações de Ishinomori (com Hirayama produzindo) como sendo parte do gênero Super Sentai. Isso só ocorreu nos anos 1990 e livros de referência antigos só consideravam como "Super Sentai" de Battle Fever J para a frente. Voltando a Hirayama, já dá pra perceber como o trabalho dele ajudou a moldar os heróis da Toei Company, criando ramificações intermináveis na cultura pop japonesa e mundial. 


O advento de Ultraman gerou inúmeras imitações, e quase todo herói tinha que ser um gigante, como Spectreman, Jamborg Ace, Fire Man, Zone Fighter, Green Man, Mirror Man e tantos outros. Com Kamen Rider, isso mudou e passou a ser legal a figura de um herói de tamanho humano. Ele foi o produtor responsável por muitos heróis de Ishinomori, como Kikaider, Inazuman, Zubat, Henshin Ninja Arashi, Akumaizer 3 e vários outros. 


Com um gosto pelo humor e pelo trash, ele também ajudou a estabelecer o gênero Fushigi Comedy, com histórias engraçadas para a garotada, bem longe dos heróis dramáticos que ajudou a desenvolver. Ele se aposentou na Toei em 1989, tendo produzido pouca coisa depois disso. 



Ao longo dos anos, seu trabalho foi ofuscado e seu nome é lembrado mais pelos fãs hardcore, sendo pouco reconhecido no ocidente. Muita gente no fandom acredita piamente que Ishinomori criou e produziu cada Kamen Rider, cada personagem, o que é um equívoco. 
Leopardon, o robô do
Homem-Aranha nipônico.
Quase tanto quanto Ultraman e Super Sentai, os Kamen Riders são criações corporativas, com autores anônimos que fazem diferentes partes da criação. A diferença é que Kamen Rider tem sua história e visual originais concebidos por um dos maiores autores de mangá que já existiu, e isso lhe confere credibilidade e uma aura cult. Mas quem deu o start, fez tudo funcionar e estabeleceu a marca como uma franquia de enorme sucesso foi Toru Hirayama. 

O veterano produtor faleceu em 31 de julho de 2013, aos 84 anos, vítima de problemas cardíacos. Sem ele, a Toei Company não teria se tornado a fábrica de super-heróis coloridos que é hoje, Kamen Rider não teria se tornado uma linhagem de sucesso, os heróis uniformizados de tamanho humano não teriam tomado o lugar dos heróis gigantes e sequer existiriam os Power Rangers. Afinal, foi o sucesso de Gorenger que criou a franquia Super Sentai, adaptada desde 1993 nos EUA como Power Rangers. 

Graças ao seu trabalho criando e gerenciando produções famosas até hoje, Toru Hirayama tornou a cultura pop japonesa mais dinâmica e divertida. Sem ele, tudo teria sido muto diferente. 


(Agradecimentos a Usys222, do blog Casa do Boneco Mecânico.)

11 comentários:

Usys 222 disse...

Toru Hirayama. Eis alguém que fez muita coisa, mas que injustamente não é muito conhecido por aqui. E essa matéria resumiu bem a vida e os feitos de uma pessoa que revolucionou a indústria do entretenimento do Japão. Excelente trabalho!

Interessante que Hirayama também fez roteiros para seriados de samurai em outra empresa, a Toushin TV. Nessa hora ele usava um pseudônimo: "Saburo Yatsude". E foi ele quem trouxe esse pseudônimo para ser usado pelo departamento de programas de televisão da Toei.

Ale Nagado disse...

Olá, Mr. Usys!

Mas que grande informação você trouxe, eu não sabia desse fato ligado à origem do pseudônimo Saburo Yatsude. Vou incluir no corpo da matéria, pois é informação preciosa.

Obrigado e apareça sempre. Seus comentários sempre agregam mais informação.

Abs!

Bruno Seidel disse...

Post interessantíssimo!

Veja só que curioso: eu que sou profundo admirador de produções de Tokusatsu e dedico boa parte do meu tempo assistindo ou lendo coisas sobre esse gênero sequer tinha ouvido falar do nome de Toru Hirayama!
E olha que eu reconheço o papel de um produtor. Contudo, sempre enxerguei esse tipo de profissional como um mero "gestor" nas produções mesmo. Não sabia que eles tinham interferência criativa no processo. Mas, pelo que percebe-se, ele era uma espécie de "chefe" do Ishinomori, certo?
Hoje em dia, acredito que o produtor mais famoso seja o Shinichiro Shirakura, que coordena as recentes produções Kamen Rider e Super Sentai.
Outro produtor que eu admiro bastante é o Tomoyuki Tanaka, o nome por trás do Godzilla de 1954.
Mas, depois de ler essa matéria, o Toru Hirayama passou a dominar o topo da minha lista de produtores admirados.
E se não fosse o Sushi Pop eu sequer saberia de sua existência.
Lendo essa matéria e refletindo sobre o assunto, percebo que o Hirayama é talvez o maior responsável pela identidade que o Tokusatsu adquiriu e consagrou nesses últimos 40. Se não fosse ele, talvez o próprio Ishinomori seria conhecido "somente" pelos mangás (e não pelas produções audiovisuais).
E quanto ao comentário do Usys: realmente, uma informação preciosíssima! O nome "Saburo Hatte" já se tornou um elemento "cult" na cultura pop japonesa (principalmente depois de Akibaranger). Uma pena que o grande e verdadeiro responsável por tudo isso tenha ficado a cargo do anonimato e do esquecimento.
Ao menos o post aqui no blog está fazendo uma enorme justiça!

Natália Maria disse...

Olá!!

Sou noob quando se trata de tokusatsu. Assisti à Kamen Rider Black RX na época da manchete e não lembro quase nada devido a minha pouca idade e ultramantiga na Record (se não me engando, nos anos 2000).

Ler seus posts sobre o assunto é deveras interessante. Tem muita coisa que desconheço. Preciso tomar vergonha na cara e ler seu Almanaque. xD

Quase perdi o fio da meada quando li Goranger. Acabei me lembrando de um vídeo que um amigo me mostrou de 5 rangers vermelhos... KKkk

Post foi interessante... Ansiando por mais até.

Até breve!

Ale Nagado disse...

Bruno, que legal que acrescentei uma informação relevante. Infelizmente, eu não consegui postar nada na época em que ele faleceu. Mas praticamente todo mundo apenas repetiu a notícia, sem dar a devida importância. Dizer que "faleceu o produtor de Kamen Rider" não fazia justiça à importância dele. Antes tarde do que nunca, consegui escrever essa matéria. Mesmo superficial, creio ter delineado os pontos principais.

E realmente, vi algumas vezes a referência ao pseudônimo Saburo Hatte, mas na maioria das vezes, era romanizado como Saburo Yatsude.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Natália.

O tokusatsu é parte fundamental da cultura pop japonesa. E o que expliquei sobre produtores de seriados vale para animes também. Conhecer os caminhos de uma produção é revelador, porque o processo criativo coletivo depende de muitas variáveis e interesses. Conhecer esses bastidores ajuda a apreciar e compreender melhor os títulos que tanto apreciamos.

Abração!

Douglas Deiró disse...

Nagado-San... belíssimo texto!
Escrever sobre um assunto que não é "modinha", fazendo justiça à nomes que trazem vida às produções que tanto curtimos, é um trabalho para poucos.

P.S.: Ainda bem que não parou com seu blog... é muito bom!
Parabéns!

Ale Nagado disse...

Douglas, obrigado.

Realmente, eu procuro evitar os temas mais quentes do momento e buscar homenagear figuras esquecidas ou desconhecidas por aqui. O preço disso é um blog com relativamente poucas visitas, mas que compensa sempre que encontramos um leitor que valoriza o tipo de trabalho que faço aqui.

Eu lamento não poder atualizar este blog com frequência ou regularidade, mas tempo é algo que me falta cada vez mais.

Valeu o apoio. Abraço!

medgi agcur disse...

Acompanho os heróis japas desde minha infância. Muito interessante saber que houve um cabeça por trás de tudo. Trabalhou bem e nem sempre teve o devido reconhecimento.

Ale Nagado disse...

Na verdade, Hirayama é bastante reconhecido entre fãs antigos no Japão. Aqui no Brasil é que seu nome é meio desconhecido, até entre o nicho de fãs de tokusatsu.

Minha ideia foi tentar corrigir um pouco essa injustiça.

Abraço!

pierrot disse...

Rapaz como nós podemos aprender no nosso dia a dia por meios inusitados.
Graças a um comentário no site Senpuu eu sou introduzido a uma faceta muito importantes nos bastidores do toku. E eu que pensava ser sábio somente pelo número de séries que tenho assistido nos ultimos 4 anos, que foi quando me direcionei pro gênero e que sou fã ferrenho nos dias de hoje.
Muito obrigado pelor esse conhecimento.