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Olá! O blog está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Tetsuo Kinjô, o escritor de Ultraseven

Ultraseven: O mais aclamado trabalho
do roteirista Tetsuo Kinjô.
King Joe foi um dos
mais fortes inimigos
de Ultraseven. O
nome do robô
surgiu como
uma brincadeira

com o sobrenome
do roteirista.
Na criativa e efervescente década de 1960, a Tsuburaya Production era um grande núcleo de talentos. Sob o comando do lendário diretor Eiji Tsuburaya, diversos profissionais foram organizados para criar séries que se tornaram ícones da ficção científica e dos efeitos especiais, como Ultra Q (1966), Ultraman (1966~67) e Ultraseven (1967~68). Nelas foram lançadas as bases para o tokusatsu (produção com efeitos especiais) feito para TV, com fórmulas usadas até hoje. 

Além da equipe de produção e atores, grande parte do mérito deve ser creditada, com justiça, aos roteiristas, esses profissionais normalmente afastados dos holofotes e com pouco reconhecimento mesmo entre os fãs. 


Em uma equipe de escritores que se tornariam profissionais renomados, como Shozo Uehara, Mamoru Sasaki e Shinichi Ichikawa, havia um que já era aclamado por seus pares como um talento incontestável: Tetsuo Kinjô (ou Kinjyo). 


Nascido em Okinawa em 5 de julho de 1938, o roteirista Tetsuo Kinjô trabalhou nos primórdios do estúdio, tendo escrito, sozinho ou em parceria com outro autor, roteiros para Ultra Q (12 eps.) e Ultraman (14 eps.), chegando ao seu auge criativo com Ultraseven (14 eps.). Também teve uma pequena participação em Booska, o monstrinho, série feita simultaneamente a Ultraman. 


Alien Mephilas, rival do primeiro Ultraman,
um dos muitos personagens clássicos
conceitualmente criados por Kinjô.
De Okinawa, veio um
dos mais importantes
roteiristas do

Universo Ultra.
Em Ultraman, é coautor do primeiro episódio, além de outros antológicos, como o número 33 ("A palavra proibida"), que trouxe o maligno estrategista Alien Mephilas e o fatídico episódio 39, com o final do seriado. Encerrando com ousadia, o roteiro fez o herói ser vencido por um monstro que se tornaria icônico, o Dinossauro Espacial Zetton. Nesse episódio, Kinjo também apresentou Zoffy (que na época nem tinha nome), o segundo Ultra a ser conhecido pelo público. 

Em Ultraseven, escreveu os primeiros 4 episódios, dando o tom da série, que era mais voltada à ficção científica e drama em relação a Ultraman. Apesar de ter escrito tantos episódios para Ultraman quanto para Ultraseven, foi este último que fez sua fama atravessar gerações. Vale citar, entre outros, o episódio duplo (14 e 15), que apresentou o poderoso robô gigante King Joe, cujo nome é uma brincadeira que fez com seu próprio sobrenome (Kinjô/ King Joe). 

O apoteótico final em duas partes também foi escrito pelo talentoso okinawano, que criou nele alguns dos mais épicos momentos das séries Ultras, como a revelação do segredo de Dan Moroboshi para Anne ou a partida de Seven ao som da música-tema. 

A série de ficção científica Mighty Jack também teve Kinjô, na época um dos homens de confiança de Eiji Tsuburaya. Lançada em 1968, Mighty Jack contava as aventuras da tripulação de um avançado e poderoso submarino voador e foi uma tentativa de dar um tom ainda mais sério ao tokusatsu para TV. Tinha episódios de quase uma hora de duração e durou 13 aventuras. Em seguida, estreou a segunda temporada, a Tatakae! Mighty Jack (Lute! Mighty Jack), com um tom mais leve e que durou 26 episódios. Um dos atores principais de Mighty Jack era Masanari Nihei, o Ide (Ito, na dublagem original) do primeiro Ultraman. Em um episódio, Koji Moritsugu (o Ultraseven) aparece fazendo paródia de seu mais famoso personagem. Em 1968, Kinjô também escreveu para Kaiki Daisakusen ("Operação Mistério"), série totalmente adulta de ficção científica e terror, outra obra coordenada por Eiji Tsuburaya. 
O submarino voador Mighty Jack

Após a morte de Eiji Tsuburaya em 1970, Kinjô ficaria pouco tempo no estúdio. Em O Regresso de Ultraman (1971), escreveu "apenas" um episódio, o genial 11, que começava

com um grupo de teatro morrendo após gas venenoso brotar do chão. Depois, descobre-se que naquela região o exército japonês, após perder a Segunda Guerra Mundial, havia enterrado uma grande quantidade de tanques de um gás venenoso que haviam desenvolvido. 
O monstro Mognezun,
centro de uma trama sobre
crimes de guerra
A arma química de destruição em massa fora engolida pelo monstro subterrâneo Mognezun, que ao subir à superfície se tornara uma grande ameaça. O general que havia comandado a operação do mortífero Gás Amarelo no passado já havia falecido, mas era avô de Kishida, um oficial do GAM (Grupo de Ataque aos Monstros), que assumiu para si a missão de limpar o passado da família. A história é forte, tem conotações políticas e permanece incrivelmente atual. Foi o último trabalho de Kinjô com um seriado tokusatsu. Depois disso, voltou para Okinawa, onde trabalharia em uma rádio local. 

De volta à sua terra natal, na ensolarada parte sul do Japão, sempre foi engajado contra a presença militar americana em sua terra, iniciada com o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele e sua família sofreram com a ocupação e ele se tornaria um grande defensor dos interesses de seu povo. 

Foi um dos organizadores da Exposição Marítima Internacional de Okinawa, em 1975, mas o evento teve vários problemas e lhe trouxe muitas dores de cabeça. Também deu na época uma declaração que repercutiu mal politicamente, sugerindo que as forças armadas japonesas é que deveriam proteger Okinawa, ao invés dos americanos que estavam lá. 

Porém, enquanto vários de seus colegas experimentariam grande êxito profissional em longas carreiras, Kinjô teve uma carreira e uma vida curtas. 

Um dia, chegando do serviço embriagado, caiu de uma altura de dois andares do prédio onde estava. Veio a falecer em 26 de fevereiro de 1976, aos 38 anos, vítima de traumatismo craniano. 

Nas décadas que se seguiram, foi homenageado inúmeras vezes e é considerado, com justiça, um dos principais criadores de Ultraman e Ultraseven e seu trabalho é referência até hoje.

16 comentários:

Bruno Seidel disse...

Mais um post memorável que só se encontra aqui no Sushi Pop! Parabéns por esse registro tão completo e detalhado da vida e obra do Tetsuo Kinjô. Certamente, uma das grandes mentes criativas do Tokusatsu. Impossível deixar de destacar o desfecho de Ultraman: um final surpreendente no qual temos a derrota do personagem principal e o surgimento de um outro Ultra ainda mais forte e misterioso. Esse final merece uma profunda reflexão e nos permite diversas reflexões e até lições de vida. Aliás, nunca canso de comentar que, em termos de "finais de séries", a Tsuburaya dá "de laço" na Toei. Basta analisar o currículo do Kinjô que sua criatividade e genialidade dispensam comentários. Uma pena que ele tenha tido uma morte tão "tosca" como essa aí. Um final nada digno para uma mente tão brilhante.

Ale Nagado disse...

Obrigado pela força, Bruno.

Quase ninguém percebe ou reconhece que muitos e muitos assuntos ou referências só se encontram em língua portuguesa aqui no Sushi POP. Muita coisa foi pesquisada diretamente em fontes japonesas, pois não havia nada confiável em inglês. Mas o baixo interesse por parte dos leitores desanima bastante.

Enfim, que bom que alguém considera relevante o material que pesquiso.

Voltando ao assunto do post, sim, em geral a Tsuburaya sempre soube encerrar bem suas séries. Das séries dos anos 80, gostei muito do final do Jaspion. Com reviravoltas, sacrifício de um personagem importante, solução chegando só no final... E veja só, o roteiro foi do Shozo Uehara, simplesmente um autor da mesma geração de Tetsuo Kinjô. Se o destino de Kinjô não tivesse sido tão trágico, certamente ele teria escrito muitas grandes histórias ainda. Infelizmente, só podemos especular.

Abraço!

Robinson Oliveira disse...

De uma coisa não tenho dúvida Nagado, se alguém necessitar em língua portuguesa matérias relacionadas a tokusatsu ou cultura pop japonesa não decepcionará ao acompanhar seu blog. Outro detalhe importante você não especula ou cria sensacionalismo, sempre tem a preocupação de buscar informação na fonte(japonesa). Sua própria história refleti isso.
Não é de hoje que adoro ler novidades das séries antigas dos Ultras, principalmente Ultraseven. O Tetsuo Kinjô foi completo e fez total diferença na trama do SEVEN, o final marcou minha infância(tenho 40 anos), episódio duplo, revelação de Dan e música clássica na batalha final. Tudo encaxou no ponto certo. Parabéns Nagado por transferir informações que não seria encontrado em outro lugar por aqui.
Também curti o enredo do Shozo Uehara na série Juspion(Jaspion) a história acabou tendo uma ótima finalização.
Entre os atuais escritores o Shozo é o principal Nagado?

Ale Nagado disse...

Fala, Robinson!

O Shozo Uehara foi o primeiro roteirista que chamou a minha atenção, porque minha série tokusatsu favorita "O Regresso de Ultraman", teve sua assinatura como autor principal. Depois, vi que ele escreveu Jaspion, os Policiais do Espaço e tantas outras coisas. A carreira dele foi (está aposentado) muito produtiva e longeva.

Tetsuo Kinjo morreu jovem, e já estava fora do mercado de TV quando o acidente aconteceu. Mas sua curta carreira foi das mais impressionantes. Só depois é que fui me dar conta de como ele foi importante para o que é hoje o Universo Ultra.

E respondendo à sua pergunta, sim, Shozo Uehara é meu roteirista favorito, seguido de perto por Kinjô.

Abraços!

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Um dos meus roteiristas favoritos acaba de ganhar nome e rosto, pois Ultraseven continua sendo uma de minha séries mais queridas.

Obrigado Alexandre.

Ricardo Cerdeira disse...

Ótimo post, Nagado. Sempre procuro acompanhar informações de escritores (não só de tokusatsu, mas de séries e filmes em geral).

Embora muitas vezes haja diferença entre o que sai do papel (ou, para ser mais moderno, do computador) do roteirista para o que é efetivamente filmado, é interessante notar o estilo de determinados escritores. Alguns são inconfundíveis, como Toshiki Inoue, Kunio Fujii e Yoshio Urasawa.

Sobre o Kinjo, uma análise que já li em alguns sites é que todo o clima de invasão iminente presente em seus roteiros, principalmente em Ultraseven, seria uma forma dele exteriorizar seu sentimento em relação à ocupação da sua terra natal pelos "alienígenas" americanos

Vale lembrar que Kinjo foi um dos personagens principais no fantástico "A Estrela de Ultra" de Ultraman Tiga (escrito justamente por seu contemporâneo Shozo Uehara).

Ale Nagado disse...

Rogério, eu acredito que um dos profissionais mais subestimados dentre os fãs sejam os roteiristas. Atrás de criadores, diretores, atores, dubladores, dublês, designers, produtores... Por isso acho importante escrever sobre eles. Em HQ, roteiristas são muito mais valorizados, mas em TV é bem diferente. E que bom que curte esse tipo de informação. Futuramente, talvez eu paute outra biografia.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Questões interessantes, Ricardo.

Realmente, podem existir enormes diferenças entre a ideia do roteirista e o produto final. Veja: Shozo Uehara escrevia os Ultras clássicos. Na época, não havia cenas do próximo episódio ou mesmo tema de encerramento. Quando se falava em meia hora de episódio com intervalos, sobrava 25 minutos ou mais de enredo. Não tinha longas cenas de transformação, não precisava incluir equipamentos novos toda hora, novas formas, novos heróis... O roteirista podia se preocupar mais com a história, sem tantas limitações. Antigamente, havia mais liberdade criativa e caras como o Kinjô, Uehara, Mamoru Sasaki, Shinichi Ichikawa e outros aproveitaram pra lapidar grandes aventuras.

Sobre a questão da invasão, também já li sobre como nascer em uma terra ocupada por militares estrangeiros motivou Kinjô em seu trabalho. A história que citei do Regresso de Ultraman mostrou um pouco do horror da guerra química, através de um enredo bastante ousado.

É isso. Valeu pela participação e volte mais vezes.

Abraço!

alforje disse...

Ultraseven é o herói de minha infância. Sempre que posso, procuro informações sobre a produção, bastidores e tudo mais da série, mas como você mesmo já citou nos comentários, é complicado encontrar fontes confiáveis na internet.

Melhor mesmo é aguardar artigos honoráveis como este, que nos abastecem o coração de nostalgia e nos presenteiam com informações tão valiosas e esclarecedoras sobre nossos heróis dos heróis: os roteiristas dessas séries.

Outra coisa com a qual também concordo: os seriados clássicos da família Ultra, por não terem a preocupação com cenas de transformação, super closes rotineiros de artefatos mágicos ou ultra-tecnológicos e todo esse merchandising de brinquedos, são seriados que possuem um teor que me atrevo a classificar até como algo "literário": como certos contos de ficção-científica. Um dos episódios de Ultraseven que ilustram essa ideia é aquele em que os Alien Poll causam uma nova era glacial na Terra, com o objetivo de facilitar a invasão e a derrota do herói.

Obrigado pelo artigo, Nagado!

Ale Nagado disse...

Alforje, comentários assim dão ânimo pra continuar postando assuntos como esse, longe das modas e do interesse da maior parte do público interessado em cultura pop. E espero que tenha visto também as biografias de Shozo Uehara e demais citados no post do Kinjô.

Ultraseven tinha um nível de informação que só podia ser bem captada pelo público mais velho. Como no episódio em que Ultraseven ajuda a humanidade a destruir uma cidade espacial que estava em rota de colisão. A civilização alienígena havia enviado um agente para abrir caminho destruindo nosso planeta com uma bomba e Ultraseven o deteve. Ele se pergunta se tomou a decisão correta. O tema é retomado anos depois em um especial em DVD. Realmente, um clássico da FC.

Abraço!

alforje disse...

Sim, teu artigo sobre o Shozo Uehara eu li em Fevereiro deste ano, até deixei um comentário meu lá (sob o nome Rodrigo)!

Ô Nagado, não estaria na hora de você produzir um outro livro? Que tal algum que tratasse justamente desses heróis gigantes? Ou um que fosse direcionado ao legado de Eiji Tsuburaya? Você é o cara mais indicado para a tarefa, pois acho que não há nenhum outro pesquisador de mais gabarito que você no Brasil.

Ale Nagado disse...

Alforje, obrigado pela consideração. Já pensei em fazer um livro só sobre Ultraman. Porém, já escrevi livros que não venderam bem e mesmo o e-book de preço baixo teve procura tão insípida que acabei liberando o download grátis. Mais de 1500 baixaram, mas o feedback continuou muito baixo. Tem alguns assuntos que nem dentro do fandom despertam interesse.

Por estar cansado de dedicar horas e horas de esforço a trabalhos sem retorno financeiro ou sem feedback satisfatório, resolvi parar de dar murro em ponta de faca. Como minha prioridade é a sobrevivência e manutenção da minha família, não tenho como me dedicar a projetos movidos a idealismo. Pra mim, já não é mais investimento, pois já fiz muito disso sem retorno.

Vontade e capacidade para fazer um grande livro sobre a Tsuburaya e os Ultras eu tenho, mas quem, além de algumas dezenas, compraria?

De qualquer forma, obrigado. E apareça mais vezes aqui no Sushi POP.

Abraço!

Marcelo Beat disse...

Excelente, Nagado! Seu blog é obrigatório. Também sou roteirista, e artigos sobre esses caras me interessam muito! Sou meio relapso para fazer comentários, mas pode ter certeza de que sempre devoro seus posts! Parabéns e obrigado por dividir sua sabedoria com a gente!

Ale Nagado disse...

Olá, Marcelo! Obrigado pela força.

Se depender de mim, ainda escreverei mais biografias para o Sushi POP. Pode ter certeza que eu sempre vou querer divulgar nomes pouco conhecidos, que trabalham nos bastidores das produções.

Abraço!

Gilmar Oliveira disse...

Olá Nagado!

Tudo bem contigo?

Admiro seu trabalho desde os tempos da Herói. Por meio dos seus esforços, aprendi a gostar mais e mais dos tokusatsus, indo atrás das referências, conhecendo os atores, trilhas sonoras, enfim, tudo que envolve esse trabalho que gosto tanto. Creio que seja meu primeiro comentário aqui e gostaria de pedir que apesar das dificuldades, continue com o blog, é espetacular encontrar seu material, me ajuda também a continuar a pesquisar. Grande abraço!

Ale Nagado disse...

Gilmar, obrigado pelo apoio.
Não me vejo escrevendo este blog por muito mais tempo, mas espero pubicar ainda algumas coisas interessantes.

Abraços!