quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Trabalhando por moedinhas



Uma coisa muito antiga no ramo de prestadores de serviços (e desenhistas, designers e redatores o são) é aceitar preços baixos para começar, para conquistar clientes, para "fazer nome". E existem muitos clientes pequenos e médios que realmente vão atrás de preço antes de qualidade. Algumas vezes, até dão sorte de conseguir os dois. Porém, que ninguém se iluda achando que o cliente que te pagou 10 reais por um serviço vai aceitar quando você cobrar 20 e nem achar que ele vai te indicar pra um grande amigo que vai pagar 100.


Sempre tive, mesmo no começo de carreira, alguns parâmetros, algumas intransigências quanto a valores. Em momentos de aperto, claro que aceitamos um serviço que não paga tão bem quanto o que gostaríamos. O mercado não é feito só de grandes clientes e grandes empresas, mas de muitos pequenos e médios também. Porém, ter flexibilidade perante um orçamento mais apertado não significa trabalhar por valores humilhantes ou esmolas achando que assim se irá crescer na carreira "com muita garra e determinação", só pra usar a linguagem desses oportunistas gigolôs de artista e jornalista. Orgulho não paga conta, mas tampouco agir como morto de fome funciona.


Freelancer não recebe fundo de garantia, férias, décimo-terceiro salário, não ganha hora extra, licença ou nada assim. Ganha pelo que produz e pronto. Ganhar 3 mil reais como freelancer num mês e 3 mil como contratado são duas coisas muito diferentes. Se você ainda tem empresa e paga contador, piora mais. Por isso, o profissional tem que se valorizar, porque na hora do aperto, aquele cliente que te pediu um favorzão vai é te dar um tapinha nas costas e te desejar sucesso. Aliás, pra alguns, sucesso é trabalhar com o que se gosta, ser elogiado e estar em evidência, mesmo que isso signifique passar por privações devido a pagamentos ridículos - situação amenizada quando se mora com os pais. 

Hoje existem vários sites que intermediam empresas e profissionais freelancer. O que mais se vê é leilão de profissionais (ilustradores, designers, jornalistas...), uma praga que não para de crescer. Há empresas que oferecem R$ 1,00 ou R$ 2,00 por um artigo encomendado. Sim, você leu certo e eu tive o desprazer de ler propostas assim. Prefiro escrever o que dá na telha para o meu blog. E caricaturistas (alguns bons até) oferecendo-se para desenhar um convite de casamento por R$ 15,00, parcelados em três vezes no cartão. Eu cobro R$ 150,00 por uma caricatura de casal, sei o trabalho que isso dá e lamento que esse mercado tenha sido invadido por um povo baratinho que acha que está levando vantagem.

Com 40 anos de idade e família pra manter, não dá pra competir com o preço de quem age como um moleque que mora com os pais e está tirando onda de artista profissional. Com isso, parte do mercado vai se acostumando com esse leilão de gente talentosa, pagando migalhas ridículas e vendo gente fazer fila pra oferecer seus serviços. 


Daí, um dia, o "profissional" se dá conta de que "não dá pra viver de arte no Brasil" e vai fazer outra coisa. Mas aí, o cidadão já ajudou a prejudicar o mercado que deixou para trás. 

13 comentários:

Zona Negativa disse...

Olá Alexandre,
Tenho muitos amigos na área e infelizmente é uma realidade esta invasão do mercado pelos "amadores". Mas, creio que seja mais uma consequência da visão amadora que a maioria das empresas tem da necessidade de uma identidade visual do que falta de noção dos artistas em saber avaliar seu trabalho.
O mercado brasileiro está crescendo muito rápido e se enchendo de empresários sem o menor preparo e que no caso preferem pagar pouco pelo trabalho de ilustradores e designer. A consequência disso é o isentivo ao amadorismo e a desvalorização do trabalho criativo.

Mestre Ryu Kanzuki disse...

Infelizmente o mercado artístico no Brasil foi desvalorizado por anos. Tudo bem que existem fases de pico, destacam-se us artistas e outros, mas é preciso de uma amplitude. As pessoas precisam abrir sua mente para o que é realmente cultura ou vamos ter que consumir só o que vem de fora toda vida.
Ótimo artigo e desabafo. Como sempre genial. Parabéns, Nagado.

Edde Wagner disse...

Bem escrito, Alexandre. Concordo totalmente com você!
Mas você comentou de ' moleque que mora com os pais e está tirando onda de artista profissional '. Pior que isso, é que tem muito 'moleque' de 30 anos ou mais por aí, geralmente solteiros e de classe média pra cima prestando serviços. Alguns até famosos!
Abração!

Milton Diogo disse...

B ah, já sei quem vai fazer minha caricatura do meu casamento um dia.

Acho que foi voc~e quem postou sobre o blog do Di Vasca uma vez aqui. Eu favoritei, e fique perplexo ao saber como as pessoas tratam esses artistas.

"Possibilidade de reconhecimento em ambito nacional" como pagamento, my ass!

Michel disse...

Essa situação me lembra um episódio do Chaves, acho que era aquele das barraquinhas de suco, em que o Chaves e o Kiko ficam abaixando o preço, pra ver de quem a Chiquinha iria comprar o suco. E no final das contas, o Kiko abaixou tanto, que acabou dando de graça! Acho que era mais ou menos assim...

Patrick Raymundo disse...

Quando você colocou aqui o site do Di Vasca, também entrei para ler e fiquei espantado com o tratamento que algumas pessoas dão ao trabalho de artistas profissionais. Fico impressionado com essa história de ofertar um trabalho a R$1,00 ou R$2,00, principalmente por que sou jornalista, mas é a pura verdade de nosso mercado. É triste ver isso!

Bruno Seidel disse...

"Faz uma caricatura minha aí, rapidinho! Te pago um café depois." ... é mais ou menos assim que funciona. Mas essa briga é tão antiga quanto lamentável. O ramo artístico realmente não tem o valor que merece. As pessoas acham mesmo que o desenhista não tem direito de cobrar nada mais do que a tinta da caneta e o papel que está usando. A vida de freelancer pode parecer muito cômoda à primeira vista (sem chefe, sem horário, sem cartão ponto...) mas, em contrapartida, é preciso matar um leão por dia. Num mês você pode faturar R$ 7 mil e, no outro, não chegar a R$ 1 mil. Por isso que eu considero a minha atual situação bastante cômoda: tenho emprego fixo, salário garantido na conta todo mês, férias, 13º, FGTS, consigo pagar as contas (apartamento, IPTU, gasolina, água, luz, telefone...) e ainda tenho um tempinho sobrando para, eventualmente, fazer algum "bico" por fora (nem que eu precise sacrificar algumas horas de sono pra isso). Isso sim eu considero "ideal" para quem gosta de trabalhar no ramo: faça o que você gosta, mas não abra mão da sua GARANTIA de sustento. Pretendo consolidar uma forma de trabalho "paralela" (ultimamente ando recebendo algumas propostas referentes a quadrinhos), mas em situação nenhuma penso em deixar em segundo plano meu emprego de verdade, que é a minha garantia OFICIAL de sustento. Trabalhar como freelancer pode até ser bom mas, todos aqui concordam: ganha-se muito mal e a valorização do profissional é ridícula.

Anttonio Pereira disse...

Eu cobro R$ 10,00
E não gostei de ser chamado de moleque.

Anttonio Pereira
http://anttonioportfolio.blogspot.com/

Alexandre Nagado disse...

Anttonio Pereira:
Sinto muito se você se sentiu pessoalmente ofendido. E que você possa valorizar mais seu trabalho, que é muito bom.

Bruno:
No meio publicitário, existem desenhistas freelancers que ganham mais de 10 mil reais por mês, o que é muito bom frente ao quadro geral da profissão. É preciso conhecer todos os lados da questão.

Abraços!

Virtual Project disse...

Nossa, acabei de passar por isso. Estive morando no exterior e acabei de voltar. Com isso, tive de voltar ao mercado como freelance pq não dá pra esperar o maravilhoso emprego registrado aparecer. Geralmente, pelo menos no meu caso, qdo me oferecem um frila, já existe um 'preço' associado a ele, mas outro dia encontrei uma oferta lá no LinkedIn e, quando fiz contato, a contratante me pediu um orçamento. Eu só tinha feito um na vida, hehehe (e era uma situação completamente diferente: uma cobertura de dois meses e meio de um grande evento esportivo no exterior - para esse orçamento, um projeto completo, eu jamais recebi sequer uma resposta, algo que acho, no mínimo, desrespeitoso!). Bom, mandei meu orçamento e fiquei aguardando a resposta (claro que dei algumas cobradas, hehehe). O trabalho é uma cobertura de um dia com a produção de quatro matérias em inglês com base nas mesas-redondas que vão rolar no evento. Acabei sendo contratada e minha contratante me disse que recebeu diferentes propostas com valores variando de R$ 400 a R$ 12 mil. Eu me choquei tanto com quem pediu R$ 400 quanto com quem pediu R$ 12 mil. A contratante, que me mostrou bom senso, me disse que imaginou que um trabalho feito por R$ 400 talvez não tivesse a qualidade que ela precisava. Eu cobrei bem mais que os R$ 400, mas obviamente bem menos que os R$ 12 mil. R$ 400 sinceramente não pagam nem a saída de casa e R$ 12 mil, vamos combinar, é uma afronta para, no máximo, 3 dias de trabalho (um para o evento e dois para a produção dos textos - até pq serão matérias com base em discussões que vão rolar no evento e a quantidade necessária de pesquisa será mínima!). Enfim, como se não bastasse as empresas estarem optando por contratar apenas a 'molecada', que topa trabalhar por qq coisa (e eu nem me considero velha, mas acho que meu trabalho tem qualidade e, com isso, um determinado custo), ainda tem quem faça questão de trabalhar por pouco. Se a pessoa é recem-formada e quer entrar no mercado (e eu sei como é difícil pq qdo comecei tive colegas trabalhando por R$ 500 por mês pra ganhar experiência - algo que eu não podia fazer pq eu não ganhava mesada da mamãe -, mas eu insisti até encontrar quem quisesse me contratar pelo piso da categoria, que era pouco, mas era ok pra começar), devia, ao menos, lembrar tudo o que foi gasto por seus pais até ali.

Roseli Andrion disse...

Fui eu quem mandou o comentário anterior, mas esqueci de mudar o nome, hehehe. :-)

Ale Nagado disse...

Roseli, esse caso que contou se encaixa no que tenho vivido ultimamente. O mercado dos grandes clientes (que podem pagar 12 mil por um freela) é bastante restrito e nem todos conseguem se enquadrar. E o extremo oposto é humilhante. Conseguir se posicionar bem no caminho intermediário é um desafio para a maioria dos profissionais de criação.

abs!

Roseli Andrion disse...

Pois é, Ale. Claro que se alguém quiser me pagar 12 mil por um frila, eu vou adorar, hahaha. O negócio é que precisa existir bom senso. Um trabalho de três dias não vale isso (e três dias eu estou chutando bem alto - pq, com as anotações ou a gravação em mãos, dá pra escrever as quatro matérias em um dia apenas). Fico pensando que eu talvez pudesse ter cobrado um pouco mais, mas não acho que me humilhei no valor cobrado - e, além disso, poderia arriscar perder o cliente. Enfim, claro que o valor tem de refletir o tabalho e sua qualidade (no meu caso, os R$ 400 não refletem), mas eu não preciso extorquir o contratante, né?! Por exemplo, achei bem ok o valor que vc cobra por uma caricatura de casal. A gente tem de colocar valor no nosso trabalho (não estou dizendo que quem cobra menos não tem qualidade, apenas que talvez a pessoa ainda não tenha essa consciência) e uma margem de negociação qdo necessário. :-)