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terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma reflexão sobre agressividade juvenil e a violência em filmes, games, gibis e desenhos

Street Fighter, ícone dos games
considerados violentos
Outro dia, em uma reportagem de TV sobre um caso de violência estudantil, uma delegada deu um depoimento dizendo que são os videogames e filmes que deixam os jovens de hoje tão agressivos. Esse discurso é antigo, apresenta uma visão simplista e encontra boa recepção em muitas pessoas. Mas vamos analisar um pouco melhor a questão.

Se seguirmos a definição da delegada, vale uma pergunta: por quê no Japão, onde existem tantos desenhos, games e filmes violentos, os índices de violência são considerados baixos? “A educação lá é diferente”, dirão os que conhecem um pouco sobre a sociedade japonesa. Então, isso equivale dizer que as crianças e jovens brasileiros são mais influenciáveis por programas e jogos violentos em relação aos japoneses. E que, por isso, deveriam ser “protegidos” de ver tal conteúdo. Isso não é fugir do problema? Nossos jovens são mais incapazes, emocionalmente frágeis, psicologicamente imaturos e culturalmente pobres a ponto de apenas imitar o que veem, sem capacidade de filtrar realidade e fantasia?



Obviamente, imagens violentas podem chocar, assustar ou serem imitadas por crianças pequenas e ninguém há de concordar que seja saudável para uma criança de 5 anos ver alguém ser metralhado e achar legal. Não é disso que falo. O tema da reportagem era violência entre adolescentes, não crianças, por mais que a sociedade atual tenha feito a infância mais breve e a adolescência se estender indefinidamente em termos de maturidade.



Mentes psicóticas (que sempre existiram aos montes) sempre vão buscar alguma forma criativa de canalizar seu comportamento antissocial. Se não for um jogo, um gibi ou filme, será uma notícia que ouviu falar ou poderá exercer sua criatividade maligna para cometer seus crimes. Ou será que a violência humana teria surgido na sociedade somente após o advento de filmes, gibis e jogos sejam eletrônicos ou de RPG? E o que dizer de atos de grande barbárie cometidos por gente que sequer vê televisão e vive a rezar como membro de algum grupo religioso radical? 


Nesse eterno empurra-empurra, o que vem depois? Depois que até jogos de RPG foram feitos de vilões, será que ainda vão criticar contos de fadas com alguma violência na história? Essa superproteção idealizada por alguns pode gerar pessoas incapazes de encarar qualquer dificuldade mais pesada na vida ou, pior ainda, incapazes de encarar problemas. Não é psicologia barata. Ser insensível à violência (um efeito da excessiva exposição à imagens violentas) pode ser um problema grave, mas ser sensível demais a qualquer coisa também pode criar fraquezas e medos excessivos. 

O que me incomoda é a hipocrisia que toma conta de setores da mídia, que compram essa ideia simplista de achar que proibir (e não apenas classificar coerentemente horários) é a solução.

Eu sou totalmente a favor de classificações indicativas conscientes, mas contra a censura prévia e reconheço que certas imagens e situações podem ser perturbadoras para crianças. Porém, não é dever dos pais e educadores ajudar a filtrar esse conteúdo.

Ao ver um filme violento como, por exemplo, algum da cinessérie Máquina Mortífera, o garoto deveria se identificar com os heróis. Violentos, sim, mas são policiais que agem duramente contra criminosos perigosos. Eles não saem espancando gente de quem não gostam gratuitamente e não bancam os valentões pra intimidar gente inofensiva. Isso é atitude dos malfeitores e, se os garotos sentem necessidade de imitar os maus, há um problema grande a se ponderar e tentar entender e trabalhar, não apenas sufocar. É parecido com os garotos que ouvem e cantam músicas que falam em matar gente. 

Em seu livro Brincando de Matar Monstros (Ed. Conrad), o roteirista Gerard Jones fala sobre a função catártica de brincadeiras violentas e consumo de entretenimento com imagens agressivas. Isso teria, dentro de certos limites, a função de alívio ou válvula de escape de tensão, uma forma de lidar melhor com a agressividade interior sem ter que vivenciá-la ou extravasá-la no mundo real. Usar isso para se inspirar a agredir e intimidar com base em egoísmo e falta de limites (que devem ser colocados na mais tenra idade) é sintoma de uma deterioração de valores humanos. Mas, como sempre, é mais fácil culpar algo que pode ser bloqueado ou proibido do que encarar o longo e penoso desafio de assumir as rédeas na educação dos jovens.

Voltando à questão que motivou esta análise, é por causa de gente como a delegada da tal matéria que gente como eu, que escreve sobre HQs e desenhos eventualmente violentos, vai passar a vida se justificando ou explicando o óbvio. A culpa pela violência não é dos desenhos, games, filmes ou gibis. O problema é a forma como os jovens são educados para filtrar o que recebem da mídia.

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5 comentários:

Bruno Seidel disse...

Eu tenho esse livro "Brincando de Matar Monstros", até cheguei a emprestá-lo para um professor de Sociologia com quem converso com frequência. Pra mim, esse é um assunto absolutamente superado, que dispensa qualquer argumentação. Sinceramente, só consigo classificar como ignorância, hipocrisia ou implicância mesmo o caso desta delegada. A única vantagem que eu vejo nessa discussão é que acabo me sentindo mais inteligente do que certas pessoas.

Mestre Ryu Kanzuki disse...

Acredito que o grande problema está na educação. As declarações da delegada são apenas suposições assim como a mídia e a política que cai em cima. Só que não buscam o real problema. A mídia está atrás da audiência e às vezes vê essas obras como adversários, a política sabe que o problema é a educação mas gosta de desviar o assunto e alguns policiais, como essa delegada, preferem aderir a suposições sem ligar provas concretas. Até os especialistas já levaram em consideração que os jogos, cinema e afins não incentivam a violência nos homens. Até a Globo já se convenceu com aquela série "Outros olhares" falando do lado bom dos games. Agora a Record resolve fazer uma matéria querendo voltar a uma questão já resolvida. Nagado, você lembrou bem as estatísticas do Japão, e é por esse motivo que levo a questão da educação em consideração. No Japão, o estilo de vida é muito mais fino em termos de saúde e educação. É preciso que o Brasil exista uma melhor condição desses dois fatores, começando com projetos de programas mais incentivadores, para que coisas assim não aconteçam tão frequentemente. Se educarmos bem o Brasil, teremos um país mais saudável.

Alexandre Nagado disse...

Bruno, pra gente que conhece o assunto chega a ser desanimador ver a questão sempre voltar à estaca zero. Já fui sabatinado numa palestra por algumas professoras preocupadas com a questão da violência. Felizmente as pessoas racionais concordam que a origem dos problemas está na educação que vem de casa.

Anônimo disse...

"a função de alívio ou válvula de escape de tensão, uma forma de lidar melhor com a agressividade interior sem ter que vivenciá-la ou extravasá-la no mundo real."

Esse assunto é batido. Mas o mesmo argumento é usado pelos japoneses para defender a legalidade dos lolicons da vida, por exemplo. Nesse sentido as fronteiras já não são tão claras.

O que vocês acham desse ponto?

Alexandre Nagado disse...

Olá, anônimo. A questão está batida para quem tem esclarecimento. Para quem não tem, vive sendo abordada da maneira errada.

Sobre sua pergunta, vale lembrar que eu sempre indico (e o Gerard Jones também) que essa função catártica funciona dentro de certos limites e com acompanhamento. Um jovem se divertir com um jogo em que ele atropela velhinhas ou mata crianças pode até (eu digo PODE, não estou sendo taxativo) ser indicativo de alguma psicopatia oculta a ser acompanhada.

O mesmo vale para o consumo de material como o Lolicom, que é facilmente ligado a pedofilia. Porém, são duas culturas diferentes. O que aqui seria julgado como apologia à pedofilia (quadrinhos eróticos protagonizados por personagens crianças) lá pode ser visto como um mecanismo de alívio.

Acredito que esse material deva ser visto com reservas. Valeria um debate mais detalhado com psicólogos aptos a separar as fronteiras entre o que é catarse e o que é incentivo.

Mas para a maioria dos casos - e foi isso que motivou mais esta postagem, vale a analogia sobre válvula de escape.

Abraço!
PS: É sempre bom se identificar, ainda mais quando traz uma questão assim pertinente.