sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Rei dos Editores (Henshuu Ou)

Henshuu Ou - Pela primeira vez, um
mangá abordou o
mundo dos editores.
No competitivo mercado dos mangás no Japão, uma figura fundamental e pouco conhecida é a do editor. Cabe a ele fazer a ponte entre o autor e a empresa que o publica, cuidando para que prazos sejam cumpridos e muitas vezes até mesmo interferindo nos rumos da história. Especialmente nas revistas semanais para rapazes, ao analisar votações de público e reações dos leitores, os editores pedem mudanças e alterações. 


Editores de mangá precisam ser exigentes e saber lidar com prazos, egos inflados de muitos autores e conciliar tudo com os interesses dos donos das editoras. 

Em obras de referência como Manga Manga – The world of japanese comics, de Fred Schodt, conta-se até a história de um autor que, não aguentando a pressão de prazos e a presença de seu editor em sua casa aguardando impaciente a entrega da história, fugiu pela janela do banheiro. Não adiantou e foi trazido de volta para acabar o trabalho. 

No sistema editorial japonês, onde as revistas são antologias com histórias de vários autores, coordenar os trabalhos é tarefa muitas vezes dividida por mais de um profissional e, nas disputadas publicações semanais, uma coordenação precisa do trabalho dos editores é fundamental para que a engrenagem se mantenha em movimento.

Quando um autor falha, seja por motivo de doença, como já aconteceu até com Rumiko Takahashi (Ranma ½), um editor seleciona material de um iniciante para “tapar o buraco” e assim por diante. Editores são tão implacáveis ao cobrar prazos dos autores que é comum o editor ir à casa dos autores mais irregulares e ficar lá até o trabalho ser entregue em mãos ou então literalmente prender o autor e assistentes em um hotel para que terminem no prazo.

Muitas vezes uma figura temida pelo iniciante e até pelos veteranos, editores trabalham nos bastidores e nunca têm seu valor bem reconhecido ou percebido pelo público. Pois é sobre esse mundo que trata o mangá "O Rei dos Editores", tradução para “Henshuu Ou”, de Seiki Tsuchida.
No traço de Tsuchida, as muitas
vezes tensas relações
entre artistas e editores.

DE PUGILISTA A EDITOR DE MANGÁS

Henshuu Ou conta a trajetória de Kanpachi Momoi, um rapaz do campo que aspira ser campeão de boxe, sendo fã do lendário mangá Ashita no Joe, de Tetsuya Chiba. Após sofrer um descolamento da retina em combate, o que o impossibilita de continuar nos ringues, um amigo lhe arranja emprego como editor.

Homem franco e apaixonado por quadrinhos, mas também direto e um tanto rude, Kanpachi aprende a lidar com as exigências da profissão. Para um editor capaz de literalmente partir um autor problemático ao meio, ele se mostra humano e capaz de grandes gestos. Kanpachi também ajuda uma jovem editora que encontra resistência por ser mulher e ter que lidar com autores homens, que não a respeitam ou reconhecem sua competência. 

A história apresenta muitas situações sobre o desgastante trabalho do editor e as delicadas relações destes com os artistas dos quais depende seu trabalho. Kanpachi conhece tanto um autor veterano que produz de forma burocrática e sem paixão, quanto um autor jovem, desconfortável e inseguro criativamente por ter que desenhar cenas eróticas para aumentar as vendas. São situações reais, cuja intensidade é valorizada pelo traço de Tsuchida, que segue uma linha mais realista e se enquadra na categoria dos gekigá (desenhos dramáticos).

O autor Seiki Tsuchida nasceu em 21 de março de 1969, na cidade de Akita (Japão) e se destacou com obras para o público juvenil e adulto, como “Orebushi” e “Onaji tsuki o mite miru”. Henshuu Ou estreou em 1993 na revista para jovens adultos Big Comic Spirits (Ed. Shogakukan) e rendeu 15 volumes encadernados (10 numa reimpressão mais recente). 

O sucesso do mangá acabou levando à produção de uma novela, ou J-drama, que é como têm sido chamadas as novelas nipônicas fora de seu país. Exibida entre outubro e dezembro de 2000 na Fuji TV, o drama teve 11 episódios semanais (formato comum para novelas japonesas) e foi estrelada por Taizou Harada no papel de Kanpachi.

A premissa do mangá é extremamente interessante e, por si só, valeria uma chance no mercado ocidental. Coisa que até agora, inexplicavelmente, não aconteceu. 

Algumas considerações:

* Uma divertida metáfora dessa relação "autores versus editores" foi vista em um episódio do seriado Policial de Aço Jiban (1989), onde um monstro devorador de mangás prendia um garoto e ficava obrigando ele a desenhar mais páginas para não ser morto. Qualquer semelhança do monstro com um editor de mangás não pode ter sido mera coincidência...

* Grande sucesso no Japão – e popular entre os fãs brasileiros, o mangá/ animê Bakuman, estreou em 2008 e conta a história de dois jovens aspirantes a mangaká (autor de mangás). Apesar de produzidas em épocas bem diferentes, Bakuman e Henshuu Ou podem ser encaradas como histórias complementares, por uma apresentar a visão do artista iniciante e a outra, do editor iniciante. Bakuman é criação de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, os mesmos autores de Death Note

* Ainda não li uma única história de Henshuu Ou. Me informei sobre ela primeiro no livro Dreamland Japan, de Fred Schodt e, recentemente, procurei mais informação na internet, mas há pouca coisa disponível. Quem sabe esta postagem não desperta o interesse de alguma editora? Eu adoraria ler esse mangá. 

ATUALIZAÇÃO (2012) 

- Seiki Tsuchida faleceu em 21 de abril de 2012, aos 43 anos, vítima de cirrose. Uma grande perda para os quadrinhos japoneses. 

4 comentários:

Enivaldo disse...

Essa matéria devia ser vista por todos amadores que sonham publicar seu trabalho. Quando se é amador a visão que se tem do mercado editorial é totalmente diferente da dura realidade. Quem, como eu por exemplo, já tentou sair do amadorismo ao tentar publicar um trabalho, muito provavelmente enfrentou muitas dificuldades inesperadas.
O mercado editorial não é um mar de rosas como sonham muitos amadores...

Um abraço,

Enivaldo

Alexandre Nagado disse...

Eu fiquei fascinado com a premissa de Henshuu Ou. Mesmo tratando de uma realidade editorial totalmente diferente da nossa por ser focada em criação local e não em tradução e adaptação, deve ter muito a ensinar. Tanto a artistas quanto a editores.

Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Kanpachi Momoi lembrou Tostão (copa de 1970) no caso do descolamento de retina. De fato o ex-atleta teve que abandonar a carreira precocemente por causa da retina.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stefano!

Sim, e Tostão depois virou médico e também um dos grandes cronistas esportivos que este país já teve. São as linhas tortas pelas quais Deus escreve grandes histórias.

E o personagem Kanpachi tem isso de parecido mesmo. Tendo sua carreira esportiva interrompida precocemente, acaba por acaso descobrindo uma outra vocação.

Falou! Abraço!