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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Leiji Matsumoto e o Yamato - Bastidores da criação da Patrulha Estelar

Conheça a história por trás da criação de um dos animês mais importantes de todos os tempos, motivo de uma briga judicial entre o produtor e o desenhista da série.
O Yamato foi alvo de uma
longa disputa judicial

O site Henshin (que nasceu como revista), da Editora JBC, está comemorando 10 anos e disponibilizando as entrevistas mais importantes que já foram publicadas na fase impressa do título.

A que abre essa retrospectiva foi feita com o criador da Patrulha Estelar, Leiji Matsumoto. Como estamos próximos da estréia da versão live-action da saga, é interessante analisar a entrevista (feita 10 anos atrás) e colocá-la no contexto atual, já que Matsumoto (hoje com 72 anos e ainda em atividade) não participou da nova produção.

Agora, uma curiosidade: eu trabalhava na Ed. JBC na época e ajudei na pauta dessa entrevista (e em algumas outras também). Duas das perguntas para Matsumoto foram escritas por mim.

Henshin: A diagramação de suas histórias é maravilhosa e incomum. Como é o processo de elaboração? O roteiro é todo escrito antes de ser desenhado ou a história vai sendo esboçada através de rascunhos, junto com o texto?

Matsumoto: O meu roteiro de trabalho é o mesmo desde que comecei a fazer mangás: sempre faço primeiro a concepção gráfica, baseada em rascunhos de desenhos. Os diálogos são escritos na fase final do trabalho, quando a parte visual já está praticamente pronta.

O lendário autor de mangás e
animês, Leiji Matsumoto
Henshin: Muito do charme do Yamato clássico deveu-se a trilha sonora, com os temas de Hiroshi Miyagawa e as canções interpretadas por Isao Sasaki. O senhor teve participação na elaboração do conceito musical da série?

Matsumoto: Sim. Gosto de participar de todo o processo de criação. Eles eram ótimos profissionais, mas, mesmo assim dei opiniões a respeito do que era melhor, em termos de arranjos, roteiro musical, etc.

As perguntas refletiam meus dois assuntos criativos favoritos: HQ e música e foi uma honra encaminhar perguntas a uma lenda viva do mangá e animê. Porém, agora, gostaria de analisar alguns pontos que valem uma reflexão para quem se interessa por bastidores da indústria de entretenimento.

Ao mencionar as similaridades entre Jornada nas Estrelas e Patrulha Estelar, Matsumoto cita Majel Barrett, atriz que viveu a personagem da enfermeira Chapel e também viúva de Gene Roddenberry (criador de Jornada). É dela a frase (equivocada) de que ambas as sagas mostravam naves com tripulações multirraciais, o que daria a ideia de um mundo mais harmonioso no futuro. 

A visão foi ocasionada pela versão dublada nos EUA do desenho, que deu nomes ocidentais ao grupo, transformando Kodai Susumu, Shiro Sanadá, Daisuke Shima, Kato e Yuki Mori em Derek Wildstar, Sandor, Marc Ventury, Conroy e Nova (Lola, no Brasil), além do próprio Yamato, que virou Argo (um nome que extirpou sua ligação com o navio da Segunda Guerra - aliás, um navio aliado da Alemanha nazista). A personagem Lola era loira, mas isso é daquelas liberdades poéticas do mangá. E o Yamato não só leva a forma do navio da Segunda Guerra, como simboliza o próprio espírito japonês. Lembrando que, na época em que foi criado (década de 1970), havia poucos estrangeiros vivendo no Japão e mestiços nascidos lá eram mais raros ainda, quase uma impossibilidade demográfica. Politicamente correto, Matsumoto quis reforçar esse conceito multirracial, adaptando-se aos novos tempos.
O produtor e co-criador do Yamato,
Yoshinobu Nishizaki

Sobre a parte em que ele menciona os direitos da série, Matsumoto e o produtor Yoshinobu Nishizaki se desentenderam feio nos rumos da franquia e a briga foi parar nos tribunais. Na época da entrevista à Henshin, Matsumoto estava por cima, por conta da prisão de Nishizaki por envolvimento com drogas e armas.Mas as coisas mudaram com o tempo e Nishizaki, livre de seus problemas com a lei, também conseguiu para si todo o controle sobre o Yamato. A briga começou em 1995, quando Nishizaki lançou Yamato 2520, obra sem participação de Matsumoto e com design do americano Syd Mead (desenhista de produção de Blade Runner e Aliens). Sem receber créditos pela co-autoria da obra original e sem poder opinar sobre a nova produção, Matsumoto foi à justiça e venceu num primeiro momento.

Para se entender melhor o caso, deve-se ter em mente que a ideia da série originalmente partiu de Nishizaki, que contratou outros designers para conceituar a espaçonave. Nada estava dando bons resultados. 


Quando Matsumoto foi convidado a entrar no projeto, tudo, literalmente, decolou. Em sua série de mangá Denkou Ozma (de 1961), o autor já havia usado o nome Yamato para batizar um foguete espacial. No mesmo ano, um conto de Ikki Kajiwara já havia apresentado o lendário navio Yamato em uma versão capaz de voar (mas sem ir ao espaço), com um capitão chamado Okita (conhecido no ocidente como Cap. Avatar).

A história, intitulada Shin Senkan Yamato (ou "Novo Encouraçado Yamato") virou mangá desenhado por Tetsuya Dan em 1963. Por seu Yamato em 1974, Matsumoto foi ameaçado de processo por plágio, mas nada aconteceu. Por mais que um mesmo navio real tenha sido usado como modelo, há muito o que se discutir sobre as soluções de design adotadas. 
O esquecido Yamato de Ikki Kajiwara e Tetsuya Dan
Assumindo a criação de personagens, naves, roteiro do mangá e animação do Yamato, Matsumoto passou a ser visto como o autor absoluto do trabalho. 

É difícil precisar o que teve ou não a interferência de Nishizaki (que devia aprovar o material, como produtor executivo e idealizador) ou que nasceu de conversas entre os dois homens. Matsumoto ainda desenhou story-boards e era creditado como co-autor e co-diretor, ao lado de Nishizaki. E na ocasião do Yamato 2520, teria Matsumoto sido sondado sobre a nova produção e tentado vetar? Somente os dois podem contar realmente o que aconteceu e cada um assumiu uma versão.

O caso faz lembrar outra briga famosa dos quadrinhos, entre Stan Lee e Jack Kirby, co-autores da maioria dos super-heróis do Universo Marvel clássico, como o Homem-Aranha, Hulk, Homem de Ferro, etc... Kirby saiu brigado da Marvel e dizia que havia feito tudo sozinho, que criava as histórias e desenhava e Stan Lee apenas colocava os diálogos. Gente como Will Eisner (The Spirit) dizia que não era bem assim, enfatizando que Lee criava os personagens e enredos junto com Kirby. E seu texto dinâmico e esperto fez a diferença, pois Kirby jamais repetiu o sucesso que teve ao lado de Stan Lee. Já Lee, por sua vez, emplacou outras parcerias famosas, fazendo roteiros para John RomitaSteve Ditko. Certamente, nas declarações de Kirby havia muita mágoa pessoal, coisa que só quem estivesse na hora e local em que o rompimento deles aconteceu, poderia explicar. Por isso, não tomo partido, apenas estou relatando fatos ocorridos. 


No caso da Patrulha Estelar, é correto afirmar que Matsumoto e Nishizaki foram os co-criadores da saga, dando maior peso a Matsumoto, mas sem tirar a importância visionária de Nishizaki. Mas a briga dos outrora amigos terminou com um deles tendo direitos sobre o trabalho do outro, o que pode ter sido decisão da lei, mas é extremamente injusto do ponto de vista moral. Mas eu não estava lá, não posso julgar as motivações e não quero tomar partido, por mais que ache Matsumoto um gênio.

E não custa lembrar aos fãs que ele também é um ser humano, passível de erros, equívocos e atos falhos. A briga pelo Yamato é marcada por interesses econômicos e egos, atitudes humanas negativas potencializadas pelos interesses de uma indústria de entretenimento de grande porte, que extrapolou as fronteiras do Japão e ganhou o mundo.


ATUALIZAÇÃO (07/11/2010) - Faleceu nesta data o produtor Yoshinobu Nishizaki aos 75 anos, vítima de uma queda de um barco. Mesmo socorrido, morreu no local. Poucos dias antes, pré-estreias do filme aconteceram em Tokyo e Califórnia.

8 comentários:

DIO disse...

Ótimos comentários e informações.
Como sempre, parabéns...

Felipe disse...

Então Nagado, eu já acho que o Matsumoto perdeu o jeito. O Great Yamato que ele produziu ficou pouco acima de medíocre e se vale demais da reciclagem do que deu certo no passado. A ponto de que nessa altura do campeonato, acho que foi positivo o Nishizaki ter assumido a franquia.

No entanto, apesar de eu não consider Matsumoto um gênio, ao menos não como foram Osamu Tezuka ou Shotaro Ishinomori, eu ainda gosto de muitos de seus antigos trabalhos (Otoko Oidon, Miraizer Ban e o Galaxy Express original são alguns exemplos). E é por isso mesmo que eu o defendo como verdadeiro criador da franquia. Exemplo disso pode ser visto em outro de seus mangás, o Sensuikan Super 99, de 1970. Lá estava tudo que vimos mais tarde em Yamato, o protagonista impulsivo chamado Susumo, o par romântico chamado Yuki, o irmão mais velho veterano de guerra, os invasores de um mundo desconhecido e até as empolgantes batalhas onde vencia o melhor estrategista. A diferença é a ambientação, pois Yamato se passa no espaço, e o 99 era um submarino comum, mas de alta tecnologia.

Alexandre Nagado disse...

Felipe, eu vi muito pouco do Great Yamato (só umas páginas avulsas) e realmente parecia um caça-níqueis autoindulgente. Tenho muita vontade de ler Galaxy Express, pois só li mesmo um capítulo em inglês e assisti dois longas e um episódio da série de TV. Ah, e vi o longa do Harlock (aquele da Arcadia). Eu realmente gosto muito do estilo de Matsumoto, mas reconheço grandes limitações ao compor personagens, basicamente o mesmo elenco que se recicla eternamente.

Sobre o Yamato, acredito que muito do plot geral e dos personagens secundários tenha tido interferência do Nishizaki, cuja participação como produtor não ficou muito clara.

De qualquer forma, acho uma pena que tenha acontecido tudo o que relatei. E espero que Nishizaki saiba o momento de parar.

Abraços!

DIO disse...

Li este artigo muito interessante sobre o Matsumoto, no qual há muitas curiosidades que não sabia, e lembrei deste seu artigo Nagado.
Deixo o link para que demais leitores também tenham outras fontes sobre ele:
http://www.salonfutura.net/2010/12/leiji-matsumoto-yamato-spirit/

DIO disse...

Outro recente artigo com informações sobre as produções da série Yamato.
(Esta em inglês):
http://www.animenewsnetwork.com/the-mike-toole-show/2011-11-20
.
Provavelmente Nagado, vc já sabe sobre quase tudo no artigo, mas "vai que...", rsrs, tem alguma informação nova!
Abraço,
DIOberto
(ah! Visite a comunidade no Orkut, e veja os tópicos recentes...)

Alexandre Nagado disse...

Obrigado pela dica!
Mas eu mal vejo Orkut. A vida anda corrida demais e resolvi focar minha "vida virtual" no blog e twitter. Mas uma hora, vou lá checar sim.

Abraços!!

DIO disse...

Eu novamente, indicando outro artigo, (novamente), rsrs...

Vale ver:
http://www.animenewsnetwork.com/the-mike-toole-show/2012-06-03

Alexandre Nagado disse...

Obrigado, DIO! Suas recomendações são sempre muito bem vindas. Essas análises são bem interessantes e o artigo já está em meus favoritos.

Abraços!!