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Olá! O blog está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SOBRE FÃS E SEU VOCABULÁRIO

O sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco na metade da década de 1990 e o advento da revista Herói (onde colaborei por anos) e suas muitas concorrentes marcaram o início da era da imprensa especializada em mangá, animê e cultura pop japonesa no Brasil. Desde o começo, é informal e amadora na maior parte dos casos, sem uma consultoria ou supervisão especializadas e é, basicamente, formada por fãs que escrevem. Foi o meu caso inclusive e devo dizer que cometi muitos erros até ir encontrando caminhos corretos, mas sem muita orientação e aprendendo na prática, no mercado de trabalho.  

Hoje, com blogs e fóruns, existe a divulgação tanto de informações corretas quanto equivocadas, dada a falta de critérios ou orientação. Isso tem ajudado a criar termos e definições equivocadas no Brasil que talvez até causem estranhamento em japoneses ao verem como sua cultura pop é filtrada aqui. Eis alguns exemplos:    

ANIMÊ e MANGÁ - Também no Brasil, por culpa da imprensa especializada, criou-se o hábito de falar "anime" ou invés de "animê", que seria uma pronúncia mais próxima do original. Animê é uma redução de "animation" e, por isso, eu e muitos colegas usamos um acento diferencial no "e" (falando nisso, como eu sinto falta do acento diferencial do "pára"). Como grande parte das pesquisas era feita em revistas americanas, lia-se "anime" simplesmente porque a romanização oficial não usa acentos. Não é errado, portanto, escrever anime sem acento tônico no "e", mas ele deveria ser lido sempre como palavra oxítona. Já com a palavra mangá, nunca houve problema. O termo também não existe ainda em dicionários de língua portuguesa e o acento diferencial sempre foi usado, para que ninguém nunca pensasse na fruta manga. Mérito provavelmente da professora Sonia Bibe-Luyten, autora da primeira tese de mestrado no Brasil (quiçá do mundo) sobre mangá, bem como diversos textos pioneiros na imprensa sobre o tema, sempre utilizando esse acento. Se não houvesse esse acento diferencial, já pensaram a dúvida que seria ler alguém declarar que "trabalha com manga"? Poderia ser um desenhista ou um fazendeiro a dizer tal frase...

OTAKU - Sinônimo de fã de mangá e animê? - Já escrevi diversas vezes que a palavra "otaku" tem no Japão um sentido bem diferente do usado no Brasil. Aqui, por culpa de grupos de fãs e de parte da imprensa especializada, convencionou-se chamar de otaku todo fã de mangá e animê. Mas a palavra não é lá bem vista no Japão e define gente sem vida social ou sexual (normalmente homens) que se atira a se especializar em alguma coisa, como bandas de rock, modelos, games e, obviamente, mangás, animê e tokusatsu. Também não é o similar nipônico de nerd, e sim algo bem pior, socialmente falando.

OVAs e afins - O termo OVA (Original Video Animation) - ou OAV (Original Animation Video) surgiu nos anos 1980, como uma prova do tamanho do mercado japonês. Com produção em geral melhor que a da TV e inferior ao cinema, os OVAs geraram obras de grande qualidade. Era a época das fitas VHS e Betamax (um padrão há muito esquecido). Aí, chegou o DVD (Digital Versatile Disc), com enorme ganho de qualidade e aos poucos foi se firmando como padrão, deixando de lado outra mídia digital que ainda engatinhava, o LD. Acontece que isso foi fazendo com que muitos fãs brasileiros tivessem o seguinte raciocínio: se OVA nasceu com as fitas de videocasssete, então com DVD deveria ser ODA, ou Original DVD Anime. Acontece que o raciocínio está errado. Um DVD Video é também um formato de vídeo. Não faz sentido mudar, já que VHS, Betamax, LD, DVD, Blu-ray, são todos formatos para visualizar um vídeo. No Japão, segundo meu amigo Michel Matsuda (do blog Universo Otaku), a sigla OAD é utilizada somente nos DVDs com animações originais oferecidas de brinde em alguns mangás. Ainda assim, um OAD não deixa de ser um vídeo, ou seja, um OVA. No Japão também existem os OV (Original Video), que designam qualquer produção feita para locadoras ou venda direta e existem muitos filmes tokusatsu nesse filão. Aí, os fãs deduzem que, se OVA é pra animê em vídeo, então quando é DVD com tokusatsu deve ser ODT. Acontece que isso também não existe.

TOKUSATSU - Entre fãs de tokusatsu (os filmes e seriados com efeitos especiais) é comum usarem apenas o termo "toku" para definir o que eles gostam. Muitos sites usam o "toku" como prefixo para seu nome e também ficam inventando palavras como "tokufan", "toku-comics", "toku-songs" e por aí vai, entre outros neologismos. Porém, tokusatsu já é uma abreviação. Vem de "tokushuu kouka satsuei", ou "filmagem de efeitos especiais". O "toku" de tokusatsu é uma contração de "tokushuu" (especial). Um fã brasileiro que conheça um fã japonês dizendo que gosta de "toku" talvez não seja compreendido, já que toku pode significar "resolver", "explicar" ou "diluir", dependendo de como for escrita em ideogramas. E há sites bons e sérios sobre heróis japoneses que usam conscientemente a palavra "toku" pra simplificar, codificando a comunicação com seu público.

Essas colocações não vão mudar em nada a ideia das pessoas, mas apenas quis registrar como palavras vão sendo alteradas, pronúncias deturpadas e seus sentidos originais esquecidos. Se a pronúncia ou sentido errado já foram incorporados à linguagem de milhares de pessoas, já não é mais questão de corrigir o que já está feito.

Certa vez, o professor Pasquale Cipro Neto disse que a língua é um instrumento dinâmico, que sofre mudanças com o tempo e de acordo com o seu uso. Não seria diferente com a cultura pop japonesa, que está cada vez mais presente em nosso país.

5 comentários:

Guyferd disse...

Seu post está muito bom, e precisarei comentar por partes para não escrever mais um dos meus textos quilométricos :)

Sobre o Otaku, eu só aprendi MESMO o significado deste termo em japonês quando assisti Densha Otoko. Ali vi que otaku aqui e otaku lá possuem um oceano de diferenças.

Aqui praticamente há orgulho em dizer para os amigos fãs de animação japonesa, o "eu sou otaku" (havia, pelo menos), lá isso é... horrível! Ao meu ver pelo menos.

Eu sou um doidivanas que mergulha de cabeça há 4 anos num projeto que não dá lucro nenhum (blablabla), e algum percentual disso eu tenho. Luto constantemente para sair dessa classificação, entretanto.

Já a questão do "tokuisso" e "tokuaquilo", tem toda razão.
Meu projeto é um dos grandes culpados nisso, mas estrategicamente falando, conseguimos uma identificação em muito superior com nosso público adaptando ao ocidente uma forma errada de falar no oriente.

Ou seja, é um mal necessário ao meu ver. E até agradável de se pronunciar, muito embora eu saiba que muita gente (você incluído) não admira nem um pouco essa salada de frutas que muitos de nós "tokufãs" fazemos :P

Faz parte do gostar de um pedaço de cultura, de uma forma de conseguirmos marcar o nome de um projeto que nitidamente queremos que seja o melhor, que seja aceito pelos exigente usuários, que volte sempre a ser visitado por eles.

Mas um japonês deve mesmo é sofrer de uma irritação ao ver algo assim...

Alexandre Nagado disse...

Olá!

Realmente, a novela Densha Otoko mostra bem a forma como otakus são vistos no Japão. Até serviu pra melhorar a imagem deles, mas foi só por um tempo, uma moda.

Essas mudanças que as palavras vão sofrendo acontecem em qualquer língua. Basta ver quantas palavras o idioma japonês pegou emprestado de línguas estrangeiras, adaptando-as ao seu sistema fonético. Mas é bom saber a origem das palavras, pra não dar fora.

E foi especificamente pensando no site "Tokufriends.com" que fiz a ressalva de que sites sérios usam esses neologismos brasileiros com consciência.

Abraços!

Guyferd disse...

E eu agradeço a lembrança meu amigo, mas confesso que me pego pensando em como eles vêem essas confusões que fazemos por aqui.

Em alguns breves momentos dá um pouco de vergonha por imaginar as classificações negativas que um toku-alguma-coisa pode ter por lá.

Por menos que usemos a língua japonesa, creio que qualquer site de tokusatsu que se preze deseja alcançar o público de origem das séries.

Daí eles vem e vêem uma coisa que para eles pode ser idiota ou ofensiva.

Talvez eles entendam, mas a dúvida sempre fica.

Guyferd disse...

Ei, eu desconhecia totalmente essas siglas que o povo andou comentando, a respeito de ODA e ODT.

Para ser sincero, se alguém me dissesse só uma sigla dessas, eu ficaria com cara de bobo tentando entender.

Alexandre Nagado disse...

Siglas novas sempre aparecem, confundindo mais do que ajudando, quando criadas no meio dos fãs.

E usar "toku" numa comunicação, mesmo em inglês, com um fã japonês, pode deixar a conversa meio confusa.

Por isso é bom saber a origem das palavras.

Abraços!