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Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A ETERNA LUTA PELA VALORIZAÇÃO DOS QUADRINHOS

Esta postagem nasceu diretamente de uma discussão no Twitter. Primeiro, por uma indicação via e-mail do colega Bira Dantas, descobri tardiamente um velho texto do colunista Reinaldo Azevedo, publicado no site da revista VEJA. Ele comentava sobre a compra de novos caças para a Força Aérea Brasileira, defendida pelo Lula. (leia aqui)

Segundo sua visão, a compra equivocada dos caças a pretexto de proteger o petróleo do pré-sal só podia vir de alguém que não lia nada, ou melhor, lia gibis e vivia nesse universo mental. Concordei com sua percepção política da questão, mas notei uma boa carga de preconceito contra leitores de quadrinhos, que estavam sendo usados como exemplo de infantilidade ou mentalidade maniqueísta.

Repassei indignado via Twitter e muitos fizeram o mesmo. Daí, seguindo as repercussões, achei por bem comentar com um certo leitor alguns pontos. Ele expôs que a crítica era ao Lula e sua visão simplista das forças armadas e da política, e que isso parecia tirado de gibi, ou melhor, do "universo mental dos gibis", como o colunista escreveu. Diante da discussão que levantei, um twitteiro (não vem ao caso quem é) comentou o seguinte:

"Mas, francamente, HQs são simplistas. Eu não vejo nada demais em admitir isso." E prosseguiu:

"Por exemplo, tem uma versão em HQ de O Caminho da Servidão. É legal, mas perde muito pro livro original. Portanto, simplista demais."

Ele usou o argumento de comparar uma HQ inspirada num livro com o livro original e deu o veredito final contra toda uma mídia. É o mesmo que comparar um filme ou peça de teatro inspirados num livro com o livro em si. Em termos de profundidade, dificilmente dá pra competir, até pelo volume de texto de um livro. Mas aí, pra manter uma coerência, valeria atacar qualquer mídia. Acontece que teatro, cinema e HQ oferecem experiências sensoriais diferentes do que é oferecido pela literatura e cada mídia tem seu valor. A literatura utiliza unicamente a palavra escrita como elemento canalizador de ideias e histórias e não deve ser comparada com mídias visuais. Fazer isso é uma comparação simplista.

HQs podem ser tão simplistas quanto peças de teatro e filmes baseados em livros, mas somente quando comparados em profundidade com as obras originais, pois são mídias diferentes e mexem com sensações diferentes. Li Jurassic Park (de Michael Crichton) e considero muito mais profundo e coerente do que o filme. Mas ver o filme no cinema foi uma experiência fabulosa que, ainda assim, manteve intacta a mensagem básica da obra.

Já quadrinhos originais dessa mídia podem ter tanta profundidade quanto muitos livros. Vide Watchmen, Lobo Solitário, Maus, Gen Pés Descalços, Mafalda... O mangá Sanctuary, que ilustra esta postagem, tem uma densidade e profundidade que fazem entender realmente o que é uma HQ para adultos. Mas muita gente insiste em taxar TODAS as HQs de infantis, simplistas, maniqueístas... Talvez a maioria dos quadrinhos seja mesmo tudo isso, mas não TODAS. Há um vasto universo de trabalhos que é totalmente ignorado com esse pensamento.

Diferente do que fazem com as HQs, eu não vejo criticarem o cinema em geral taxando-o de simplista, pobre, infantil (não que infantil seja sinônimo de algo raso, muito pelo contrário!). Porque as pessoas sabem que, se de um lado tem as megaproduções dos grandes estúdios, do outro também existe cinema autoral, existem mensagens complexas em filmes de grande profundidade e impacto. Só a HQ precisa se auto afirmar toda hora como uma mídia que merece algum respeito e não comentários de desprezo por parte de gente arrogante que se acha intelectualmente superior, esses deslumbrados Dimensteins da vida. 

O mesmo acontece com games, RPG, animação... Parece que toda hora o pessoal ligado a essas áreas tem que dizer que "não é só pra criança" e defender que cada um desses assuntos tem sua relevância cultural.

E um último problema foi o comentário irônico no final. Vejam bem: eu não apóio o Lula e não pretendo votar em seu partido. Mas também me irrito com gente que chama o Lula de analfabeto e que nunca leu nada. Ele não tem diploma, e fala errado muitas vezes, mas garanto que ele já leu muito e de ignorante não tem nada. Até hoje recebo correntes de indignação contra a presença de um "analfabeto" na presidência da República. Bom, ao que me consta, ele não subiu ao poder por um golpe de Estado.

Muitos preconceitos estão tão enraizados na cabeça de uma certa elite formadora de opinião, que tendem a se perpetrar por muto tempo ainda. Certa vez, o André Forastieri (creio eu) escreveu que provavelmente ia passar o resto da vida justificando as HQs e explicando que não são apenas para crianças. 

Infelizmente, ele estava certo.

14 comentários:

Tiburcio Illustrator disse...

Bem, nem toda a HQ é concebida para crianças de fato, mas ela agrega em sua estrutura características narrativas tais que até um adulto com a escolaridade de uma criança pode compreender. E isso não é um defeito da HQ, é uma qualidade que pode ser aproveitada, para poder se chegar às pessoas em geral.
Eu concordo que o articulista da Veja não gosta ou não dá valor a HQs, mas isso não é motivo para indignação, deviamos sim mandar pra ele um exemplar de MAUS para ele ver se permanece com a mesma opinião. As pessoas falam muitas vezes não por maldade mas por ignorância mesmo.
A HQ é uma mídia meio restrita neste país, por isso esse preconceito originário da falta de conhecimento.
Só se combate esse tipo de preconceito com bons quadrinhos e que sejam acessíveis. É o exemplo que arrasta.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Tiburcio!

Realmente, você é um conciliador generoso. Eu já não tenho tanta paciência e generosidade...

O problema é tecer comentários sobre algo que obviamente não se conhece. Há coisas das quais não gosto nem um pouco, mas por conhecer apenas superficialmente, evito usar em comparações para não soar preconceituoso. Isso deveria pautar um texto de um colunista de um órgão como a Veja.

E os quadrinhos andam caros demais, sim. O que não deve ser problema para um colunista da Veja, desde que ele queira gastar seu dinheirinho com algo pelo qual não se importa. O colunista foi também preconceituoso com o Lula (que eu não aprovo), ao ironizar sobre o fato - imaginado por muitos - de que o presidente não lê nada. Por isso não fui muito conciliador e bati firme.

Abração!

Enivaldo disse...

Oi, Nagado!

Eu endosso as palavras do Tiburcio. Não acredito que nesse caso houve maldade em relação aos quadrinhos, até porque o alvo era outro. Entretanto, esse tipo de referência sempre vai soar antipático. Como você mesmo disse, é melhor não fazer comparações para evitar esse tipo de coisa. Não sei se os articulistas da palavra usam comparações em abundância por subestimar a capacidade de compreensão do público ou se é um problema cultural nosso (brasileiro).

Abraços!

Enivaldo Pires

Alexandre Nagado disse...

Fala, Enivaldo!

Pelos comentários até agora, acho que não me expressei direito. O colunista da Veja (não tenho nada pessoal contra ele) destila seus preconceitos a torto e a direito misturados com opiniões sérias, mas realmente o alvo do texto que citei não era mesmo as HQs, claro. Isso tá na cara. Eu usei aquilo como gancho pra uma discussão sobre a forma como as HQs são vistas pela sociedade e pela mídia em geral.

Foi com um "twitteiro" que houve efetivamente uma discussão - civilizada e democrática. E foi em cima do argumento dele, o de que as HQs são "simplistas", que eu puxei todo o raciocínio do meu texto. Mas não fui bem sucedido, pois acabou parecendo bronca pessoal minha, e não uma crítica contra uma postura.

Porque essa é uma linha de pensamento tão comum na sociedade que passa batido, ninguém fala por mal mas porque realmente acha isso. Fosse um comentariozinho preconceituoso "en passant" contra alguma minoria racial ou sexual, aí o bicho pegava, porque meio mundo ia se levantar. Mas HQ é mesmo coisa de nicho, de gueto. Não tem importância se alguém liga ou não.

Mas quem faz HQ sabe como isso é um pé no saco ter que justificar toda hora a mesma coisa e ficar vendo HQ ser comparada como coisa rasa.

Enfim, nada muda, infelizmente.

Abraços!

Tiburcio Illustrator disse...

Pois é, eu entendi perfeitamente o termo simplista como pejorativo sim. Mas acontece que no meu ponto de vista o "simplismo" detectado pelo twitteiro é justamente uma característica positiva da HQ, apenas está com o nome errado.
HQs não são simplistas, simplificam a mensagem - isso é uma norma de roteiro - e permitem que esta (a mensagem) seja melhor assimilade por uma variedade maior de leitores.
Até nos Gibis adultos de temas mais profundos, é essa simplicidade que dá o tom da mensagem e não poderia ser de outra forma senão não seria quadrinho, seria outra coisa.
Gibis são poderosas ferramentas de comunicação. Como a TV o é também, mas se voce coloca num canal X, pode ser que voce caia na armadilha de dizer e senteciar que a TV é uma coisa ruim, ou que melhor seria se ela não existisse, coisas assim...
Isso também acontece com os quadrinhos e outras mídias e estilos, por isso que martelo que só a qualidade dos quadrinhos nacionais poderá redimi-lo junto ao grande publico e abrir espaço no mercado, como um machado afiado!

Alexandre Nagado disse...

Excelente colocação!

O que para uns é sinal de "simplismo", para quem conhece HQ, é sinal de domínio narrativo. As cenas mais interessantes de uma HQ são aquelas que transmitem mensagens ou sensações poderosas ao leitor de modo claro e inequívoco.

Talvez a melhor palavra seja "clareza" ou algo mais nobre. O que sempre me incomoda são generalizações e isso a gente vê toda hora.

E com certeza, quem faz HQ tem a missão de abrir as mentes com trabalhos profundos e ao mesmo tempo claros e cristalinos. Aí, caímos naquelas outras discussões sobre mercado. Mas a gente chega lá.

Abraços! E apareça mais, que assim este blog fica mais chique. :-P

Carola Medina disse...

Bom vir aqui de novo Nagado, andava com saudades. Andre Forastieri tem toda razão, infelizmente, mas não podemos negar que hj temos mais espaço para os quadrinhos nas lojas. mas ao mesmo tempo, infelizmente, não vemos mais quadrinhos bons e baratos nas bancas, o que atrapalha muito a formação de novos leitores. Só Mauricio de Souza não é suficiente, beijo enorme

Alexandre Nagado disse...

Oi, Carol, que bom que apareceu de novo por aqui. Pois é, HQs viraram um produto somente para iniciados. Acredito que isso vá criar cada vez mais distanciamento entre as HQs e a população. O pior é que muitos leitores, autores e até editores louvam essa segmentação exagerada, que na verdade cria nichos de produtos caríssimos para poucos.

A saída é popularizar, baratear, mas ninguém quer arriscar ou abrir mão de nada.

Beijão!

Caio Murdock disse...

Essa questão de ter que ficar justificando e esclarecendo de tempos em tempos a credibilidade dos quadrinhos, RPGs e todo mais, mostra que o mercado tem muito a evoluir ainda. Junto com a cabeça de muitas pessoas.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Caio!

O mercado de HQ precisa mesmo evoluir, porque parte da situação atual é consequência do comportamento de muita gente que quer cada vez mais produtos caros, elitizados e para os leitores altamente especializados. Esse tipo de mercado tem que existir também, claro, mas quase nada está sendo feito para voltar a popularizar os quadrinhos.

Abraços!

Josemi disse...

irretocável o seu texto, na minha opinião, Nagado. Eu trabalho com como ilustrador há oito anos e embora eu tenha começado produzindo hqs instrucionais, elas nunca chegaram a ser o meu ganha pão. Não me considero um profissional da área(se tal coisa existir no brasil...). Mas sou fã de quadrinhos e entendo a sua indignação com a referência infeliz desse lobista. Quadrinhos estão sim, hoje, elitizados, mas não por nossa culpa(fãs, artistas), mas talvez por interesse de alguns empresários. Passam-se 20, 30 anos e continuamos marginalizados e tratados como retardados. Se nossa mídia favorita é vista desse jeito então imagine em que nível nós seríamos classificados pelo Boris Casoy!... Parabéns! Abraço!

Guyferd disse...

Sabem, há muitos anos eu vejo os quadrinhos serem tratados como "coisa de criança", "coisa inferior" ou até mesmo "coisa de mariquinha".

Não sou nenhum mestre na adorável língua Portugesa, mas não foi com o estudo, com os jornais, com a televisão (haha), rádio e outras mídias que desenvolvi meu vocabulário: foi com as HQs!

Aquelas "simples" HQs do tipo Homem-Aranha, Mônica, Transformers e por aí vai.

Se enriquecer o vocabulário (como elas inadvertidamente o fazem, jornalistas e PHDs aceitando ou não) é coisa de um material simplista, então que alguém condene minha opinião.

Isso sem contar que muitos mangás e livros (quadrinhos americanos não me passam tanto essa impressão, mas englobam-se no que digo) me fazem "mergulhar" e/ou "viver" muito mais a história do que muitos filmes ou peças teatrais o conseguem.

Vai ver sou apenas um exemplo de falha humana...

Guitar Hero disse...

Galera, numa boa, até entendo que os quadrinhos sejam uma midia um pouco anônima mas isso não é desculpa para que pessoas fiquem falando do que não sabem de forma preconceituosa, arrogante e extremamente destrutiva!! E o pior é que já vi até alguns jornalisatas cometendo tal erro absurdo!
Cara, como é que um jornalista, uma pessoa que deveria se considerar profissional de comunicação, se presta ao papel ridiculo de falar preconceituosamente do que não sabe?! Em primeiro lugar um profissional dessa aréa deveria pesquisar profundamente sobre o que fala pois é a obrigação dele!

Veja bem, não estou criticando necessariamente jornalistas pois esse tipo de equívoco é cometido por varias pessoas de varias aréas profissionais, incluindo politicos, juízes, e até mesmo pessoas que se dizem trabalhar na própria aréa de quadrinhos (!!??).

Já vi muito artista desta aréa que nãos e valoriza!!

Td bem que nós sempre devemos buscar informar as pessoas pacificamente, mas também não temos obrigação de aturar a todo instante opiniõpes preconceituosas e radicais de gente que acha que entende do assunto! Um dos primeiros passos para os quadrinhos sejam respeitados é agir com firmeza e dignidade perante estas situações. Há uma diferença gritante entre respeitar e abaixar a cabeça.

Os quadrinhos não tem nenhuma obrigação de serem como livros, é uma forma de arte que não lida apenas com palavras como também com imagens! Os quadrinhos são interpretados de uma forma diferente, da mesma manewira que a música e o cinema! E se um individuo não percebe isso de forma alguma, então ele tem o pior analfabetismo que existo... O ANALFABETISMO FUNCIONAL!

Ah, eu sou formado em comunicação e já tenho experiência profissional na aréa e vou lhes dizer, se um empregador sonhar que falei sobre algo que não conheço de maneira preconceituosa eu serei demitido na hora!

Stefano disse...

As HQs são mais maduras(nem todas) que Vejas e Reinaldos da vida...
Reinaldo é histérico, hipócrita...
maniqueista ao extremo.
(não estou apoiando Lula)
Reinaldo deveria ler + HQ antes de falar asneiras