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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A professora de artes e a faxineira

Estudei, da primeira série até a conclusão do ensino médio, em escolas públicas. Tive a sorte de ter encontrado alguns professores excelentes em meio à decadência que já tomava conta do setor. Professores que eram bons pra explicar suas matérias, mas que também tinham palavras amigas e uma postura bacana, de professor que se preocupa com os alunos. Infelizmente, não tive muita sorte com a matéria Educação Artística durante o ginásio (que era da 5ª até a 8ª serie na época). 

A professora não era má pessoa. Pelo contrário, era uma pessoa legal, não pegava no pé de ninguém e tinha seus momentos mais inspirados ao ensinar. Mas também era alguém que, se já teve vocação para lecionar arte, havia perdido e assumido a postura acomodada de professor que só sabe passar lição na lousa e mandar o aluno copiar. Estudar História da Arte era um porre com ela, tanto que esquecia tudo assim que terminava de copiar. Os trabalhos não eram nada empolgantes. Tudo burocrático e sem estímulo à criação.

Um dia, o trabalho era sobre histórias em quadrinhos. Fiquei mais interessado do que o normal, lógico. Depois de poucas e vagas explicações sobre o que era uma HQ (e eu sabia mais do que ela), ela passou o trabalho: desenhar uma história para a exposição de alunos que ia acontecer no colégio. Fiz uma HQ de umas 10 páginas com um robô gigante, no estilo do animê Pirata do Espaço (que eu adorava na época) e mandei.

No dia da exposição, vi numa sala os trabalhos dos alunos. Estavam todos espalhados aleatoriamente sobre um agrupamento de mesas. E vi o pessoal manuseando os originais e espalhando, como uma pilha de cartas sem destinatário. Indignado com a falta de consideração ao trabalho, recolhi as minhas páginas, guardei na pasta e fui embora, aproveitando uma hora que não tinha ninguém por perto. Claro que não havia recurso para se montar painéis de acrílico, mas um mínimo de cuidado e consideração poderiam ter proporcionado uma "exposição" menos desleixada. Era só montar em cartolina, colar nas paredes, qualquer coisa que permitisse olhar o trabalho dos alunos sem ficar revirando aleatoriamente uma pilha de papéis soltos.

Agora, um outro caso passado na mesma escola. Eu costumava desenhar na carteira escolar quando a aula era chata ou para passar o tempo. Um dia, na hora do intervalo, me empolguei e enchi a mesa inteira com um desenho da Patrulha Estelar. Era uma grande batalha, cheia de espaçonaves e explosões.

Semanalmente, as faxineiras limpavam com álcool todas as mesas. O dia em que fiz o desenho era dia de faxina. Acho que foi por saber que iam limpar tudo que eu enchi a mesa, sem me importar. 


No dia seguinte, ao entrar na classe, vi que todas as mesas estavam realmente limpinhas... menos uma. A que estava com o meu desenho permanecia intocada. A faxineira que passou naquela tarde ficou com dó de apagar o desenho, que parecia mesmo ter dado muito trabalho, pois era cheio de detalhes. Eu, do alto dos meus 14 anos, fiquei orgulhoso e contente.

Agora, uma pergunta: quem incentivou mais o jovem aspirante a desenhista, a erudita professora de artes ou a humilde faxineira da escola? 

Sensibilidade não depende de estudo.

13 comentários:

Michel disse...

Que garoto prodígio, esse Nagado...HeHeHe!

Ótima crônica, me fez lembrar da minha infância. No ginásio, detestava educação artística, achava a professora antipática, mas o bom é eram algumas horas da minha vida que passavam mais rápido. Era um porre ficar fazendo colagens, montagens com sucata etc. Só gostava quando o tema era desenho livre. Aí eu me dedicava mais, por se inspirar em seriados japoneses. Houve uma vez que, era para criar uma HQ sobre um aventureiro que se chamaria Eugênio, era apenas essa a condição. No final das contas, eu acabei criando um novo Policial do Espaço. Ficou bizarro! Eu também tinha essa mania de rabiscar a carteira, e uma vez, fiz com a ponta de um compasso. Sei lá, os amigos gostavam, me sentia bem em ficar mostrando meus humildes desenhos para os outros. Agora, quem te incentivou mais eu não sei, mas acho que não foi a professora, afinal tu sabia mais do que ela...

Cintia Yuri disse...

Ah, mas ser professora não significa ser erudita, assim como ser faxineira também não indica que a pessoa não seja culta.
A faxineira pode ter te deixado orgulhoso, mas a professora incentivou-o a ser diferente dela. Também tive péssimos professores na escola pública e felizmente toda essa consciência contribuiu para que eu não siga esses exemplos em minhas aulas de arte.

Alexandre Nagado disse...

Eugênio, o Policial do Espaço? Legal, ah ah. Essas coisas ficam cada vez mais divertidas de lembrar na medida em que vamos ficando cada vez mais velhos. Ou melhor, amadurecidos. :-P

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Cintia, foi exatamente essa a minha conclusão. A forma como coloquei no meu texto foi pra ressaltar o contraste entre os comportamentos. E mostrar como as atitudes daquela professora, acomodada numa estrutura deficitária, fizeram o oposto do que deveriam. Ou seja, ao invés de ser incentivado, o trabalho dos alunos foi depreciado. E justamente uma pessoa numa posição mais humilde e que normalmente é associada à falta de instrução foi capaz de, talvez até sem saber, valorizar um desenho. Mesmo que fosse errado ficar desenhando na mesa (que, claro, foi limpa depois).

Eu também me tornei professor, mas de desenho e HQ e sempre procurei, acima de tudo, incentivar os alunos a serem melhores e buscarem aprimoramento. Acho que é por aí o trabalho de um professor consciente.

Abraços!

Takeshi disse...

Também estudei a vida toda na escola pública, mas nunca rabisquei na carteira (sério mesmo!). Eu também curtia desenhar, mas o que aconteceu? Hoje me sinto completamente desmotivado e sempre que começo a esboçar algo não fico satisfeito e jogo o papel fora. Quando criança eu queria ser desenhista, porque meu avô era, não de quadrinhos.

Onçana Khymato disse...

Parabéns pelo post!Um ótimo exemplo,como sempre!!

Isso me lembra muito a minha vida escolar também...meus trabalhos com desenhos nunca eram devolvidos, muitas vezes roubados pela própria professora.
Me lembro que um professor de geografia do colegial, muito marrento e avesso a culturas mais sutis,riscou a capa de um trabalho que fiz(era um desenho de minha personagem)e escreveu por sobre ela: 'ISTO É UMA PERDA DE TEMPO!!'. Como se fosse pouco,ainda me deixou sem nota.
Por fim,no último ano,quando a professora perguntou a cada um o que faria depos de terminar o colegial,a sala se dividiu entre 'odontos','direitos' e outras faculdades cobiçadas...em minha vez,disse que não iria a faculdade alguma,apenas faria um curso de aprimoramento e me tornaria desenhista. Gargalhada geral. A professora,lutando pra se recompor ainda disse:'mas e de verdade,vc vai fazer o que?' EU SEREI DESENHISTA! - disse com toda minha convicção. Moral da história: nenhuma daquelas pessoas fez o que disse que ia fazer,eu me tornei desenhista e estou montando minha própria editora!

Alexandre Nagado disse...

Infelizmente, muitos professores passam seus traumas, frustações e recalques aos alunos. Que bom que você soube seguir sua vocação. As pessoas seriam mais felizes se fizessem isso.

Mas sempre com os pés no chão, claro.

Abraços!

Felipe Half Boiled disse...

Nossa, que história! É daquelas que, em muitas situações da vida, eu vou lembrar e refletir.

Izidório disse...

A humilde faxineira mostrou que a HUMILDADE, essa tão esquecida virtude, é mais forte que qualquer erudição.

Emerson Rocha-Caricaturista/Ilustrador/Cartunista disse...

Oi Nagado, é o Emerson, tudo bem aí na sua nova morada?
Então, lendo a este tópico me fez voltar as lembranças da minha 5º série, sempre muito tímido, eu sempre estava desenhando em carteiras, ás vezes para colegas de classe, e também nos intervalos, onde sempre tinha uma carteira jogada em um canto qualquer, eu a pegava e colocava em um lugar de muito pouco destaque(do lado dos banheiros), e por incrivel que pareça enchia de pessoas a minha volta, mas as pessoas que mais me incentivavam eram as tias(faxineiras), elas eram ótimas comigo, me incentivavam com palavras positivas, e inclusive me davam dicas de como desenhar(e essas dicas davam certo), tive sorte na vida nessa questão de incentivo, todos me incentivavam, todos os colegas de escola, professores,diretores, toda a minha família, e até desconhecidos, graças a Deus tive muia sorte em descobrir essa vocação muito cedo!!!!

Hoje trabalho como Caricaturista em eventos, e me orgulho muito disso!!!!!

Nagado, muito obrigado por me fazer lembrar desses tempos, e também gostaria de lembrar que foi você o responsável por me tornar o profissional que sou hoje, sou muito grato por isso!!!!!


Abraço.............

Alexandre Nagado disse...

Fala, Emerson. A vida aqui é tranquila, mas falta muita infraestrutura na cidade, ao menos para alguém que cresceu em São Paulo e tem uma profissão diferente de tudo aqui na cidade. Não tenho onde comprar material, sofro com suporte de informática, mas vou me virando.

Esse relato que fiz parece que ecoou em muita gente que passou por algo parecido. Fico feliz que tenha também percebido o valor desses pequenos gestos de gente que normalmente ninguém nem olha no rosto ou sabe o nome.

Grande abraço!!

Bruno Seidel disse...

Nossa! Não tinha lido esse texto na época que você o publicou. Que bom que deu uma re-divulgada nele. Me identifiquei muito com essa história, pois também tinha esse hábito de rabiscar as classes. No fim da aula, nunca havia espaço na mesa, de tão rabiscada que ficava.

Muito legal essa sua história. Um final de arrepiar, eu diria!

Ale Nagado disse...

Valeu, Bruno. Resolvi divulgar por ocasião do Dia dos Professores. Que bom que se identificou.

Abraço!