quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Valores e Lições de Vida Com Os Heróis Japoneses

Um mergulho nos ensinamentos morais dentro da cultura pop japonesa, com depoimentos de convidados muito especiais.
Ultraman Jack, Desslock, Sakura, Luffy e Speed Racer:
Valores sólidos em obras de cultura pop.
Mais do que simples entretenimento ou passatempo ligeiro, as mídias da cultura pop podem transmitir valores, ideais, visões de mundo e, conforme temos visto cada vez mais em tempos recentes, militância política, especialmente se for ligada a questões identitárias. Isso tem invadido a área dos quadrinhos, do cinema, das séries de TV, dos games e de toda mídia existente, gerando divisionismo na sociedade, longos debates e acaloradas discussões. 

Todo tipo de arte - seja da chamada alta cultura ou da cultura popular - tem o poder de transmitir mensagens de maneira lúdica e, de certa forma, sempre transmite visões de mundo ao público. A diferença é que antes qualquer mensagem era passada de forma sutil, enquanto hoje existem discursos políticos bem mais explícitos e seguindo agendas ideológicas ditas progressistas. Mas, do outro lado do mundo, esse tipo de debate político tem um peso menor, o que não significa posicionamento neutro na questão de transmissão de valores éticos e morais, muito pelo contrário. 

Cientes do poder das narrativas ficcionais, muitos criadores da cultura pop japonesa sempre incluíram lições de vida em suas obras, com ensinamentos ligados à postura dos personagens, sempre visando o crescimento pessoal. Com ênfase em valores ligados à família, amizade, honra, resiliência, meritocracia e respeito, os heróis japoneses já transmitiram importantes mensagens ao longo do tempo, muitas vezes causando uma forte impressão no público. Isso já estava presente no mangá, passando então para o animê e para as produções live-action de efeitos especiais, o tokusatsu.

Recordando o enredo do icônico Speed Racer (1967), havia o herói coadjuvante Corredor X, que era um agente secreto e também o irmão desaparecido de Speed, Rex, que fugira de casa bem jovem. Os dois pilotos protagonizam um dos momentos que definiram a série, ao participarem da Corrida Alpina, em uma perigosa região montanhosa. 

No arco triplo intitulado "A mais perigosa corrida" (eps. 9 a 11), contra o piloto Snake, da Equipe Acrobática, vários carros se envolvem em um acidente e Speed é arremessado fora de seu Mach 5, batendo a cabeça e ficando temporariamente cego. 
Speed Racer e o misterioso Corredor X.
Nisso, o Corredor X, que estava perto dele, o chama e diz que estava com as pernas fraturadas. Apoiando o irmão e andando com dificuldade, Speed chega ao Mach 5, que estava em boas condições. O Corredor X senta ao seu lado e diz que será os olhos dele, orientando sobre qual direção ir e avisando sobre obstáculos no caminho. E Speed encara isso como um trabalho de equipe, dirigindo sem enxergar, mas sob a orientação do Corredor X. 

Eles conseguem vencer a perigosa Corrida Alpina e Speed é aclamado. Então, ele se volta para o carro, e descobre que seu parceiro havia saído sozinho. É quando ele percebe que era mentira a história das pernas fraturadas, e que o Corredor X fez aquilo unicamente para ajudar Speed a vencer a corrida. Coisa de irmão mais velho, mas Speed só descobriria a ligação familiar entre eles bem mais tarde, no último episódio da série. O arco da Corrida Alpina ainda trouxe outra grande lição, com Speed mostrando que se preocupava mais com a vida de um rival traiçoeiro em perigo do que com a vitória.
Sawamu, o Demolidor.
Em Sawamu, o Demolidor (1971), o orgulhoso lutador de karatê Tadashi Sawamura deixa uma vida toda para trás quando abraça um novo esporte, o "chute boxe" tailandês (conhecido hoje como Muay Thai). Isso provocou decepção e rancor no garoto Shibatta, que admirava Sawamu e passou a considerá-lo um traidor de uma arte marcial tradicional japonesa. Porém, ao longo da série, Sawamu se reaproxima de Shibatta e o faz entender algo importantíssimo: Que ele jamais deixou o espírito de determinação e perseverança que aprendeu no karatê, apenas levou isso para um outro esporte. Essa lição de vida, mostrada ao longo da série, ensinou um valor que transcende uma simples tradição local. 


Em O Regresso de Ultraman (1971), o herói Hideki Goh era bem mais humano que seus antecessores Hayata/ Ultraman e Dan Moroboshi/ Ultra Seven, encarando dolorosas perdas em sua vida. Antes de partir da Terra, no final da série, dá valorosos conselhos de vida a Jiro Sakata, o pequeno irmão de sua falecida namorada Aki. Depois de tanto sofrer e aprender, Goh diz ao garoto para crescer forte, lutar contra o intolerável e se juntar a pessoas valorosas e honradas.

Lidar com as dores do crescimento é algo que tem atravessado os tempos nas produções japonesas. Em Lion Man (1973), o solitário Dan Shimaru se desespera em um episódio quando um jovem se lança à morte para cumprir uma vingança. Ele diz, em plena época dos samurais, que a vida é a coisa mais importante que existe, com uma visão quase cristã. 
Argo (Yamato, no original), a nave
da Patrulha Estelar.
Na segunda série da saga Patrulha Estelar (1978), o vilão General Desslock presencia a nobreza e o desespero de seus inimigos, sente compaixão e acaba reconhecendo valores que ele próprio prezava. Os membros da Patrulha Estelar também tentavam salvar sua terra natal ao custo de suas próprias vidas durante a guerra e lutavam até a morte, se preciso fosse.

Desslock já havia perdido seu reino e lutava apenas por vingança, o que ele percebeu ser inútil. Isso provoca uma mudança drástica na série, com o outrora vilão se tornando um importante aliado em várias ocasiões. 

Ele não ficou bondoso de repente, mas foi movido por um profundo senso de honra e de respeito a quem ele considerou igualmente honrado e de valor. Foi praticamente uma atitude de samurai, uma analogia que inclusive inspirou uma canção dedicada ao personagem, a "Koutekishu" ~ 好敵手 ("Rival"), gravada originalmente por Isao Sasaki em 1978 e que ganhou versão por Hironobu Kageyama em 2018.  


Desslock: De vilão a herói, sempre lutando com honra.
Altruísmo, senso de dever e solidariedade eram as marcas de Cavaleiros do Zodíaco (1986), que em meio a muita ação, forjou o caráter de muita garotada. Esforço e meritocracia são características marcantes em inúmeras obras japonesas, mas poucas vezes isso alcançou tanto impacto como em Dragon Ball Z (1989) ou em Naruto (2002). As dificuldades da vida e a forma como lidar com perdas também aparecem com frequência nas séries e desenhos japoneses. 

Passada menos de um ano após o grande terremoto do Japão de 2011, a série Smile PreCure! (2012) apresentou um episódio tocante onde uma das jovens heroínas tem que lidar com a tristeza e a saudade do pai, enquanto aprende lições de esperança e coragem. 

Smile PreCure - Episódio 19
Exemplo recente de série toda criada com ênfase em valores morais é Kimetsu no Yaiba ~ Demon Slayer (2019), Nela, o herói Tanjiro Kamado, mesmo tendo sua família chacinada, não persegue vingança, mas sim luta para proteger os mais fracos e restaurar a humanidade de sua irmã, sua única parente viva. Ele é capaz de sentir piedade pelos inimigos caídos, deixando o ódio de lado em prol da compaixão e do sentimento de justiça e senso de dever. 

Os exemplos são inúmeros e os desenhos e seriados japoneses sempre foram pródigos em transmitir lições de vida, algumas bastante duras, para seus jovens telespectadores. 
Demon Slayer: Em defesa da família e dos mais fracos.
Partindo desse conceito, convidei alguns amigos com grande ligação afetiva com personagens japoneses para escrever pequenos depoimentos sobre séries ou personagens que transmitiram algum valor que tenha influenciado sua vida, especialmente quando criança ou adolescente. 

Cada convidado abordou alguma produção específica e é visível como há uma empolgação genuína em cada texto. Uma das colaboradoras, porém, falou de forma abrangente sobre diversas produções japonesas, contando de forma sentimental sobre um hábito passado de uma geração para outra em sua família. Leia todos os depoimentos, que ficaram adoráveis.


Com enorme agradecimento pela generosa contribuição, passo a palavra a meus ilustres convidados. 


::: DEPOIMENTOS :::

CÉSAR FILHO

Citação: Jiraiya (1988)
Jiraiya e o honrado Barão Owl.
Quando Jiraiya foi reprisado exaustivamente na TV Manchete (até a fase de transição para a RedeTV!), passei a prestar mais atenção nos valores transmitidos. Eu destaco o episódio 9 onde Barão Owl, numa conversa com Tetsuzan Yamashi, professa sua fé cristã e expressa seu desejo por obter Pako, o Tesouro do Século, para erradicar os grandes males da humanidade, como a miséria e a desigualdade social. Problemas que ainda persistem nos nossos dias e que estão muito longe de acabar. 

A Família Yamashi também seria um diferencial nos tempos atuais pelo exemplo de respeito com ninjas de diferentes origens e princípios, sempre visando o objetivo de manter a paz da humanidade. O Ninja Olimpíada e seus aliados têm muito a nos ensinar em meio a tantas indiferenças.

- César Filho é autor do Blog Daileon e colunista do portal JBox


DANILO MODOLO
Citação: Changeman (1985)
Esquadrão Relâmpago Changeman
Toda vez que me perguntam sobre valores aprendidos com algo que assisti, me vem em mente o episódio 21 de Changeman, “O Metaleiro Espacial”. 

O inesquecível monstro Hara Ross, foi o que mais se aproximou de derrotar os heróis, mas mesmo com esse aperto, Tsurugi, o Change Dragon, pensa positivo e com o coração, e com uma câmera transmite a todo o Universo seu ponto de vista sobre a Terra e os humanos, que mesmo diferentes são iguais. Que estão sempre lutando pra melhorar; com tantos problemas, amam onde vivem e que sempre se deve manter a esperança, pra viver em paz e harmonia.

- Danilo Modolo é o criador do canal TokuDoc e autor do livro Ultraman, da Coleção Estronho.

FRANCO IKARI
Citação: Flashman (1986)
Comando Estelar Flashman
Um momento que me marcou foi sem dúvida a força de vontade dos Flashman. Devido a um efeito colateral do tempo que passaram no planeta Flash, a atmosfera da Terra passou a ser nociva pra eles. Porém, eles seguiram lutando, pois precisavam impedir o Cruzador Imperial Mess de dominar a Terra. Junto disso, havia o dilema de encontrar os pais. 

Mesmo quase morrendo, eles não desistiram. Sara escolheu lutar, mesmo conhecendo sua família. E se recusaram a serem modificados (pelo inimigo) e ficar na Terra por algo que trouxe tanta dor às pessoas. Foi inesquecível!


- Franco Ikari posta resenhas, comentários e insights sobre animê, tokusatsu e games em sua conta no Twitter.

JU GINGER
Citação: Vários
Princesa Mononoke

“A vida é sofrimento. É difícil. O mundo está amaldiçoado. Mas ainda assim você encontra razões para continuar vivendo.” (Princesa Mononoke, 1997) 

Meu primeiro contato com a cultura pop japonesa foi assistindo Black Kamen Rider, que me marcou muito. Pois foi através do tokusatsu que minha mãe me apresentou uma nova forma de ver TV. Aguardava ansiosa pelo horário de sentar no chão da sala, enquanto prestava atenção na telinha minha mãe contava sobre os seus programas favoritos quando jovem: National Kid, Ultraman, Vingadores do Espaço. E ali, sentada no chão com os olhos vidrados eu via o bem vencer, e o mal – feio, grotesco e burro – perder. Tudo parecia gigante, colorido, animado. Dali passei para os animes. Dragon Ball, Sailor Moon, Yu Yu Hakusho, Pokémon, entre outros. A emoção de ver valores ali trazia um calor no peito de quem acompanhava os episódios. 

Superação, força, perseverança, a busca em ser o melhor, em lutar, ajudar o mais fraco, justiça, respeito, disciplina. Apesar de muitos desenhos da época terem esse mesmo apelo, não marcavam tanto quanto o anime, com suas expressões exageradas e ação impactante, a receita perfeita para passar a mensagem certa. E mesmo durante a adolescência, os animes me acompanharam, trazendo sentimentos mais maduros e absorvendo outras lições. 

Passei esse costume para frente e hoje em dia é minha filha quem chora, ri, fica tensa e contente ao assistir animes. Seus preferidos são filmes do Studio Ghibli, que trazem amizade, bondade, respeito e aventuras honrosas em suas histórias. Claro que Naruto, One Piece, Sakura Card Captors e outra geração de Dragon Ball estão presentes. Seja nas mãos lendo os mangás e rindo sozinha quanto na TV vendo Inu-Yasha e ficando brava com a teimosia dele. O anime e a cultura pop japonesa permanecem dentro de nossa casa nos ensinando a sermos melhores, sempre.

- JuGinger é locutora e idealizadora da ShockWave Radio, onde apresenta o programa Tá em Shokkk?.

KiM PAiM
Citação: One Piece (1999)


Luffy e seus amigos em busca de seus sonhos.
Qual é a grande sacada de One Piece? Seguindo a linha dos animes, a história entrega um personagem principal que se fortalece através do treino e do esforço. Luffy do chapéu de palha é o menino que virou um homem-borracha (poder bem bosta se comparado a outros poderes da série), mas ele se diferencia e muito de outros personagens principais como Goku e Naruto não pelo fato que ele tem um chapéu de palha, mas porque Luffy tem um sonho bem delimitado e estamos torcendo há mais de 20 anos para ele realizá-lo.

Ele quer ser o Rei dos Piratas, e aí que já começam as coisas interessantes da série. Não significa ser o mais forte, nem o mais rico, mas Luffy define isso como ser o homem mais livre de todos. E com esse sonho e fé inabalável, Luffy sai navegando pelo mar para conquistar seu desejo.


Como todo anime, ele faz amigos que entram para a sua tripulação e que permanecem juntos por toda a série navegando por toda Grand Line. O que todos os tripulantes do bando do chapéu de palha possuem em comum é o sonho. Não o mesmo sonho de se tornar o Rei dos Piratas, mas cada um tem sonho individual que nos é apresentado junto com o motivo que fez com que eles desejassem perseguir esse caminho.


E esse é o ponto que posso afirmar que mudou minha vida, One Piece me fez questionar qual era o meu sonho. O que eu quero fazer da minha vida? Quando eu perguntava para meus amigos, eu percebia que eu estava vivendo num mundo onde as pessoas não sonhavam, onde apenas as conquistas materiais interessavam, onde eu era a única pessoa querendo ser o "rei dos piratas". Uma simples pergunta sobre "qual o meu sonho" fez minha vida mudar por completo, da escolha do curso universitário até a saída do Brasil para morar no exterior.


Já se vão 13 anos acompanhando Luffy nessa jornada, ele lá e eu aqui em busca de um sonho, quando conheci o professor Olavo de Carvalho e suas aulas sobre vocação, eu senti que aquele conhecimento já estava impregnado dentro de mim desde adolescente. A bandeira pirata trêmula dentro do meu coração e, graças a Deus, eu vivo uma vida com problemas, porém com um sentido. Eu sei porque eu acordo de manhã, eu sei porque eu tomo minhas escolhas, assim como Luffy eu vou conquistar a Grand Line e serei o Rei dos Piratas.


One Piece é aquela coisa que eu vou fazer meus filhos assistirem desde criança, porque num mundo onde o materialismo tomou conta da sociedade, o sonhador é o diferente.


- Kim Paim é criador do canal KiM PAiM e coautor do podcast Metasta-Se.

KODHAK
Citação: Yu Yu Hakusho (1990)
Yu Yu Hakusho
Me lembro de ter mais ou menos 7 anos quando escutei pela primeira vez a famosa frase: "não conheci o outro mundo por querer" proferida pelo ex-arruaceiro reformado Yusuke Urameshi num fim de tarde randômico da TV manchete. Como essa pequena peça se trata de uma reflexão sobre valores, juntamente com a importância de adquiri-los o quanto antes, me forço a memória até chegar na primeira boa lembrança de lapidação moral que tive com um desenho. Yu Yu Hakusho contava a história de um detetive espiritual que mudou drasticamente sua vida por literalmente ver que tinha alguma importância no mundo.

Isso pode parecer deveras complexo para o olhar não tão perceptivo de uma criança, já que boa parte de nós apresentava um interesse bem maior pela "hora da lutinha" presente nas animações japonesas, mas esse saudoso desenho me ensinou dois conceitos que tenho orgulho de carregar comigo mesmo depois dos 30 e vivendo em um ambiente amplamente dominado por pessoas que tem visões de mundo um tanto quanto conturbadas. Primeiro, a fé na mudança demonstrada pelo diretor Takenaka nos primeiros episódios me fez perceber que, mesmo quando a má fama precede, ainda existe algo de bom e de admirável na maioria das pessoas, conceito esse perfeitamente trabalhado no desenvolvimento da amizade entre Kuwabara e Yusuke, aonde porventura vemos o segundo conceito que aprendi: o perdão. Durante o emocionante capítulo do velório de Urameshi, vemos um sentimento de compaixão, perdão e amizade nascer de um personagem que até o momento era visto como um antagonista na tediosa vida escolar do protagonista.

Dito isto, eu poderia passar umas boas horas aqui falando sobre como aprendi a perseverar nos meus objetivos ou como pesar de forma estratégica pode literalmente evitar maiores problemas pra vida de qualquer jovem; eu poderia falar da relação de responsabilidade e companheirismo que o anime passa saga após saga, mas nada disso poderia ser absorvido se eu não tivesse aprendido a importância de acreditar que todos podem se redimir do que fizeram, contanto que saibam de fato perdoar e serem perdoados. 


De nada adiantaria ensinar companheirismo se não soubermos realmente o quão importante é desenvolver um laço verdadeiro com as pessoas, mesmo aquelas que a priori não teriam algo necessariamente bom a te proporcionar. Não vou dizer que Yu Yu Hakusho tenha valores ocidentais tão bem definidos como a recente obra Kimetsu no Yaiba, mas de fato, esta for uma porta de entrada para que eu aprendesse a depositar fé nas pessoas e acreditar em sua redenção, o que mais tarde acabou me aproximando novamente do Cristianismo e ajudando a moldar de uma vez por todas o meu caráter.

- Kodhak Senpai é criador do canal Kodhak, do Kodcast e apresentador do programa Bentô do Kodhak, na ShockWave Radio

RICARDO CRUZ
Citação: Lion Man (1973)
Poderoso Lion Man!
O primeiro que me vem à mente é o episódio 10 de Lion Man, em que o espadachim Hyoba/ Jaguar se depara com um vilarejo arrasado pelo clã conhecido como a Família de Mantor do Diabo. Ele perseguia o Dan Shimaru/ Lion Man, querendo desafiá-lo motivado pela vaidade de tentar ser superior a ele. Mas, quando ele vê as pessoas do vilarejo mortas, isso muda. É uma cena forte, que mostra uma mãe em prantos e ferida, se arrastando pelo chão até o corpo morto do filho ainda criança. O Jaguar apenas observa em silêncio. 

Desde então, ele deixa o ego de lado, e passa a lutar ao lado do Shimaru contra os opressores reais, a Família de Mantor. E - olha o spoiler! - no episódio seguinte, decide lutar sozinho, mas acaba morto por um dos monstros! Essa caída de ficha do Jaguar, que resultou nele dando a vida pelo que acreditava ser o certo, além de ser um dos pontos altos da série, foi algo que ficou na minha cabeça desde que assisti pela primeira vez. 

- Ricardo Cruz é cantor, membro do JAM Project, Danger 3 e Anison Lab, compositor, tradutor e professor de japonês do curso NihonGO.

RIOJIN
Citação: Rurouni Kenshin ~ Samurai X (1996)
Kenshin Himura, ou "Battousai, o Retalhador".
"Mesmo com uma espada dessas, eu posso proteger as pessoas que os meus olhos conseguem ver." Esta é a frase que Kenshin Himura fala para Yamagata no fim do episódio 3 do anime Rurouni Kenshin. Nunca esqueci. 

Apesar da (enorme) mancada recente do autor Nobuhiro Watsuki, essa é uma obra que possui valores bem positivos. 

É do ser humano  querer mudar o mundo, e fazer prevalecer nosso próprio ponto de vista. Não importa o lado, o poder corrompe. O que a vida ensinou ao Kenshin foi que, o mais importante é proteger aqueles que se ama. E isso tomei pra mim. Mesmo que eu não mude o mundo, vou proteger minha família e as pessoas que amo. Kenshin (ou Shinta) cresceu sem uma família,  mas entende o valor que ela tem, e fez dos moradores do Dojo Kamiya a sua.

Hitokiri Battousai era o espadachim mais forte entre os monarquistas, mas a sua real força só aparece quando precisa proteger um ideal, ou as pessoas ao seu redor. Com o avançar da história, vemos que para que ele consiga fazer isso, ele não deve lutar sem se importar se vai morrer, mas sim, querer muito estar vivo, e querer estar ao lado daqueles que ama. Dois ideais carrego comigo, que aprendi com Kenshin Himura: lutar para viver de forma plena e proteger minha família, com todas as minhas forças!

- Riojin é autor de mangás, tendo produzido Miyako-chan no Karê, Two Hiros e Silent Archives.

TEFF FERRARI
Citação: Sakura Card Captors (1998)
Sakura Card Captor
Sakura é uma criança que aprontou! Para variar, como toda criança com seu jeito estabanado de ser acabou liberando o poder das cartas Clow e teve que assumir a responsabilidade de capturar 52 cartas mágicas com superpoderes. Conta com a ajuda de Kerberos (o Kero, que é um guardião das cartas) e sua melhor amiga Tomoyo.

Para mim, os pontos fortes que me encantavam na trama japonesa considerando valores morais e alguns princípios que regem minha vida, saliento o auto-sacrifício por ter que assumir uma luta e salvar inocentes dos terrores das cartas; a responsabilização por entender que, mesmo de forma acidental, liberou um poder mágico que poderia causar danos aos outros; a luta assumida através da clara consciência de bem e mal, sendo muito mais do que capturar as cartas, mas não permitir que essas firam outras pessoas; e dedicação ao que é certo e justo, algo que é sempre pontuado em questões morais vindas de Kerberos. Esses valores estão sempre presentes nos episódios, até mesmo nas pequenas coisas ou cenas do anime.

O esforço de cada um dos personagens de melhorar e continuar tentando é algo muito presente no desenho e algo que sempre mexeu comigo desde a infância e asseguro, formou muito caráter! (RS)

Para fechar, desde criança, achava valorosa a relação que tinha com seus familiares, a dinâmica de ajudar em casa em seus afazeres domésticos (que dividia com seu irmão), a vontade de agradar seu pai, pois ele trabalhava para trazer o sustento familiar. Enfim, os papéis existiam, a hierarquia e o respeito que deve existir entre uma criança e um adulto.

- Teff Ferrari é psicóloga e apresentadora do podcast do Movimento Conservador e do programa Pare de Ser Burro!, na ShockWave Radio.

USYS222
Citação: O Regresso de Ultraman (1971)


Hideki Goh e Ultraman Jack: Unidos em simbiose.
Uma obra que me inspirou muito foi O Regresso de Ultraman. Quando era menor, curtia mais ver o Ultraman derrotando os inimigos, mas só quando comecei a trabalhar percebi várias lições que a série trazia.

Eu enfrentava vários problemas de adaptação no trabalho, pois era uma área totalmente estranha para mim e entrei por não ter outra alternativa. Teve algumas vezes em que me deixei levar por impulsividade e acabei cometendo erros graves. E também aquelas em que tive um motivo para deixar de fazer algo, porém não acreditaram em mim. 

Tive vários momentos de dúvida, deitando no chão e olhando para o céu, me perguntando se eu era mesmo apto para o trabalho. Nisso, me lembrei que Hideki Go também passou por essas situações. E que o GAM (MAT, no original) era como se fosse uma empresa, com quase os mesmos tipos de pessoas. Tinha o colega que tentava me desqualificar, pensando no bem da empresa, e aquele que me protegia, por ver que eu tinha potencial. E ainda, o chefe que era rigoroso, porém tentava passar lições para seus subordinados. Eu também tinha culpa, pois me achava especial por ter estudado no Japão por um tempo, mais ou menos como Go, que achava que podia resolver tudo por ser o Ultraman. Porém, não era assim.

Com isso, aprendi que em uma empresa ou um time de defesa da Terra, era preciso saber trabalhar em equipe. E que habilidades especiais só valem se tiverem alguma serventia para esse trabalho. Assim, revi minhas atitudes.

E estou lá ainda, nesse mesmo trabalho. Ainda enfrento problemas, mas desta vez com menos dúvidas.

- Usys222 é colecionador de action figures e autor do blog Casa do Boneco Mecânico.


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- Meus agradecimentos a Ricardo Cruz, Usys222, Ju Ginger, Danilo Modolo, Riojin, Teff FerrariKim Paim, César Filho, Franco Ikari e Kodhak, pelas gentis contribuições. Todos eles estão no Twitter e ajudam a fazer da rede a melhor que existe em termos de informação. 

- E você? Qual personagem, série ou momento marcou você positivamente no sentido de transmitir valores e lições de vida? Escreva nos comentários e ajude a tornar este post ainda mais significativo. 

21 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Que matéria incrível, mestre Nagado!

Sou suspeito pra falar de Os Cavaleiros do Zodíaco, pois foi o primeiro anime marcante que vi e revejo praticamente todos os anos, desde 2008. O melhor de tudo é que estou vendo com meu filho de 4 anos. Quando assisti pela primeira vez, fui chocado com as cenas de luta bem sangrentas, mas impactado com o valor da amizade e perseverança transmitidos pelos defensores de Atena.

Quando assisti depois de adulto, a percepção já é outra. Você não está tão preocupado em ver as lutas, até porque você já tem ideia de que os mocinhos vão ganhar, mas quebrei a cara legal no Muro das Lamentações, sendo realmente surpreendido pelo Kurumada. Como a maioria dos combates se resumem a golpes que fazem os oponentes caírem de cara no chão, o que continuou me prendendo a atenção foram os diálogos.

Agora, depois de me tornar pai, é possível notar ainda mais coisas, além de explicar pra meu filho que aquilo é coisa do mal, mas as forças do bem farão de tudo para vencer. E as partes que me emociono e me seguro pra não chorar na frente dele são quando os cavaleiros de ouro reconhecem a derrota, ainda que estejam vivos (Aldebaran e Milo) e aceitam Atena como deusa, deixando os jovens cavaleiros prosseguirem.

Espero poder continuar assistindo a várias outras obras junto dele. Ele já viu quase todos os episódios comigo de Kamen Rider Ex-Aid, alguns do Build e é fã dos Power Rangers.

𝐏𝐞𝐭𝐞𝐫𝐬𝐨𝐧 𝐒𝐭𝐚𝐧𝐠𝐥 disse...

Parabéns pela matéria!
Se for fazer a segunda parte não esqueça de colocar AS AVENTURAS DE MARCO E O PIRATA DO ESPAÇO!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo! Obrigado pelo seu depoimento. Uma coisa que estou adorando ver é como esta postagem está repercutindo no Twitter. Realmente, bem melhor do que eu esperava. É uma prova de quão importantes são os valores que aprendemos em tenra idade.

Valeu e parabéns por também passar valores a seu filho.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Peterson Stangl!

Marco era uma grande série, mostrando a saga de um menino em busca da mãe. E O Pirata do Espaço é praticamente uma obra de guerra, mostrando o lado cruel e o companheirismo no campo de batalha. Os exemplos são inúmeros.

Abraço!

Douglas Moura disse...

Matéria top!

Unknown disse...

Um dos animes que mais mostram que decisões tem consequências e que devemos ser responsáveis por nossos erros a fim de podermos corrigí-los é Fullmetal Alchemist Brotherhood.

Mostrando também uma das melhores construções de personagens que já vi em um anime, como Scar e von Hoenhein. Não lembro de nenhum personagem que tenha tido foco e fosse mal desenvolvido.

E para finalizar tem o episódio 6, uma dose de realidade para as pessoas refletirem sobre como a crueldade pode vir de qualquer lugar.

Wallace Costa disse...

Queria falar também sobre CDZ. São dezenas de lembranças mas gostaria de citar logo o que me fez prestar atenção também nas mensagens, além da sanguinolência e pancadaria.

Se trata da caminhada do Shiryu, buscando consertar sua armadura e a do Seiya. Ao ser informado que deveria deixar metade do seu sangue para o conserto, usa a lógica de sacrifício: se doar toda essa quantidade, vou morrer. Então morrerei pela armadura de quem já devo a vida, de certa forma, além de não mais voltar. O que aterrorizou Kiki e comoveu Mu, que disse que ele não merecia morrer. Era um dilema que Shiryu não titubeou: foi feliz e como um cordeiro.

Não obstante, ainda lutou debilitado contra o Dragão Negro, que aumenta mais ainda o drama desse arco.

Jorge Hakaider disse...

Muitas séries e animes me marcaram muito na infância, vou destacar duas: Vingadores do Espaço e Spectreman. Em Vingadores do Espaço (Magma Taishi) eu lembro vagamente que assistia ainda no berço, devia ter uns 3 anos. Via numa TV grande de madeira em P&B. Um episódio me marcou bastante, nele Goldar combate um monstro no meio da cidade e naquele momento havia num dos prédios próximos onde os dois se enfrentavam um bebê num dos apartamentos que chorava sem parar. Lembro da mãe em desespero para querer entrar no prédio e os policiais a segurando, quando o garoto Miko decide se arriscar e entrar para resgatar a criança. Goldar começa a segurar o monstro a tempo do menino salvar o bebê. Aquela cena me marcou tanto que era o único episódio que lembrava de Vingadores do Espaço durante toda minha infância até idade adulta. Falava com meus irmãos que não lembravam da série (eles eram mais novos que eu), até que um dia a antiga Herói pública uma matéria sobre Goldar na edição 10, e eu pude então provar para meus irmãos que não era coisa da minha cabeça, hahahahaha.

Já em Spectreman um episódio que me marcou demais foi Operação Genocídio, não pela violência do episódio, mas da cena final quando o garoto usa seus poderes para orientar o Spectreman que estava cego para que conseguisse destruir o monstro. Por conta disso o garoto acaba morrendo, pois exauriu suas forças. Lembro de Kenji (Spectreman) segurando o corpo do menino nos braços e jurando que jamais perdoaria o Doutor Gori diante do pôr do Sol. Aquela cena é forte demais pela carga emocional que passou. Nas duas situações foram sacrifícios feitos por crianças para salvar o próximo num momento clímax e acredito que deixou em mim uma mensagem muito importante de amor a vida e coragem.

Parabéns pelo seu texto Nagado. Vou compartilhar em todas as minhas redes sociais. Abraços.

Detonation Uchiha disse...

Mas que depoimentos maravilhosos! Muito boa a iniciativa Nagado. Uns tempos atrás eu cheguei a comentar sobre um arco de Naruto envolvendo o personagem Rock Lee, cujo luta contra Gaara (em que Lee foi colocado à prova) ficou marcada não só na minha mente, como da de todo mundo que assistiu creio eu.

Para variar um pouco vou comentar de outro momento que me marcou muito na infância, este muito antes de Naruto inclusive, em Dragon Ball Z durante a saga Majin Boo. Vegeta estava completamente tomado pelo orgulho e se deixou ser tomado pelo poder maligno de Babidi mas, tempos depois, ao reconhecer a ameaça que Majin Boo representava ele tem sua grande redenção. Vegeta abraça seu filho Trunks e se despede, ele se sacrifica na esperança de levar consigo o vilão e assim proteger sua família que, mesmo sendo um homem de coração frio, ele aprendeu a amar.

anderson disse...

Vou tentar dar alguns exemplos mas vou evitar séries muito populares como CDZ e DBZ para não
ser tão óbvio:
-Cybercop:junto com Ultraman a razão de sempre assistir os fins de tarde da CNT em 2000.O episódio mais marcante foi quando Lúcifer apareceu em um episódio de tema Western e surrou
o protagonista Júpiter com seu armamento superior,mas final o herói ganha forças para reagir
ao lembrar o conselho de um idoso de que "os olhos da alma são melhores que os da máquina.
-Rayearth:uma série que quebrou padrões sem apelar para feminazimo.Em um episódio a principal Lucy encontrou um animal simpático e o adotou ,até que no final ele se revelou
um monstro disfarçado a obrigando a matá-lo,mas ainda lhe fazia um funeral enquanto percebia
que sua missão pode ser mais dura do que parece.
-Kaiketsu Zorro :exibida pela Record aos fins de semana,essa série tornava o clássico mascarado tão eletrizante quanto Batman Tas no mesmo canal,sem precisar mudar nada na essência da obra,e me ensinou que mesmo na era da tecnologia,heróis clássicos com valores atemporais não devem ser esquecidos.
-Yugioh:embora reportagens destacassem os poderes místicos,o verdadeiro poder do herói era
a inteligência para usar as cartas,como em uma ocasião em que usou seu mago negro sabendo
que seria envelhecido pelo adversário,mas se aproveitando disso para torná-lo mais poderoso,pois com "a idade vêm a sabedoria".Lições simples que dificilmente são vistas em
desenhos americanos atuais.
-

Venâncio Souza disse...

Primeiramente, parabéns ao Nagado pela rica matéria e também, parabéns aos participantes pelos depoimentos emocionantes.

A Cultura Pop é de fato riquíssima em valores e lições de vida e fica até difícil dizer apenas um, pois são muitos ensinamentos que aprendemos ao longo dos anos assistindo seja animes ou Tokusatsu. Separei um episódios que trás grandes ensinamentos, através das séries Ultra que é a minha franquia favorita.

No episódio 11 da série Ultraman Ginga S (2014) intitulado ''As lágrimas de Gan Q'', temos verdadeiras lições de vida muito inspiradoras. O roteiro escrito pelo competente Takao Nakano nos mostra a amizade entre o garoto Satoru e o monstro Gan-Q. Na história, um Homem comum acaba preso dentro do Monstro Gan Q pelo Alien Akumania. Ele conhece Satoru, um garoto solitário, de poucos amigos e que tinha uma grande dificuldade em aprender a andar de bicicleta, o que o tornava alvo de brincadeiras maldosas pelas outras crianças. A mãe de Satoru trabalha o dia todo, por isso o garoto vive sozinho a maior parte do tempo, e acaba criando uma grande amizade com o Gan Q. Os dois criam um forte laço de amizade, fazendo diversas coisas juntos. Quando Gan Q passa a ensinar Satoru a andar de bicicleta, infelizmente o terrível Akumania faz com que Gan Q se agigante e se enfureça causando tumulto na cidade, até que Ultraman Ginga e Victory aparecem. No tumulto, Satoru pega sua bicicleta e começa a andar, em meio as lágrimas agradecendo por Gan Q ser o seu único amigo e o ter ensinado a andar de bicicleta, dizendo o quanto aquilo significou para ele.

Os dois grandes ensinamentos que temos vendo este episódios são; o garoto Satoru não se importou com a aparência grotesta de monstro de Gan Q, ele o considerou por ter se preocupado com ele, por ser o seu único amigo e te-lo ajudado em alcançar um objetivo. Jamais devemos julgar pela aparência, pois o que vale é o coração e as boas ações que aquela pessoa terá com você. O outro ensinamento é de que, quando puder fazer um bem para uma pessoa, faça. Por mais simples que seja, isso pode significar algo muito grande para alguém. Gan Q achou que ensinar o garoto a andar de bicicleta fosse algo simples demais, mas para o garoto significou a realização de um grande sonho.

Enfim, este é apenas um dos grandes ensinamentos que aprendi assistindo Tokusatsu, em especial os Ultras.

Abraços a todos!

Alexandre Nagado disse...

Oi, pessoal!

Estou acompanhando muito feliz a repercussão desta postagem. Agradeço demais os compartilhamentos e os comentários. Aliás, são valiosas contribuições ao tema das postagens. Essas lembranças de Vingadores do Espaço, Spectreman, Cybercop, Dragon Ball Z, Naruto, Ultraman Ginga S, Cavaleiros do Zodíaco, Zorro, Rayearth, Yu-Gi-Oh e Fullmetal Alchemist são tesouros em forma de testemunho.

Mais de 600 acessos em menos de um dia é algo que me deixa realmente muito satisfeito.

Muito obrigado a todos!

Jota Fagner disse...

Meu amigo Nagado (espero que não se importe de eu o considerar um amigo), você fez uma lista maravilhosa. Só alguém que conhece profundamente a industria do entretenimento japonês poderia realizar uma curadoria como essa. De minha parte, conheço muito pouco. Sou limitado ao que foi exibido pela extinta Rede Manchete. A ficção, no entanto, sempre teve a função de nos transmitir valores, sempre relacionados às culturas de origem. Leigo que sou, achei a postagem completa e de muito valor.

Fato é que, alguns valores mudam com o tempo. Por exemplo: 1)Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes, 1912), que deu origem a duas dúzias de volumes nem sempre geniais, mas transparentes, sobre a ambivalente posição de Burroughs a respeito da civilização. Por ter sido criado e passado a vida toda entre macacos, Tarzan conserva, claro, traços de um “incivilizado” - e, portanto, de um sujeito viril e pouco amistoso, segundo a lógica de Burroughs, que carrega no racismo do órfão aristocrata inglês. Por razões pouco claras, ele é afável com os macacos, mas age com violência contra os negros africanos, que vê como inimigos. Caucasianos são promovidos à categoria de dominadores naturais. A “civilização” está em suas mãos. A propósito: Tarzan, na língua dos mangani, os grandes macacos criados por Burroughs, quer dizer “pele branca”. Os negros africanos, vistos como inferiores por Tarzan, descem à condição de suspeitos, traiçoeiros.

2) Tintim é outro personagem que apresentava problemas parecidos. A história de estreia do personagem, “Tintim no País dos Sovietes” (1929), apresentava um desenhista ainda em formação e uma história cheia de hiatos. Era praticamente um manifesto anticomunismo, com a União Soviética mostrada como um país artificial, onde nada era o que parecia. A história seguinte do personagem, "Tintim no Congo", é, até hoje, polêmica. Iniciada em 1930, mostra o jornalista e aventureiro Tintim convivendo com africanos estereotipados, o que levantou acusações de racismo contra o autor. Tintim figura, no livro, como mais forte e inteligente que os africanos, retratados com inocência infantil. Em uma cena, o jornalista substitui o professor dos jovens africanos e leciona aos congoleses sobre a sua "pátria, a Bélgica". Quando Tintim volta à Europa, os africanos criam um ídolo de madeira para adorá-lo como se fosse um deus.

Jota Fagner disse...

3) Drácula, de Bram Stoker. Em linhas gerais, a narrativa do romance Drácula consiste na história de um corretor de imóveis, Jonathan Harker, que viaja para o Leste Europeu após ser contratado por um aristocrata da Transilvânia para comprar-lhe uma casa em Londres. Ao longo da narrativa, o leitor - e o
protagonista - vão descobrindo que este aristocrata, de nome Drácula, era um vampiro e sua intenção, ao se mudar para Londres, era conseguir pôr em prática o plano de transformar os habitantes da capital inglesa em seres como ele. Após desconfiar da verdadeira natureza do Conde, Harker sente uma grande preocupação de que Londres, um dos corações culturais, político e econômico da Europa Ocidental, fosse assolada por esse mal, um mal "estrangeiro”, oriundo de um Leste distante. Temeroso diante dessa ameaça, ele, com a ajuda de algumas pessoas ligadas à primeira vítima de Drácula em Londres, entre elas a jovem Lucy Westenra, decide parar o vampiro e evitar que o grande mal se alastrasse.

A lista é grande. Poderia citar um dos meus escritores favoritos, Monteiro Lobato, e falar do seu pertencimento à Sociedade Eugênica de São Paulo. Mas acho que já me estendi demais. Faço todos esses comentários prolixos só para pedir a você que realize também um post sobre produções japonesas que deveríamos atentar para o perigo de suas mensagens. Não quero com isso dizer que essas obras devam cair no ostracismo - longe de mim -, mas é preciso perceber o que está em pauta. Muitos dos valores que tenho hoje foram construídos graças às leituras de entretenimento e aos desenhos animados que eu consumia na infância. A mesma ferramenta que serviu para fomentar nosso caráter pode funcionar como reflexo de valores ultrapassados.

Belíssimo artigo. Obrigado por trazer esse assunto ao debate.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Fagner! Sim, claro que somos amigos!

Essa questão que trouxe é bem pertinente. Eu precisaria fazer uma pesquisa cuidadosa, pois questões altamente polêmicas sempre aparecem.

Puxando de memória, lembro que o Osamu Tezuka uma vez se desculpou por ter desenhado representações caricatas grosseiras de pessoas de tribos africanas em seu mangá Kimba. Em uma republicação nos anos 80 (ou antes, não tenho certeza), ele redesenhou várias cenas para que fosse uma representação mais simpática.

Em um mangá, que não vou lembrar o título, houve grande polêmica quando apareceu uma cena descrevendo o caso das "mulheres de conforto" coreanas que foram sequestradas e abusadas sexualmente por soldados japoneses na guerra. O autor insinuou que elas se divertiam com isso, o que gerou um mal-estar diplomático entre os países.

Com isso, dá pra perceber que sua sugestão pode render uma boa matéria, mas fica para um futuro indefinido, por enquanto.

Valeu! Grande abraço!

Jota Fagner disse...

Meu amigo, você já me deu um norte bem definido. Aos poucos, vamos buscando evoluir. Como diria o Roberto Carlos (eu sei que é meio piegas): "não somos perfeitos... Ainda."

Jefferson disse...

Caro Nagado, ótimo tema. Na verdade é O tema.

Boa parte da minha postura em relação a vida se deve a essa influência tão construtiva. Por vezes me encorajando a seguir em frente, outras me dando forças pra resistir as pressões que a vida impõe (resiliência).

Vou puxar dois dos Changeman que me marcaram muito. Uma é da garota alienígena que queria reencontrar o Tsurugi, que estava preso no traje. Ela o reconhece quando ele coloca uma flor no cabelo dela da mesma forma que havia feito quando criança. No fim do episódio ele a encoraja a continuar lutando e que as diferenças no fundo não existem.

Outro é quando o Gaata renuncia ao império Gozma em razão do filho que estava pra nascer. No fim ele parece chorando, achando que a família havia morrido no ataque e dos escombros ouve-se o choro do bebê. PQP!!! Changeman tem vários episódios de soco no estômago. Wallage, Nana, Buba e pirata Gil, Marmaid mãe, o espectro do baseball, Ozora e o cavalo se sacrificando, Gyodai sozinho, etc, etc, etc. E ia falar só de dois, rs.

O Jiraiya que acabou ficando amigo de metade de seus inimigos chegando a entregar a inscrição (na verdade o velho) nas mãos de Barão Owl quando nem eram oficialmente aliados. Desapego em busca de um bem maior.

Em Rurouni Kenshin quando o mesmo se recusa a matar Aoshi e Misao cai em lágrimas. Serenidade e responsabilidade pelos sentimentos alheios.

Os Cavaleiros do Zodíaco se lançaram em uma luta suicida nas doze casas pra salvar Atena. No fim a mensagem é que não existe ninguém invencível por mais poderoso que possa parecer e nenhum grau que com esforço não possa ser alcançado.

Não sei qual é "o sentido da arte". Mas acho que uma coisa que ela realmente pode fazer é despertar o melhor que há em nós e nos encorajar a seguir em frente. Principalmente quando somos crianças, quando estes valores são tão necessários de serem transmitidos para que possamos crescer com alguma segurança e confiança.

OBRIGADO PELO POST!

Deixa eu ir ali chorar um pouco....

Jefferson disse...

P.S. Esqueci de mensionar todos os episódios do Pequeno Príncipe que passou no SBT. Agora sim!

@thiagol02 disse...

Matéria espetacular. Há inúmeras outras obras que ainda poderiam ser citadas, com valores e ensinamentos incríveis.

Hunter X Hunter, Fullmetal Alchemist, o próprio Kenshin (com seu último arco sendo uma história brilhante de redenção), Gash Bell... Isso para ficar apenas no shonen.

Jorge Hakaider disse...

Eu que agradeço poder relembrar e contar esses fatos que me marcaram na infância. 👏🏻👏🏻👏🏻

M disse...

Muito interessante a leitura! Um tempo atrás, revendo alguns tokusatsus, fiquei pensando que antigamente as crianças cresciam com bons exemplos nos filmes e desenhos, o bem sempre vencia, sempre havia uma mensagem positiva mesmo.
Lembrei de um momento em particular, em Gundam 0079, mais precisamente no episódio 8, no qual soldados de Zeon encontram uma mãe e um filho do lado da Federação no meio de um deserto, se me recordo bem. Mesmo sendo de lados opostos e inimigos na guerra, eles deram orientações e deixaram suprimentos com a mãe e o filho, essa cena me chamou muito a atenção e me marcou muito quando assisti a série. Vi a série em 2018, já adulta, e a cena me fez pensar bastante, tenho certeza que as crianças que acompanhavam a série quando viram essa cena receberam um ótimo exemplo de humanidade e sobre cuidar do próximo.