terça-feira, 3 de setembro de 2019

A tal da "masculinidade tóxica" no mangá e no animê

Algumas considerações sobre comportamentos nada louváveis em produções japonesas e a falta de proporção de algumas reações.
Tamaki Kotatsu: Heroína de Fire Force.
Combustível para a masculinidade tóxica?
Dentro do grande processo de politização da cultura pop e de discussões levantadas por movimentos sociais e pessoas do público, as produções japonesas não poderiam ficar de fora. Mas, antes de mais nada, é importante frisar que, a despeito do sucesso mundial de vários títulos e franquias, as produções japonesas são feitas visando primariamente o público local. Isso implica em costumes, valores e visões de mundo que vão diferir em vários aspectos tanto da cultura ocidental tradicional quanto dos modismos movidos ao politicamente correto e às pautas ditas progressistas. 

Espernear, xingar, boicotar aqui de pouco adianta perante a maioria dos autores e produtores do Japão. Ainda mais quando muitos fãs ocidentais não podem ser considerados público consumidor a ser ouvido, pois recorrem à pirataria, que em nada acrescenta financeiramente (muito pelo contrário) aos produtores de conteúdo. Acima de tudo, eles precisam de lucro para continuar suas atividades. 
Mais do que em qualquer outro lugar do mundo,
no Japão a cultura pop oferece uma fuga da realidade
e uma catarse para as pressões sociais, seja na escola ou no trabalho.
O efeito válvula de escape

Sabe-se que a sociedade japonesa é bastante controlada, no sentido das manifestações lá serem mais comedidas e as relações interpessoais serem mais formais. A criação lá faz evitar o toque físico e as emoções são bastante controladas em público, ao menos para a maioria das pessoas bem criadas. Isso, em um ambiente competitivo, onde existe muito bullying nas escolas e onde a pressão sobre quem trabalha é feroz, o resultado é uma população que busca válvulas de escape. Essa é uma das explicações para a violência, dramaticidade e sensualidade extremadas em muitas produções japonesas. 

Tudo isso faz parte de um mecanismo emocional chamado de catarse, onde o alívio das tensões vem do consumo de produtos de mídia, evitando (em tese) que precisem ser extravasados no mundo real. Sem cair nos extremos para adultos de estômago forte e tendências psicóticas (sim, isso existe e é um terreno bem tóxico), inúmeras produções infanto-juvenis, juvenis e adultas feitas no Japão podem ser consideradas como válvulas de escape para as tensões do público comum. 

O senso de humor japonês também é diferente do ocidental, sendo muito mais grosseiro para nossos modelos de comportamento. Em um antigo post, vimos o quão apelativo (para os padrões ocidentais) pode ser o humor infantil japonês, onde é comum rirem de situações envolvendo gases e fezes. Alguém aqui imaginaria o Cascão soltando um sonoro peido na cara da Mônica pra não apanhar? Ou o Mickey Mouse escorregando em uma casca de banana pra cair de cara em um montinho de fezes que o Pluto estava tentando enterrar? Piadas assim seriam - e são - comuns no Japão e o mangá Dr. Slump, de Akira Toriyama, é um bom exemplo desse tipo de abordagem mais chula e vulgar.
Assédio sexual grosseiro no trabalho! Não pode!
(E aonde está escrito que podia?)
O assédio de um "macho escroto"

Assim, chegamos a um ponto crucial nas discussões atuais da cultura pop e da sociedade: a tal da "masculinidade tóxica". Esse termo surgiu das alas mais radicais do feminismo, uma ideologia que há muito se distanciou de seus valores básicos. Praticamente qualquer manifestação de força, de competitividade, coragem, independência, ousadia e atrevimento passa a ser considerada como masculinidade tóxica. Nessa visão, existem somente os homens fracos que precisam ser protegidos por uma mulher ou homens fortes e estupradores em potencial (o chamado "macho escroto"), que precisam ser esmagados e ridicularizados por uma mulher. Assim, para militantes histéricas, não há diferença entre um elogio ou um flerte e um assédio sexual agressivo seguido de estupro real. Isso nos leva a um tipo concreto de assédio, que é o ato de bolinar, passar a mão no corpo de uma mulher. 

Uma cena desse tipo aconteceu na série Fire Force (2019), exibida atualmente, e despertou reações violentas em parte de público. Isso, mais a sexualização da personagem Tamaki Kotatsu, chamaram a atenção para a "masculinidade tóxica" da série, que surgiu primeiro no mangá. Porém, a tal "passada de mão" é uma das coisas mais antigas em desenhos japoneses, só para informar as pessoas mais jovens que esperneiam indignadas na internet perante qualquer novidade que "agrida" sua visão de mundo. Só para não retroceder muito, o herói JJ, da série Zillion (1987) era famoso por suas investidas cheias de atrevimento e mão boba. 

Coisa muito pior pode ser encontrada em obras juvenis de Go Nagai, um autor absolutamente incorreto e profano em suas histórias. Acontece que, como em toda cena baseada em humor de constrangimento, bolinar é algo para causar riso pelo absurdo e grotesco da situação, e não provocar a repetição do ato no mundo real. Tanto é verdade, que o personagem que bolina sempre acaba apanhando ou se dando mal. Não é apologia, em hipótese alguma. Qualquer garoto lá no Japão (ou que viva em um país civilizado) sabe que fazer isso é errado e, se fizer, estará encrencado. 
O atirador JJ, de Zillion, sempre atrás de belas donzelas.
Na mesma situação, estão aquelas cenas com personagem tentando ver uma garota tomando banho, espiar por baixo da saia e por aí vai. São gags visuais que transitam entre o humor chulo e o infantilizado, algo que é bastante antigo em mangás e animês para adolescentes e que, no ocidente, foi sendo suprimido pelo discurso do politicamente correto. 

Aqui, um parênteses muito necessário: Há até alguns anos atrás, uma cena relativamente comum em trens lotados no Japão era ver jovens sendo apalpadas por homens mais velhos. Até velhinhas davam risada ao presenciar isso, mas esse tipo de atitude causou atritos ruidosos quando o movimento dekassegui começou a promover a invasão de brasileiros trabalhadores em vários pontos do Japão, nos anos 1990. Alguns incidentes foram relatados envolvendo reações de ocidentais perante a desrespeitosa atitude descrita. O comportamento, realmente tóxico e nojento, começou a ser combatido com conscientização, mas consta que ainda não desapareceu totalmente. 

É importante frisar que não são cenas de humor dito machista na cultura pop que causam esse tipo de desvio de comportamento em adultos, e sim a falta de educação e respeito, que são coisas reprovadas na sociedade japonesa, assim como em qualquer outra. Vale lembrar que a maioria das crianças não pula da janela por que viu o Superman voando. 

Adultos, por mais tolos que possam ser, possuem uma ideia de causa e efeito mais desenvolvida que crianças, exceto quando possuem algum grau de psicopatia. É preciso parar de querer tutelar a todos via "controle social", querendo fazer crer que todo mundo vai imitar tudo o que assistir. Isso vale tanto para a violência quanto para os "assédios" vistos em mangás e animês. E falando em assédio, há a questão das vítimas dele, o que nos leva ao próximo ponto.
Cena de banho de ofurô em Inu-Yasha.
O objetificação da mulher (?)

A tal "objetificação da mulher" nos mangás e animês é outra das questões que é bastante abordada pelos justiceiros sociais que povoam a internet. O tema não esbarra somente no fator "catarse", mas também na forma como a nudez é tratada no Japão. Em um país onde, décadas atrás, era comum ver casas de banho coletivo onde famílias inteiras iam mergulhar no tradicional ofurô, a nudez possui um tabu muito menor

O contato e assimilação do pudor ocidental, de certa forma, fez aflorar mais o lado sexualizado da nudez, criando um contraste na cultura pop, uma mistura entre o desejo de retratar algo natural e belo e o simples estímulo do apetite sexual, ainda que catártico. Para adolescentes, é óbvio que é a segunda situação o que mais atrai a atenção. 

Certamente, para um jovem e pouco informado militante feminista, é bastante fácil acusar qualquer par de pernas de fora ou decote de estar contribuindo para a "masculinidade tóxica de uma sociedade machista patriarcal", sem se dar conta do significado de cada item que ela ataca. A questão da beleza ou vulgaridade da nudez, entre outras, poderá ser melhor abordada futuramente, mas espero, por ora, ter jogado uma luz em algumas questões ligadas a visões ocidentais equivocadas sobre animações e quadrinhos japoneses. 

Produções feitas em outro contexto cultural e para outro tipo de público não podem ser vistas de forma reducionista e nem tratadas como mera bandeira política. Até por que, conforme já dito, isso pouco interessa, atualmente, aos criadores de conteúdo no Japão. Espera-se que continue assim. 


::: LEITURAS COMPLEMENTARES :::

- Sobre flatulências, humor gráfico japonês e as origens do mangá

- Justiceiros sociais e cultura pop! Uma reflexão sobre sociedade, política e militância


Guia Politicamente Incorreto da Filosofia


- Humor gráfico, liberdade de expressão e o politicamente correto

- Sobre misandria e a desonestidade da mídia

::: Colabore com o Sushi POP no Padrim :::
Financiamento Coletivo



Playasia - Buy Games & Codes for PS4, PS3, Xbox 360, Xbox One, Wii U and PC / Mac.

13 comentários:

anderson disse...

Essa foi uma abordagem bem melhor do assstunto do que um certo blog de humor sjw
costuma fazer("esse aparelho deve estar quebrado").Sinceramente os jornalistas e blogueiros
americanos não tem mais moral para reclamar de obras japonesas.Vejamos por exemplo Steven Universe onde as heroinas feiosas podem se fundir ,só que diferente de DBZ essa união simboliza claramente o relacionamento lésbico das personagens.O problema é que posteriormente
a série mostra duas crianças de sexo diferente fazendo essa fusão ,o que torna tudo perturbador...E um livro recente de Star Wars fez um retcon bizarro,onde é dito que a crença Jedi permite que eles tenham relacionamentos íntimos desde que sem casamento.O mesmo livro afirma que esse tipo de relação é comum entre Mestres Jedi e seus discípulos -e quem assistiu o desenho Clone Wars sabe que os jovens Jedi costumam ser atribuidos a mestres ainda crianças...E não vamos esqueçer da Capitã Marvel agredindo e roubando um homem porque uma brincadeira agora é igual a assédio. Engraçado é que quando Superman destruiu o caminhão de um assediador legítimo foi considerado mau exemplo pelos críticos...ah é claro,se é branco hétero e cristão deve ser o vilão!
o dese

Riojin disse...

Texto fantástico. Parabéns!

Detonation Uchiha disse...

É bizarro notar que, mesmo com a facilidade de informação atual, antigamente parecia mais fácil explicar para o público otaku ocidental as diferenças culturais entre nós e o outro lado do mundo. E se antes qualquer pessoa que acompanhasse animês entrasse em fúria quando alguma produção era censurada ao chegar no ocidente (como nas versões da 4kids por exemplo), hoje aparece gente que está praticamente implorando por censuras.
É claro que existem exageros, mas se tratando de um mercado com produções feitas para tantos tipos diferentes de público, é surpreendente que isso incomode um parcela do público. Vai entender esse povo, né?

Diego Larievilo disse...

Excelente texto, dá até gosto de ler.

anderson disse...

Enquanto no Japão personagens tipicamente femininas como Hinata de Naruto-Boruto e Lillie de
Pokemon Sun and Moon permanecem sempre populares ,nos EUA a imprensa só aplaude personagens masculinizadas como a protagonista chata do desenho Twelve Forever e a nova Sonya Blade feiosa em
Mortal Kombat.Enquanto heróis masculinos mais tradicionais têm de ser descontruidos(podem
apostar que a decadência do Thor no último filme não foi só para propósitos humorísticos).

Alexandre Nagado disse...

Fala, anderson!

A lacrosfera se contorce a cada ação "abusiva" vista em séries japonesas, mas esse povo acha que o mundo começou ontem. Por isso faço questão de mencionar obras mais antigas, bem como explicar o contexto geral. Claro que, para os militantes, o que faço é passar pano, o que está longe da verdade.

Realmente, vivemos uma guerra cultural, que não vai acabar tão cedo. Ou não vai acabar nunca.

Falou! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Uchiha, a falta de percepção das diferenças culturais é a raiz da maioria dos problemas envolvendo SJW e produções japonesas. Minha parte pra esclarecer eu vou tentando fazer.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Obrigado pela força, Riojin e Diego.

Abraços!

stéphano bahia disse...

Qual a reação do público asiático ? Lembremos que o anime tem muito fã na Ásia !



(excluindo o Japão, óbvio)

Abobastico disse...

Belo texto. Parabéns!

hfghfgh disse...

Excelente texto nagado. É triste perceber como as pessoas limitaram sua visão em relação ao mundo, querendo delimitar obras artísticas com o molde da lacrosfera. Esqueceram que o mundo é um lugar de indivíduos e não de grupos, e indivíduos possuem diferenças o que deixa a coisa toda ainda melhor. No final o que conta é o acordo que você tem com os indivíduo que você se relaciona, o resto é besteira.

Olímpio disse...

Muito interessante, o Japão é muito fascinante mesmo! Eu acho interessante como o ritmo das conversas, o som mesmo, é estranho como demonstram emoção de forma tão diferente...

anderson disse...

Uma coisa irônica que alguns apontaram é que desenhos sjw americanos enfeiam suas
heroínas para evitar sexismo,mas ao mesmo tempo tem certas situações fetichistas...
Recentemente,a criadora de Twelve Forever foi acusada de publicar arte suspeita com crianças no
Tumblr.Mas é claro que os "justiceiros" que recentemente exigiam boicote a Samurai X
preferem ignorar isso.