sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Virgem Depois Dos 30

Um contundente documentário em formato de mangá sobre um lado sujo e doente da sociedade japonesa.
Através das vidas de oito pessoas,
o leitor tem contato com um mundo
sem esperança ou perspectivas.
O Japão possui em sua população milhões de adultos de meia-idade (geralmente homens) que nunca tiveram uma relação sexual ou relacionamento amoroso na vida. O resultado disso tem alarmado o governo há anos, pois a baixa taxa de relacionamentos culmina em taxas de casamento e natalidade cada vez menores. Uma nação com maioria de idosos e cada vez menos crianças é uma tragédia sob vários aspectos, pois reflete uma população fadada ao desaparecimento, com uma grande crise previdenciária em seu caminho.

Tendo tido contato com pessoas dessa demografia de virgens sexuais e emocionais, o escritor Atsuhiko Nakamura assinou um contundente relato em forma de mangá. É o Mangá-Documentário: Virgem Depois Dos 30, lançamento da editora Pipoca e Nanquim. Trata-se de uma história em quadrinhos densa, indigesta e que aborda um lado sujo e doente da sociedade japonesa, normalmente vista com muita limpeza e organização. 

Esses virgens de meia-idade formam um batalhão de homens fracos, incapazes de lidar com rejeição e de se comunicar com as mulheres japonesas, cada vez mais liberadas, independentes e exigentes. Os contornos doentios que a situação provoca, como a perda de autoestima e até de asseio pessoal chocam quem tem a imagem de um Japão asséptico tal qual uma clínica de luxo. 

Banner do site LEED Cafe destacando o mangá.
O material foi publicado no site LEED Cafe e depois gerou um documentário em formato livro em 2014. Depois, em parceria com o desenhista Bargain Sakuraichi, foi feita a versão em mangá, que também foi mostrada primeiro no site e depois ganhou edição impressa. A narrativa é crua, direta e é tratado como um documentário filmado, com os personagens muitas vezes falando diretamente para a câmera ou, nesse caso, para o leitor. 
O desenhista Bargain Sakuraichi, pseudônimo de Toshifumi Sakurai, é oriundo de revistas adultas. Seu estilo não guarda semelhança com o que estamos acostumados a chamar de mangá, estando mais alinhado ao que se chama gekiga (leia "guekigá"), ou "desenhos dramáticos". O traço é bastante caricato, mas uma estilização derivada da observação da realidade, não uma estilização cartunesca como marcou a maior parte da geração pós-Osamu Tezuka

Seu grande mérito é saber retratar o grotesco e o ridículo, imprimindo grande carga emocional aos sofrimentos relatados. A riqueza nas caracterizações e nas expressões corporais e faciais compensam sua deficiência com anatomia, perceptível na dificuldade dele em desenhar garotas bonitas quando o momento exige. 

Parte da obra é autobiográfica, pois o escritor, durante um tempo de sua vida, trabalhou em uma clínica de cuidados com idosos. Lá, conviveu com o ser mais repugnante que já conhecera em sua vida, um tipo frustrado que foi tanto objeto de estudo quanto o estopim para ele largar aquela trabalho.

O odioso Sakaguchi, que serviu
de inspiração para a pesquisa
desenvolvida por Atsuhiko Nakamura.
O mangá começa com Sakaguchi, cujo semblante pesado também ilustra a quarta capa da edição, numa clara demonstração de que ele foi a grande força motriz que motivou a obra. Além dele, diversos outros tipos vão sendo apresentados. Um deles, Miyata, é aquele raro virgem que atingiu a maturidade de se autoanalisar e rir de sua situação, conseguindo superar limitações e ter, ao menos, uma vida social e amizades. Esse foi um dos que aceitou expor sua identidade ao público, indo até a eventos para contar sua história. Miyata é um ativista da chamada extrema-direita japonesa, uma caricatura que se resume a praticar xenofobia e racismo, especialmente contra coreanos, sem discutir economia, papel do Estado e valores morais, as grandes questões envolvendo os embates "direita x esquerda" no ocidente. 

Como era de se esperar, otakus estão entre essa categoria de pessoas fechadas, e o autor até mesmo classifica com precisão os que são voltados a mangá e animê e aqueles que são fanáticos por cantoras idols. [Nota: Lembrando que no Japão, "otaku" não é sinônimo de fã de mangá ou animê, mas sim de pessoas obcecadas por um hobby e sem vida social.] 

O virgem Masui, que dedica sua vida ao grupo feminino AKB48, conta que compra muitos CDs repetidos só para conseguir cupons que dão direito a cumprimentar por alguns segundos sua integrante favorita em eventos específicos. Tal situação, que inflaciona a níveis absurdos a venda de CDs dessa banda e similares, já foi abordado aqui no Sushi POP. [Nota: Confira o post "AKB48 e seus CDs descartáveis".] 


Um encontro de fãs com idols
do AKB48 é palco certo para
a presença de virgens de meia-idade.
Dois dos tipos apresentados não são tecnicamente virgens. Um deles, Miyamoto, habituou-se a recorrer a prostitutas por ser totalmente incapaz de conseguir uma namorada. O outro, Hiroshi, refugiou-se no submundo do sexo casual gay, numa forma de satisfazer sua libido após ser rejeitado repetidamente por mulheres. Este último, inclusive, é apresentado como tendo se tornado homossexual em busca de uma fuga emocional em um meio pouco exigente, mas sem nunca perder a esperança de encontrar uma boa garota para constituir família. A forma como o caso foi apresentado, inclusive, só não atraiu a ira dos justiceiros sociais e militantes gays por que o trabalho não possui grande repercussão fora do nicho de leitores de quadrinhos adultos. 

O autor faz diversas considerações sobre as condições que levam ao número enorme de virgens de meia-idade no Japão, que tem levado o país a níveis de fertilidade alarmantes, que podem condenar a etnia japonesa à extinção em um futuro não tão distante. 

Perda de valores familiares, individualismo e outros fatores são citados nas divagações do autor, que deixa claro que sua intenção foi apresentar o problema, e não buscar soluções ou interpretações. E outro ponto de destaque é a forma direta e sincera com a qual aborda o enorme problema do day care de idosos no Japão, um setor que, segundo ele, emprega párias da sociedade, pessoas de baixíssima qualificação e ex-detentos, gerando um atendimento desumano e degradante aos velhinhos que precisam de atendimento. 

Em Virgem Depois Dos 30 o leitor toma contato com uma realidade diferente do otimismo de um mangá para adolescentes. Os autores podem até ter carregado um pouco nas caracterizações, mas o recado foi dado e ajudou a chamar a atenção para um crescente problema social japonês que, infelizmente, ainda está longe de uma solução. 

Mangá-Documentário: Virgem Depois Dos 30

Título original:  漫画ルポ中年童貞 ~ Manga Rupo Chuunen Dootei (2014)
Criação e roteiro: Atsuhiko Nakamura
Arte: Bargain Sakuraichi

Formato: 15,4 x 21,8 cm, com 244 páginas
Total: Volume único
Lançamento no Brasil: Editora Pipoca e Nanquim (2019)
Classificação indicativa: 18 anos
- Também disponível em formato digital para Kindle.


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11 comentários:

anderson disse...

Pessolmente ,nunca gostei muito do termo otaku porque sempre soube seu
significado original que remete a bizarrices desse tipo.Mas muitos fãs brasileiros de
animes permaneçem alheios a isso,assim como pensam que Naruto é para adultos no
Japão,que Pokemon não possui muita violência apenas pela censura americana e outros
equivocos.

Adelmo Veloso disse...

Tinha lido uma resenha desse mangá antes e achei bem interessante, apesar de ser muito triste esse retrato. A situação de pessoas assim chega a dar uma dó muito grande, pois são essas que tem pouco ou nenhum amor próprio. Triste também o fato de a mulherada se tornar independente a ponto de não querer contato com os homens. A que ponto chegará o país?

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson.

Dois doramas já tentaram minimizar a imagem ruim dos otaku perante a sociedade japonesa: Densha Otoko e, mais recentemente, Tokusatsu GAGAGA. Dá certo por um tempo, mas aí os tipos mais bizarros acabam se impondo pelo maior número em relação aos mais civilizados. E realmente, tem muitos equívocos na forma como muitos ocidentais encaram produções japonesas. Diferenças culturais e comerciais.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo.

No Japão, a liberação sexual feminina avançou de tal modo que os homens não estão sabendo lidar. Adolescentes fazem programa por diversão, a pornografia lá movimenta milhões, o materialismo é muito forte. Tudo isso contribui para que não se invista em relacionamentos amorosos, tudo fica no superficial. Temo que em breve o Japão possa entrar em colapso se nada for feito em termos de se trabalhar o emocional e o psicológico das pessoas, e isso é algo de muito longo prazo.

Falou! Abraço!

Riojin disse...

Apesar da preocupação, não se vê muito empenho na sociedade japonesa em mudar a situação, que vai além da questão do "Virgem de meia idade". Uma sociedade em que o sucesso profissional indica de forma excessiva se você merece atenção ou não. Uma sociedade extremamente materialista, que apesar de visar bastante o coletivo, pode jogar um indivíduo na sarjeta. Parabéns pelo texto. Já tinha lido resenha do mangá em outros lugares e bem, tinha um viés de militância política excessivo que dificultava analisar se valia a pena gastar nosso suado dinheirinho com o mangá. Outros blogs usaram a resenha ou para demonstrar seu nojo pelos homens, ou pelos otakus de um modo geral (nesse ponto alguns veículos esquecem que seu próprio público é o otaku).
Adorei seu texto, porque falou do mangá e contextualizou sobre o problema complexo, sem partir para o proselitismo gratuito. Parabéns!

anderson disse...

Pensando bem,existe um fenômeno parecido e ao mesmo tempo muito diferente nos Eua.
Começou com o desenho Powerpuff Girls inesperadamente atraindo o fandom de séries como
Arquivo X e Buffy-Vampire Slayer.Mas atingiu níveis assombrosos com My Little Ponny ganhando
uma legião de fãs adultos fanáticos(Bronies) que se julgavam o real público-alvo do desenho,
chegando a xingar quem lembrava que era uma franquia para meninas pequenas.Isso acabou estimulando a criação de vários desenhos bizarros supostamente infantis ,mas que tentavam agradar adultos obcessivos,o que é o caso de Steven Universe,Star Vs The Forces of Evil,
Twelve Forever e da infame "She-ra" 2018.Mas enquanto os otakus hardcore são principalmente
homens,os fanáticos estadunidenses são típicas feministas e sjws em geral que pregam "positividade corporal"(traduzindo,toda personagem feminina deve ser feia,masculinizada ou
obesa),e que todo o entretenimento infanto-juvenil deve ter questões sociais e representatividade(traduzindo ,esquerdismo e nenhum homem branco hetero).Muitos americanos estão chegando a cometer violências por "seus" desenhos!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Riojin.

Esse mangá é prato cheio para militante machista e LGBT exercer seu ativismo. Mas os autores não são alinhados com esse tipo de pensamento, muito pelo contrário. O que o mangá mostra é a ponta de um iceberg gigantesco e eu aponto a perda de valores como sendo um dos maiores fatores que levou a esse estado de coisas. Falta sentido nas vidas de muita gente, e isso é algo muito triste.

E eu procuro sempre buscar a intenção original do autor antes de fazer um comentário sócio-político. Não é o que a maioria do pessoal que divulga a analisa cultura pop tem feito. Sempre que puder, tentarei oferecer um contraponto equilibrado ao discurso lacrador que tomou conta de todas as mídias.

Valeu a força! Abraço!

Aniki disse...

Grande Nagado, há quanto tempo.

Quando vi o título desse mangá pela primeira vez a princípio pensava que era uma outra visão sobre o universo otaku japonês, que já tinha sido retratada no clássico Otaku no Video. Porém, este me parece ser muito mais profundo e aponta um problema que já deve vir de muito tempo atrás e que acabávamos alheios devido às limitações de informação no passado.

É triste pensar que essa situação parece ser tratada com 'vista grossa' pela sociedade e autoridades japonesas, e também não vejo nenhuma solução prática para atenuar ou diminuir o problema, pelo menos a longo prazo.

De qualquer forma vale o relato e o alerta parar mostrar ao público uma realidade talvez desconhecida ou ignorada pelos fãs mais radicais. Um choque que ajuda a raciocinar e até progredir como ser humano.

Abraços.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Aniki! Sinta-se sempre bem-vindo aqui!

O problema é maior do que o livro mostra. Há também um contingente de homens e mulheres "herbívoros", que renunciaram ao sexo e aos relacionamentos. Esses encontraram um caminho menos tortuoso na vida, são mais desencanados, mas essa opção desemboca no mesmo problema: sem relações, sem filhos. E sem crianças, qualquer sociedade está fadada, primeiro ao colapso previdenciário, depois ao desaparecimento. O debate sobre isso mal começou e temo que seja tarde.

Valeu! Grande abraço e até mais.

Detonation Uchiha disse...

Eu acredito que o Japão ainda não trata deste assunto com devida seriedade, acho que isso se deve porque existe uma enorme indústria no país que se alimenta desse tipo de pessoa. É uma faca de dois gumes, apesar dos japoneses (pelo menos grande parte, eu creio) terem ciência das consequências nocivas deste tipo de comportamento, continuam incentivando-o.

Scant disse...

na lista de leitura
valeu pelo post

abs!