quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Heróis japoneses e seus valores: Ultraman Zero e a redenção do salaryman

Um super-herói criado para ser um guerreiro espacial e seu envolvimento com uma típica família japonesa de classe média.
Ultraman Zero: O filho de Ultra Seven é um
dos heróis mais agressivos do Universo Ultra.
Em tempos recentes, muitos debates têm aparecido na mídia acerca de questões como representatividade, inclusão social e militância identitária em obras de cultura pop, especificamente no cinema, TV, quadrinhos e games. Os chamados SJW ("Social Justice Warriors" ou apenas "justiceiros sociais") têm se organizado em grupos de pressão para exigir representatividade das classes ditas oprimidas pela "sociedade capitalista branca machista patriarcal heteronormativa". Ou algo assim. 

O resultado, independente dos acalorados debates "esquerda vs direita", parece ignorar a qualidade mesma das obras de entretenimento, que passam a ser julgadas por sua "relevância social". Em meio a esse debates, o foco sempre é nas obras que combatem ou tentam desconstruir a masculinidade, a instituição familiar ou promover agendas feministas, racistas e de divisão social. Por outro lado, no Japão, tais questões ainda não ditam os rumos de obras de sucesso, o que é positivo. 

Com esta postagem, iniciamos aqui uma série de ensaios não muito longos (prometo!) destinados a apresentar, explicar e analisar obras, séries, episódios específicos ou filmes japoneses que abordem a questão de valores morais e sociais. 

Ao invés de somente criticar as investidas dos justiceiros sociais, a ideia aqui é apontar como as produções japonesas, ao longo dos anos, têm trabalhado a transmissão de valores ao público. Afinal, mesmo que uma obra de entretenimento não tenha a obrigação de passar valores (e essa distorção virou regra), é inegável que toda autor sempre acaba passando um pouco de seu conjunto de crenças em seus trabalhos. E o post que inaugura aborda um tipo de cidadão e uma instituição que não são vistas com bons olhos pelos setores mais progressistas da sociedade. 
Horário de rush: Batalhões de salarymen em movimento.
Foto: France Press
SALARYMAN ZERO!

Salaryman (サラリーマンé como se chama, no Japão, o típico trabalhador de escritório, o estereótipo do executivo de baixo escalão, que está sempre de terno e com uma maletinha em mãos. A cultura popular trata esse tipo como um sujeito simplório, comumente associado ao estereótipo do pai de família que trabalha feito um camelo, conformista e que mal acompanha a vida dos filhos. É um cara que vive e morre pelo trabalho, muitas vezes perdendo de vista o motivo pelo qual formou família. 

Para muitos, ser salaryman é motivo de escárnio, ainda mais em uma sociedade como a japonesa, onde cada vez mais todo mundo almeja ser artista ou uma celebridade. No entanto, se o Japão prosperou economicamente, é por causa também desses assalariados, que representam por lá o estereótipo tão surrado do "cidadão de bem" e de classe média, geralmente um termo, também lá como cá, tratado com desdém por muita gente. 
Reito Igaguri, um grande trabalho do ator
Yuuta Ozawa. Um salaryman super-herói.
Na cultura pop, o salaryman nunca é alguém que mereça muito crédito, e geralmente é associado ao conformismo e à chatice da "vida adulta". Para piorar, são esses trabalhadores de classe média alguns dos mais vulneráveis ao karôshi, a morte por excesso de trabalho. 

Existem mangás, animês e doramas que retratam de forma positiva o salaryman, atingindo diferentes nichos de público, mas no geral não é uma posição a ser almejada e certamente não é sonho das crianças. Até por que, muitos filhos mal veem os pais por causa do trabalho, e a educação acaba ficando toda com a mãe. Sem entrar nos méritos de como é realmente massacrante, muitas vezes abusiva e maçante a rotina de vida da maioria desses trabalhadores de escritório, vale fazer aqui um comentário sobre um caso de tratamento respeitoso a essa tão desvalorizada figura. 

Na recente série Ultraman Geed (2017), da Tsuburaya Pro, o planejamento geral e parte dos roteiros ficaram a cargo de Otsuichi, um renomado escritor de temas fantásticos. 

Reito precisa dar lugar ao Ultraman Zero
e salvar a cidade, mas tem uma reunião
importante no caminho. Dúvida cruel...
No episódio 3, o intrépido herói Ultraman Zero vem à Terra para acompanhar de perto os planos do sinistro Ultraman Belial, o pai do protagonista da série, Riku Asakura, o Ultraman Geed. O título do episódio, apropriadamente, é "Salaryman Zero", escrito por Hirotaka Adachi (nome real de Otsuichi), com direção de Koichi Sakamoto


Ao chegar à Terra para monitorar a ação de Belial, Zero presencia o sacrifício de Reito Igaguri, atropelado ao tentar salvar uma criança durante o ataque de um monstro. No melhor estilo dos Ultras clássicos, Zero, que estava debilitado, une sua energia vital à de Reito, restaurando a vida do homem, com quem passa a viver em simbiose. 

Reito é um salaryman de uma pequena empresa, é casado com a bela Rumina e tem uma filha pequena, a esperta Mayu. Trabalha muito, é meio inseguro e muito desastrado, mas procura participar da vida em família e é muito zeloso e protetor com a esposa e filha. 

Ultraman Zero Beyond: A forma mais poderosa do herói. 
O temperamental e impaciente Zero vive em atrito com Reito, mas aos poucos eles vão entrando em acordo e fazendo a parceria funcionar. Sempre que preciso, Reito usa o acessório de transformação, o Ultra Zero Eye, e dá lugar ao herói da Nebulosa M-78, que auxilia Geed na luta contra Belial e seus monstros. E o poderoso e imponente filho de Ultra Seven aprende muito sobre a humanidade, afeiçoando-se àquela pacata família com tanto a lhe ensinar. 

Em um momento da série, Reito deixa de lado seu habitual papel de alívio cômico e fala com o herói Riku Asakura sobre sua grande motivação para lutar (seja no trabalho, seja como hospedeiro de Zero), que é sua família. Riku, que busca seu lugar no mundo, aprende muito com isso, vendo o papel protetor que aquele homem tinha em relação a seu pequeno e precioso núcleo familiar. E perto do clímax da série, a esposa e filha de Reito se tornam alvos do inimigo, gerando um momento de grande tensão e destacando o ponto de vista das duas e sua importância na trama. 

Da esq. para a dir.: Rumina, Mayu e Reito Igaguri,
uma simpática família tradicional, envolvidos em
uma trama cósmica.
Muita gente acha isso anacrônico, mas valorizar a importância de uma família comum é louvável, ainda mais em um país como o Japão, com crescentes problemas ligados à baixa natalidade. É um país onde cada vez mais pessoas optam por não terem relacionamentos afetivos ou sexuais (os chamados "herbívoros") e que também enfrenta o problema dos párias desajustados que foram abordados no recente mangá Virgem Depois dos 30

Com a presença bastante humana de Reito e sua família, bem como a interação deles com Zero e Geed, a imagem da família tradicional foi valorizada e seu guardião, o corajoso (ainda que desajeitado) Reito representou a redenção de uma categoria geralmente tão desvalorizada pelos jovens japoneses. Duas aliás: a do dedicado salaryman e a do pai de família médio. Parece pouco valorizar a instituição familiar e o trabalhador honesto nestes tempos de desconstrução e ataques a modelos sociais, mas são coisas assim que ajudam a forjar nas crianças valores que movem uma sociedade. 

9 comentários:

hfghfgh disse...

Ótimo texto, a verdade é que as pessoas menosprezam essa classe que gera uma boa parte da riqueza do japão. Talvez os filhos criaram uma certa raiva por terem sido "ignorados" pelos país, talvez eles até tenham uma pequena parcela de culpa no estado mental desses filhos que escolheram serem herbívoros, mas essa obra mostra que nem todos ignoram a importância dos salaryman.

Diego Larievilo disse...

SJWs são uma comédia. Sei que não é o assunto do post, mas a nova geração de 'especialistas' da cultura pop nipônica brasileira está decepcionando e não cansam de passar vergonha.

Alexandre Nagado disse...

Olá, caro hfghfgh (da próxima vez, use um pseudônimo mais fácil, ah ah)

Esse ponto que mencionou é importante, os pais japoneses são tradicionalmente vistos como ausentes, pois praticamente as mães acabam criam seus filhos sozinhas. Por isso o Reito é retratado como um pai muito envolvido com a vida de sua família, pra mostrar que é algo desejável.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Oi, Diego.

Eu já havia decidido parar com o blog, por achar que já havia dado minha contribuição na área da divulgação e estudo da cultura pop japonesa. Mas caí na real, percebendo que eu ainda sou necessário, graças à esquerdização da área.

Falou! Abração!

anderson disse...

È engraçado ver como a midia americana vem tratando figuras paternas-Professor Xavier vilanizado em X-Dark Phoenix,Robin xingando Batman e Luke Skywalker decadente,e comparar com
Shinjiro se tornando Ultraman para salvar Hayata,Vegeta enfrentando Hit mesmo enfraquecido para proteger sua família e Hyoga mesmo no remake ainda mergulhando no mar congelado para
ver a mãe...e acho que a Capitã Marvel socando uma idosa pode simbolizar o tipo de "heroismo"
que os executivos estadunidenses pensam ser lucrativo.

Bruno Seidel disse...

Fala, Nagado! Bem interessante essa análise em cima de uma dupla de personagens tão bacana como Zero e Reito. Sem dúvidas, de todos os alter egos do filho de Seven, o salaryman pai de família foi o que mais marcou! Eu adorava as cenas cômicas em que os dois revezavam o domínio sobre o corpo do hospedeiro, normalmente caracterizada pelo uso dos óculos e mudança brusca de atitudes. Foi, inclusive, um dos pontos altos de Ultraman Geed, que teve também tantas outras coisas bacanas como a heroína Laiha Toba, a participação do Ultraman King e o próprio Belial. Em tempos nos quais inserir uma mensagem lacradora em obras de ficção virou quase uma obrigação, considero louvável a forma como os japoneses resistem a essa patrulha ideológica e à chatice insuportável dos SJW. Mas é claro que isso não isenta a série de ser alvo de insultos da lacrosfera, que tanto debocha da "família tradicional" como se fosse uma piada, uma breguice, uma imposição social. Que tempos loucos esses, ein??

Riojin disse...

O salaryman é que faz a engrenagem da sociedade girar. É triste ver o descaso de certas pessoas com este setor da sociedade.

Detonation Uchiha disse...

Fiquei um tanto surpreso em saber que existe alguma produção que retrate o trabalhador "comum" de forma positiva, quase sempre retratam esse tipo de pessoa como algo ruim tipo: "Olha lá, parecem zumbis, todos iguais, padronizados, vivendo em manada". O engraçado é que se olharmos os SJW "de longe" também, tudo que vemos um um grupo de pessoas, que parecem zumbis, todos iguais, padronizados e vivendo em manada. É como dizem... O mundo dá voltas....

Alexandre Nagado disse...

Oi, pessoal.

Uma impressão que tive em vários momentos é que o Otsuichi escreveu a série para ensinar algumas coisas ao filho. Ele contou que assistiram juntos ao Ultraman X e acho que o Orb também. Esse lance de ensinar valores, ir além do batido "lute por seus sonhos", é algo que era muito mais forte em produções antigas, mas felizmente ainda há material desse tipo sendo feito.

Abraços!