quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

One-Punch Man: Ricardo Cruz e a nova canção do JAM Project

O integrante brasileiro do JAM Project fala sobre a criação do tema de abertura da aguardada segunda temporada de um recente sucesso em animê!
Cartaz da nova temporada de
One-Punch Man, destacando o vilão Garou.
Em abril, acontece o lançamento mundial da segunda temporada da série One-Punch Man, baseada no mangá de ONE (roteiro) e Yusuke Murata (arte). O grupo JAM Project, que já havia cantado a abertura original, também ira interpretar o novo tema. E a grande novidade desta vez e que a música foi composta pelo brasileiro Ricardo Cruz, membro honorário da banda e que teve a honra de ter sua melodia selecionada para a série.

Em uma entrevista exclusiva para o Sushi POP concedida no último dia 31 de janeiro, o Ricardo fala sobre essa experiência, seu processo de trabalho e seus planos para o futuro
.
1) Como foi o processo de seleção da composição? Primeiro foi o escolhido quem ia interpretar ou o convite já veio para o JAM Project compor e interpretar a canção?
RC: Já estava decidido que o JAM Project faria a segunda abertura e, como sempre, havia uma data limite pra gente mandar as composições. O JAM virou, já de vários anos para cá, um grupo de criadores de músicas. Então, só os membros compõem. No começo, tinha canções do Yogo Kono, do Ken-san (o tecladista da banda)... Hoje, só os cantores fazem as músicas. Toda vez que tem uma encomenda de música nova para animê ou tokusatsu, a gente tem uma data para mandar nossas ideias. 
Acompanhar o mangá foi fundamental para
sintonizar o espírito do personagem.
2) Em termos de composição, foi enviado algum tipo de material (roteiro, artes conceituais) para que se buscasse inspiração? Ou tinha que ser com base no conhecimento sobre o mangá e a primeira temporada do animê?
RC: Como eu converso com o Kageyama informalmente, pelo Messenger do Face, ele me passou (informações) por lá, dizendo coisas do tipo "Olha, tem que mandar até dia tal... Faz uma coisa meio punk-rock, pode ser na onda da primeira (abertura), com uma pegada forte de shonen mangá, de anime song para meninos". E certamente a TV Tokyo mandou imagens e conceitos, mas pra mim não chegou nada (risos). Eu não terminei de ver a primeira temporada, mas estou quase em dia com o mangá. Então eu tinha toda a referência na cabeça, punk-rock, semelhança com a primeira... Eu já tinha um bom material pra trabalhar. 

3) Ao começar a pensar na música, quais referenciais vêm à mente? Há algum compositor que seja uma inspiração ou que tenha inspirado especificamente esse trabalho?
RC: Sobre o processo de criação, não vem nenhum compositor na cabeça, não... Como eles me deram essas referências, você começa a pensar abstratamente em melodias e climas. No início, mais do que melodias, penso em climas. Eu tenho um processo meio maluco que é: eu vou tomar banho! 

Quando eu fico empolgado e preciso criar alguma coisa, eu vou pro banho, não importa se eu já tenha tomado banho, eu vou de novo. A água batendo na cabeça meio que te isola do mundo, e eu consigo me concentrar. Aí eu fiquei pensando em climas, em estilos de melodia... Vêm algumas melodias à cabeça, uns riffs de guitarra, a "cara" da música. Depois eu pego o celular e vou registrando a capella, cantarolando. Imagino um riff de baixo, e aí vou cantarolando a melodia em cima. Sai um "rascunho" a capella todo tosco, que só eu entendo. Aí eu vou pro programa de edição de áudio e começo a montar a melodia, a demo, até ela ficar pronta. 

4) Como a canção foi apresentada? Você gravou uma demo apenas com melodia? Como foi esse processo de gravar a demo para avaliação?
RC: Então eu aprontei essa demo bem simples, só pra expressar a melodia que eu criei. Até por que tem o arranjador lá no Japão. Então, o arranjo são eles (na Lantis) que definem tudo, eu não tenho participação. Criei uma base, inclusive o Lucas Araújo (do Anison Lab) me ajudou a deixar inteligível a minha melodia e mandei. E essa melodia é a que foi aprovada. 
O JAM Project, com sua formação completa.
5) A melodia foi encaminhada para um letrista consagrado, o Yukinojo Mori [*]. Você chegou a trocar ideias com ele, ou as etapas do trabalho foram bem distintas?
RC: Cara, infelizmente não tive contato com ele. Eu fiquei sabendo no meio do processo, depois que já tinha enviado a demo. Mandei pro pessoal da gravadora Lantis e também pro Kageyama. Ele ouviu e na hora disse que tinha adorado e então me contou que a letra ia ser dele. Um cara que criou músicas que o pessoal canta em karaokê há 30 anos. Muito orgulho de assinar música ao lado de Yukinojo Mori.

[*] Com quase 50 anos de carreira, Yukinojo Mori já escreveu canções para grandes nomes da música japonesa. No campo das anime songs, é dele a letra de "Cha-la Head Cha-la", primeiro tema de abertura de Dragon Ball Z (1989).

6) Na hora da gravação, como foi sua participação? 

RC: Estou indo agora para o Japão para gravar tudo lá, porque o equipamento deles é muito bom. A gravação será agora, dia 4 de fevereiro. (Nota: Depois, ele contou que nessa estadia no Japão ele também iria gravar um vídeo clip e tirar fotos promocionais para o lançamento do single.)

7) Finalmente, qual sua expectativa com relação a esse trabalho? Pretende investir mais nesse lado autoral?
RC: Claro, já faz alguns anos que eu trabalho também com composição e é algo que eu gosto demais. Estou querendo me aventurar na composição de temas instrumentais, muito inspirado no Chumei Watanabe, Seiji Yokoyama, Shunsuke Kikuchi, compositores que eu gosto demais. 

E neste ano, se tudo der certo, lanço meu segundo disco de músicas originais e tenho muita vontade de seguir com uma carreira autoral e me expressar musicalmente e visualmente também, criando clipes e homenageando o gênero das anime songs. Que, no final das contas, acaba se tornando um tesouro meio que escondido no planeta, na parte musical. 

Muita gente não conhece o anime song e não sabe o quão rico é. Então, quero ser um porta-voz disso, criar músicas modernas, mas que não percam a essência do que é o anime song. E brincar com várias texturas, de várias épocas presentes no anime song, que eu acho que são extremamente ricas. 

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A nova temporada de One-Punch Man estreia no Japão pela TV Tokyo e no Brasil pelo portal Netflix a partir de abril de 2019.



Nota: Agradecimentos especiais ao Ricardo Cruz, que gentilmente cedeu essa entrevista via WhatsApp enquanto se preparava para viajar para o Japão. Toda a boa sorte do mundo pra ele!

4 comentários:

Detonation Uchiha disse...

Eu conheço o trabalho do Ricardo nas músicas de animê e tokusatsu já faz algum tempo, mas não deixa de dar um certo orgulho você ver um brasileiro ganhando espaço internacional, fora que (não tenho certeza,, me corrija se estiver errado) este é o trabalho mais "mainstream" que ele fez até agora, o que é uma oportunidade muito bacana.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Uchiha!

Sua percepção está correta. Essa é a grande chance do Ricardo perante o público japonês (e mundial também). Infelizmente, ainda temos que esperar um pouco até que um preview da canção seja mostrado. Mas estar na abertura de uma série tão aguardada e de exibição internacional certamente deve dar uma visibilidade grande ao Ricardo. E ele merece!

Valeu! Abração!

Usys 222 disse...

Ricardo Cruz... Uma pessoa que realmente chegou lá. E ainda poder compor o tema de uma das séries mais aguardadas pelo público é uma tremenda responsabilidade! Algo que só dá para confiar a gente que tem tarimba! E ele conseguiu.

Muito bom saber desses detalhes do processo de produção e criação. E agora tenho certeza de que ele é um criador de verdade, já que muitos deles têm um processo inusitado para se inspirar. Conheço aqueles que preferem simplesmente se trancar no banheiro para isso. Não pode ser uma sala qualquer. Tem que ser o banheiro.

Yukinojo Mori é comprovadíssimo. Ele sabe combinar bem as palavras para encaixar direitinho na melodia com ritmo e sonoridade. Um trabalho em conjunto com esse letrista é outra conquista, mesmo não falando com ele diretamente.

Desejo muito sucesso ao Ricardo Cruz, porque sorte não precisa mais. Já tem a habilidade e a força necessárias. Dá muito gosto ver gente que se esforça chegar lá.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Uma coisa que posso atestar é que nada disso fez o Ricardo mudar o jeito de ser dele. E é por isso que estou sempre torcendo por ele.

Valeu! Abraço!