terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Crunchyroll declara guerra à pirataria!

Com uma intensa ação anti-pirataria, o portal Crunchyroll levanta o debate e divide os fãs sobre questões ligadas a direito autoral e liberdade na internet.
Hime, a mascote do Crunchyroll.
Uma das notícias que mais movimentou a comunidade de fãs de desenhos japoneses recentemente foi a série de ações do portal Crunchyroll para derrubar judicialmente sites de pirataria. Vários sites de fansubbers (que legendam vídeos de forma independente) saíram do ar e a gritaria dos fãs foi enorme, com muita revolta e gente ligada à área comentando o assunto. 

O Crunchyroll, que paga direitos de exibição às produtoras dos vídeos que exibe, está agindo para tirar do ar aqueles concorrentes que não pagam e não têm autorização para disponibilizar os mesmos vídeos. O citado portal investe em servidores e paga tradutores e técnicos, entre outros profissionais que emprega. Oferece muitos títulos em exibição quase simultânea com o Japão e possui modalidades pagas, sendo que as gratuitas estão sujeitas à exibição de vídeos publicitários. 

Quando não há uma legião de fãs trabalhando de graça e por amor, estruturas profissionais precisam ser montadas e isso demanda investimento e necessidade de retorno. E alguns sites "alternativos", inclusive, copiavam até mesmo as legendas do Crunchyroll, tornando impossível sua defesa.

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As produtoras do Japão estão totalmente do lado do Crunchyroll, e isso é mais do que esperado. O Japão, inclusive, tem leis antipirataria que são tratadas quase como leis antiterrorismo. Pessoas são presas e outras são pesadamente multadas quando é descoberta alguma associação com pirataria, o que inclui até subir episódios ou mesmo aberturas de séries no YouTube. O país ainda tem uma indústria de entretenimento baseada fortemente na venda de produtos como CDs, DVDs e Blu-ray discs. Sem isso, dizem muitos empresários de lá, a indústria de cultura pop do país não pode sobreviver. 

O que acontece agora é exatamente o que aconteceu no mercado da música nos últimos anos. Com a decadência da indústria de CDs (que no Japão continua firme), os artistas se veriam obrigados a viver quase que exclusivamente de shows, o que acabou acontecendo. Mas, e aqueles que são compositores somente? Dependeriam apenas dos magros royalties da execução de suas músicas em shows de terceiros? Esses, sem dúvida, foram prejudicados e somente em tempos mais recentes, com o surgimento de serviços como o Deezer e o Spotify (que pagam muito pouco de royalties), os criadores e artistas podem ganhar ou recuperar alguma coisa.



No Japão, postar um vídeo não-autorizado
no YouTube pode dar até cadeia, mesmo que
a pessoa tire a monetização. 
Imagine a situação de um produtor de conteúdo, como este blog, por exemplo. Não ganho nada aqui (eventualmente uns trocados via Play-asia) e escrevo por prazer, mas sou de uma época em que produtores de conteúdo eram pagos por editoras para prestar serviços. Esse trabalho hoje se afunilou demais e muitos migraram para blogs ou montaram canais de YouTube para, ao menos, manter contato com algo que gostam ou para empreender de forma independente. Sem ganhos financeiros, o mundo real não permite produzir com a regularidade que eu gostaria e este blog vive tendo hiatos. Quase ninguém ganha alguma coisa na internet atualmente, tamanha a oferta perante um público que deseja - e exige furiosamente, do conforto de seus quartos - tudo de graça. 

Para uma geração que nasceu já com a internet banda larga e com a pirataria correndo solta, o mito do "almoço grátis" é uma realidade. Mas, uma realidade da qual pouco se sabe além do que chega no "prato", ou no seu PC, smartphone, etc.


E aí vamos entrando em uma zona de análise mais complexa e indigesta, lembrando que muita gente chama a geração atual de "geração mimimi" e não é sem motivo. São pessoas que gritam e se enfurecem exigindo direitos, cada vez mais direitos, mesmo quando isso envolve o prejuízo de terceiros. Falta de empatia faz parte do espírito de nosso tempo.



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Anos atrás, conheci um senhor que tinha uma pequena produtora de animê em Tóquio. Ele ia de trem para o estúdio, pois não compensava ir de carro devido ao trânsito. Dava um duro danado, tendo começado carreira nos anos 1960. Tinha poucos funcionários e estavam respondendo por algumas etapas de produção de Pokémon, então no auge do sucesso. É de gente como ele que a pirataria tira dinheiro, não dos altos executivos que sempre repassam os prejuízos ao lado mais fraco.


Um outro aspecto a se considerar é sobre a acessibilidade de material. O Japão é o país de livre mercado que mais combate a internet como mídia de divulgação espontânea. Muitos artistas famosos sequer possuem canais oficiais do YouTube para não facilitar que fãs baixem o áudio dos clipes musicais. Vários grandes nomes não aderiram aos serviços de streaming musical porque ainda dependem muito da venda de seus CDs no mercado local. Exportados legalmente, CDs japoneses são caríssimos e os fãs que podem, acessam sites de streaming oficial, o que gera alguns trocados para os artistas, compositores e gravadoras. Mas é pelo menos uma alternativa que rende algo para quem trabalha com criação. 
Outrora um queridinho dos fãs, o Crunchyroll
surgiu como vilão na visão de muitos entusiastas de animês.
Vale ressaltar também que toda essa restrição de acesso imposta pelos empresários japoneses também prejudica os criadores, na medida em que impedem sua divulgação em mercados potenciais. E outros também não se contentam com os rendimentos advindos de canais de streaming. Quando não há opção oficial e paga para algo que se deseja assistir ou ouvir, qual a opção que bate à porta? É a pirataria, claro! E este que vos escreve já publicou muita coisa graças a ter assistido de formas não oficiais. No choque entre oferta e demanda, é o trabalho silencioso de fãs pelo mundo que ajudou e ajuda a popularizar obras para públicos às vezes restritos que as distribuidoras originais não teriam interesse em atender.

E finalmente, um ponto a se considerar sobre os "vilões" na mira da justiça: os fansubbers. Foram esses abnegados voluntários que copiam, traduzem e legendam animês que ajudaram a criar um público consumidor e ávido por novidades. Se os fansubbers tivessem sido sufocados e eliminados ainda na época das fitas VHS, será que teríamos um público consumidor de animê tão grande como existe hoje? Um público tão grande que permite a existência de um portal especializado no nicho como o Crunchyroll? Eu duvido. Inclusive, já vi muita coisa de forma "não-oficial" e isso forneceu substância para inúmeras matérias e estudos publicados em décadas de atividade. 


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E hoje, com a atual oferta de exibição licenciada oficial, os fansubbers ainda são necessários? Voltamos ao caso dos nichos que não seriam atendidos pelas vias normais por não oferecerem ganhos compensatórios. E, em outros casos, é legal sites "alternativos" distribuírem, por exemplo, episódios de One Piece ou Dragon Ball alegando que são de autores e estúdios que já ganharam muito dinheiro? Obviamente, não. 

Aqui no ocidente, estamos acostumados a acessar gratuitamente e diariamente conteúdo feitos por exércitos de roteiristas, desenhistas, músicos, atores, técnicos, diretores e produtores. E achamos que eles têm a obrigação de trabalhar duro e de graça para nossa diversão eterna. Alguns ainda buscam se vitimizar alegando que aqui a pirataria deveria ser livre, pois vivemos em um país pobre e com muita gente sem emprego e sem dinheiro. Para pessoas que têm dispositivos caros (como um iPhone) e com acesso a banda larga em casa, reclamar do custo de vida é de uma hipocrisia sem limites. 

Conciliar a facilidade de acesso com a produção profissional - ou seja, que remunera seus criadores - é um desafio que precisa ser encarado como uma necessidade da sobrevivência do próprio meio.

Uma aposta brasileira, na área de quadrinhos,
para financiamento de trabalhos na era
do compartilhamento digital.
No Brasil, temos iniciativas como a Shonen Comics, que publica séries de mangá nacional variadas em ambiente digital e cobra mensalidade de seus leitores. Existente há alguns meses, tem tido dificuldade em arrecadar dinheiro suficiente para que seus criadores se dediquem mais à produção de conteúdo, que aliás é de qualidade inquestionável

O grande público está acostumado a pegar tudo de graça na internet, acreditando que os artistas vão dar um jeito de ganhar dinheiro, mas não às custas dele. Como os autores do Shonen Comics reagiriam se aparecesse um site pirata anunciando que posta páginas inéditas do site minutos depois de entrarem on-line no site oficial? Seria um enorme balde de água fria nesses criadores de conteúdo e isso é um exemplo local de um problema que, em escalas muito maiores, acontece com produtores e autores no Japão e em qualquer parte do mundo.


Com todos esses dados colocados à mesa, fica claro que crucificar o Crunchyroll (e os criadores e empresários japoneses) é falta de reconhecimento a um trabalho profissional e digno. Em uma economia de mercado livre - e é isso o que estimula o crescimento de qualquer área - é apenas uma empresa exigindo que os impostos que paga e os royalties que entrega sejam respeitados. Mas, por outro lado, há um público que gostaria de pagar preços justos pelo que gosta, mas que é ignorado por quem distribui as obras. No caminho destes, há fãs que trabalham pelo prazer de divulgar, assim como outros que tentam ganhar ilegalmente sem ter direitos sobre trabalhos que disponibilizam. Estes últimos precisam ser combatidos, enquanto os primeiros deveriam ser aproveitados dentro de uma engrenagem profissional.


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Muitos justificam que piratear séries que não têm distribuição oficial em um país não ofende direitos autorais, o que juridicamente não é verdade. Mas também sempre houve - e há - muita restrição para mostrar produções japonesas ao mundo. A maioria dos criadores e produtores ainda pensam apenas em termos de mercado local. Outros, afirmam que direitos autorais e propriedade intelectual deveriam desaparecer pelo bem da humanidade. Para esses, vale lembrar que fica difícil produzir conteúdo regular (e bom) diariamente tendo que ser motorista de Uber para pagar as contas. E é aí que muitos caem em uma visão deturpada de sonhar com um Estado que o sustente para que ele possa se dedicar à arte, mesmo que ninguém esteja disposto a pagar pelo que ele faz. 

Quando as contas não fecham, alguém sai perdendo e, quando é o Estado que arca com um negócio que não se sustenta, outras áreas acabam prejudicadas. Não vamos aqui entrar em uma discussões sobre modelos econômicos ou visões políticas de mundo, mas quero deixar claro que soluções fáceis não existem. E negar o direito ao debate reduzindo tudo a um sonoro "Foda-se! Eu quero tudo de graça e vou conseguir!" não ajuda muito a chegar a uma solução. Não quando do outro lado há pessoas se sentindo lesadas e tendo o resultado financeiro de seu trabalho sendo roubado ou anulado.


Vejo muito futuro nos modelos de negócio de empresas como Netflix, Crunchyroll e Amazon Prime (bem como Deezer, Spotify e outros), e acredito que, quanto mais acessíveis, maiores serão os ganhos para todos, tanto da parte do público quanto dos criadores de conteúdo. E quanto maior a qualidade oferecida por um produto oficial a preço justo, mais difícil será o fã trocar o oficial pelo pirata. Porém, muitos empresários japoneses ainda precisam abrir suas mentes para a realidade da internet e ver isso como uma forma de conquistar público pagante pelo mundo, ainda que os ganhos dependam de massificação cada vez maior para serem substanciais. E outros modelos ainda podem surgir, afinal em uma economia livre, empreendedorismo é uma força positiva e transformadora de hábitos. 


A eterna realidade é que "almoço grátis" não existe. Alguém paga por ele e aparentemente ninguém quer estar do lado que coloca a mão no bolso. 

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18 comentários:

Gustavo Reis disse...

Ótimo texto. O mais completo que li sobre o tema. O exemplo da shonen comics caiu como uma luva. Lembrando que cada vez os japoneses se abrem mais e estão mais atentos ao mercado global uma vez que o Japão tem baixa taxa de natalidade e se torna cada vez mais um país de idosos. A Shueisha teve a ótima solução pra combater a pirataria. Disponibilizar boa parte de suas séries de forma gratuita ou pago para acesso ao catálogo de editora. Vamos ver se vai surtir efeitos e outras como a Kodansha embarcam nessa. Inegável a importacia que os fanssubers tiveram e ainda tem no país, mas o ideal dos próprios fanssubers, deveria ser sua não existencia, devido a um mercado aquecido e com um grande catálogo de títulos.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Gustavo, obrigado!

Essa questão me fez ler comentários absolutamente nojentos. Um dizia que tem "artista que sonha viver nos anos 60", outro que "propriedade intelectual é uma bobagem". Vi coisas inacreditáveis e sou um dos poucos que tem a vivência de ser produtor de conteúdo, público consumidor e pesquisador independente da área. Ficou um texto enorme, mas muitas coisas precisavam ser ditas. E agradeço por ter lido e estar divulgando.

Só quem já ralou muito na área de criação para saber que isso deve ser valorizado e PAGO. Discussões sobre gratuidade de serviços em um ambiente de liberdade econômica me fazem lembrar o título de um livro do analista político Flávio Gordon, que é "Direitos máximos, deveres mínimos". No caso, o "dever" do consumidor é pagar pelo que consome, seja diretamente, seja através de prestigiar algo com anúncios publicitários que revertem para os criadores de conteúdo.

E finalmente, vejo com bons olhos esse movimento da Shueisha. Ainda preciso me inteirar mais sobre a iniciativa.

Valeu! Grande abraço!

anderson disse...

Uma situação bizarra é a Rede Brasil,que depois de anos "adquirindo " animes e séries em lojas de dvd e na internet passou a exibir animes da Toei e do CR oficialmente , simplesmente por ser a única emissora aberta disposta a investir nisso.Mas o resto das séries clássicas em sua grade ainda segue seu modelo habitual de "aquisição".Outro dia em uma exibição de Speed Racer o menu do dvd aparecia claramente na tela.

César Filho disse...

Mais um excelente texto (como sempre), mestre Nagado! Quando comecei a assinar a Crunchyroll em 2014, escrevi textos em meu blog sobre a importância dos canais de streaming. Quando via séries tokusatsu chegando na Crunchy e as mesmas sendo pirateadas por fansubs, fui mal interpretado. Talvez ainda hoje tenha uns gatos pingados que pensam que eu sou "contra as fansubs". Quando na realidade eu queria ressaltar sobre as consequências dessas cópias de materiais licenciados por aqui. Felizmente boa parte compreendeu com o tempo a valorização das plataformas oficiais. É uma luta "acender a luz" para essa realidade. Não sou contra as fansubs. Apesar dos pesares, são graças a elas que podemos assistir às séries que não são licenciadas no Brasil. Nesse ponto eu tiro o meu chapéu.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson!

Acho que só aqui se vê pirataria na TV. Que coisa... E eu não estava sabendo dessa do Speed Racer. Inacreditável!

Valeu! Abraço!

Bruno Seidel disse...

Pois vamos ao relato de um consumidor voraz de pirataria e que até já faturou uma grana copiando e vendendo DVDs legendados (ai que cara de pau a minha): eu sempre me posicionei a favor do consumo gratuito de entretenimento que a internet possibilitou. Meu primeiro argumento é que a pessoa, quando baixa ilegalmente, não está privando ninguém de nada (o que seria diferente de roubar um DVD de uma loja, por exemplo). Claro que, indiretamente, alguém está deixando de ganhar dinheiro com isso (como o exemplo do compositor ou desse senhor que tinha uma produtora em Tóquio). No fim das contas, alguém paga o pato. Como sempre.
A falta e/ou dificuldade de ter acesso rápido e num valor acessível também foi um dos principais motivos que me “forçaram” a piratear. Eu jamais teria assistido/ouvido/lido tanta coisa recente e em boa qualidade se não fosse a malandragem de recorrer aos fansubbers. E, nesse ponto, os sites “de fã pra fã” conseguem ter um nível de agilidade, requinte e profissionalismo exemplares!
Uma coisa é certa: não é o lapso de bom senso coletivo ou qualquer campanha de conscientização que vai acabar com a pirataria. Sejamos realistas! Dizer para as pessoas pararem de baixar conteúdo pirata “porque é feio” é como conscientizar as pessoas a separarem o lixo, usarem o cinto de segurança, pegarem só 02 folhas de papel toalha no banheiro ou usarem protetor solar. Sempre existem as louváveis exceções, mas não dá pra apostar na conscientização coletiva.
Já o serviço de streaming oferecido por plataformas como o Netflix, esse sim, pode ser a bala de prata que estamos aguardando. Eu, como confesso consumidor de pirataria, diminuí muito a quantia de downloads ilegais depois que passei a assinar o serviço por um preço que eu considero bem aceitável. É a tecnologia e uma nova experiência consumo mudando velhos hábitos. O que acabou sendo um tiro no joelho dos sites de pirataria (afinal, “barato” ainda não é “de graça”), foi também um tiro no coração de vendedores de DVDs piratas em camelôs, uma vez que o streaming também veio para tornar obsoleto o consumo de mídia física (não sei como o Japão ainda insiste em se render)
E, falando em Netflix, o próprio serviço é um exemplo de reinvenção, quando deixou de ser uma locadora online para virar a maior plataforma de streaming do mundo, levando pra cova a até então dominante Block Buster. (escrevi sobre esse assunto na última edição da Exponential Magazine: https://issuu.com/exponentialmagazine/docs/exponential_magazine_019
E voltando às lamentações dos autores e produtores de conteúdo: isso é um reflexo do sistema capitalista que controla o mundo hoje. Nem sempre foi assim e nem sempre será, afinal, vivemos em constante transformação. É impossível dizer para onde estamos indo ou apontar quem vai levar vantagem ou desvantagens nos tempos vindouros. Será que a monetização por consumo, assinatura mensal, bilheteria e contas premium são/serão as únicas formas de remunerar os produtores de entretenimento? Será que iniciativas como a Shonen Comics irão despertar um novo nicho autoral com potencial de evoluir para uma tendência? Será que um possível colapso na indústria criativa, somado às facilidades que todo mundo passou a ter de produzir, editar e divulgar seu material autoral vão gerar uma espécie de “iluminismo da Cultura Pop”? Vamos pagar pra ver. Ou não.

Alexandre Nagado disse...

Oi, César.

Graças à dificuldade de conseguir ver algumas produções, os fansubbers são uma ajuda e tanto. Vide o recente caso de Tokusatsu GAGAGA, uma série que seria muito bem-vinda num Crunchyroll ou Netflix, mas que não tem nenhuma forma oficial de se assistir com legendas.

Mas, tem muita coisa nessa discussão que já foi tema de debates, como a gratuidade de material de entretenimento, e parece que não avançamos nunca! Todos os temas que abordei já foram discutidos no fandom outras vezes. Parte da culpa da situação é que o público é muito rotativo e toda hora adolescentes recém-chegados retomam os temas mais básicos, clamando seu "direito" a que tudo seja de graça. Tem hora que cansa...

Bom, obrigado pela força e pela participação. Abraço!

Aniki disse...

Ótima abordagem do assunto, Nagado. Pois o que mais se viu seja pelas redes sociais ou outros canais foi um festival de chorume ou pseudo-vitimismo por causa das ações do Crunchyroll(que a meu ver, está mais do que certo em sua atitude).

Como já trabalhei em área administrativa e sei o perrengue que uma empresa(pequena, média ou grande) precisa passar para se manter em atividade, independente da sua área de atuação, não foi difícil empatizar com a plataforma, afinal, são empregos colocados em risco.

Também achei patético alguns fulanos dizendo que o Crunchyroll era fansub anteriormente e estaria 'cuspindo no prato que comeu'. Cada vez que lia isso sempre me lembrava da história do Nelson Sato e do Toshi, que começaram com locadoras piratas e decidiram se legalizar a partir da regularização do home-video. Desde os tempos que os fansubs de VHS surgiram no Brasil eu acreditava que algum deles pudesse se tornar um distribuidor oficial, como ocorreu nos EUA(se não estiver errado foi a ADV). Pura ingenuidade minha, o DNA da Lei de Gerson ainda está nas células brazucas.

O curioso também foi ver alguns youtubers ditos libertários ou anarcocapitalistas darem seu plá a respeito do assunto, caso do Ideias Radicais e O Pessimista.

Outra curiosidade nas redes sociais foi um carinha aproveitar o ensejo e falar sobre séries e filmes japoneses que supostamente já teriam entrado em domínio público. Acho que o assunto vale uma postagem, não?

Grande abraço.

Unknown disse...

E aí Nagado, tudo bem!
Ótimo texto! Confesso que, apesar da gente trocar umas idéias pelo Twitter, não costumo comentar as matérias do seu blog.
Esse assunto da Crunchyroll me fez entrar em um modo de auto análise em que me vejo na situação de ambos os lados.
Como fã de Tokusatsu e animê consumi muito material de fansubbers, desde os tempos do VHS nos eventos da Abrademi. Já escrevi matérias para revistas especializadas na época sobre Fushigi Yugi e movies de Dragon Ball Z graças ao que vi através de VHS adquiridos via Fansubbers.
Mas acho que o trabalho deles deve acabar quando fere o direito intelectual sob a propriedade dos títulos oferecidos.
Hoje, tenho uma plataforma de leitura de quadrinhos digitais, com material independente e de editoras. Tudo licenciado e pagando os devidos royalties para seus criadores. Vejo o quanto custa manter um serviço desses, mesmo sendo pequeníssimo se comparado a Crunchyroll Mangá ou Comixology. Me vejo na pele do senhor de 60 anos que você mencionou. A pirataria vai atingir os que ganham pouco, os funcionários que trabalham nas grandes corporações. Esses serão descartados em prol de reajustes orçamentários devido as perdas para os piratas.
Me lembrou também a época do Lost, quando a tradutora que ajudava um grupo que legendava a série no mesmo dia que era exibida nos EUA foi contratada pela SONY. Esse também é o tipo de incentivo que as plataformas e/ou empresas que detém os direitos das séries/filmes podem fazer para ajudar os dois lados.
Grande abraço Nagado e sucesso!

Predador Design disse...

Já fui assinante da Crunchyroll e voltaria a assinar novamente sem problemas, alguns fansubbers lá de fora, que estavam legendando Ultraman Gaia pararam porque viria pelo Crunchyroll. De boa. Achonque os funsubbers daqui deveriam ter esse postura tbm, da mesma forma a Crunchyroll respeitar o pessoal que trabalhou de graça para pavimentar o mercado para eles e assim não ficarem com a pecha de vilões. Anime antigo já finalizado pelo funsubber? Deixa quieto. É lançamento mas eles não exibirão? Deixa quieto. Se for lançamento vai em cima do funsubber e avisa que a exclusividade é deles, a galera passaria a encaminhar o "download" para o site oficial. Inclusive o Crunchyroll não fica com animes muito tempo para baixar... Ultras antigos já saíram.

Valdo Arts disse...

Ótimo texto Alexandre, tenho certeza que muita gente não irá ler mesmo eu incentivando nas minhas redes sociais, mas é algo que deve ser dito e esclarecido. Ser profissional é ter a visão de todos os lados e senso crítico pra discernir a situação em seu tempo e sua hora e como foi dito , os fansubs são necessários em casos específicos hoje e deveriam ser aproveitados e contratados por empresas, visando o bom uso de suas habilidades pra divulgar por meios legais os conteúdos isolados que o público deve conhecer e deixar o crunchyroll e outros fazerem seu otimo trabalho, assim todos ganhariam, que pena que esse ideal ainda carece de consciência de um público que só pensa no seu umbigo. Um grande abraço!

Usys 222 disse...

Os dois lados da pirataria, o bom e o ruim, já foram bem explanados no texto, então nem preciso comentar nada quanto a esses aspectos. Deu para ver claramente no quanto os chamados fansubbers podem ser úteis para a indústria e a partir de que ponto isso a prejudica.

Mas quando soube dessa notícia de que havia gente protestando contra essa atitude do Crunchyroll contra sites que distribuíam material licenciado, fiquei bem confuso e por um momento não acreditei no que estava lendo. Me parecia que estavam apoiando o lado errado. Pois achava que o Crunchyroll era o que todo mundo queria: um meio de se ver Animês de forma limpa e lícita. E séries completas, lançadas com pouca diferença de tempo depois da exibição no Japão. Era a realização de um sonho para gente como nós, que antigamente tínhamos que garimpar esse material, capítulo por capítulo, disperso em locadoras especializadas em vários pontos da cidade, distantes entre si. E ainda por cima sem legendas, com baixa qualidade de imagem e som, e na ilegalidade. Para poder ver uma série inteira era preciso MUITA sorte.

Imaginem como eu fiquei contente quando eu soube que iam exibir Ultraman X e Kamen Rider Amazons (Amazon Prime) por aqui. Glitter FORCE (Netflix) também, mesmo sabendo que ia ser daquele jeito, mas que acabou terminando em fracasso. Eram sonhos sendo realizados. E de forma legal.

Esses ataques à Crunchyroll me deixaram bem desapontado. Mas essa queda da moral não é só "privilégio" dos brasileiros. Houve muitos jovens no Japão que ficaram chateados com o fechamento do Manga Mura, que distribuía scans de mangás de graça. Felizmente a grande maioria do povo ainda censura o posicionamento desses jovens de tentar conseguir as coisas sem pagar nada.

Admito. Eu mesmo vejo séries e filmes que não foram licenciados para cá de forma pirateada. Porém faço isso ciente de que é errado. Compro produtos relacionados em lojas oficiais, mas sei que não serve de compensação e nem me redime de nada. Ainda assim eu continuo sonhando com o dia em que todas as obras japonesas estarão disponíveis por aqui de forma legalizada. Com o fim do famigerado "Bloqueio de Região".

Adelmo Veloso disse...

Texto excelente, mestre Nagado!

Confesso que inicialmente estava com aquele peso na consciência achando que era um dos únicos leitores seus que assistia a conteúdos por meio de transmissões não oficiais! Quando eu era bem mais novo e não tinha grana, lia vários scans de mangás. Depois que comecei a trabalhar e quando tive meu primeiro computador, passei a baixar os episódios de vários fansubs.
Aí conheci o mangá Bakuman, que veio como um tapão no rosto, além de fazer minha consciência pesar horrores! A partir de então, passei a comprar mangás, mas ainda baixava os animes. Apareceu a Netflix em minha vida e pude diminuir um pouco essa onda de baixar filmes, séries e alguns animes.
Hoje, não baixo mais animes e faço o possível para assistir de forma oficial, mas ainda estou resistindo um pouco à Crunchyroll devido ao valor que está bem próximo do que pago na Netflix. Ainda vejo um ou outro título por fansub, mas não baixo mais.
Espero que a Crunhyroll possa rever os valores cobrados para que mais pessoas tenham acesso ao conteúdo de forma oficial, mas há o “fator cara de pau”, que é bem peculiar do povo brasileiro: pagar nada para quem produz conteúdo ou até mesmo vive da arte, como o velhinho do estúdio de animes.
Os Tokusatsu também estou acompanhando por fansubs... eita!

Alexandre Nagado disse...

Faaaaala, galera!

Primeiro, muito obrigado pelas manifestações aqui publicadas. Não imaginava que o texto fosse dar boa audiência (pelo tamanho e pelo atraso na postagem) e nem que inspirasse tantos depoimentos e opiniões. Fiquei meio fora, apenas liberando comentários, por que estou com a vida muito corrida nesta semana.

Obrigado, Bruno Seidel, Unknown (que eu desconfio quem seja, valeu!), Aniki, Valdo Arts, Predador Design, Usys222 e Adelmo Veloso.

Realmente, todos nós já usamos ou ainda usamos eventualmente os fansubbs e é legal falar abertamente sobre isso, pois mostra que há uma demanda por esse tipo de produto.

Aniki, não vi esses YouTubers que citou, mas não tem essa de domínio público, não, quando a obra pertence a uma empresa.

Eu acredito no livre mercado (liberalismo econômico) regulado por um Estado mínimo, porém forte, que impeça a concorrência desleal - e sites de pirataria representam concorrência desleal frente a pagadores de impostos e royalties.

A alternativa utópica futurista de uma sociedade sem capitalismo (dinheiro), sem posses e sem regulações sempre me remete à utopia do comunismo. Dê o nome que quiser, pode até evitar o termo marxismo ou partes de sua doutrina, mas essas ideias utópicas de sociedade sem capital e propriedade são uma ilusão e sempre vão caminhar para um movimento revolucionário. Eu li artigos sobre o suposto fim do capitalismo no futuro e nenhum me convenceu por um motivo simples: o ser humano é imperfeito e corruptível, e essa é uma das bases do pensamento conservador, que aceita mudanças graduais, mas com base na liberdade de ação e com mecanismos regulatórios que impeçam abusos de quem quer que seja.

Eu acredito que o sistema de monetização por assinaturas em diferentes níveis, do gratuito com anúncios ao pago com graduações de acesso, é uma aposta que ainda não se esgotou. Só queria que o Netflix tivesse uma modalidade gratuita com anúncios, assim como o Spotify e o Crunchyroll.

E Usys, você lembrou bem. Esse bendito "bloqueio de região" irrita demais. Vídeos não são monetizados? O que eles ganham bloqueando isso? Dá pra mascarar IP, acessar e sair pirateando, que é o que eles estimulam com essas políticas fechadas.

Só espero não estarmos discutindo essas mesmas coisas daqui a 10 anos, pois não é a primeira vez que se faz uma ofensiva contra sites piratas e fansubs. A diferença agora foi o engajamento do Crunchyroll.

Valeu, pessoal!
Abraços!

Stephano Barbosa disse...

Sabe que fator acaba favorecendo a pirataria ?
Preços altos, dificuldade de importação etc.

sobre animes e mangás.... já gastei $$ com mangá, camisa estampada, chaveiro, pingente...
Isso a indústria de anime poderia ver tbm!!
(estampa, chaveiro etc.)

hoje tenho coleção de mangás de samurai x, dbz, yu yu hakusho etc.
pq vi os animes nos fansubs e gostei.
paradoxalmente vi algo gratuito.. e acabei comprando físico relacionado a esse.

ah.. sobre pirataria... sabia que tem gente que compra camisa pirata de time de futebol ? pq a camisa oficial custa os olhos da cara!

Stephano Barbosa disse...

Quero lembrar que fansubbers lembram a Hidra.
É inútil decapitar.

Cláudio Roberto disse...

1999: Não tínhamos mangás no Brasil (só o Ranma 1/2) e não tínhamos animes novos. Só os via funsubbers, através de arcaicas VHS. De certa forma "pagávamos" por conteúdo (mas... Ilegal).

2009: Tínhamos mangás em bancas (e pagávamos por conteúdo... Legal). E a questão do anime era mais complexa pois se de um lado a Internet facilitou o acesso... Do outro emperrou o mercado formal de de home video de fincar algum projeto. Era impossível o LUCRO devido ao CUSTO. E aí... Quem pagava? Foi uma surpresa o Jaspion da Focus Filmes ter sido (segundo fontes) um "sucesso" (ao passo que outras obras... Naufragaram).

2019: Mangás em banca sendo sufocados por um modelo que esgotou por si mesmo. Animes online seguindo o mesmo caminho. A Shueisha viu que o "futuro" já está aí (e deu uma 'reação'). Resta saber como as editoras brasileiras reagirão... A CR também reagiu (e o "mercado informal"... 'Rugiu'. Tal qual um movimento de trabalhadores de esquerda perante as novas regras de um governo de direita. Só que a "Caneta Desesquerdizadora" neste caso foi mais do que a mera provocação: Foi a AÇÃO. Ponto.

Onde eu quero chegar? O mercado está em constante mudança. E a única forma é ADAPTAR-SE. Se um filme de DBZ faz SUCESSO (e LUCRA!) nos cinemas... É porque o modo de exibição - e consequentemente CAPITALIZAÇÃO - seguiu um modelo de gestão onde a obra veio em "tempo real"! Não houve como sair o DVD no Japão e inserir legenda ou a dublagem do cinema (gravada da plateia mesmo!) e "jogar prá galera"... Palmas prá Fox e pra Toei!

Mas... E os demais 99%?

Se com este exemplo DB se sustentou, lamento dizer: NADA VEM DE GRAÇA. A CR APENAS ESTÁ CLAMANDO O QUE LHE É DE DIREITO. E não estou aqui dizendo que a CR está "errada". Mas alguma coisa no mercado (ou pior... No comportamento do público está "certo")?

Nagado, o seu texto está ótimo. Desde tempos antigos temos esta aquiléia que é a PIRATARIA. E o único modo que vejo é uma CONSCIENTIZAÇÃO. Uma auto-crítica que vejo mais dos "veteranos" do que dos 'novatos'. E sim... CONSUMI MUITO MATERIAL PIRATA. Mas... Aquela "utopia" de 1999 dos fãs de Funsubbers não parece se aplicar ao mundo de 2019. No Socialismo, as contas do custo social não fecham. E no Capitalismo, a conta chegou.

Para terminar: Quem não paga, arca com as consequencias. Se até eventos 'grandes' de uma década atrás pagaram o preço de não se tornarem "legais" junto aos produtores de conteúdo (e hoje uma CCXP é uma porta de contato das majors do entretenimento junto ao público), hoje os Funsubbers tem que saber que "o jogo virou". MAS... Pena que muita gente que poderia fazer o CR ser algo de vital importância (aquilo que o povo de anos atrás sonhava em ter... E temos aqui!), ainda "reclama de barriga cheia". Mas sem razão.

Enfim é isso Nagado. Abraços!

anderson disse...

Sobre o CR ,alguns temem que o lançamento de High Guardian Spice (um tipo de Steven Universe genérico com a panfletagem habitual) seja um sinal de queo serviço seja mais ocidentalizado no futuro .Porque infelizmente porcarias como a recente "Ben She-ra " recebem bem mais facilmente o aval da imprensa e críticos do que um anime habitual .