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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Cowboy Bebop - O Filme

Com o anúncio de uma nova série pela Netflix, vamos recordar a grande aventura cinematográfica do melhor caçador de recompensas do Universo. De quebra, uma entrevista com o dublador Guilherme Briggs, a voz brasileira do personagem.
Capa do DVD lançado nos EUA com
a aventura para cinema de Spike Spiegel.
A Netflix anunciou recentemente a produção de uma série de TV em live-action sobre um dos animês mais cultuados da década de 1990. Composto originalmente de 26 episódios para TV (1998) e um filme para cinema (2001), Cowboy Bebop conta as aventuras do mercenário Spike Spiegel e seus amigos, que viajam na espaçonave Bebop para resolver casos perigosos e complicados.

A história se passa na colônia terrestre de Marte, no ano de 2071, onde as pessoas vivem em uma sociedade avançada tecnologicamente, mas também decadente e com altos índices de criminalidade. Nesse ambiente complexo e problemático, a solução para o governo foi autorizar a ação de caçadores de recompensa chamados de “cowboys”, a fim de manter o crime sob controle. 

Todas as produções foram exibidas no Brasil e o longa, descrito a seguir, pode servir para apresentar os personagens a uma nova geração de fãs. 

Às vésperas do dia de Halloween, um grande ataque terrorista com um novo tipo de arma biológica inicia uma grande caçada contra seu mentor. O vilão em questão é Vincent, enigmático ex-soldado que serviu de cobaia para experimentos governamentais no passado e que planeja uma aniquilação em escala global movido por sua loucura. Junto com ele está um jovem e amoral hacker em busca de emoções reais.
A caçadora de recompensas Faye Valentine.
Em seu encalço, um excêntrico grupo de cowboys inicia uma busca perigosa. O implacável pistoleiro e lutador Spike Spiegel, seu sócio, o rabugento Jet Black, sua aliada, a estonteante Faye Valentine e a menina hacker Ed entram em ação, de olho na recompensa. Spike é um ex-criminoso que, além da pontaria certeira, também é lutador de jeet kune do, o sistema de luta codificado por Bruce Lee

A busca por Vincent, um assassino terrorista de alta periculosidade, leva Spike a conhecer a misteriosa Electra, antiga companheira do terrorista. Juntos, eles se envolvem numa sequência alucinante de combates e investigações. 

A série de TV original foi exibida no Brasil pelo extinto canal pago Locomotion, sendo totalmente voltada ao público juvenil e adulto. Uma versão em mangá foi publicada em 2004 pela Editora JBC, consistindo em seis volumes (três, na edição japonesa) com histórias inéditas, diferentes da TV.

A despeito de sua origem televisiva, não é necessário ter visto um único episódio do seriado para se entender a trama do longa, que é auto-contida. Mas quem já conhece os personagens, certamente irá curtir mais a aventura, que foi exibida em cinemas brasileiros em 2003, dois anos depois de sua exibição original no Japão. 

A série foi exibida com legendas, mas o longa teve opção dublada para lançamento em DVD, sendo que Spike teve a voz do versátil dublador Guilherme Briggs (ver entrevista no fim do post).
O implacável Spike Spiegel, pistoleiro e lutador de jeet kune do.
A produção poderia ser meia hora mais curta, pois seus diálogos existenciais acabam se arrastando um pouco. Mas é todo esse texto e suas pretensões filosóficas que ajudaram a criar a aura cult que o desenho tem entre os fãs mais hardcore. E mesmo com suas belas cenas de ação e direção estilosa, talvez o item de maior destaque seja a excelente trilha sonora de Yoko Kanno, compositora de trilhas respeitada no Japão e que atingiu com Cowboy Bebop o ponto mais alto de sua carreira.

Mesmo sem ter a sofisticação visual de um Akira ou Ghost in the shell, Cowboy Bebop – O filme é uma produção de alto nível e agrada por sua direção impecável, personagens carismáticos e trilha sonora única. Pode ser um bom aquecimento enquanto se aguarda a nova versão. 

Nota: A Netflix não anunciou intenção de exibir o animê de Cowboy Bebop, mas seria bem interessante se o fizesse.

CURIOSIDADES / BASTIDORES

* Antes de assumir a direção geral da série de TV, Shinichiro Watanabe estreou como diretor em Macross Plus (1995), animação para vídeo já exibida no canal pago Multishow. Nesse animê, Watanabe também trabalhou com a roteirista Keiko Nobumoto e a compositora Yoko Kanno. Muito conceituado, ele também foi um dos diretores de Animatrix (2003).

* O nome do criador da série é Hajime Yatate, na verdade o pseudônimo coletivo do estúdio Sunrise, que produziu as animações. O conceito original partiu do próprio diretor Shinichiro Watanabe. Sobre criações corporativas, veja o post Autores sem Rosto

* Os três velhinhos que aparecem esporadicamente ao longo da série (e também no longa) têm os nomes de Antonio, Carlos e Jobim. Pode soar engraçado aqui, mas a nossa bossa nova tem um público fiel no Japão e o diretor é grande fã do maestro brasileiro Tom Jobim.

* O filme teve, como título internacional sugerido, Cowboy Bebop – Knock´n on heaven´s door, que é uma citação a uma antiga música de Bob Dylan regravada pelo Guns´n Roses. Colocar títulos com nomes de músicas era prática comum na série de TV mas, devido a questões envolvendo direitos autorais, o título internacional ficou sendo apenas Cowboy Bebop – The Movie. 

* O filme NÃO é uma co-produção, como foi divulgado na mídia cinematográfica, tendo sido inteiramente criado e produzido no Japão. A distribuidora Columbia Tri-Star seguiu uma tradição que existe há décadas nos EUA: rotular qualquer desenho japonês de co-produção apenas por estar sendo distribuído no ocidente por uma empresa americana. Nos créditos ocidentais, é normal que o responsável pela tradução ou adaptação de texto acabe sendo promovido a roteirista.

* Bebop é o nome de um estilo de jazz surgido nos anos 40, onde criatividade, sofisticação, técnica e improviso deram novos rumos ao mundo da música. Logo, o título Cowboy Bebop é uma alusão ao caçador de recompensas que leva sua vida no improviso.

O trailer americano:



Cowboy Bebop – O Filme
Ficha técnica:

Título original: 劇場版 カウボーイビバップ 天国の扉 (Gekijôban Cowboy Bebop: Tengoku no Tobira ~ Cowboy Bebop O Filme: A Porta do Céu )  
Título alternativo: Cowboy Bebop – Knock´n on heaven´s door 
Estreia: 01/09/2001 (Japão)
Duração: 120 minutos

Criação: Hajme Yatate
Design de personagens: Toshihiro Kawamoto
Design mecânico: Kimitoshi Yamane 
Roteiro: Keiko Nobumoto
Trilha sonora: Yoko Kanno
Dire
ção de arte: Junichi Higashi
Direção e composição: Shinichiro Watanabe
Produção: Sunrise, Bandai Visual

(Publicado originalmente no portal Omelete em 2003, devidamente ampliado e revisado para postagem neste blog.)


::: E X T R A :::

A DUBLAGEM DE COWBOY BEBOP

Em 2004, a meu convite, o jornalista Marcus Marinho entrevistou com exclusividade para a Editora Magnum a voz brasileira de Spike, o dublador Guilherme Briggs. Um veterano da área, é conhecido por ser a voz do Freakazoid, do Superman (no desenho Liga da Justiça e nas versões live-action com Dean CainHenry Cavill), Buzz Lightyear (Toy Story), Mickey Mouse, Hawk Moth (Miraculous - As Aventuras de Ladybug) e muitos outros. 

O material foi publicado originalmente na revista Animax Reloaded (edição única), uma publicação experimental lançada pela editora Magnum em 2004. Confira agora como foi o interessante e divertido bate-papo:
Guilherme Briggs: Dublador, ator, desenhista e tradutor,
entre outros talentos. Uma das vozes mais conhecidas
da dublagem brasileira.
Por Marcus Marinho

Você declarou em entrevistas que gostaria de dublar o Spike e acabou conseguindo o papel. Como foi este processo?
- Briggs: A Miriam Fischer, que dirigiu a dublagem, sabia que eu gosto muito do anime e achou que eu tinha uma voz legal para o papel, então me chamou para fazer um teste. Mesmo quando o diretor conhece nossa voz, temos que fazer testes para os personagens.

Como você define o perfil do Spike?
- Briggs: Ele é um cara que veio do crime, simulou a própria morte para poder ficar com a namorada de um ex-companheiro da máfia, não tem mais nada a perder. É meio Zeca Pagodinho - “Deixa a vida me levar”. Acho que todo mundo tem um pouco do Spike.

Então você também simularia sua morte?
- Briggs: Se fosse para proteger uma pessoa que eu amo, sim, mas para ficar com alguém, não. Acho que não vale a pena. Tem coisas que a gente vê na vida e acaba se acostumando, como a violência urbana, por exemplo. Se eu vir uma pessoa em perigo e puder reagir, vou reagir. Este é o meu lado Spike. Quando tinha 14 anos vi um cara boiando na praia de Copacabana que estava parecendo uma medusa. Puxei ele pelos cabelos e comecei a gritar. Tinha gente que não queria ajudar por que estava com nojo - pensavam que ele estava morto, mas não estava e foi resgatado. O que me incomoda é a apatia das pessoas.

Durante a dublagem de Cowboy Bebop, você acrescentou algo pessoal ao seu personagem?
- Briggs: Tentei passar para o Spike uma parte da malandragem brasileira. Tem uma cena em que ele entra numa loja de conveniência e começa a falar com o amigo “Pô, mermão, você disse que eram só dois caras!” Tentei deixar o mais natural possível. Sempre temos que adaptar para o publico brasileiro. Em Procurando Nemo, dublei um tubarão que no original tinha um sotaque australiano. Optamos por botar um sotaque caipira.

Você gostou mais do longa-metragem ou da série de TV?
- Briggs: Gostei mais da série, que tem mais elementos. O longa se passa entre os capítulos finais, e parece um episódio esticado – fizemos a dublagem exclusivamente para o DVD no estúdio Cinevídeo. O anime foi ao ar legendado – gostaria de ter dublado. Fiquei nervoso quando dublei o Spike. Isso sempre acontece quando dublo um personagem que gosto. Com o Buzz Lightyear (de Toy Story) foi a mesma coisa.

Há alguma curiosidade sobre a dublagem do longa?
- Briggs: Tem uma cena em que Spike conversa com três velhinhos que são ex-caçadores de recompensas. Os nomes deles são Antonio, Carlos e Jobim. Acho que foi uma homenagem ao nosso Tom Jobim, porque os japoneses adoram bossa nova. Para dublar, chamaram o Isaac Schneider, que fez o Professor X de X-Men, José Santa Cruz, que fez o Dino da Família Dinossauros e o Mário Monjardim, o Salsicha de Scooby-Doo. Eu morria de rir, porque ficava imaginando o Dino, o Salsicha e o Prof. X conversando e tomando cerveja (risos).

O que você mudaria na trama do Cowboy Bebop?
- Briggs: Mudaria o final, que é muito triste, mas não vou comentar porque tem muita gente que não viu. Não quero fazer spoiler (risos). Também mudaria um pouco as roupas dos personagens, para que tudo ficasse mais real.

Quais seus animês preferidos?
- Briggs: Quando era pequeno gostava de ver Patrulha Estelar e Don Drácula (da TV Manchete). O meu preferido é o Maison Ikkoku, da Rumiko Takahashi. Sempre que posso vou em convenções, e se um dia ela vier ao Brasil, vou estar sentado na primeira fila. 

Como é dublar um anime, levando-se em conta a sincronia labial?
- Briggs: Dublar ouvindo o áudio em japonês é muito difícil. Eu sofri para fazer o Suzako na redublagem de Yu Yu Hakusho. O japonês fala alto e rápido, tem um timbre de voz diferente do nosso. Tinha cenas em que Suzako dizia frases gigantescas que ficam curtas quando traduzidas. Então a saída é falar a mesma frase com outras palavras, pois não podemos alterar o sentido do texto original.


- Agradecimentos especiais e Marcus Marinho e Guilherme Briggs.

6 comentários:

Anônimo disse...

Anderson :Resta saber se ao contrário daquela comédia involuntária baseada em Death Note,serão fiéis ao original.O problema é que heróis como o Spike atualmente são vistos como símbolos machistas pelos SJWs norte-americanos-principalmente quando são brancos.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson!

Acredito que farão mudanças significativas na representação dos personagens. Um pouco pra amansar os justiceiros sociais, um pouco pra causar polêmica e gerar mídia. Death Note irritou muitos fãs, mas a polêmica atual envolvendo CDZ supera tudo. Vamos ver como será esse Bebop. Eu ainda preciso ver a série, pois assisti muito pouco. O filme eu vi no cinema mesmo e realmente é bem legal.

Valeu! Abraço!

Anônimo disse...

Anderson:Sobre CDZ ,foi uma mudança desnecessária ,mas ainda é uma produção principalmente
japonesa ,e pelo que eu vi não vai descaracterizar a franquia tanto quanto a "Ben She-ra" que é feita unicamente para promover a agenda ideológica de sua autora.O que é revoltante é que em vez de elogiar a representatividade feminina aumentada estão atacando a mudança ,simplesmente porque não aceitam uma personagem feminina tão pacifista quanto o Shun original.
Pregam que toda heroína é obrigada a ser uma Xena da vida(engraçado é que muitas dessas feministas já foram fãs de Sailor Moon e Sakura Card Captors).

Usys 222 disse...

Cowboy Bebop é uma daquelas obras que sempre ouço falar, mas nunca vi direito. Só um capítulo na antiga Locomotion envolvendo um artefato da antiguidade: uma fita de vídeo-cassete. E a busca por um aparelho para rodar, mas a fita é Betamax e o aparelho é VHS (ou o contrário, já não me lembro direito).

Esse filme parece ser bem divertido. A maneira como foi apresentado dá mesmo vontade de dar uma conferida, já que a trama é bem intrigante. E essa explicação sobre "Bebop" de "viver no improviso" foi muito bem sacada.

E adorei a entrevista com o Guilherme Briggs. Eu sou fã dele e realmente é muito bom quando quem dubla é alguém que entende de Cultura Pop. Dá para ver que no fundo, ele é um cara como nós, o que ajuda a dar mais proximidade. Miriam Ficher é outra dubladora que admiro e é bom ver que agora ela dirige. E mais gratificante é ver que José Santa Cruz ainda está na ativa.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Eu não acompanhei a série, nem tinha Locomotion em casa na época, pois não fazia parte do pacote que assinávamos em casa. Era a época do Omelete e consegui ir na cabine de imprensa. Levei um amigo, o quadrinhista Rodrigo Reis e, além de nós, só estava lá o Rubens Ewald Filho. Um cinema inteiro vazio, com apenas três convidados. Por aí você vê que a imprensa não deu a menor pelota. Mas eu adorei o filme e a trilha sonora é muito agradável. Tem partes meio arrastadas, de falatório que poderia ser mais reduzido, mas no geral a direção é ótima. E o Spike é um excelente personagem.

O Briggs eu não conheço pessoalmente ainda, mas dá pra ver que ele é genuinamente empolgado com o trabalho. Foi bom ter resgatado essa entrevista, que pouca gente deve ter visto na época.

Alexandre Nagado disse...

Anderson: veja que eu fiz um post específico para esse caso de CDZ. Vou copiar seu comentário lá, ok?

Abraço!