quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Chumei Watanabe - O compositor dos heróis japoneses!

Vamos dar uma olhada na carreira do criador das trilhas sonoras de uma infinidade de personagens clássicos. 
Os Policiais do Espaço: Gavan, Sharivan e Shaider.
Impossível relembrar suas aventuras sem
associá-las ao trabalho musical de um gênio.
Seja na TV ou no cinema, o nome de Michiaki Watanabe (渡辺 宙明) é sinônimo de uma trilha sonora empolgante. Nascido no Japão em 19 de agosto de 1925, Michiaki, também conhecido como Chumei Watanabe (que é uma outra leitura possível dos ideogramas de seu nome) é compositor e arranjador dos mais importantes em seu país, tendo uma obra vasta e reconhecida internacionalmente. 
Uma lenda da
cultura pop japonesa.

Começou carreira em 1956, compondo a trilha para a série cinematográfica Ningyô sashichi Torimono Chou (Dandy Sashichi Detective Story) e sua primeira continuação (5 filmes no total), lançada no ano seguinte. Vários outros títulos para cinema vieram, bem como dramas para TV. Ele se consagrou como um compositor de obras para filmes ditos "sérios", com apelo ao público adulto, antes de se tornar a lenda que é hoje. Iria demorar um pouco para fincar o pé na cultura pop.

Em 1964, ele compôs as músicas da série Ninja Butai Gekkô, do estúdio Toei, que teve uma rápida passagem pelo Brasil no final daquela década como Agentes Fantasmas

Em 1972, compôs a trilha sonora para Mazinger Z, o animê criado por Go Nagai que redefiniu os robôs gigantes japoneses e detonou uma febre em seu país. Cantada pelo astro Ichirou Mizuki, o "Imperador das Anisongs", o tema de abertura da série é até hoje considerada sua marca registrada. 

Depois, Watanabe continuou na franquia com Great Mazinger (1974) e fez numerosos trabalhos para animês, como Konchuu Monogatari Minashigô Hatch (1974), lançado no Brasil como a Abelhinha Hutch. Trabalhou também nos títulos Magne Robo Ga Keen (1976), Arbegas (83), Lezarion (84), Hikaruon (87), Transformers V (89) e muitos outros. 
O mestre, entre imagens de produções com suas músicas:
Gavan, Spielvan, Jaspion, Jiban, Mazinger Z e Goggle V.
E se com Mazinger Z ele conseguiu um lugar na história dos animês, é difícil mensurar ou classificar sua importância na área do tokusatsu. Depois da experiência com Agentes Fantasmas, visto mais como um seriado de ação do que um tokusatsu, fincaria o pé no gênero após trabalhar em Kikaider, criado por Shotaro Ishinomori para a Toei Company em 1972

Quando foi convidado para Kikaider, quase recusou, por achar que não conseguiria compor para uma série infantil. Isso reflete a visão que existe até hoje - e era muito mais forte naquela época - de que seriados tokusatsu eram vistos somente por crianças. 

Então, foi convencido pelo produtor Toru Hirayama e fez seu trabalho, tendo em mente que não iria compor música infantil mesmo que o público alvo fosse dessa faixa etária. "É por isso que pessoas na faixa dos 40 e 50 anos ainda ouvem minhas canções e as cantam em karaokês. Eu fico realmente orgulhoso!", relatou ao site local The Japan News, do influente Yomiuri Shimbun.

Vieram depois Kikaider 01 (1973), Inazuman (73), Inazuman F (74), Gorenger (75) Jacker (77)Spiderman (78), Battle Fever J (79), Denziman (80), Sun Vulcan (81) e várias outras produções de tokusatsu, sempre para a Toei Company. Seu estilo parecia fadado a embalar aventuras divertidas e combates empolgantes. 

Em termos musicais, foi um dos pioneiros no uso ostensivo de sintetizadores durante os anos 70. Seus arranjos valorizam o uso de metais, especialmente trumpetes, sejam os instrumentos propriamente ditos ou sua simulação eletrônica via teclados. Seu gosto e capacidade para compor melodias fortes permitiu que criasse dezenas de temas heroicos, músicas que se tornariam marcas de vários personagens. 
Capa do álbum quádruplo que reuniu
parte de sua obra, selecionada pessoalmente.
Na década de 1980, reinou absoluto na área do tokusatsu, tendo composto as músicas de fundo para Goggle V (1982), Gavan (82), Sharivan (83), Shaider (84), Jaspion (85) e Spielvan (86), todas estas tendo sido exibidas no Brasil. Em Jiban (1989), a Toei Co. reaproveitou alguns de seus temas criados para os Metal Heroes. Por isso, ele talvez seja o compositor japonês de trilhas sonoras com o trabalho mais conhecido em nosso país, mesmo que seu nome seja desconhecido para a maior parte do público. 

Gavan foi uma série revolucionária em seu tempo, tendo à frente o produtor Susumu Yoshikawa e uma equipe que incluía o roteirista Shozo Uehara, o designer Katsushi Murakami e o ator e dublê Kenji Ohba. É impossível reconhecer o sucesso e influência de Gavan sem destacar o trabalho de Watanabe. Além das músicas de fundo (ou BGM - "background music"), ele compôs as melodias dos temas de abertura e encerramento, entre outras canções da série. 

Para Jaspion, o herói que marcou época no Brasil, Watanabe também criou tanto as BGMs quanto as melodias dos temas de abertura e encerramento cantados por Ai Takano, além de outras músicas icônicas, como o tema do robô gigante Daileon e a eletrizante "Ginga no Tarzan", ambas cantadas por Akira Kushida. Ele é o cantor que mais interpretou músicas de Chumei Watanabe, que sempre confiou em seu trabalho.


Em várias produções, mesmo sem ser o compositor principal, contribuiu com algumas faixas em séries como Kamen Rider BLACK (1987), BLACK RX (88) e B-Fighter (95).
Sem as músicas de Watanabe, talvez Jaspion
não tivesse tido o sucesso tão explosivo
e duradouro como teve no Brasil.

Versátil, Watanabe também compôs trilhas sonoras para programas de TV, games e publicidade, mas será sempre lembrado como o cara das trilhas sonoras de alguns dos maiores super-heróis da cultura pop japonesa. E o talento não ficou restrito a ele na família, pois Michiaki é pai de Toshiyuki Watanabe, que já é um músico veterano e com brilho próprio. Na área de trilhas sonoras, o filho da lenda trabalhou na moderna trilogia de filmes tokusatsu da mariposa gigante Mothra (1996~98) e na série em animê Uchuu Kyodai (Space Brothers, 2012~14), entre outros títulos. 

Em 2014, Chumei Watanabe trabalhou na composição musical do projeto Uchuu Keiji NEXT GENERATION, que consistiu em duas aventuras solo dos sucessores dos heróis Sharivan e Shaider. Aparentemente, está semi-aposentado, mas nunca se sabe. 

Quando comemorou 90 anos, conduziu uma orquestra em um grande concerto sobre sua obra. Bem-humorado, já declarou que espera trabalhar até os 100 anos, seja compondo ou criando arranjos. Que ninguém duvide disso. 

E torcemos por ele, agradecidos por tantos momentos que se tornaram mais emocionantes e inesquecíveis quando emoldurados por suas criações musicais. 

::: DEPOIMENTOS :::

Devido à importância da obra de Chumei Watanabe para o público brasileiro, convidei alguns amigos para comentar sobre o compositor.


Falar de Chumei Watanabe, para nós brasileiros, é relembrar trilhas sonoras que marcaram a infância de muita gente e também por aficionados pelo tokusatsu. Quem nunca se emocionou com momentos como o tema da Espada Laser de Sharivan, as batalhas de Jaspion contra os vassalos de Satan Goss ou até mesmo a morte e a ressurreição de Jiban, não é? São exemplos de cenas onde as BGMs de Watanabe tocaram. 

Ele é de longe o meu músico favorito das séries do gênero, principalmente da franquia Metal Hero. Gosto de praticamente de todas as trilhas que ele compôs para as séries que passaram no Brasil. Ah, tem também as de outras séries inéditas no Brasil como Spiderman, Battle Fever J, Daitetsujin 17 e mais algumas que tocaram em episódios do Jiban. Vale a pena conferir alguma ou outra série onde o seu estilo inconfundível foi apresentado bem antes dos Metal Heroes. Hoje são mais de 60 anos de carreira de uma lenda viva que continua nos entretendo hoje e sempre.
CÉSAR FILHO
- Criador do Blog Daileon e
colunista do portal JBox.

Creio que, muitos dos que bravam por toda a internet “sou o maior fã do Jaspion” mal sabem que muitas das musicas da série que ecoam em seus corações tem um dono, o Sr Watanabe. Claro que, cantar o tema da abertura, encerramento ou do Daileon é muito legal, mas a série sem as trilhas do mestre Watanabe não seria a mesma, toda a emoção passada através das notas e harmonia, marcou uma geração de brasileiros. 

Mais que isso, sem ele, os policiais do espaço (Gavan, Sharivan e Shaider) estariam lutando no silêncio, o próprio Akira Kushida não estaria cantando pro universo do tokusatsu, afinal, foi Chumei Watanabe quem o convidou pessoalmente, acreditando em seu potencial. 


Descrobri quem era o maestro comparando as coincidentes e excelentes aberturas de Battle Fever J e Spiderman e desde então, é parte da minha playlist, obrigatoriamente. 



Quem gosta de música boa e entretenimento japonês tem que descobrir e valorizar esse gênio!
DANILO MODOLO
- Criador do canal TokuDoc e autor

Two Hiros:
Inspiração nos
Metal Heroes,
ao som de
Chumei Watanabe.
Não gosto muito da palavra "nostalgia", até porque, como ter nostalgia de uma época que não vivi? Nasci em 1984, mas as músicas de Chumei Watanabe me acompanharam (e ainda acompanham), mesmo ele tendo sido um anônimo (para mim), por muito tempo. 

Durante o processo de criação do meu mangá, “TWO HIROS”, inspirado nas séries de tokusatsu, que tem como um dos temas principais o encontro de gerações, suas músicas foram importantes para composição de um dos personagens principais, bem como, para “pegar” a vibração da época. Foram horas e horas ouvindo os temas de GAVAN, SHAIDER e SHARIVAN, a “trinca de ouro” dos metal heroes.


Música boa não fica velha! As músicas de Chumei Watanabe têm presença cativa na minha playlist, seja criando, relaxando, dirigindo ou no caminho para o trabalho, sempre na voz de grandes cantores, que deram vida a seu trabalho fantástico. 

GUSTAVO REIS
- Autor de quadrinhos, criou os webcomics

O impacto da obra do Chumei Watanabe na minha vida está por toda a parte. Acho que não é exagero dizer que só sou quem eu sou e só faço o que eu faço graças às músicas dele. Se a paixão que tenho pelos tokusatsu me levou a morar no Japão, fazer eventos, entrar para o JAM Project, etc., devo muito ao trabalho desse senhor, que está com seus 93 anos e continua ativo, como se ainda tivesse na casa dos 30. Um exemplo. 


Naturalmente, o meu lado músico também foi completamente contaminado pela obra do Chumei. Seu estilo transborda pelas frestas de tudo o que componho, consciente ou inconscientemente. Acho que eu sou um caso raro, porque desde criança, meu estilo de música favorito é o anime song. Dos 13, 14 aos 20 anos, praticamente só ouvia anime song, embora naquela época (meados dos anos 90) fosse complicado ter acesso às músicas. Tudo era muito escasso, o que no fim das contas foi positivo para que eu apreciasse a fundo cada um dos poucos discos a que iam aparecendo - hoje é tanta oferta que é duro manter a atenção numa coisa só. 

São tantos anos devorando sua obra, que tenho na cabeça minha própria playlist com todos os meus momentos favoritos: as levadas de trompete épicas estilo Ennio Morricone, a guitarra estridente e suja dos anos 70, os timbres de sintetizador que ele foi precursor em introduzir a partir do final dos anos 70, as baladas de dar nó na garganta, as marchas que enalteciam a jornada do herói solitário (essas, a cada ano que passa, fazem mais e mais sentido pra mim), etc., etc. Muitas vezes, não preciso nem dar play. Fecho os olhos e já escuto, e me inspiro para seguir com o meu trabalho de aproximar o público brasileiro desses tesouros  ainda intocados por muita gente.



RICARDO CRUZ
- Cantor, compositor e professor do curso NihonGO!.
É integrante do Danger 3 e Anison Lab,
sendo também membro honorário do JAM Project.

Chumei Watanabe tem um som altamente característico. Só de ouvir algumas notas do começo de uma de suas músicas já dá para perceber de quem é a autoria... e vibrar com seu estilo heroico, intenso, cheio de espírito. Mas não é só nos ritmos heroicos que o Mestre se destaca. A famosa "Fushigi Song", de Policial do Espaço Shaider, é perturbadora e provoca frios na espinha, assim como todos os seus arranjos. E em seu repertório também há baladas como "Kimi no nakama da Spielvan" e "Waga tomo Mazinger Z", que transmitem tranquilidade e um pouco de melancolia.

Sem dúvida, um dos grandes Mestres das Anisongs e das Tokusongs que merece ser
lembrado.

Usys222

- Colecionador de figuras articuladas,
é autor do blog Casa do Boneco Mecânico

::: VÍDEOS SELECIONADOS :::


1) Hero Orchestra: Anúncio do show realizado em 21 de abril de 2018, com uma orquestra tocando ao vivo alguns temas do mestre. Participaram também os cantores Akira Kushida, Ichirou Mizuki e Mitsuko Horie





2) Laser Blade Medley 
- Aqui, as músicas que acompanhavam os golpes mortais de Gavan, Sharivan e Shaider. São variações de um mesmo tema, que é sempre eletrizante. Dirigir ouvindo isso é até perigoso, de tão empolgante. (É sério, cuidado!)




3) Mazinger Z (live) - Ichirou Mizuki
- A canção mais famosa de Ichirou Mizuki, o "Imperador das Anisongs", teve letra escrita pelo produtor Yoshinori Watanabe (sem parentesco com Chumei, pois o sobrenome tem escrita diferente em ideogramas). 




4) The Space Wolf Symphony - Akira Kushida, Ricardo Cruz, Lucas Araújo e Larissa Tassi
- Uma gravação histórica que celebrou os 30 anos de Jaspion no Brasil, trata-se de um medley que reúne várias canções da série. De todas as músicas reunidas, somente a "Mabushii Aitsu" (a quarta canção) não teve a melodia composta por Watanabe, mas por Kouhei Tanaka. Além das canções, vários temas de fundo compostos pelo grande mestre foram utilizados, fazendo a gente lembrar do peso que Chumei Watanabe teve no sucesso da série.



Ore Ga Seigi Da! Juspion (Música: Chumei Watanabe/ Letra: Keisuke Yamakawa) ● Powerful Fighter Juspion (Música: Chumei Watanabe/ Letra: Keisuke Yamakawa) ● Ginga No Tarzan (Música: Chumei Watanabe/ Letra: Keisuke Yamakawa) ● Mabushii Aitsu (Música: Kouhei Tanaka/ Letra: Keisuke Yamakawa) ● Chou Wakusei Sentou Boukan Daileon (Música: Chumei Watanabe/ Letra: Shozo Uehara) ● Ore Ga Seigi Da! Juspion ~ português (Música: Chumei Watanabe/ Letra: Fred Maciel)


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- Agradecimentos especiais a César Filho, Danilo Modolo, Gustavo Reis, Ricardo Cruz e Usys222. 
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6 comentários:

Gustavo Reis disse...

Ótima matéria!!! Depois de ler a matéria em si e os depoimentos, acho incrível ver que, temos idades diferentes e um músico, perto dos seus 100 anos, pôde influenciar tantos de nós, compondo músicas de seriados infantis do outro lado do mundo. A arte tem disso. É atemporal. Hoje mesmo, voltando para casa do trabalho, estava ouvindo Frank Sinatra. Acho que é o sonho de todo artista, que nossas obras toquem as pessoas independente da idade, de origem e que se perpetue ao longo do tempo! Parabens Alexandre!

Usys 222 disse...

Um bom resumo da carreira de uma verdadeira Lenda das Anisongs e das Tokusongs. E boa a explicação dos instrumentos usados em suas composições. E interessante isso dele não ficar calcado necessariamente em temas infantis para compor.

Normalmente muitos conhecem e enaltecem os cantores, enquanto os compositores, letristas e arranjadores ficam relegados ao segundo plano. Mas é graças a eles que temos essas canções maravilhosas. Felizmente, Chumei Watanabe é reconhecido pelo seu trabalho, e com merecimento. Sem dúvida, suas composições são parte do segredo do sucesso de muitos desenhos animados e seriados.

"Chumei Watanabe" é o outro nome que eu via com frequência nos créditos de seriados, junto com "Shozo Uehara". Acho que isso é outra prova de sua importância.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Gustavo.

Obrigado, esta postagem foi daquelas que me fazem achar que vale a pena manter um blog, pois é um registro e um reconhecimento para um artista que talvez nem saiba que tem tantos admiradores deste lado do mundo.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Mr. Usys!

É impossível dissociar Jaspion da trilha de Watanabe, pois é muito estilosa. Também gosto muito de Hiroshi Miyagawa e Toru Fuyuki, mas ninguém tem uma obra tão ligada a heróis de ação como Chumei Watanabe.

Vendo a produção dele, é possível dizer que seu nome é um dos mais importantes na cultura pop japonesa. Deve ter sido incrível pra quem viu ao vivo uma orquestra tocando seus temas. O BGM da Laser Blade deve ficar ainda mais empolgante ao vivo!

Valeu! Grande abraço!

Bruno Seidel disse...

Excelente registro e homenagem a esse gênio que imortalizou os temas de séries inesquecíveis! Achei divertido a parte em que você recomenda não ouvir as trilhas enquanto dirige. hueuehuehuehehuehuee! Um ótimo conselho, por sinal!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno! Esse tema da Laser Blade é como aquela música de ação do G.A.M. (o MAT do Regresso de Ultraman), pura adrenalina. Uma vez estava dirigindo ouvindo a trilha do Regresso e quando tocou o tema do G.A.M., eu perdi a entrada da cidade onde estava indo, sendo obrigado a pegar um retorno.

Já o tema da Laser Blade me dá até energia, ah ah.

Abraço!