segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Maison Ikkoku - A genialidade de Rumiko Takahashi

Romance, comédia, drama e muita emoção em um dos melhores trabalhos da autora de Ranma 1/2 e Inu-Yasha.
No destaque: Kyoko Otonashi, no centro de um complicado
romance, rodeada de tipos estranhos e divertidos.
Antes de criar suas obras mais famosas mundialmente, a autora de Ranma ½ e Inu-Yasha, a artista de mangás Rumiko Takahashi, ganhou prestígio no Japão com uma divertida comédia romântica intitulada Maison Ikkoku - めぞん一刻. (Nota: Leia “mezôn”, que é “casa” em francês, enquanto "ikkoku" seria "momento" em japonês.)
Capa do volume
um do mangá.

Diferente de outras obras conhecidas da autora, esse título é uma apaixonante história de cotidiano e romance sem elementos de fantasia ou sobrenatural. A obra conta a vida do estudante Yusuke Godai, morador da pensão Maison Ikkoku, que não é exatamente um vencedor na vida. Sempre sem dinheiro e sonhando com uma boa carreira após a faculdade, o batalhador rapaz tem uma vida amorosa pra lá de mal resolvida, ou melhor, platônica. 

Ele é apaixonado pela gerente da pensão, a bela e jovem - ainda que alguns anos mais velha que ele, Kyoko Otonashi, uma mulher geniosa, sensível e sempre disposta a ajudar as pessoas. Godai é inseguro e nunca consegue dar um passo firme em direção à sua amada.

A série começa destacando o humor e a vida dos tipos da pensão. Moram também na casa a família da senhora Hanae Ichinose – uma mulher que adora uma fofoca -, composta por seu marido (que mal aparece) e o filho pequeno deles, Kentaro. Há também a garçonete desmiolada Akemi Roppongi e o esquisito e misterioso Yotsuya, que ninguém sabe de onde veio, pra onde vai ou o que faz da vida. E o que a sra. Ichinose, Akemi e Yotsuya mais gostam de fazer é de ficar no quarto de Godai (que tem um buraco enorme na parede), batendo papo, cantando e bebendo até cair, pra desespero do estudante.  
Focado em Godai e Kyoko, esta poderia ser mais uma história do tipo "boy-meets-girl", com protagonistas adultos, ao invés de adolescentes, mas há um detalhe importante sobre a vida de Kyoko: ela é viúva. Foi casada com um homem bem mais velho, que faleceu com pouco tempo de união, deixando-a completamente sem rumo na vida e com uma dor gigante que a acompanha. A pensão, inclusive, é de propriedade da família do falecido, que a trata como filha. 

Muito devotada à memória do falecido Soichiro (que também é o nome do cachorro dela), Kyoko aos poucos também se interessa pelo rapaz. Mas, enquanto a ama loucamente, Godai também sabe que precisa ingressar na faculdade e construir sua vida, para poder oferecer à Kyoko a chance de formar família. Nessa hora, tem um peso enorme o fato de Godai saber que sua amada é muito mais madura e já vivenciou um casamento. 

Pra complicar, Kyoko sai eventualmente com seu treinador de tênis, o conquistador Shun Mitaka, que é apaixonado por ela e não mede esforços para humilhar seu rival. Godai, sem saber direito como disfarçar e com certo complexo de inferioridade, começa a se encontrar com a insistente ex-colega de trabalho Kozue Nanae, que é apaixonada por ele.


Em Maison Ikkoku, o traço de Rumiko Takahashi
ainda estava em desenvolvimento, mas com uma
narrativa sempre segura e brilhante.
Nunca rola nada sério com nenhum dos casais, pois tanto Godai quanto Kyoko esperam um pelo outro, mas sem se revelarem explicitamente. Enquanto isso, vão empurrando com a barriga simulacros de relacionamento, como se seus respectivos acompanhantes fossem parte de um "plano B" motivado pelo medo da solidão. O resultado é uma sucessão hilariante de mal-entendidos de todas as partes. E quando entra em cena a adolescente Yagami Ibuki, atrevida e apaixonada por Godai, a situação se complica ainda mais, com uma profusão de confusões. O clímax da série é dos mais emocionantes, com as situações e pontas soltas se resolvendo de modo magistral. 

O traço de Rumiko Takahashi evolui bastante no decorrer da obra, chegando no final a um estilo mais próximo do que ela mantém até hoje. Já a narrativa, essa é impecável desde o começo, com quebras de expectativa para criar humor, momentos tocantes, de dar nó na garganta mesmo. E muitas situações em que se fica torcendo para que ninguém saia magoado, o que se mostra impossível em muitos casos. Takahashi, uma das mais célebres ex-alunas do mestre do mangá Kazuo Koike, mostra que aprendeu bem as lições a ponto de superar o mestre em termos de popularidade. 

Em Maison, os personagens agem como pessoas reais, com sonhos, decepções e fracassos. Nem sempre as coisas saem do jeito que os leitores esperam, mas é isso que deu à obra de Rumiko Takahashi uma intensidade de envolvimento como poucas histórias conseguiram.
Os moradores de Maison Ikkoku.
Voltado para o público jovem adulto, o mangá foi publicado de 1980 a 87 na revista Big Comics Spirits, da editora Shogakukan, que depois compilou seus 161 capítulos em15 volumes. Outras compilações, com menos volumes e mais páginas por edição, foram lançadas posteriormente. Nos EUA, foi publicado de modo integral pela VIZ Comics, que primeiro lançou os capítulos em formato comic book e depois lançou compilações, mais ou menos como o correspondente japonês.

Em 1984, ganhou sua primeira adaptação para outra mídia, uma áudio-novela exibida pela NHK Radio. Mas o grande estouro viria depois, com sua versão animada. 

Sucesso na TV e nas rádios.
Maison Ikkoku ganhou muitos novos fãs - em especial adolescentes - quando foi realizada sua versão em animê, numa produção da Kitty Film e TV Fuji, com a animação a cargo do Studio Deen, que acumula no currículo obras como Doraemon, Urusei Yatsura (outra criação de Takahashi), Ranma 1/2 (idem), Crayon Shin-chan, Fate/ stay, Pandora Hearts, Quem e Sakamoto? e outras. 

A série teve 96 episódios entre 1986 e 88, mais um especial de cinema de encerramento em 88 e dois especiais feitos direto para vídeo, sendo um deles uma compilação (1988) e o outro, uma história original (1991). A adaptação guarda apenas poucas diferenças pontuais em relação ao mangá, com um desenvolvimento e um final bastante fieis ao trabalho original. E no mesmo ano da estreia do animê, foi produzido um longa em live-action para cinema. O sucesso da obra foi realmente monumental em seu tempo. 

O animê também foi sucesso nas rádios, com suas músicas ganhando destaque nas paradas de sucesso. A primeira abertura, a "Kanashimi yo konnichiwa" ("Boa noite, tristeza"), foi cantada por Yuki Saitou. A canção chegou ao terceiro lugar na parada semanal da Oricon e segundo no extinto programa de rádio The Best Ten. Outra abertura, a música “Suki sa” (que pode ser traduzida por "Te amo"), do grupo Anzen Chitai, chegou ao segundo lugar na Oricon, assim como uma música incidental deles, a “Aoi hitomi no Erisu” (ou "Alice dos olhos azuis"), tocada nos eps. 19 e 20. O Anzen Chitai, criado em 1982 e na ativa até hoje, atraiu ainda mais interesse para a série. 

A parte musical da série ainda teve uma extravagância deliciosa. O episódio 24 teve como abertura a canção "Alone again (Naturally)", sucesso internacional do astro irlandês Gilbert O' Sullivan, que dominou as paradas de sucesso em 1972. E o tema de encerramento desse mesmo episódio, que foi importante na primeira metade da série foi outra canção dele, intitulada "Get down".
A versão live-action de 2007, dividida em dois longas para TV.
Depois de todo esse furacão, a obra ficou um pouco de lado, pois outras obras de Rumiko Takahashi foram conseguindo sucesso avassalador, como Ranma 1/2 e Inu-Yasha. Mas, ainda assim, na década passada Maison Ikkoku foi relembrado mais uma vez e virou um dorama para TV em duas partes, exibidas em maio de 2007 e julho de 2008. Encabeçando o elenco, a belíssima estrela Misaki Ito. Na época em que a produção foi lançada, o título também inspirou uma máquina de pachinko, diversão muito popular entre adultos de regiões urbanas no Japão (veja no fim do post). 

Maison Ikkoku seria uma excelente série para pintar por aqui, e certamente iria agradar aos fãs de animês e mangás que gostam, acima de tudo, de uma história inteligente e divertida. Comédia romântica do chamado gênero "slice of life", que trata de histórias de cotidiano, é também uma das mais populares séries de uma das maiores autoras de mangá ainda em atividade. 

Nota da autor: Matéria escrita originalmente em 2008 e devidamente revisada e ampliada para repostagem no Sushi POP.


::: E X T R A S :::

1) "Kanashimi yo Konnichiwa" ~ 悲しみよこんにちは 
Intérprete: Yuki Saitou
Letra: Yukinojou Mori / Melodia: Koji Tamaki (Anzen Chitai)




2) "Alone again (Naturally)"
Intérprete: Gilbert O´Sullivan
Letra e melodia: Gilbert O´Sullivan


3) "Suki sa" ~ 好きさ
Intérprete: Anzen Chitai
Letra: Goro Matsui / Melodia: Koji Tamaki (Anzen Chitai)




4) "Aoi Hitomi no Erisu" ~ 碧い瞳のエリス
Intérprete: Anzen Chitai
Letra: Goro Matsui / Melodia: Koji Tamaki (Anzen Chitai)



5) Trailer do dorama para TV. Tirando a atriz principal, a veterana Misaki Ito, o resto do elenco parece péssimo. Vale pela curiosidade. 




6) Vídeo promocional da máquina de pachinko de Maison Ikkoku, lançada em 2007 e com animações inéditas. Atenção: O vídeo mostra flashes da série toda, dando spoilers. Se não quiser saber, nem assista. Para conhecer o mundo das máquinas de pachinko, confira matéria neste blog.



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12 comentários:

M.P. disse...

Há de se ressaltar também que o autor da melodia de "Kanashimi yo Konnichiwa" é... Tamaki Koji, vocalista do Anzen Chitai. A letra é de Mori Yukinosuke, compositor que lançou algumas boas músicas nos anos 80:

C-girl (Asaka Yui)
Climax go issho ni (Koizumi Kyoko)
Hyaku Percent So Kamone (Shibugakitai)
Nai Nai 16 (Shibugakitai)
Kimitachi kiwi papaya mango da ne (Nakahara Meiko)
Tomadoi no Shuumatsu (Hori Chiemi)
I don't know (Ba-Be)

Além de várias músicas de anime, indo do "Osomatsu-kun ondo" interpretado pela lenda Hosokawa Takashi até "Kinnikuman go-fight" do Kushida Akira, passando por "Cha La Head Cha La", Bokutachi wa tenshi datta" e "We Gotta Power" de Dragon Ball Z na voz inconfundível do Kageyama Hironobu, bem como "Jajauma ni sasenaide" de Ranma 1/2. Ou seja, ele sozinho compõs um monte de música que anda por aí na boca do povão. Tá aí um nome que poderia ser ventilado para uma palestra no Brasil.

Takeshi disse...

Fui o autor da pergunta sobre seu mangá favorito no formspring. Eu tenho grande vontade de ler este mangá em português. Fiquei interessado nessa obra desde que li matéria a respeito na revista Heróis do Futuro por Cristiane Sato da Abrademi.

Me pergunto porque nenhuma editora no Brasil ainda não se interessou em lançá-lo.

Takeshi disse...

Maison Ikkoku é passado no "mundo real" como você disse. Peach Girl é um exemplo desse tipo de mangá, apesar de temática diferente da obra de Takahashi publicado no Brasil que não deu certo.

Mas esqueci de mencionar que Slam Dunk, título que a Conrad publicou até o final (eu comprei todas as edições). Parece ter dado certo e está num perfil mais próximo de Maison Ikkoku, uma história num "mundo real" com toques de romance juvenil e esporte.

Então há boas chances de Maison Ikkoku de ser uma boa aposta no Brasil, não acha?

Alexandre Nagado disse...

Bom, quero crer que existem chances, sim. Talvez o desenho da Rumiko, que era mais fraco no começo da série, seja um empecilho, mas a história é tão boa que valeria a pena arriscar.

Aliás, esse mangá e um que eu adoraria trabalhar na adaptação. Os personagens são ótimos.

abraços

Aniki disse...

Dentre os principais títulos de Rumiko Takahashi esse é meu favorito. Talvez por ser uma obra 'pé no chão' e mais realista o quanto possível.

Confesso que desconhecia esse live-action, espero encontrar pra saciar minha curiosidade.

Abraços.

Stephano Barbosa disse...

Assisti 100% do anime! Adorei ! Algo que abordou o cotidiano das pessoas. Sem precisar usar fantasia e misticismo. Alguns desses personagens são metáforas de pessoas do nosso cotidiano. Galera que enche a cara, cai na farra. Outras que se matam de estudar pra obter aprovação. A pessoa que pena pra administrar um lugar e por aí vai.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Aniki!

Olha, pelo trailer, os atores parecem muito ruins. A Misaki Ito é muito linda e por ela valeria a pena assistir, mas o estreante que faz o Godai parece horrível. Idem para os outros moradores. É difícil interpretar personagens caricatos, tem que ser bom pra fazer a transição para o real.

Falou! Abração!

Alexandre Nagado disse...

Oi, Stephano. Do animê, vi pouca coisa, mas o que eu vi, gostei muito. Já o mangá eu tenho completo em inglês, mais o capítulo final em japonês, que eu comprei porque encontrei numa loja por acaso. Como ainda não havia saído a edição final da Viz, comprei em japonês mesmo. É uma história adorável e há anos digo que é meu mangá favorito. E "Aoi hitomi no Erisu" é uma das minhas canções japonesas favoritas, desde antes de eu saber que havia tocado na série.

Valeu! Abraços!

Mauricio disse...

Série maravilhosa. Consegui assisti-la em fitas VHS há muitos nos, mas infelizmente não as tenho mais (quem ainda tem videocassete, não?).
Também foi um dos primeiros mangas que comprei, completo original em japonês, quando acreditava que conseguiria aprender japonês. Infelizmente, isso não foi possível, e então, doei para a biblioteca da Associação Cultural Brasil Japão.
Para mim, é o melhor trabalho da Takahashi, justamente por não se apoiar em nada "fora da realidade".
Adoraria ver esse manga chegando aqui, mas acho pouquíssimo provável.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Maurício.

Como já comentei, tenho o mangá completo, em inglês. Li alguns volumes de Ranma 1/2 e Inu-Yasha. Gosto muito mais de Maison, uma história incrivelmente bem planejada e com um frescor narrativo insuperável.

Sobre sua dificuldade em tentar ler no original, como é obra para adultos, não trazia o furigana, que é o uso de hiragana ao lado dos kanji, recurso comum em obras infanto-juvenis. Realmente, tem que ser estudante em nível avançado pra acompanhar.

Dificilmente sairá aqui um dia, infelizmente. Sorte de quem viu o mangá ou o anime.

Até mais! Abraço!

William disse...

Caro Alexandre,
É a primeira vez que escrevo no blog e é uma grata surpresa ver uma analise tão profunda desta série, que mostra toda a versalidade da Rumiko Takahashi nos relacionamentos de seus personagens.
Sou um grande fã de suas obras, principalmente Maison Ikkoku e Ranma 1/2,
Aproveito para citar outras duas séries muito boas 高橋留美子劇場 (Rumiko Takahashi Gekijo) que é uma antologia de pequenos contos, muito divertida e que tem uma versão em anime e 人魚シリーズ (Ningyo Sirizu) ou a Saga da Sereia, uma investida original no gênero de terror.
Li ambas na época dos lançamentos e valem a pena também.
Obrigado e muito bom trabalho.

Alexandre Nagado disse...

Olá, William.

Essa coletânea de pequenos contos saiu nos EUA como Rumic World e é bem legal mesmo. Ela tem muitos fãs por lá e graças a isso também descobri One-Pound Gospel, que é bem divertido. Quase tudo que ela fez saiu em inglês, o que facilita bastante a nossa vida.

Obrigado pela participação. Espero que encontre aqui outros assuntos do seu interesse.

Abraço!