sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A filosofia de grandes autores do mangá e do animê

Algumas reflexões sobre mangá, animê, criatividade e vida, por grandes veteranos da indústria cultural japonesa.
A autora Rumiko Takahashi, com sua personagem
Lum (de Urusei Yatsura) ao fundo.
Em 1997, saiu nos EUA pela Cadence Books o livro Anime Interviews, uma coletânea de entrevistas exclusivas realizadas com desenhistas, diretores e autores japoneses que foram publicadas na revista Animerica (Viz Comics) entre 1992 e 97

Em suas páginas, preciosas declarações de respeitados profissionais que podem inspirar novos autores. Elas refletem a postura profissional e filosofia de vida de vários artistas cujos trabalhos têm profunda relevância no cenário da cultura pop japonesa. Todos ainda estão em atividade e possuem obras de grande impacto. 



Para esta postagem, selecionei e traduzi algumas frases que achei muito interessantes e que podem servir para ideias e discussões entre entusiastas, pesquisadores, artistas iniciantes, profissionais e fãs. 

São pequenos fragmentos das entrevistas, destacados por terem significado e capacidade de inspirar reflexões, não apenas sobre trabalho, mas sobre posturas perante a vida por parte de gente que criou histórias envolventes para várias gerações. 

Algumas frases são acompanhadas de comentários deste que vos escreve, mas gostaria de saber seus comentários e impressões. Espero que goste e se inspire com os textos abaixo.


::: FRASES SELECIONADAS :::

"Space Adventure Cobra", de
Buchi Terasawa.
“Mangá é uma mídia visual. Então, as pessoas podem pensar que a arte é o aspecto mais importante. Mas na verdade, a história é muito mais importante. Uma série de belas imagens não faz um mangá.” 
- Buichi Terasawa
Autor de mangá
(Space Adventure Cobra,
Midnight Eye Goku,
Karasu Tengu Kabuto)

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"Ghost In The Shell", de
Masamune Shirow
"Meu conselho não é apenas para artistas de quadrinhos ou animação, mas para pessoas de qualquer ocupação. Uma vez que tenha feito sua escolha, faça isso com toda sua força - ponha-se no limite e seja tão agressivo quanto possível... Sem ser um incômodo para outras pessoas, é claro. (rs) Mas se a coisa mais apaixonada que você pode dizer é 'Talvez eu possa ser um artista de mangá algum dia', então você estará limitado a desanimar ao primeiro sinal de problemas, não importa o quão talentoso você seja. Acima de tudo, dizem que trabalhar duro é uma grande parte do que chamamos de 'talento'. "
- Masamune Shirow
Autor de mangá
(Ghost in The Shell,
Dominion Tank Police,
Appleseed)

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"Talvez a coisa mais importante seja ter uma compreensão sobre o motivo pelo qual se está desenhando. É pelo dinheiro? Há alguma coisa que você realmente quer desenhar, pela qual você irá suportar qualquer dificuldade para fazer acontecer? Se você sabe qual é o seu objetivo, você provavelmente não ficará desanimado quando estiver meio longe de atingir."
- Nanase Okawa (CLAMP)
Autora de mangá
(Sakura, Rayearth,
X-1999, Chobits)

[Nota: Note que aqui, ela não faz juízo de valores, sendo o 'desenhar por dinheiro´ uma opção profissionalmente tão válida quanto qualquer outra. É o que fazem, por exemplo, ilustradores editoriais e desenhistas publicitários. É questão de autoconhecimento.]

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"Meu Vizinho Totoro", de Hayao Miyazaki.
"Eu não sou uma pessoa agnóstica ou algo assim, mas eu não gosto da ideia de uma sociedade que desfila sua retidão superior. A superioridade moral dos EUA, da China, do Islã, deste ou daquele grupo étnico, do Greenpeace, dos empreendedores... Todos clamam serem moralmente superiores, mas todos tentam coagir os outros com seus próprios padrões. Eles restringem os outros, seja com poder militar, poder econômico, poder político ou a opinião pública."

“Fazer um filme significa criar entretenimento para um monte de gente, mas não é o tipo de coisa que você pode quantificar. Entreter um grupo de pessoas não é melhor ou pior do que entreter uma única pessoa e fazer desse indivíduo alguém feliz.” 
- Hayao Miyazaki
Diretor de animê
(A Viagem de Chihiro,
Ponyo, O Castelo Animado,
Meu Vizinho Totoro)

[Nota: Mais de 20 anos atrás, Miyazaki detectou e previu o perigo do "politicamente correto", que é o controle da opinião pública através da linguagem.]

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"Oh My Goddess!", de Kosuke Fujishima.
“Um artista basicamente desenha mangá para comunicar uma ideia para outros. A ideia não será comunicada se o trabalho é compreensível somente para seu criador... Eu acho que o sentido do mangá é se fazer entender por tantas pessoas quanto for possível.” 

"Acho que a função da animação é melhor atingida quando um trabalho tem um sabor diferente do mangá original, mesmo que esse mangá e o animê dividam o mesmo universo." 
- Kosuke Fujishima
Autor de mangá
(Oh My Goddess!,
Taiho Shichau zo)

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"Inu-Yasha", de Rumiko Takahashi.
“Mangá é entretenimento acima de tudo. E por ser uma forma de entretenimento, ao invés de uma cultura em separado, é inevitável que elementos culturais influenciem. Isso descreve o mundo em que vivemos. Saber que o mangá é lido na América... Acho que é maravilhoso se eu posso fazer rir gente de todo tipo de fronteiras. Eu acho que mangá é sobre sentimentos, sobre ter medo, felicidade ou tristeza. A respeito disso, eu acho que somos todos iguais.”

"Eu apenas venho com uma ideia simples e divertida. Não sou o tipo de pessoa que pensa em termos de uma agenda social."
- Rumiko Takahashi
Autora de mangá
(Ranma ½, Inu-Yasha, 
Urusei Yatsura, Maison Ikkoku)


[Nota: Na época da entrevista, o mangá não era o fenômeno mundial que é atualmente e havia poucas publicações nos EUA. A segunda frase foi pinçada de uma resposta a um questionamento ideológico em Ranma 1/2, o lutador que caiu num lago amaldiçoado e vira mulher quando molhado com água fria.]

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“Fazer parecer ao leitor como se (uma história) pudesse ter acontecido na vida real é provavelmente a melhor situação pela qual um autor de mangá poderia esperar.” 
- Ryoichi Ikegami
Desenhista de mangá
(Crying Freeman,
Mai – A Garota Sensitiva,
Sanctuary
)

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"Originalidade está se tornando algo raro em todo o mundo. Então, você devia aspirar a ser alguém original. Eu fico feliz que você goste de anime, mas acho que é também uma boa ideia que você se interesse por outra área, mesmo que animê seja sua coisa favorita. Naturalmente, é mais fácil atingir um alto nível quando você está focado em uma única direção, mas é importante manter um equilíbrio entre tal intensidade e uma perspectiva mais abrangente."
- Shoji Kawamori
Diretor de animê, designer mecânico
(Macross, Crusher Joe,
Patlabor 2, AKB0048)

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Mobile Suit Gundam, criado a partir de
conceitos de Yoshiyuki Tomino para a Sunrise.
"Quando as pessoas pensam em uma pessoa criativa na indústria, provavelmente pensam em alguém que trabalha com uma folha em branco. Na verdade, mesmo os maiores gênios tendem a desenhar ideias a partir de seu meio ambiente. Acho que isso descreve um método legítimo de ser criativo."

"Do meu ponto de vista como o criador original, o fato de não poder controlar todo esse universo é algumas vezes muito frustrante." 
- Yoshiyuki Tomino
Diretor de animê
(Gundam, Ideon, Dunbine,
Xabungle, L-Gaim)

[Nota: Tomino criou o conceito básico de Gundam e dirigiu vários clássicos da saga, mas os créditos oficiais de autoria são para Hajime Yatate, pseudônimo do estúdio Sunrise, que é o real detentor dos direitos e rumos da franquia.]

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“Meu sonho de infância definitivo é dirigir um filme live-action. Algumas vezes, eu acho que só estou fazendo mangá porque eu não posso fazer filmes.” 
- Yukito KishiroAutor de mangá (Battle Angel Alita/ Gunm)
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- Post publicado originalmente em janeiro de 2012 e ampliado para republicação.

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10 comentários:

Stephano Barbosa disse...

Em que ano + ou - o mangá começou a se tornar sucesso mundial?
Ah, imagina a surpresa que Takahashi teve anos depois ao ver o mangá virar sucesso mundial.

De fato Miyazaki tem razão!! O politicamente correto virou 1 terror!

Onde posso ler o Anime interviews ??

Gustavo Reis disse...

Matéria super legal e inspiradora!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stefano! Realmente, Miyazaki é uma pessoa de grande sabedoria, tendo percebido algo - o controle da opinião pública - muito antes do termo "politicamente correto" ser usado como é hoje.

O livro "Anime Interviews", que originou este post, tem pra vender na Amazon, mas somente em inglês. Pela minha posição, não posso divulgar aqui formas alternativas (piratas) de leitura. Então, se encontrar, peço que não venha divulgar aqui. Precisamos valorizar o produto original. Mesmo neste post, posso ter extrapolado o limite que os autores considerariam ok para reproduzir trechos a título de resenha ou divulgação. Mas, foi por uma boa causa.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Gustavo! Sabia que ia gostar!

Valeu, abraço!

Stephano Barbosa disse...

Na época do livro, o anime não era plenamente sucesso mundial. O anime começou a ser sucesso mundial em 2000 ?
gostei da declaração de Rumiko... mangá é entretenimento.

Sobre a questão da superioridade moral. Nenhuma pessoa, grupo, nação etc. tem direito de proclamar isso. Isso é 1 abuso de poder. E sem falar que muitos que pregam essa superioridade tem ficha suja... inclusive as mãos sujas de sangue...(vale também pra turma do politicamente correto)

Stephano Barbosa disse...

https://www.youtube.com/watch?v=ADNf_7-u31c
Bandai Namco marcando presença na NYCC
E claro, a cultura pop japonesa. O universo mangá anime gozando de enorme sucesso na terra dos comics, cartoons e Hollywood.

Usys 222 disse...

São frases que mostram bem como é o processo criativo. O que deve ser levado em conta ao se produzir uma obra, qualquer que seja a mídia.

É preciso se fazer entender. Comunicar ao leitor/espectador. Dar importância ao que ele vai sentir quando ver. E é preciso ter uma história. Existem desenhistas que têm um traço fantástico, mas escrevem histórias fracas. E também existem aquelas vezes que a criação foge ao controle do criador.

Acredito que Kazuo Koike deva ter frases bem legais. De vez em quando ele solta algumas no Twitter. Ichiro Mizuki também tem várias palavras de sabedoria.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

É, talvez mais pra frente eu faça uma parte 2 para este post. Eu me prendi às frases pinçadas do livro Anime Interviews, mas vi outras frases soltas que ainda posso usar futuramente.

A frase do Tomino me fez lembrar do Go Nagai. Ele disse que pensou no Mazinger quando estava preso em um engarrafamento. Pensou que legal seria dirigir um robô que pudesse passar por cima daquele trânsito todo (não sei se ele queria também pisar nos outros carros, ah ah). O ambiente da pessoa realmente motiva criações das formas mais inesperadas e passei muito por isso em minha vida.

O Kazuo Koike também deve ter grandes frases, basta lembrar que além de autor, ele também é professor e foi mestre da Rumiko Takahashi.

Valeu! Abração!

Stephano Barbosa disse...

Rumiko fez níver nessa última 4ª feira

Alexandre Nagado disse...

Não sabia. Bom registro. Que ela conte ainda muitas histórias legais.

Valeu, abraço!