sexta-feira, 7 de setembro de 2018

The Beatles e o pop japonês

Os Quatro Fabulosos de Liverpool deixaram sua marca no mundo da música e na cultura pop. No Japão não foi diferente. 
Em 1965, no auge da Beatlemania, os
Beatles foram entrevistados pela repórter
japonesa Rumiko Hoshika. 
É difícil contar a história da música pop e do rock em qualquer país sem mencionar a importância dos Beatles. A banda de maior sucesso em todos os tempos foi também a mais criativa, inovadora e influente. E no Japão também deixaram sua marca.

Além de ajudarem a definir a moda dos anos 1960 e a psicodelia na música, foram eles que criaram os conceitos de álbum original (até eles chegarem, os discos eram mais coletâneas de singles), vídeo clip (indo além de simples gravações promocionais com os músicos tocando) e toda uma indústria musical. No Japão, não foi diferente. 

Inicialmente, foram rádios locais ligadas ao exército americano que começaram a apresentar as músicas do quarteto de Liverpool ao público japonês. O cenário da música jovem no país era marcado por Elvis Presley e música folk, mas as poucos a batida alegre das canções dos primeiros tempos foram conquistando cada vez mais os japoneses. 

Suas músicas faziam sucesso a ponto de uma obscura banda chamada Liverpool Five ter feito uma excursão pelo Japão em 1964, impressionando e inspirando muitos artistas com seu estilo beat, que era seguido pelos Beatles no início da carreira.

Em 1965, a repórter japonesa Rumiko Hoshika foi enviada a Londres para entrevistar o grupo para a revista Music Life. Foi o início de uma amizade que permitiu a ela falar anualmente com os rapazes até a separação da banda, em 1970 (link para o relato no fim do texto).
Single japonês de "Can´t buy me love".
A passagem dos Fab Four pela Terra do Sol Nascente aconteceu somente em 1966, época em que eles ainda estavam no topo da popularidade mundial. Ficou decidido então que fariam grandes shows na arena esportiva Nippon Budokan

Construído para as competições de judô das Olimpíadas de Verão de 1964, o Budokan era famoso como o templo das artes marciais, sendo palco de grandes e memoráveis combates de artes marciais. 

Houve grande polêmica na época, pois setores da mídia apontavam protestos de pessoas influentes contra o que foi chamado de um desrespeito a um local solene. Mas, eram tempos propícios para inovações e ousadias.


Apesar de protestos isolados, os Beatles realizaram cinco shows no lugar, entre 30 de junho e 2 de julho de 1966. Foram shows históricos, até porque, pouco tempo depois, os Beatles anunciaram que não fariam mais turnês, devido ao descontentamento com a qualidade técnica do som disponível na época e também ao estresse causado pelo assédio do público. Do Japão, Paul McCartney se lembra sempre do senso de organização que eles experimentaram em todos os locais por onde passaram, bem como do público, que apesar de visivelmente emocionado, era muito mais parado e contido que os jovens do ocidente. 

A segunda metade da década de 1960 viu os mais jovens formarem um público consumidor crescente e que dominava cada vez mais as atenções da mídia. Na música, na moda, no mercado editorial e na TV, o entretenimento para crianças, adolescentes e jovens adultos impulsionava a economia do país, que nem parecia que havia sido devastado com a Segunda Guerra Mundial. 

Os mangás ganhavam muita força com suas vendas de milhões de exemplares e, na TV, séries como Osomatsu-kunA Princesa e o CavaleiroVingadores do EspaçoUltramanSpeed Racer, Ultra Seven, Ge Ge Ge no Kitarô, Cyborg 009 e outras ajudavam a formar aquela geração. Na moda, minissaias e cores psicodélicas ganhavam as ruas. E o mercado fonográfico já despontava como um dos maiores do mundo. Não foi por acaso que os Beatles foram para lá. O Japão estava mudando. 

Foi num cenário assim, ávido por experimentações e também em rápido processo de ocidentalização, que os Beatles viram suas canções se tornarem populares como eram no resto do mundo. Isso num país onde a maioria esmagadora não entendia o que falavam as músicas, mas adorava de paixão o que ouvia. E os concertos no Budokan não só foram realizados com sucesso como hoje é sinônimo de prestígio e popularidade para qualquer artista se apresentar lá. Fazer um show no Nippon Budokan não é pra qualquer um. 

Em termos musicais, eles encontraram um cenário propício para divulgar novos sons, com os jovens buscando variedade além das canções tradicionais japonesas, como o enka. A banda americana de rock instrumental The Ventures já era sucesso no país e fora uma grande influência para músicos e bandas locais. Com os Beatles, canções em inglês invadiram o mercado fonográfico com grande força.
The Spiders: Seguindo os passos
dos Beatles e Beach Boys
O rock´n roll aparecia nas paradas de sucesso locais, com astros como Yuzo Kayama, que seguiam os passos de Elvis Presley, Cliff Richard, Johnny Cash, Carl Perkins e tantos outros nomes das décadas de 1950 e 60. A partir de 1966, tudo passou a acontecer muito mais rápido.

Depois das históricas apresentações no país, os Beatles influenciaram muitos jovens músicos da época a montarem suas próprias bandas. Nomes como The Spiders, The Jaguars, The Mops e outros faziam um genuíno rock japonês. 

Do ocidente (especialmente EUA e Inglaterra) também fizeram sucesso por lá The Monkees, The Rolling Stones, Simon and Garfunkel e principalmente os Beach Boys. A lendária banda de surf music também fez escola no Japão e chegou a ser uma influência sonora até maior que os Beatles em algumas épocas

Depois do fim do quarteto, em 1970, os ex-Beatles fizeram diversos shows no Japão. Em uma dessas ocasiões, Paul McCartney foi preso por porte de maconha. O caso repercutiu bastante, mas não abalou muito a imagem de Paul, que voltaria a fazer shows no Japão em outras ocasiões. O público japonês, tão implacável quando um escândalo desse tipo envolve um astro local, é bastante compreensivo quando se trata de astros internacionais. 

Até meados da década de 1990, os Beatles e o britpop (a música pop britânica) estavam entre as maiores influências no J-Pop, com ênfase nas melodias e arranjos.

A invasão de Tetsuya Komuro e suas pop idols fincou a música eletrônica e o pop americano como novos pilares do pop nipônico. Daquele tempo pra cá, o J-Pop incorporou muito do rap e da soul music americana. Importaram também da sua estrutura de divas pop e prossegue misturando ao seu modo sons e estilos ocidentais.

O showbiz nipônico se especializou como uma fábrica de astros efêmeros cuja imagem é explorada ao máximo com forte amparo publicitário, uma prática que na verdade vem desde a década de 1970. Mas, para muitos artistas novos e veteranos que buscam boa música acima de tudo, os Beatles e vários de seus contemporâneos são, ainda hoje, uma grande inspiração e referência. 

Saiba mais: 

- When Beatlemania came to Japan 

::: VÍDEOS SELECIONADOS :::


1) "Yesterday" - miwa
Letra e melodia: Paul McCartney (Copyright: Lennon / McCartney)

- A jovem cantora, compositora e instrumentista miwa (assim, com inicial minúscula mesmo) interpreta uma das canções mais regravadas de todos os tempos. "Yesterday" foi um número solo de Paul McCartney e que é música obrigatória em todos os shows do artista, até hoje. O incrível é que ele sonhou com a maior parte da canção, lançada em 1965 como parte do álbum "Help".




2) "Here comes the sun" - Mr. Children 
Letra e melodia: George Harrison 

- O sotaque péssimo assassina a gramática inglesa, mas a voz é maravilhosa. A canção foi lançada no último disco de estúdio feito pelo quarteto, Abbey Road, lançado em 1969. Sua melodia folk rock é considerada uma das maiores contribuições do falecido George Harrison.



3) "Blackbird" - Hironobu Kageyama
Letra e melodia: Paul McCartney (Copyright: Lennon / McCartney)

- Mestre dos temas de animê e tokusatsu, líder do JAM Project e músico de primeira linha, Kageyama é fã dos Beatles e presta sua homenagem com uma bonita interpretação. Canção extraída do lendário disco duplo THE BEATLES, conhecido entre os fãs como "Álbum Branco", de 1968.



4) "It´s for you" - THE ALFEE 
Letra e melodia: Lennon / McCartney

- Nunca gravada pelos Beatles, esta é uma canção que foi criada para a amiga Cilla Black em 1964. Foi um enorme sucesso na época e ganhou uma versão poderosa pela banda Three Dog Night, em 1969. É essa versão que serviu de inspiração para a versão do THE ALFEE. O trio também gravou uma versão para "Ticket to Ride". (Confira aqui.)



5) "Help!Toshi (X Japan) e THE ALFEE
Letra e melodia: John Lennon (Copyright: Lennon / McCartney)

- Segundo John Lennon, apesar do ritmo alegre, a música era quase um pedido de socorro, em uma época em que ele se sentia angustiado por lidar com as pressões do sucesso. Nesta versão, o vocalista da lendária banda de visual rock X Japan em uma apresentação elegante ao lado dos ainda mais veteranos do ALFEE. 



Nota: Este é outro post antigo (2013), que eu reformulei totalmente e incluí mais texto, vídeos e informações. 

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2 comentários:

Usys 222 disse...

É inegável a influência que os Beatles exerceram na cultura mundial. E interessante ver como foi a passagem do Quarteto Fabuloso no Japão.

De fato, Elvis teve uma influência maior nesse país, inspirando vários outros artistas como Isao Sasaki e Yuzo Kayama, já citados aqui. E realmente, os Beach Boys inspiraram várias bandas japonesas como The Wild Ones e mais tarde o Tube. Foi um período de grande aglutinação que enriqueceu a Cultura Pop Japonesa.

E é claro que os Beatles deixaram sua marca, vendo tantos tributos às suas obras por parte de grandes nomes da música japonesa. Foi muito bom deixar esse registro.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Nos anos 80, tinha The Checkers, quase um "Beach Boys nipônico". E Simon and Garfunkel, junto com Bob Dylan, ajudaram a moldar o folk no Japão.

Mas os Beatles foram uma influência musical, comportamental, de mentalidade de showbizz, de marketing, de um monte de coisas. Os efeitos estão aí até hoje.

Li uma entrevista do ASKA onde ele dizia que o J-pop se moldou com influência musical britânica, com os Beatles à frente. E ele, mesmo fã de Paul McCartney, buscava, no final dos anos 90, se afastar disso, em busca de outros sons.

Valeu! Abraço!