quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Ishiro Honda - De Godzilla a Kurosawa

Uma breve biografia do cineasta que transformou o cinema japonês e ajudou a criar e estabelecer o tokusatsu como entretenimento popular. 
Ishiro Honda: Um gênio de seu tempo.
O primeiro filme do monstro Godzilla (originalmente, Gojira), lançado em 1954, inaugurou oficialmente um gênero de entretenimento fundamental dentro da chamada cultura pop japonesa. O tokusatsu - termo que designa os efeitos especiais no Japão - começou no cinema e logo invadiu a TV. Está em constante transformação e é um veículo para histórias que dependem de efeitos especiais para serem contadas. Parte do sucesso deveu-se ao trabalho do diretor Ishiro Honda, que ao lado do produtor Tomoyuki Tanaka, do diretor de efeitos especiais Eiji Tsuburaya e do compositor Akira Ifukube, fez História com vários filmes, especialmente a chegada do "Rei dos Monstros".

Cineasta altamente capacitado, Ishiro Honda soube dar o tom certo de terror e aventura para a primeira produção de Godzilla, visto como uma força da natureza. Ao criar imagens épicas e icônicas de destruição massiva, ajudou a definir todo um gênero um gênero. Além da direção, Honda também assinou o roteiro do filme, escrito em parceria com Takeo Murata, sob a supervisão do produtor Tomoyuki Tanaka. O projeto foi inspirado no filme americano O Monstro do Mar ("The Beast From 20,000 Fathoms", de 1953), mas seguiu um caminho próprio, alcançando muito mais sucesso e sedimentando a carreira de seu diretor, um jovem diretor em ascensão na época. 
Cartaz do filme original, lançado
no Japão em 1954.
Ishiro Honda nasceu em 7 de maio de 1911 em Yamagata, no Japão. Filho e neto de sacerdotes budistas, Honda formou-se na Faculdade de Arte Nichidai em 1933. Um ano antes, ele já estava trabalhando como ajudante geral na recém-criada empresa cinematográfica PCL (Photo Chemical Laboratory), que mais tarde se tornaria a poderosa Toho Films

Em 1934, começou a trabalhar como assistente de direção. almejando uma cobiçada cadeira de diretor. Entre 1937 e 38, foi ajudante de Akira Kurosawa (1910~1998), que logo se tornaria um grande amigo e também mentor. 

Convocado pelo exército, Honda foi enviado para lutar na Segunda Guerra Mundial e até trabalhou gerenciando um dos polêmicos bordéis mantidos pelo exército japonês, que usava mulheres de povos capturados como "mulheres de conforto" para os soldados. A experiência e as tristes histórias que presenciou foram relatadas anos depois em um livro sobre o tema. 

Após a derrota do Japão, retomou seu sonho de fazer cinema, trabalhando duro na Toho. Em 1949, estreou finalmente como diretor, com um documentário de média-metragem (20 min.) sobre a região japonesa de Ise-Shima, o qual foi muito bem recebido. E seu primeiro filme propriamente dito foi o drama Aoi Shinju (ou "The Blue Pearl"), lançado em 1951. Assinando roteiro e direção, começou a construir uma sólida carreira no estúdio. Aos poucos, conquistou a confiança do produtor Tomoyuki Tanaka, que lhe entregou a missão de cumprir um ambicioso projeto. 
Apesar de inspirado em "O Monstro do Mar", Godzilla seguiu
seu próprio caminho e definiu um gênero cinematográfico.
Com Gojira, em 1954, fez um trabalho grandioso, no mesmo ano em que seu amigo Akira Kurosawa lançou Os Sete Samurais. Foi um tempo de grande inspiração e criatividade para a Toho e o cinema japonês. Mas, nem tudo era glória naquele tempo, muito pelo contrário. 

Quando lançado originalmente, Gojira recebeu várias críticas negativas em seu país, a despeito do êxito comercial. Algumas delas apontavam o absurdo da situação de um monstro gigante, outras apontavam a exploração sensacionalista da tragédia nuclear que o país havia enfrentado na guerra. Mas o público em geral gostou do filme, que fez sucesso e ganhou sequência já no ano seguinte, com Gojira no Gyakushuu (ou "Contra-Ataque de Godzilla", de 1955), dirigido por Motoyoshi Oda. No fim, os vários comentários negativos da imprensa deixaram Ishiro Honda extremamente desapontado na época. 

No entanto, quando o filme foi adaptado pelo diretor Terry Moore e lançado nos EUA como Godzilla - King of Monsters em 1956, as coisas começaram a mudar. A crítica americana adorou o filme e isso foi influenciando a imprensa americana, que passou a ver o filme de uma forma diferente. Tendo recebido cenas adicionais de elenco americano em sua adaptação (antecipando em décadas o que seria feito em Power Rangers), não é exagero dizer que foi a receptividade nos EUA que fez Godzilla não só ganhar o mundo, como também o levou a ser mais valorizado em seu próprio país. 

Cartaz original
de Radon (1956).
E no ano do sucesso redentor de crítica alcançado por Godzilla, Honda dirigiu o filme Sora no Dai Kaiju Radon ("Grande Monstro do Céu Radon", de 1956) com o colosso voador Radon (Rodan, no ocidente), outro clássico em parceria com Eiji Tsuburaya, Tomoyuki Tanaka e Akira Ifukube.

Com vistas ao mercado internacional, vieram outros filmes de monstros, tanto pela Toho como por outros estúdios. O público japonês estava adorando e a crítica finalmente estava dando o braço a torcer. Nos anos seguintes, o primeiro filme de Godzilla seria apontado como um dos mais importantes filmes já feitos no Japão. E o prestígio de Honda crescia cada vez mais. 

Uma curiosidade da época é que uma leitura equivocada de seu nome nos créditos americanos de Godzilla fez o diretor ser conhecido como Inoshiro Honda por décadas no ocidente. Até hoje, há quem se refira a ele dessa maneira, mas o correto sempre foi Ishiro, ou ainda Ishirou. 

Gasu ningen ichi gou (literalmente, "Homem Gás Número 1"), conhecido no ocidente como The Human Vapor (1961), assombrou o público com sua história de suspense policial sobre um homem capaz de se transformar em névoa. No ano seguinte, Honda mostraria versatilidade com o violento drama O Homem de Vermelho (Kurenai no Otoko) e com o surgimento de Mothra, outro dos grandes monstros da Toho
The Human Vapor: Filme de mistério
policial com a direção segura de Honda.
Em 1962, veio King Kong vs Godzilla, a batalha dos dois mais famosos monstros gigantes do cinema, que ganhará remake em 2020. Essa primeira película com os poderosos titãs em confronto aconteceu em numa época em que os filmes estavam sendo mais direcionados para crianças. A violência passou a ser mais estilizada e cenas noturnas e sombrias deram lugar a planos gerais bem iluminados, que evidenciavam demais a artificialidade dos trajes e maquetes. 

A direção havia ficado um tanto burocrática e as batalhas dos monstros apenas evidenciavam dois atores fantasiados, lutando sem muita desenvoltura. O diretor voltaria a King Kong em A Fuga de King Kong ("King Kong no Gyakushuu"), em 1967, um filme mais inspirado no qual o gorilão enfrenta sua cópia robótica, o Mekanikong. E apesar de ter dirigido vários dramas, seu forte sempre foram os filmes de ficção científica e aventura, vários deles com monstros gigantes. 
Godzilla enfrenta King Kong. Um dos primeiros
crossovers da história do cinema.
Em 1969, Latitude Zero ("Ido zero daisakusen"), co-produção entre a Toho e a Don Sharp Productions, da Austrália. Com Tomoyuki Tanaka novamente como produtor executivo, Akira Ifukube na trilha sonora e Eiji Tsuburaya nos efeitos especiais, foi um filme de grande prestígio internacional. No elenco recheado de astros, Akira Takarada (do primeiro Godzilla), Joseph Cotten (de Cidadão Kane, clássico de 1941), Cesar Romero (o Coringa da série do Batman de 1966) e Masumi Okada (de Os Vingadores do Espaço). E vale lembrar que vários dos filmes de Honda foram exibidos no Brasil, especialmente na TV Record, nas décadas de 1970 e 80. 

Seu grande amigo e parceiro Eiji Tsuburaya faleceu em 1970, deixando o estúdio Tsuburaya Pro sob os cuidados de seu filho e também diretor, Hajime Tsuburaya. Na primeira série Ultra feita após a morte de Eiji, O Regresso de Ultraman ("Kaettekita Ultraman", de 1971), Honda providenciou uma ajuda valiosa, dirigindo cinco episódios e trazendo prestígio à produção. 
O Regresso de Ultraman, única série Ultra
com a marca de Ishiro Honda.
Em uma entrevista, o ator Jiro Dan (Hideki Goh/ Ultraman Jack) recordou como foi trabalhar com o renomado cineasta. Antes, vale uma explicação técnica. Na época da produção, os filmes tinham que passar por um processo de dublagem, no qual os atores gravavam suas falas em estúdio, para serem mixadas sobre as filmagens. A captação de áudio não era boa na época, ainda mais para cenas externas. Mas Honda era perfeccionista e, para conseguir maior naturalidade nas falas e um som mais "real", fez questão de fazer toda a captação de áudio em tempo real durante as filmagens. 

No último episódio, na icônica cena de despedida de Hideki Goh, novamente a mão do diretor fez a diferença. Correndo pela praia enquanto vê Ultraman voando para os céus, Jiro declama os "Cinco Mandamentos de Ultra". É uma cena altamente emocional, com a câmera correndo ao lado do garoto, fazendo o espectador se sentir junto com o personagem. 
Hideki Goh (Ultraman Jack) enfrenta seu destino no
último episódio de O Regresso de Ultraman, exibido em 1972.
Ainda em 1971, Honda dirigiu os dois primeiros episódios de Mirrorman, clássico da Tsuburaya com a TV Fuji. Em 72, foram 4 episódios de Kinkyu Shirei 10-4 10-10 ("Comando de Emergência 10-4 10-10", da Tsuburaya e NET) e 6 episódios de Thunder Mask, criação de Osamu Tezuka para a Hiromi Production, SOTSU e Nippon TV. Em 1973, dirigiu 8 episódios de Ryuusei Ningen Zone, série de super-heróis da Toho. Depois dessa passagem pelo tokusatsu para TV, retornaria ao cinema, onde tinha mais liberdade com prazos de produção. 

Em 1974, dirigiu seu último filme, Terror de Mechagodzilla, lançado no ano seguinte. Dali em diante, concederia muitas entrevistas e escreveria memórias e artigos sobre seus tempos de glória, mas deixaria a direção para sempre. 

Mas, mesmo afastado da cadeira de diretor, não estava exatamente aposentado. Sua amizade com Akira Kurosawa o levou a trabalhar como assistente ou diretor auxiliar dele em diversos filmes, como RanKagemusha e Rapsódia em Agosto. Geralmente, fazia o trabalho de diretor de segunda unidade, acompanhando filmagens de cenas menos importantes nos filmes. Em Sonhos de Akira Kurosawa (1990), coordenou as complexas tomadas de cena do segmento Monte Fuji em Vermelho, o que muitos associaram à sua experiência com Godzilla. 

Vendo de fora, pode parecer que o velho mestre rebaixou-se ao trabalhar novamente como assistente, ainda que fosse para um gênio de renome mundial como Kurosawa. Porém, eles eram muito amigos e, segundo o ex-assessor
Yasuki Hamano contou a este blogueiro em 2008, eles se tratavam como iguais, sem distinção, conversando e trocando ideias nos bastidores. 

Junto com Akira Kurosawa (à esq.):
Longa colaboração entre dois mestres do cinema.
Talvez Honda estivesse cansado, talvez achasse que já tinha esgotado o que tinha vontade de fazer com tokusatsu, ou apenas desejasse um ofício com menos pressões comerciais e mais prazer em sua velhice. O fato é que ele optou por esse trabalho e foi um fiel escudeiro de Kurosawa em seu final de carreira e vida. 

Em 1992, Kurosawa e Honda fariam sua última parceria, com Maadadayo, drama com toques de humor sobre a velhice e a morte, lançado no fatídico ano seguinte. Nesse filme, o último dos dois velhos amigos, Honda também foi coautor do roteiro, apesar disso não ter sido noticiado na época. 

Ishiro Honda faleceu em 28 de fevereiro de 1993, aos 81 anos, vítima de problemas respiratórios, deixando esposa e dois filhos. Kurosawa aposentou-se logo depois desse filme e faleceu em 1998. Até hoje suas memórias são reverenciadas e seus nomes foram gravados para sempre na História do cinema japonês 

Ao lado de Eiji Tsuburaya e Tomoyuki Tanaka, o diretor Ishiro Honda ajudou a formatar toda uma indústria de entretenimento, sendo reconhecido em vários países como diretor cult. Nos bastidores, colaborou com o cineasta japonês mais famoso no ocidente e realizou expressivos trabalhos na TV, incluindo na famosa franquia Ultra

Além de diretor e roteirista, foi também escritor e palestrante. E, a despeito de possuir um trabalho bastante diversificado, sempre teve orgulho de sua participação na criação e consolidação do tokusatsu como uma forma de entretenimento tipicamente japonesa. Nos filmes ou na vida real, foi um gigante entre gigantes. 

::: VÍDEOS SELECIONADOS :::


1) Trailer estendido do primeiro filme de Godzilla. Concebido como um misto de filme de terror e cinema-catástrofe, também dava relevância ao drama humano. Um clássico eterno. 




2) Trailer de The Human Vapor (1960), outra obra emblemática de Ishiro Honda.




3) Trailer internacional de Latitude Zero (1969), considerado um blockbuster da época. 



4) O Regresso de Ultraman (1971~72) - Trecho do primeiro episódio, mostrando o início da simbiose entre o herói e o humano Hideki Goh. A sequência da fusão foi homenageada pelo diretor Koichi Sakamoto no episódio 3 de Ultraman Geed (2017)




5) O Regresso de Ultraman - Final do último episódio, o de número 51. A imagem não está boa, mas vale pelo resgate da dublagem clássica. Neste vídeo e no anterior, o roteiro foi de Shozo Uehara, principal escritor da série. Se você vibrava com a série na época, pode chorar. 


***********************************
Publicidade:

Play-Asia.com - Buy Games & Codes for PS4, PS3, Xbox 360, Xbox One, Wii U and PC / Mac.

12 comentários:

Anderson disse...

Sobre Godzilla X King Kong,a história é curiosa:tudo começou como um roteiro americano de King Kong X Frankenstein .Como nenhum estúdio americano se interessou acabou vendido a Toho,que acabou decidindo substituir o Prometeus moderno por Godzilla.Com o sucesso planejou fazer Godzilla X Frankenstein mas terminou trocando por Mothra,enquanto o Frankenstein gigante acabou ganhando um filme próprio.Também nessa época chegou-se a cogitar outro crossover que colocaria Godzilla enfrentando ninguém menos que Batman,mas as negociações com os americanos não vingaram ,sobrando apenas alguns desenhos dos veículos que o morcego usaria nessa batalha desigual.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson! Obrigado pelas informações adicionais que trouxe.

Esse projeto do Godzilla contra o Batman foi na época da série de TV do Adam West (1966), pelo que eu soube. Daí, certamente teria uma pegada bem humorada. O Batman poderia usar um spray anti-monstro, já que tinha também um spray anti-tubarão. Ia ser o máximo, ah ah!

Valeu! Grande abraço!

job Marques disse...

Inegável e estrondoso talento, a emoção de do Ultramen de Ideki Go é viceral marcou toda a minha infância, Eu gostava do Ultramen clássico ,mas a dose cavalar era com o chamado segundo ultramen ,eis episódios que tiveram a condução do diretor pra mim são memoravemee cruciais a série , bela homenagem , texto maravilhoso. Uma honra ter podido acompanhar grande parte do trabalho deste mestre . parabéns Nagado.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Job Marques.

Ultraman Jack é meu Ultra favorito e marcou demais minha infância. Revendo depois de adulto, pude valorizar ainda mais suas qualidades. Uma grande série.

Obrigado pela força! Abraço!

Usys 222 disse...

Excelente matéria sobre Ishiro Honda, um dos grandes nomes do cinema japonês, com um resumo completo de sua vida e obra! Muitos fãs de tokusatsu se lembram mais de Eiji Tsuburaya, mas a direção de Honda é um fator que não deve ser ignorado. E ele teve que batalhar muito e dar várias voltas para finalmente chegar onde queria.

Interessante isso dos atores gravarem as falas separadamente das filmagens. Acho que isso deve ter ajudado bastante na hora de exportar e dublar em outros países.

E como era de se esperar, "Gojira" não teve boa recepção pela crítica da época devido à sua novidade, à sua ousadia, e só foi reconhecido após se tornar "Godzilla", e daí ser a pedra fundamental de um gênero que perdura até os dias de hoje.

Honda provavelmente reduziu o ritmo por ter feito o que já queria fazer, mas sem deixar de lado o que gostava. Por isso ele trabalhou como assistente ao lado de Kurosawa, que reconhecia suas habilidades o considerando como um igual. Essa parte também é muito bonita, com dois grandes gênios colaborando. Maadadayo tem uma fotografia muito bonita, especialmente a última cena. Um excelente trabalho.

Gabriel disse...

Me interessei muito no livro que ele escreveu sobre as mulheres de conforto. Fui pesquisar e descobri que o nome é "Reflections of an Officer in Charge of Comfort Women", foi publicado na Movie Art Magazine, na edição de abril de 1966.

Eu pesquisei mas não achei esse livro (ensaio) em lugar nenhum. Você sabe dizer onde posso encontrá-lo para ler? E ele foi lançado em inglês, ou existe uma tradução, ou é só em japonês?

Obrigado.

César Filho disse...

Excelente matéria, mestre Nagado! Em outubro do ano passado foi lançado nos EUA uma biografia sobre o diretor escrita por Steve Ryfle e Ed Godziszewski. O livro se chama Ishiro Honda: A Life in Film, from Godzilla to Kurosawa. Adquiri praticamente na época do lançamento e recebi ainda nas vésperas do Natal. Ainda não li tudo (ainda tá na fila de leituras atrasadas) e até aqui usei como fonte para algumas resenhas de filmes kaiju que escrevi no blog, mas tem muitas curiosidades sobre sua carreira e também sobre os bastidores de cada filme.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Essa dos atores terem que dublar suas próprias falas para garantir um som de melhor qualidade era bastante comum, até um padrão naquela época. A primeira vez que li um comentário sobre isso foi em um documentário sobre Bruce Lee, que contava sobre ele ter passado mal quando havia ido gravar suas falas para um filme. Depois fiquei sabendo que era prática comum. No caso da TV, essas gravações em separado eram ainda mais comuns, pra agilizar a produção, visto que com som ao vivo, qualquer errinho na fala tinha que ser refilmado.

A questão da relação entre Kurosawa e Honda sempre me intrigou. E tirei a dúvida no Japão, conversando pessoalmente com um ex-assistente de Kurosawa, o sr. Yasuki Hamano. Ele confirmou que Kurosawa tinha temperamento difícil, mas com Honda o respeito era de dois iguais. Mas, nunca soube se Honda havia brigado na Toho ou algo assim, para ter se afastado da direção. Naquela época, a Tsuburaya vivia tempos difíceis e não teria espaço para ele trabalhar. Em todo caso, uma vida muito interessante e inspiradora ele teve.

Falou! Abração!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Gabriel.

Infelizmente, não tenho informação sobre isso. A experiência o marcou e gostaria também de saber o que ele escreveu sobre essa triste época. Se alguém encontrar, pode postar o link aqui.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

E aí, César!

Pode parecer que o título desta matéria foi plagiado do do livro, mas eu soube dele depois de ter decidido como seria o título aqui. Mas, não tem muito como fugir, um título que queira chamar a atenção precisa enfatizar esses dois aspectos distintos de sua obra.

Gostaria muito de ler esse livro um dia. Vi a maioria das obras de Honda em minha infância e adolescência. Lembro que Latitude Zero era muito divertido e A Fuga de King Kong era um dos meus favoritos, até mais do que a luta contra o Godzilla. Que tem lá seus méritos, mas não é um grande clássico.

Agora, o trabalho de Honda que teve mais impacto em mim foi sua participação em O Regresso de Ultraman. Aqueles dois episódios iniciais deram o tom da série, e o final foi dos mais emocionantes até hoje.

Valeu! Abraços!

Bruno Seidel disse...

Olá, Nagado! Que resgate fantástico sobre esse gênio que ajudou a tornar o Tokusatsu na representação icônica que hoje é um dos carros chefes da cultura pop japonesa. Sempre tive muita curiosidade em ler e me informar sobre os bastidores da criação do primeiro Godzilla, de 1954, pois foi uma época em que tudo era muito mais arriscado, incerto e improvisado. Hoje pode até parecer "óbvio" entender porquê determinadas franquias ou personagens fazem sucesso, mas naquela época era tudo "no escuro". E foi o trabalho impecável de gênios como o trio Honda, Tsuburaya e Tanaka que transformaram a incerteza num sucesso absoluto, consagrado e replicado até os dias de hoje.

Aliás, também tenho muita curiosidade em conhecer melhor a história do produtor Tomoyuki Tanaka, principalmente depois de conhecer a vida e a obra de outros diretores consagrados como Tohro Hirayama. Quando ele teve a iniciativa em produzir Godzilla em 1954, as incertezas e os desafios eram enormes. E ele soube contar com um timaço de talentosos para fazer uma obra imortalizada pelo tempo. Mas, curiosamente, o nome de Tanaka é menos lembrado do que o de Tsuburaya, de Honda e até do compositor Akira Ifubuke.

O fato é que o trabalho de feras como Ishiro Honda merece ser reverenciado toda vez que uma nova obra de Godzilla ganha vida (seja nos cinemas japoneses, nos cinemas americanos ou até na versão em anime exibida pelo Netflix), pois foi decisivo para que esse clássico perpetuasse até os dias de hoje. Que bom que existem blogs como esse que destacam esse tipo de legado!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno! Eu gosto de História e de ler sobre pessoas criativas e batalhadoras. Tento juntar tudo isso em posts que sirvam de referência.

De certa forma, guardando as proporções, estou continuando algo que começou lá na revista Herói. Eu gostava muito de tornar conhecidos no Brasil o nome de autores, diretores, roteiristas, atores, compositores, desenhistas... Dar valor e reconhecimento a quem criava as produções de que tanto gostamos.

Tomoyuki Tanaka é um que eu ainda preciso pesquisar, mas sem dúvida é um nome importante, fundamental, pois o Godzilla foi um projeto pessoal dele. Honda e Tsuburaya deram forma, mas a partir de ideias do produtor. Vamos ver se consigo fazer algo legal.

Obrigado pelas palavras generosas. Abraço!!