quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Mangaká - Lições de Akira Toriyama

Vamos relembrar um curioso mangá cheio de dicas valiosas - e divertidas - para aspirantes a autores e desenhistas. 
Hetappi e seu mestre, o alter ego
do próprio Akira Toriyama.
Foi lançado no Brasil em 2002 pela Conrad Editora, o título Mangaka – Lições de Akira Toriyama, um livro imperdível para qualquer aspirante a autor de histórias em quadrinhos. A obra, criada e desenhada por Akira Toriyama (de Dragon Ball e Dr. Slump), com a ajuda do escritor de games Akira Sakuma nos textos, mostra de maneira bem didática e divertida vários aspectos sobre técnicas de desenho, narrativa e criação de uma história em quadrinhos. 

Mangaka (leia “mangá-ká”) é a palavra usada no Japão para designar os desenhistas ou autores de mangá. E é exatamente isso o que o livro propõe: transformar qualquer um em artista de mangá. Ou de quadrinhos em geral, já que os conceitos básicos apresentados são universais.

Em forma de pequenas historinhas, Toriyama conduz seu aprendiz Hetappi no tortuoso caminho da arte sequencial em passagens engraçadíssimas e repletas de exemplos. As dicas sobre diagramação e linguagem de quadrinhos são bem didáticas e servem para qualquer estilo de trabalho. Idem para as lições sobre o uso de bico de pena e efeitos gráficos, tudo muito simples e fácil de entender. O único porém fica com a adaptação, que peca ao traduzir mal algumas citações de materiais, bem como algumas referências de cultura pop japonesa. 
O curioso e desconfiado Hetappi tem um mestre
bastante capacitado, mas que é meio... maluco.
Alguns materiais citados praticamente já saíram de circulação, como os tira-linhas para traçados retos (substituídos por boas canetas técnicas) e as retículas, que sumiram das lojas brasileiras e podem ser simuladas no computador. Sobre isso, o advento de avançadas pen tablets e softwares como o Manga Studio fizeram muitos autores migrar para plataformas digitais de criação, mas tal situação não invalida em nada as lições criadas para trabalhos feitos no papel. Afinal, é o resultado que interessa ao leitor em busca de histórias bem contadas e bem desenhadas. 

Quem não tem contato com o mundo profissional das artes gráficas e desenho pode se confundir com algumas passagens, que deveriam ter tido uma intensa consultoria na adaptação. Algumas marcas de materiais similares sugeridos, inclusive, não são as mais indicadas para um bom trabalho, sendo melhor pesquisar junto a boas lojas. O que não tira o brilho de um dos melhores trabalhos já feitos sobre os segredos de uma boa HQ. 

Ao lado de Quadrinhos e arte sequencial (de Will Eisner) e Desvendando os quadrinhos (de Scott McLoud), Mangaka merece ficar na estante de qualquer profissional, aspirante ou fã de histórias em quadrinhos. Ainda que, em comparação aos dois trabalhos citados, esse de Toriyama seja bem mais básico e dirigido a um público mais jovem. Na parte final, inclusive, há deliciosas análises sobre trabalhos de iniciantes enviados para a editora. É impossível não ficar motivado lendo os comentários escritos sobre cada página, algumas mais ingênuas e despretensiosas do que outras. 

A obra foi originalmente publicada em capítulos entre 1982 e 1984 na atualmente extinta revista Fresh Jump (Ed. Shueisha). [Nota: O press release da época dizia que o título havia saído na revista Shonen Jump, o que foi um erro de informação.]

Considerado um gênio do moderno mangá, Toriyama faz a entrada no mundo profissional parecer acessível a qualquer um, lembrando que ele fala do Japão, onde há um verdadeiro mercado de trabalho gerado pelo alto consumo de quadrinhos. Essa impressão é decorrente da tamanha simplicidade com que expõe suas técnicas e ideias sobre criatividade e dinâmica nos quadrinhos. Mas obviamente, lá a competição entre autores é bastante acirrada. 

Do jeito que Toriyama explica, até parece fácil. Mas, como diz o desconfiado e esforçado aluno de Toriyama: “Um dia eu acreditarei!”

Mangaka – Lições de Akira Toriyama
Título original: Toriyama Akira no Hetappi Manga Kenkyuujo 鳥山明のヘタッピマンガ研究所』~ Instituto Hetappi Mangá de Akira Toriyama

Autores: Akira Toriyama e Akira Sakuma
Formato: 14 x 21 cm, com 192 páginas
Lançamento: Conrad Editora (2002)

- Texto publicado originalmente no portal Omelete em 2005 e devidamente revisado, ampliado e melhorado para postagem no Sushi POP.
- Algumas livrarias e sebos ainda têm esse título à disposição. Se encontrar, não deixe escapar.

4 comentários:

Bruno Seidel disse...

Essa publicação é sensacional!!! Lembro de ter comprado um exemplar quando foi lançado de forma inédita aqui no Brasil, em 2002. Foi uma época boa para o lançamento, uma vez que a Conrad estava com Dragon Ball e Dr. Slump nas bancas. E o nome de Toriyama estava na boca dos fãs.

O que mais me chamou antenção em Mangaka foi a simplicidade nos rabiscos do Toriyama, o que tornava seu traço ainda mais agradável e "cômico por si só". Tinha muito de Dr. Slump nessa obra (e quase nada de Dragon Ball, o que pode ter decepcionado alguns).

Também é bem realista no que diz respeito à publicação de obras de iniciantes em grandes editoras. Isso realmente tem que ser dito pois, num mercado tão concorrido, só "ter um traço bom" não basta.

Baita resenha! Assino embaixo e indico muito!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Seidel!

Esse volume estava meio esquecido na minha estante. Quando comecei a reler, bateu um sentimento de que deveria divulgar, pois muita gente pode não conhecer. Daí, resgatei um texto antigo e dei aquele trato caprichado para ficar compatível com o Sushi POP.

A forma como Toriyama explica é muito divertida, sendo que mesmo que a pessoa não tenha nenhum interesse em aprender a fazer mangá, poderá achar tudo muito interessante.

Tomara que alguma editora se anime a relançar esse título. Eu, particularmente, adoraria adaptar o material.

Valeu! Abração!

Usys 222 disse...

Eis aí um bom material de referência. Ainda mais vindo de um dos grandes nomes do Mangá.

Na Amazon do Japão foi disponibilizada uma versão para o Kindle, mas com distribuição só para esse país. Mesmo assim dá para ler o começo (https://www.amazon.co.jp/%E9%B3%A5%E5%B1%B1%E6%98%8E%E3%81%AEHETAPPI%E3%83%9E%E3%83%B3%E3%82%AC%E7%A0%94%E7%A9%B6%E6%89%80%E2%80%95%E3%81%82%E3%81%AA%E3%81%9F%E3%82%82%E6%BC%AB%E7%94%BB%E5%AE%B6%E3%81%AB%E3%81%AA%E3%82%8C%E3%82%8B-%E3%81%8B%E3%82%82%E3%81%97%E3%82%8C%E3%81%AA%E3%81%84%E3%81%AE%E5%B7%BB-%E3%82%B8%E3%83%A3%E3%83%B3%E3%83%97%E3%83%BB%E3%82%B3%E3%83%9F%E3%83%83%E3%82%AF%E3%82%B9-%E9%B3%A5%E5%B1%B1-%E6%98%8E/dp/4088528808).

Dei uma "folheada" e realmente tem lições bem básicas, mas boas para a construção de personagens, de colocar características e pontos fracos (usar o Ultraman como exemplo foi uma boa jogada). E todas são válidas até hoje. A parte falando de como desenhar mulheres é bem a cara do Toriyama... As histórias/lições são curtas, cheias de bom humor e bastante didáticas.

Pena que não tem a parte de materiais, que deve estar bem desatualizada, mas creio que o mais importante seja atemporal.

De fato, não basta só ter um bom traço. É preciso ter capacidade de desenvolver a narrativa e prender o leitor. Já vi outras obras em que os desenhos eram grotescos, quase rabiscos, mas que conseguiram roubar umas três horas da minha vida. Não que isso signifique que o traço deva ser negligenciado.

Esse é um bom livro para iniciantes e merece ser republicado. Até com algumas atualizações, se fosse possível. E eu vi uma outra série como essa, publicada na Shonen Sunday. Tinha as mesmas dicas e também outras sobre como fazer a caracterização de rivais e também a importância da anatomia no desenho (e que às vezes é bom distorcer para se ter uma dramaticidade maior). Só não sei se foi compilada. E o "mestre" que aparece nessa série lembrava bastante Shotaro Ishinomori.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Esse livro é extremamente divertido e serve muito bem ao seu propósito. Acho até que deveria ter sido adaptado em animação.

Como seria ver Toriyama voltando a fazer o Hetappi e seguindo para lições mais avançadas? Taí algo que eu gostaria de ver.

E esse livro da Sunday eu não conheço, vou pesquisar.

Valeu! Abraço!!