segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Katsushi Murakami - Desenhista de heróis e brinquedos

Vamos dar uma olhada na carreira de um dos mais importantes designers de armaduras de super-heróis, vilões, naves e robôs japoneses.
O designer Katsushi Murakami e alguns de seus trabalhos:
Shadow Moon, Change Robô, Jaspion e Jiban.
Na vasta indústria do entretenimento japonês, especificamente nas áreas de tokusatsu e animê infanto-juvenil, as parcerias com fábricas de brinquedos são essenciais para gerar renda e investimentos em produções. Até o início da década de 1970, a produção vinha em primeiro lugar e depois os estúdios buscavam o licenciamento de produtos. 

Ao longo da década seguinte, porém, a lógica foi invertida e os produtos passaram a ser tão ou mais importantes que as aventuras infanto-juvenis a serem veiculadas na TV ou no cinema. Isso levou a parcerias estreitas na realização das obras, com empresários do ramo de brinquedos interferindo diretamente nos rumos de séries, na medida em que veículos, máquinas, robôs e acessórios novos precisavam de uma justificativa para aparecer e criar o impulso de consumo entre os telespectadores. 

Isso fez com que a indústria do entretenimento prosperasse muito, criando também novos desafios para as equipes criativas. Quem soubesse conciliar bem a veiculação de colecionáveis com boas histórias e diversão ao público, conseguia sobreviver no concorrido mercado japonês. Nesse processo, o projeto visual dos heróis foi ficando cada vez mais a cargo das empresas fabricantes de brinquedos. 
Katsushi Murakami: Desenhista,
supervisor de produção e executivo de negócios.
No caso de seriados tokusatsu da Toei Company, a parceria com a gigante Bandai estabeleceu que esta última ficaria responsável pela palavra final dos maquinários e uniformes, pois levaria em conta a facilidade de produção industrial dos moldes de brinquedos. Falando assim, parece algo engessado e limitado, mas houve um desenhista que conseguiu fazer trabalhos extremamente marcantes dentro das limitações estratégias comerciais adotadas. Seu nome é Katsushi Murakami

Nascido em 23 de setembro de 1942, ele se juntou à Bandai em 1961, mas no setor de vendas. Na década seguinte, seu talento como desenhista explodiu e ele logo foi galgando posições na empresa. É considerado um mestre do design de brinquedos no Japão e até presidiu empresas ligadas à Bandai, tendo supervisionado diversas equipes de criação. Esteve na direção da equipe de projetos da Popy, que depois mudou o nome para PLEX, sendo uma divisão da poderosa Bandai.


Policial do Espaço Gavan (1982), talvez
o mais importante trabalho do desenhista.
Seguindo orientações do produtor Susumu Yoshikawa, Murakami criou o visual do Policial do Espaço Gavan (1982), que revolucionou os heróis da TV. O personagem deu origem aos Policiais do Espaço e, num escopo maior, à linhagem dos chamados Metal Heroes. Yoshikawa foi o produtor visionário por trás de Gavan e o roteirista Shozo Uehara deu forma à saga do personagem, sendo ambos muito celebrados por suas contribuições. Já Murakami, por outro lado, é pouco conhecido entre os fãs, mas sua influência visual foi reconhecida internacionalmente até pelo cineasta Paul Verhoeven quando o primeiro filme de Robocop foi lançado, em 1987. O diretor contou certa vez que o visual de Gavan teve impacto na elaboração inicial do personagem americano. 
O popular Iron Man 28, conhecido
nos EUA como Gigantor.
Sua contribuição à cultura pop japonesa é inestimável, tendo trabalhado em animês como Dairugger XV, God Mars, Dancougar Nova, Darutanias, Lezarion, Space Adventure Cobra (não-creditado) e muitos outros títulos. Em certas ocasiões, trabalhava para aperfeiçoar um desenho de outro autor. Foi assim na versão que projetou para a segunda série Tetsujin Ni-ju Hachi Gou, atualização feita em 1980 para um antigo robô gigante de Mitsuteru Yokoyama, o mesmo autor do Robô Gigante

Por ser ligado à Bandai, que é fabricante de brinquedos, e não aos estúdios de criação, talvez seu nome não fosse muito considerado por seus pares. De qualquer forma, é no tokusatsu que fez seus trabalhos mais marcantes, como o robô Leopardon da série do Homem Aranha japonês ou o visual do herói Kamen Rider BLACK e seu rival, Shadow Moon
Destaque em Kamen Rider Black (1987)
Shadow Moon é um dos vilões mais
icônicos da franquia Kamen Rider.
Tendo feito a maior parte de seus trabalhos para parcerias da Bandai com a Toei Co., Murakami assinou os designs principais dos heróis e veículos de Sharivan, Shaider, Goggle V, Machine Man, Bicrossers, Changeman, Jaspion, Spielvan, MaskmanJiraiya, Kamen Rider BLACK/ BLACK RX, Jiban, Winspector e muitos outros personagens. 

Se há um desenhista cujo resultado final do trabalho foi amplamente visto no Brasil, é Katsushi Murakami. Outras obras dele com tokusatsu incluem criações visuais para as séries Sun Vulcan, Bioman, Dairanger e Ohranger, entre outras, sendo que ele tinha uma equipe para auxiliá-lo e cuidar de desenhos secundários, bem como refinar o detalhamento dos projetos que criava. Em geral, o resultado final era trabalho de uma equipe, mas sempre com sua supervisão. 

Indo além de seu trabalho como desenhista ou chefe de criação, Murakami trabalhou no planejamento total de várias produções, como os animês 3x3 Eyes ("Sazan Eyes"), Little Twins, Kamen Rider SD (neste ele foi produtor executivo), Macross II The Movie e os filmes de tokusatsu para cinema de Kamen Rider ZO e Kamen Rider J. Já no filme para vídeo Shin Kamen Rider ~ Prologue, foi produtor executivo. 
Estudos para o capacete de Jaspion (1985)
e sua nave-robô Daileon.
Nas séries Ultra, ainda criou veículos para Ultraman 80, de 1980 e desenhou um dos visuais inicialmente testados para o Ultraman Powered. Novamente, como era ligado à Bandai e não à Tsuburaya Pro, seu nome é pouco lembrado ou mesmo conhecido pela maioria dos fãs, especialmente no ocidente. 

Um pouco dessa injustiça foi combatida em 2017, quando a editora PIE International lançou  no Japão o livro All About Katsushi Murakami, uma luxuosa compilação de designs inteiramente concebidos ou coordenados por ele. 
Os irmãos Bicrossers (1985), cuja série
teve sua história elaborada por
Shotaro Ishinomori, o Rei do Mangá.
Em décadas de atuação na área, trabalhou com todas as grandes franquias de heróis japoneses e, tendo criado uniformes e máquinas para vários grupos Super Sentai, sua influência visual se estendeu até Power Rangers

Atualmente ele está aposentado de suas atividades profissionais, mas deixou um legado impressionante e ajudou a dar forma às ideias de produtores, enquanto fazia suas criações sob medida para a produção industrial de brinquedos e colecionáveis. E, se os brinquedos de seriados de heróis japoneses são um complemento indispensável à diversão dos fãs, ele merece ser reconhecido como um nome de grande importância para a indústria da cultura pop japonesa.

O Change Robô e um de seus
componentes, o Jet Changer 1,
pilotado pelo líder de Changeman (1985)

O Fantástico Jaspion (1985), série
que, junto com Changeman, iniciou
uma era marcante e inigualável
para os heróis japoneses no Brasil.
Design original do ninja Jiraiya (1988).
Note que o peitoral deveria ser
predominantemente preto,
e não vermelho.

O Policial de Aço Jiban (1989), foi obviamente
uma criação da Toei inspirada no Robocop,
que por sua vez teve inspiração
visual em outro trabalho de Murakami,
o popular Gavan.

Fire, Biker e Highter,
o trio da série Winspector (1990).

All About Katsushi Murakami:
Um livro que resgatou a importância
do trabalho do mestre.

All About Katsushi Murakami - Compre aqui (Play-Asia)



12 comentários:

anderson disse...

Sempre se fala de como Star Wars influenciou os primeiros Metal Heroes ,mas o inverso também pode ter ocorrido:dizem que George Lucas se inspirou em Hakaider de Kikaider ao desenvolver Darth Vader.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Anderson.

Essa sobre a relação entre Darth Vader e Hakaider eu não sei se é boato, pois sempre li que a inspiração visual de Vader eram armaduras de samurai. Em todo caso, há um post aqui no Sushi POP sobre influências americanas em super-heróis japoneses. (http://nagado.blogspot.com/2015/06/bate-papo-influencias-americanas-nos.html)

Voltando ao post, Susumu Yoshikawa foi mesmo influenciado por Star Wars e passou algumas ideias para Katsushi Murakami, que fez um trabalho original e icônico.

Valeu! Abraço!

Usys 222 disse...

Finalmente uma matéria sobre um nome pouco conhecido aqui no Brasil, mas que no Japão é altamente reconhecido! E que mostra que a influência da fabricante de brinquedos nem sempre é algo negativo se for feito por pessoal competente.

Eu mesmo considero Katsushi Murakami como um gênio do design. Não há como negar que seus desenhos são muito elegantes, atraentes. E com bastante variedade, já que além dos Metal Heroes de visual futurista, ele criou os visuais de Jiraiya, com motivos japoneses clássicos.

E em entrevistas, dava para ver que ele tinha uma alma de criador, sempre buscando coisas novas. Que ele tinha suas ideias e não fazia os desenhos aleatoriamente. Que para vender era preciso fazer algo bom. Finalmente foi feita justiça ao seu nome com esta matéria. E espero que mais gente o reconheça.

A propósito, acabei de clicar no link para comprar o livro! Estava há um tempão cogitando a compra e agora já tive o empurrão necessário. Espero que tenha dado certo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Há muita falta de referência sobre ele no ocidente. E em português, a primeira vez que eu vi menção ao nome de Katsushi Murakami foi na sua matéria sobre o Gavan. E esse livro parece muito legal. Achei várias imagens extraídas dele no Pinterest e uma hora vou acabar comprando também.

Murakami realmente fazia algo que atendia aos interesses da indústria e ao mesmo tempo era legal, empolgante. Os Policiais do Espaço, o Jaspion, Spielvan, tantos visuais bacanas ele criou que tem mais é que ser homenageado mesmo. Ele merece!

Valeu! Abraços!

Adelmo Veloso disse...

Excelente matéria! Muito bacana quando os trabalhos tem os donos divulgados! Muita gente curte o Jaspion, Gavan, Jiban, Jiraiya e nem faz ideia de quem projetou os uniformes!
Vi em algum lugar que o Jiban, além de ter sido inspirado pelo Robô Cop, também inspirou uma arma do Robô Cop 3! Também tô ligado que o Satangoss foi inspirado pelo Darth Vader - e em um dos primeiros episódios de Jaspion, tem uma cena que parece ter sido tirada de Star Wars - que é quando ele vai a um bar e tem todo tipo de alienígena por lá escutando músicas estranhas e tomando bebidas mais esquisitas ainda.
Se não viu ainda, nobre Nagado, recomendo o documentário Brinquedos que marcam Época, da Netflix, onde essa questão de produção de brinquedos x criação da história é muito bem abordada. Tem lá os Transformers e a Hello Kit, também. Até a próxima!

Anônimo disse...

A história do Hakaider inspirar o Darth Vader é muito compartilhada, mas acredito que seja pouco provável, alguns pesquisadores comparam ele com o vilão The Lighting do seriado The Fighting Devil Dogs de 1938, inclusive, ele tem minions vestidos de branco, que lembram stormtroopers e snowtroopers, o texto a seguir é do Michael Kaminski, autor do livro The Secret History of Star Wars, ele vai além e compara também com Doutor Destino e Darkseid.

http://fd.noneinc.com/secrethistoryofstarwarscom/secrethistoryofstarwars.com/visualdevelopmentofdarthvader.html

Também já li que o capacete do Robocop foi inspirado no do Juiz Dredd dos quadrinhos britânicos, curiosamente, a trama também lembra o Oitavo Homem.




André Santos

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo!

Em Robocop 3, Murphy usa um jato nas costas para voar. Nessa hora, fiquei pensando se ele não ia usar uma bazuca ou uma espada, ah ah.

E vou conferir essa dica. Sou fascinado por miniaturas e brinquedos e não conhecia esse documentário que mencionou. Valeu!

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Obrigado pelas dicas, André. Acho que há casos em que há múltiplas referências servindo de inspiração.

Abraço!

Bruno Seidel disse...

Sensacional!!! O trabalho de Katsushi Murakami é digno de reverência e de análise, pois sua história se mistura com a do próprio Tokusatsu. E esse post me deu a oportunidade de refletir aqui sobre algo curioso: quando se fala em super-heróis, o character design tem mais chances de ficar imortalizado do que todo o resto (enredo, atores, produção...). Peguemos o próprio Jaspion como exemplo: muita gente que acompanhou o herói durante a infância pode ter uma vaga lembrança da série, a ponto de reconhecê-lo apenas pelo traje da belíssima Metaltex. Só mesmo quem é mais fã vai lembrar da personalidade brincalhona do herói, ou da trama da série, ou do pássaro dourado, ou de todo o resto... Tanto é que em produções recentes da Toei, na qual temos heróis clássicos reaparecendo como mero fan service, basta colocar o personagem ali, com seu character design clássico, que o "check in" está garantido.
Quando se conhece uma produção nova, a primeira informação que absorvemos é o character design do personagem principal (antes mesmo do nome do nome dele, às vezes). Quando os boatos de uma nova produção começam a se confirmar, a primeira informação relevante é o sketch com o design do herói principal. Só depois ficamos sabendo do elenco, da sinopse, da trilha sonora e de todo o resto.
Isso nos faz perceber que o trabalho de um gênio como o Murakami é realmente impactante, pois tem mais chance de se destacar na linha do tempo do que o de seus colegas roteiristas, atores, dublês, coreografistas e diretores. A parte irônica é que esse destaque não é proporcional ao reconhecimento.

Parabéns pelo post, Nagado! Seria legal também ver, mais adiante, que tipo de influências o mestre Murakami teve como inspiração para fazer essas obras imortais.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

É realmente incrível o pouco destaque dado a Katsushi Murakami no ocidente, mesmo com tantos trabalhos conhecidos. Nunca vi entrevista dele em inglês e, se tem em japonês, é trabalho para o nosso velho amigo Usys222. O que eu imagino é que ele tenha uma cultura bem abrangente, pois seu trabalho é realmente impressionante.

Com esta postagem, consegui tornar um pouco mais conhecido um dos grandes criadores da história do tokusatsu. Só por isso já vale a pena manter o Sushi POP em atividade.

Valeu! Abraços!

Aniki disse...

Um comentário simples desta vez: baita desenhista, diga-se de passagem.

Alexandre Nagado disse...

Acho que todos aqui concordam, Aniki. E mesmo ele não sendo um bom desenhista no quesito figura humana e anatomia, seu domínio do design mecânico e funcional é muito criativo. Pensar que um único homem foi responsável pelo design da maior parte da séries da "Geração Manchete" é de deixar qualquer um impressionado. Merece todas as homenagens.

Abraço!