quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Princesa e o Cavaleiro ~ O clássico animê de Osamu Tezuka

É hora de relembrar - ou conhecer - um dos maiores clássicos da animação japonesa, em todos os tempos.
O Príncipe Safiri, que guarda um grande segredo
para proteger seu reino, a Terra de Prata. 

Em uma realidade muito parecida com a Europa medieval, existe o pacífico reino da Terra de Prata. Tudo lá parece calmo e tranquilo, mas inimigos espreitam nas sombras e o castelo oculta um grande segredo. Em seu interior, o bondoso casal real cria sua filha única Safiri (a romanização oficial é "Sapphire") como se fosse um garoto. Isso porque as severas leis de seus ancestrais impedem que uma mulher suba ao trono e o Rei temia que o país caísse nas mãos de seu primo, o maldoso Duque Duralumínio, caso algo lhe acontecesse. Essa é a trama básica de Ribbon no Kishi (literalmente, "O Cavaleiro da Fita", de 1967), uma das mais importantes obras do genial Osamu Tezuka

O Cavaleiro
Vingador.
Mesmo criada perante os súditos do reino como sendo homem, os pais permitem que, em longe dos olhares curiosos, Safiri possa usar vestidos e cultivar sua real natureza feminina, apoiada pelos servos mais leais do castelo. 

Safiri também é apoiada pelo garotinho Ching, na verdade um anjo que veio à Terra como castigo por suas travessuras no céu. Ele vive em harmonia com a natureza, está sempre pronto a ajudar e, em muitos momentos, é o condutor das histórias. Outro dos personagens centrais da trama é o príncipe da Terra do Ouro, o valente Franz Charming, que logo percebe que Safiri é uma garota e se apaixona por ela, sendo totalmente correspondido. 

Quando necessário, Safiri se disfarça no herói Cavaleiro Vingador, agindo contra as maquinações do Duque Duralumínio e seu assistente narigudo, Nylon, ou ameaças ainda maiores, como a poderosa Unidade X


O coração puro de Safiri é almejado pelo demônio Satã, que planeja dá-lo à sua filha Heckett, uma jovem e bondosa bruxa. Acompanhado de sua esposa, Madame Inferno, Satã arma diversas ciladas para Safiri, até que, em um episódio antológico, o casal de malfeitores se sacrifica com nobreza, para dar a Heckett o que ela mais queria: uma vida normal. 
O Príncipe Franz e Heckett, a
quem ele e Safiri tentam ajudar.
A série é repleta histórias memoráveis, com enorme variedade nos roteiros. Em um arco narrativo de quatro episódios, o rei desaparece quando estava prestes a revogar a lei que proíbe mulheres de subir ao trono do reino. A rainha é vítima de uma poção enfeitiçada e revela o segredo de Safiri. Assim, Duralumínio toma posse do reino e se torna o novo monarca. Acusadas de traição, Safiri e sua mãe são enviadas para uma sinistra masmorra, de onde não se espera que saiam com vida. 

Lá, elas são vigiadas pelo carcereiro Gâmer, um corcunda ameaçador. Mas Safiri faz amizade com os muitos ratinhos que vivem no local e consegue sair disfarçada de Cavaleiro Vingador em algumas ocasiões para tentar descobrir o que aconteceu com seu pai. Ela também acaba ajudando Gâmer, que retribui com gratidão e ela consegue salvar seus pais e retornar ao reino. Esse arco ofereceu um final alternativo para a série, que ainda teria um desfecho monumental dentro da cronologia da saga. 

O arco final da série, um episódio duplo escrito por Kapei Nou, foi um dos mais arrebatadores de seu tempo. Um enredo com muita ação, mortes chocantes, reviravoltas e um senso de fechamento épico encerraram a série de TV com chave de ouro. A inspirada trilha sonora de Isao Tomita contribuiu muito para que o trabalho fosse memorável.
Ching maquiando Safiri. Longe dos súditos,
Safiri se permitia vivenciar sua verdadeira natureza.
Baseado no mangá homônimo do mestre Osamu Tezuka, a história mostrada na TV corresponde a cerca de metade da saga original dos quadrinhos. Criada em 1953, a obra foi publicada primeiro na revista feminina Shojo Club e posteriormente na revista Nakayoshi, tendo diferentes versões. 

A segunda versão do mangá, também assinada por Tezuka, foi publicada no Brasil pela editora JBC em 2002. Em 2013, a editora NewPOP lançou Os Filhos de Safiri, continuação oficial do clássico. 

Quando a série foi trazida para o Brasil nos anos 1970 para exibição na TV Tupi (e posteriormente na TV Record), vários scripts se perderam, o que obrigou o diretor de dublagem Gilberto Baroli (dublador de Satan) a escrever, ele mesmo, os diálogos de algumas histórias. O resultado foram roteiros inéditos, com pouca ou nenhuma relação com a trama original, mas todos bem estruturados e roteirizados com grande competência por Baroli, que viraria um astro entre a garotada por sua dublagem de Saga de Gêmeos no fenômeno Cavaleiros do Zodíaco

A série de TV foi lançada em DVD no Brasil pela Focus Filmes em 2012, resgatando a maior parte da dublagem original, sendo que dois episódios precisaram ser redublados. 
Uma das peças baseadas na série, estrelada por Erika Ikuta,
da banda Nogizaka46, em 2015.
O autor Osamu Tezuka era grande fã do tradicional teatro Takarazuka, que é conhecido por ser encenado somente por mulheres e por usar maquiagens que deixavam os olhos maiores e mais intensos. Assim, a saga de Safiri acabou gerando diversas adaptações nessa forma de arte, com peças musicais de bastante sucesso. 

Um dos maiores clássicos de uma época de ouro e uma das mais importantes obras de Osamu Tezuka, Ribbon no Kishi é apontado também como o primeiro título especialmente voltado para garotas adolescentes, a demografia shojo (leia "shôdio"). E, como obra de qualidade e apelo universais, se tornou um sucesso tanto para o público feminino quanto para o masculino, com fãs de várias idades. Um clássico eterno.

AS ABERTURAS ORIGINAIS:

1) A série teve duas aberturas, mas nenhuma foi exibida na TV brasileira. A música leva o nome da série, "Ribbon no kishi", e surgiu como tema instrumental composto e arranjado por Isao Tomita



2) A segunda abertura, que tocou do episódio 26 ao 52 apresentava uma versão cantada da mesma música, com uma letra escrita pelo roteirista Kapei Nou. Os vocais são de Youko Maekawa e Luna Armonico.



FICHA TÉCNICA:

A PRINCESA E O CAVALEIRO
Título original: Ribbon no Kishiリボンの騎士 ("O Cavaleiro da Fita")
Estreia no Japão: 02/ 04/ 1967 (TV Fuji)
Número de episódios: 52


Criação: Osamu Tezuka
Roteiro: Kappei Noh (principal)Masaki Tsuji, Masao Maruyama e outros.
Trilha sonora: Isao Tomita
Direção geral: Osamu Tezuka
Realização: Mushi Pro e TV Fuji


Emissoras no Brasil: TV Tupi e TV Record
Versão brasileira: Cinecastro e AIC São Paulo
Direção de dublagem e adaptação: Gilberto Baroli

10 comentários:

anderson disse...

È pena que muitos fãs modernos de animes desprezem o estilo de Tezuka sem entender seu papel na gênese do mangá moderno(certamente não foi uma coincidência Akko de Little Witch Academia usar um traje parecido com o de Safiri nos ovas originais).Felizmente não tenho esse preconceito com clássicos desde quando assistia Speed Racer na Record ao lado de produções modernas como Pokemon.Comprei todos os dvds de A Princesa e o Cavaleiro que achei em lojas locais e achei incrível como por trás da animação antiquada a série parecia tão contemporânea quanto o Astro Boy de 2003 que me apresentou ao estilo de Tezuka.Quem for trabalhar com mangás deveria olhar clássicos assim em vez de simplesmente imitar sucessos recentes.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Anderson.

Sim, tanto o traço quanto a animação soam datadas para a garotada de hoje, o que é uma pena. A linguagem narrativa também mudou, pois é mais difícil manter a atenção dos mais jovens e, por isso, os cortes de cena estão cada vez mais rápidos. Mas se a pessoa puder se concentrar na história, irá perceber que é um material riquíssimo e criativo.

Considero "A Princesa e o Cavaleiro" algo realmente genial, no nível de Speed Racer e Yamato. Um remake que preservasse a essência do original (e sem fan service) poderia apresentar essa obra para uma nova geração. Mas talvez seja melhor que ninguém mexa, pois a chance de deturparem tudo seria bem grande.

Valeu! Abraço!!

anderson disse...

Uma coisa que foi especialmente revoltante foi ler recentemente críticas de feministas americanas sobre " Princess Knight" dizendo a série é desagradável para nossa época "progressista" por coisas como Safiri ser forte por ter um coração de menino,por desejar poder ser tipicamente feminina ou por não causar uma revolução para eliminar o machismo a força ,só faltava reclamarem do Deus cristão estar na história...

Usys 222 disse...

Esse é um desenho que eu gostava muito quando passava no antigo "Canal 7". E interessante saber que o Gilberto Baroli era o Satan e que ele fez todo esse trabalho. Mais e mais o respeito. De fato, Satan era meu personagem favorito.

Infelizmente não me lembro de detalhes, mas uma cena que me marcou foi o aniversário de Heckett, em que Satan arma uma enorme festa e a convida para dançar no meio de uma sinfonia. Pensando bem, algo bem trabalhoso, digno de um longa-metragem da Disney.

Eu tinha conseguido um VHS quando fui para o Japão e fiquei surpreso quando vi que um dos personagens de cenário era o Popeye. Essas brincadeiras existiam desde essa época e acho que até tinha mais. Tezuka provavelmente gostava desse personagem, pois um dos inimigos do Jetter Mars era um Popeye-robô. Foi bem engraçado quando vi pela primeira vez.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Anderson!

Infelizmente, estamos na era do "politicamente correto", uma ferramenta das militâncias esquerdistas e raivosas para controlar o pensamento e mídia. A história de Tezuka praticamente invalida a "ideologia de gênero" por mostrar a necessidade de Safiri em preservar e cultivar seu lado feminino e delicado, agindo como garoto somente para aparecer em público e por uma motivação nobre.

Se fosse feita uma nova versão, correremos o risco de ver um roteiro "modernizado" e feito pra agradar militantes que, no fundo, estão pouco ligando para arte.

Valeu! Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Popeye? Essa referência passou batido pra mim na época. Acho muito engraçado encontrar "easter eggs" em qualquer produção. Um dia preciso rever cada episódio dessa série. Depois de adulto, somente vi o que saiu em VHS, e eram só os primeiros episódios. Parece que tem um monte no YouTube, de forma não-oficial.

Um dia em preciso encontrar a trilha sonora, um espetáculo à parte.

Até mais! Abração!

César Filho disse...

Essa resenha caiu como uma luva pra mim. Ultimamente tenho aproveitado minhas férias pra ler uns mangás do Tezuka e ontem mesmo li Os Filhos de Safiri. Já li algumas resenhas sobre a série (inclusive as suas) tempos atrás. Tentei adquirir a coleção em DVD, mas não consegui encontrar mais. Estava afastado do nicho na ocasião (um dia eu tiro esse atraso). Em tempo, esse mangá que conta a historia do Príncipe Daisy e da Princesa Violetta, é um material que instiga o leitor a conhecer essa obra-prima do "deus do mangá". E interessante é que Os Filhos de Safiri foi publicado na revista Nakayoshi, que anos depois faria a segunda versão de A Princesa e o Cavaleiro.

E só complementando o que você e o Anderson falaram acima: A Princesa e o Cavaleiro é uma obra que retratava as identidades masculina e feminina de Safiri/Violetta sem malícia e sem imposição de ideologias como infelizmente acontece hoje em dia.

Alexandre Nagado disse...

Fala, César!

Ainda preciso ler "Os filhos de Safiri". O trabalho de Tezuka soa visualmente datado hoje em dia, mas é de uma enorme qualidade narrativa. Li pouca coisa dele, infelizmente. Além do mangá que saiu pela JBC, li episódios soltos de Black Jack e Phoenix, que saíram em inglês.

E uma parte de mim torce para que nunca façam um remake da Safiri, porque seria inevitável que injetassem fan service, situações maliciosas e ideologia de gênero. A menos que caísse na mão de um diretor sofisticado e capaz de entender o senso de encantamento da obra original.

Valeu! Abraços!

Gabriel disse...

Estava pensando em assisti-lo, mas não sabia desse fato dos roteiros alterados. Ainda bem que você alertou.
Agora preciso achar a versão com áudio original e legendas. O que acho que não existe, depois de dar uma pesquisada rápida.
Acho que serei obrigado a ler o mangá.

Valeu ^^

Alexandre Nagado disse...

Oi, Gabriel.

Uma vez, o tradutor Arnaldo Oka comentou comigo que havia assistido alguns episódios no original. E disse que achou estranho, pois havia histórias cujo roteiro não tinha nada a ver com o que ele tinha assistido. E por incrível que pareça, as histórias redigidas pelo Baroli faziam tanto sentido quanto as originais. Ele achou sensacional quando soube desse fato da perda dos roteiros que o Baroli teve que redigir para os dubladores brasileiros. Poderia ter saído algo idiota e sem nexo, mas o resultado foi único. Agora, pra conhecer melhor a obra do Tezuka, claro que tem que ir atrás do material original.

Valeu! Abraço!