terça-feira, 12 de junho de 2018

Rodrigo de Goes, meu irmão nos quadrinhos

Jaspion e Change Kids, duas revistas elaboradas
e escritas por Rodrigo de Goes.
Na noite do dia 11 de junho de 2018, faleceu, aos 50 anos, o roteirista e escritor Rodrigo de Goes. Ele trabalhou nos quadrinhos brasileiros de Jaspion e Street Fighter, sendo que antes já havia feito roteiros para Turma da Mônica e Xuxa.

Rodrigo, em foto
de 2003.
Em 1990, foi o roteirista de todas as 12 edições da revista Jaspion, pela Editora Abril. Na mesma época, foi um dos principais criadores da versão Change Kids, trabalhando também na revista Astral da Turma, todas produzidas pelo Studio Velpa. Grande fã de séries japonesas, também escreveu Changeman, como parte da revista Jaspion.

Conheci o Rodrigo em 1990. Com o sucesso de Jaspion e Changeman na TV Manchete, a editora EBAL havia lançado um gibi nacional e eu tinha vontade de colaborar. Procurei a licenciante, a Alien International, que me colocou em contato com o Studio Velpa, que iria produzir uma nova revista do Jaspion para a Editora Abril

Lá, fiz um teste e fui chamado para conversar e me unir à equipe de produção. E foi nessa reunião que conheci o Rodrigo e sua esposa Sonia Tizuka Uemura, desenhista que havia trabalhado no setor de merchandising da Mauricio de Sousa Produções

O Rodrigo era o responsável pelos roteiros do Velpa e foi ele que me abriu espaço para escrever Flashman na revista do Jaspion. Na prática, ele deu a GRANDE CHANCE de toda minha vida, permitindo minha entrada no mundo profissional dos quadrinhos. Ele criou uma saga monumental que ocupou as 12 edições da revista, mostrando influência do americano Jim Starlin e suas sagas cósmicas na Marvel. 
SF 17, totalmente escrita pelo
Rodrigo de Goes (1996).
Capa e desenhos: Arthur Garcia
Alguns anos depois, quando eu estava escrevendo o gibi Street Fighter, pra editora Escala, eu chamei o Rodrigo para escrever algumas histórias e ele produziu grandes trabalhos na publicação. Ele escrevia melhor do que eu, tinha mais experiência (profissional e de vida) e deu enorme apoio e segurança em cada projeto que embarcou comigo. 

Em 1995, quando editei a revista Master Comics (Escala), o Rodrigo criou o herói ATON - O Cavaleiro da Estrela, em parceria com o desenhista Roberto Martins. Tempos depois, trabalhou com o quadrinhista Arthur Garcia no gibi Daniel, o Anjo da Guarda (Escala). Grande entusiasta de cultura pop japonesa, escreveu alguns artigos para a revista Henshin (Ed. JBC). Versátil, escreveu quadrinhos didáticos e institucionais, além de textos publicitários. 

Em 2003, foi um dos autores que convidei para participar da coletânea Mangá Tropical. Para esse projeto, Rodrigo criaria a personagem Yurei, em uma ótima HQ ilustrada pela grande Denise Akemi. Coincidentemente, estava escrevendo sobre esse álbum na noite anterior, e lembrei muito do Rodrigo. E na manhã de hoje, soube que ele havia partido. Quanta saudade!
Daniel, O Anjo da Guarda (2001).
Capa e desenhos de Arthur Garcia.
Em 2011, fizemos um último trabalho juntos, o e-book Cultura Pop Japonesa - Histórias e Curiosidades. Depois, ele foi ficando recluso, preferindo se afastar dos quadrinhos e dos amigos da área. Eventualmente, eu escrevia para ele e tinha respostas meio lacônicas. Estava muito claro que era um afastamento intencional. Estava cansado. Respeitei, mas de vez em quando mandava alguns links de postagens do Sushi POP, na esperança de ter algum retorno. 

O vazio que fica é muito grande, pois eu o tinha como alguém muito especial na minha vida. Especialmente nos anos 1990, ficávamos conversando horas ao telefone e pessoalmente. Tinha uma cultura impressionante, um humor afiado e conversava praticamente sobre qualquer assunto com desenvoltura. Sempre tinha um ombro amigo, uma palavra de incentivo e, posso garantir, foi meu terapeuta informal por muito tempo, ouvindo pacientemente meus problemas sempre que fosse preciso. 

Internado por conta de uma crise de asma, sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. O peso de sua partida só não é maior por causa de todos esses anos de afastamento, mas as inúmeras lembranças ficarão. Praticamente, perdi um irmão. 

Rodrigo de Goes nasceu em 1 de setembro de 1967 e era de uma família de músicos profissionais. Era apaixonado por quadrinhos, séries de TV e conhecia música como poucos. Deixou a Sonia, uma companheira que esteve ao seu lado em todos os momentos. A ela e aos familiares do Rodrigo, meus sinceros sentimentos. 

Onde quer que esteja, Rodrigo, fique em paz. Você foi um dos grandes! 


::: E X T R A S :::

Entrevista do Rodrigo para o site Super Street Fighter RPG Brasil 

- Algumas capas de revistas com roteiros do Rodrigo, no Guia de Quadrinhos 

- Matéria no Omelete sobre o Jaspion no Brasil, incluindo seus quadrinhos 

16 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Nossa, Nagado. Que triste, meu nobre. Perder um amigo assim não deve ser nada fácil, além de ter partido tão novo, digamos assim.
Eu cheguei a ter alguns exemplares de Daniel, que tinha traços bem parecidos com os do Akira Toryama. Lembro de ter adquirido essas revistinhas para referência, que deu certo. Muitas vezes a gente vê a obra e não dá a devida lembrança ao nome do autor - foi o meu caso. Vi alguns títulos desses aí, além de seu livro nas bancas, mas não associei o nome do Rodrigo.

Que Deus possa confortar seu coração, da família e amigos.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Adelmo.

É, o Rodrigo sempre fez muita falta. Durante esse exílio autoimposto, tanta coisa mudou na minha vida que eu queria ter compartilhado com ele. Nossas conversas eram sobre quase tudo e sempre havia muitos risos. Ele também adorava mangá, tokusatsu, seriados americanos clássicos, todo tipo de quadrinho... Era alguém que as pessoas gostavam de ter por perto.

Eu lamento pelo afastamento que houve, mas sempre deixei as portas abertas para uma retomada de contato. Tentei algumas vezes, mas fui percebendo que era melhor respeitar sua decisão. De vez em quando, pensava em como ele estaria ou se um dia ele voltaria a manter contato. Uma pena, mas a vida segue.

Obrigado! Um grande abraço!

Usys 222 disse...

Nunca o conheci pessoalmente, mas gostava de seu trabalho. Realmente uma pena.

E uma pena ainda maior ele ter se afastado por tanto tempo e a notícia que se recebe é a de sua partida. Acho que pensar nele foi um aviso. Uma despedida que ele te mandou.

Lamento a perda, não só de alguém que foi um bom profissional, mas também uma grande pessoa em sua vida.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Usys.

Cara, foi uma triste sincronia mesmo, como a vida é misteriosa... Deus sabe como eu tentei manter contato, mas precisava respeitar seu desejo de isolamento.

Se eu comecei cedo na área, em parte foi graças ao Rodrigo. O mestre Ismael me preparou, e quando o Studio Velpa deu a chance com aval do Rodrigo, larguei um emprego em uma agência de publicidade e fui fazer HQ com total dedicação. E fiz o certo, aprendendo muito no processo. O Rodrigo foi uma daquelas pessoas que eu tive muita sorte por ter conhecido. Sorte, não. Bênção.

Grande abraço!

Sonia Uemura disse...

Oi, Nagado.

Obrigada pela homenagem.

Você sempre foi um amigo muito querido e sempre lembrado.

Eu também tive muita sorte de ter sido companheira do Rodrigo e ter aprendido e ganhado tantas coisas boas, inclusive um amigão como você.

Um abração bem gostoso!!!

Alexandre Nagado disse...

Sonia, obrigado por escrever aqui.

A conexão com o Rodrigo era grande, mesmo à distância. Eu realmente estava lembrando bastante dele na noite em que ele partiu. Estava escrevendo sobre os bastidores do Mangá Tropical, no qual ele participou intensamente, inclusive me acompanhando em alguns debates e entrevistas na época do lançamento. Em breve, publicarei isso.

E obrigado pelo carinho e força de sempre. Tenha a certeza de que eu, o Arthur e outros amigos temos boas histórias para lembrar pelo resto da vida. E, no devido tempo, boas risadas virão ao lembrar das inúmeras situações que passamos e das intermináveis conversas. Depois nos falamos.

Abraço enorme!!

Detonation Uchiha disse...

Meus sinceros pêsames.

Cheguei a ler os quadrinhos de Street Fighter do Rodrigo, e é realmente uma grande pena, pelo que vi em seu texto, perecia ser um grande homem.

Que Deus conforte você, a família e todos os amigos dele e que ele possa descansar em paz...

Refer disse...

Olá Alexandre... há muito tempo não visitava seu blog; fiquei sabendo do falecimento por meio de um email de Franco de Rosa recebido ontem, e hoje apareceu no meu Facebook. Lamento sua perda.

Abs desse teu fã.

rf

Alexandre Nagado disse...

Oi, Uchiha!

Sim, um grande sujeito se foi. Que as orações estejam direcionadas para a família e sua companheira. Que não lhes falte amparo, pois é no dia a dia que a ausência é sentida.

Obrigado pelo apoio de sempre. Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Refer.

Eu também recebi a mensagem do Franco, mas já havia sido avisado antes. Achei incrível ele também ter tido um caso de sincronicidade, tendo encontrado e lido um gibi do Rodrigo na mesma noite.

Vamos em frente.
Valeu, grande abraço!

Raphael disse...

Caramba Nagado, é chocante alguém partir tão cedo. Ele realmente me marcou pelo trabalho nas revistas Street Fighter, salvo engano foi quem roteirizou a saga Akuma que infelizmente não teve seu final publicado, não foi? Sei que foi por motivos alheios à vontade dos autores. Ficam as boas lembranças, então.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Raphael.

Foi muito repentino para os amigos, que nem sabiam como ele estava. E a Saga de Akuma foi um grande trabalho, que infelizmente ficou incompleto. A editora teve muitos atrasos alheios à nossa vontade e o contrato com a Capcom venceu antes que a última edição fosse publicada. Mas a história foi totalmente finalizada e ficou na editora. Era uma grande aventura e merecia um dia ser publicada na íntegra, como uma edição especial.

Valeu! Abraço!

Anônimo disse...

Nagado, boa noite!
Marcos nos comentários.

Estou há um tempo sem aparecer por aqui, e quando retorno, me deparo com essa triste notícia.
Meus pêsames.
Espero que ele esteja em um lugar melhor do que aqui.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Marcos. Obrigado, foi uma perda enorme. Pessoalmente, foi como quando faleceu meu mestre Ismael dos Santos. Que já tinha mais de 80 anos, de uma vida absurdamente produtiva. O Rodrigo ainda tinha muita história pra contar, mas Deus é quem sabe dos planos que tem pra gente...

Valeu. Forte abraço!

Resistência Tokusatsu disse...

Uma pena msm, campeão. Lembro bem dos trabalhos dele no Jaspion...me chamou atenção a seriedade dos roteiros (embora, a revista tenha sido criada para um público infantil). Fiquei sabendo que o desenhista da época (heróis da tv) tbm se foi.. .o Carlos Pacheco. Uma pena...meus sentimentos a vc e os amigos/familiares.

Alexandre Nagado disse...

Olá. O Rodrigo gostava muito das sagas cósmicas da Marvel dos anos 70 e 80 e conseguiu levar essa atmosfera para o Jaspion. Era divertido.

E o João Carlos Pacheco desenhou algumas poucas histórias dessa época. Grande profissional, fez obras como "Força Ômega" e "Cyber: Máquinas + Heróis", em parceria com Arthur Garcia. Ele faleceu em 1995, sendo uma grande perda para os quadrinhos nacionais. Ele e o Rodrigo devem estar colocando o papo em dia.

Valeu! Grande abraço!