sexta-feira, 15 de junho de 2018

Mangá Tropical - Lembranças de um projeto de HQ nacional

Há 15 anos, a Editora Via Lettera lançava o álbum brasileiro intitulado Mangá Tropical. É hora de mais um relato sobre bastidores do mercado editorial.
A capa, com arte de EdH Müller (desenho)
e Salvatore Aiala (cores).
Lá por volta do ano 2000, eu estava com vontade de tentar um projeto diferente de quadrinhos. Havia algum espaço nas editoras, algum mercado ativo e não custava sonhar. 

Em conversas com os bons e velhos amigos Arthur Garcia e Rodrigo de Goes (falecido nesta semana), surgiu a ideia de um gibi voltado ao público feminino. Seriam historinhas de humor e drama, focando no cotidiano. A revista iria se chamar Wink e a ideia era mostrar pra Editora Escala ou alguma outra. 

O problema é que, com cada um correndo com seus afazeres, o projeto nunca decolou. Mas eu havia começado uma HQ de uma personagem que eu havia batizado de Dani. Antes disso, usei ela numa HQ de 4 páginas de um curso de desenho da Escala do Watson Portela. Depois, como artista convidado, fiz uma HQ de 8 páginas na revista Desenhe e Publique Mangá, da Ed. Escala. Fui pago para isso, por isso digo que fui artista convidado, já que a revista foi criada para publicar autores iniciantes (que não recebiam). 

A personagem, uma jovem aspirante a desenhista, tinha obviamente muito da minha vida, e muito de garotas que eu conheci. Bom, procurei a Via Lettera, que tinha como sócio o Jotapê Martins. Na época, o Jotapê havia me convidado para participar do então iniciante site Omelete como redator e por isso tínhamos contato. A princípio, a Via Lettera iria publicar um álbum da Dani, mas os meses se passaram e eu estava realmente enrolado com meu trabalho. Daí, procurei novamente o Jota e perguntei se não seria legal fazer uma coletânea de autores que fizessem estilo mangá. Ele topou prontamente e deu aval para começar a organizar o trabalho.
Cena de Yurei, história de Rodrigo de Goes
com arte de Denise Akemi.
Então, chamei primeiro meus então companheiros de empreitada. O Arthur topou fazer uma HQ, assim como o Rodrigo, que eu indiquei para fazer um roteiro pra excelente Denise Akemi, que fazia uma revista na época chamada Tsunami (Trama Editorial). De minha parte, eu faria uma história com a personagem Dani.

A dupla da série Holy Avenger, o roteirista Marcelo Cassaro e a desenhista Erica Awano, foram os seguintes a se juntar ao projeto. Fábio Yabu, famoso com seus Combo Rangers, participou escrevendo uma HQ para o então astro em ascensão, Daniel HDR, que havia desenhado uma HQ oficial de Digimon (e depois iria muito mais longe). 
"A paz pede passagem", de
Fabio Yabu e Daniel HDR.
Por indicação de um amigo em comum, a roteirista Elza Keiko (que seria depois editora de mangás na Panini) se juntou ao grupo e indicou um outro amigo, o talentoso EdH Müller, para ilustrar sua história. Arthur Garcia trouxe o arte-finalista Silvio Spotti para ajudá-lo e depois chamamos o letrista Alexandre Silva. Foram seis HQs de 13 páginas cada, mais biografias e algumas ilustrações avulsas. A capa foi do EdH Müller, que mostrou uma ilustração pronta que eu aprovei, apenas sugerindo uma pequena alteração. As cores foram do mestre Salvatore AialaFinalmente, convidei a renomada professora Sonia Luyten para escrever o prefácio da obra e ela gentilmente aceitou. 

Ao longo dos meses, os autores foram enviando seus trabalhos, a maioria cumprindo os prazos inicialmente estipulados. A única condição que estabeleci foi que todas as histórias deveriam apresentar uma ambientação real em cidades brasileiras. 


Precisei administrar um probleminha aqui, outro ali, mas quando se lida com profissionais, é outra coisa mesmo. O trabalho foi concluído no final de 2002, com lançamento em 2003, com direito a coquetel cheio de gente da área no aconchegante Consulado Mineiro, no bairro de Pinheiros (zona norte de SP, capital), que por acaso era o bairro onde eu morava. 

Depois de pronto, cumpri uma maratona de atividades, em cada uma levando alguns colaboradores comigo. Foram entrevistas na TV, jornais e alguns eventos com debates, incluindo um muito bacana no Centro Cultural São Paulo

Erica Awano, Rodrigo de Goes, Nagado, Sonia Luyten,
Alexandre Silva, Silvio Spotti e Arthur Garcia.
Debate sobre HQ no Centro Cultural São Paulo.
Sobre os participantes, uma coisa que nunca esqueço foi que, em uma oficina de HQs em São Paulo, um aluno que tinha comprado o Mangá Tropical perguntou como eu havia conseguido reunir tantos autores profissionais, alguns bem famosos na área. Eu apenas respondi "Peguei o telefone e comecei a ligar para as pessoas." Veio um "Uau!" Não estava contando vantagem, é que eu realmente não havia entendido a surpresa dos alunos, uma ficha que caiu só depois. Para mim, eram colegas de ofício, gente que, se eu não conhecia pessoalmente, conhecia o trabalho e eles a mim. 

Em termos financeiros, como um álbum que vai pra livraria é similar a um livro, ficou estipulado que seriam pagos royalties de 7% sobre o preço de capa, a ser partilhado entre todos os autores. A tiragem foi de 1500 exemplares e hoje se encontra praticamente esgotado, sem chance de reimpressão. Financeiramente, é óbvio que não valeu a pena, mas o objetivo artístico foi alcançado, com um bom registro dos profissionais então na ativa. 

Na época, como a repercussão na mídia foi muito boa, houve convites por parte do Jotapê para fazermos um volume 2 ou até para fazermos de forma recorrente, como era a Front, uma coletânea de autores que a Via Lettera produzia na época. Devido ao desgaste, nem considerei fazer um novo álbum, mas o trabalho permanece como algo que me dá muito orgulho por ter feito. 

MANGÁ TROPICAL

Especial 
- Roteiro: Marcelo Cassaro / Arte: Erica Awano
A paz pede passagem
- Roteiro: Fabio Yabu e Daniel HDR / Arte: Daniel HDR / Retículas: Jae Woo
Dani - Pequenos gestos
- Roteiro e arte: Alexandre Nagado / Assist. de arte: Elza Keiko / Letras: Alexandre Silva
Um certo César Bravo - Lubisome
- Roteiro e arte: Arthur Garcia / Arte-final: Silvio Spotti / Letras: Alexandre Silva
Sinceramente...
- Roteiro e letras: Elza Keiko / Arte: EdH Müller / Retículas: Carolina Myllius 
Yurei - Um fantasma na noite
- Roteiro: Rodrigo de Goes / Arte: Denise Akemi

Editores: Jotapê Martins e Monica Seincman
Projeto e coordenação editorial: Alexandre Nagado
Capa: EdH Müller (desenho) e Salvatore Aiala (cor)
Prefácio: Sonia Bibe Luyten
Design gráfico: Elza Keiko
Formato: 16 x 23 cm, com 92 páginas
Editora: Via Lettera (2003)

Além do álbum:
O jornalista e blogueiro Patrick Raymundo de Moraes fez um estudo de caso para seu TCC de jornalismo sobre a trajetória do mangá no Brasil, destacando o Mangá Tropical. Fui convidado para ilustrar a capa e o resultado pode ser encontrado na Amazon em formato digital
Um estudo sobre o mangá
feito no Brasil. 

8 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Que bacana! Tenho saudades das publicações dessa época. Já disse o quanto sou fã do trabalho da Denise Akemi e sinto muito por não ter mais notícia alguma dela. Outros autores também são bem conhecidos da época em que revirava as bancas procurando tudo que fosse sobre como desenhar.
Lembro da Desenhe e Publique Mangá e de vários outros títulos, da editora Escala.
Imagino o trabalho que tenha dado para montar esse projeto, que não cheguei a conferir e até por não ter visto nas bancas nessa época.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Adelmo!

O Mangá Tropical foi somente para livrarias, mas esteve à venda na Siciliano, Saraiva, Nobel e Livraria Cultura, as principais. Deu um baita trabalho deixar tudo redondinho. As pessoas que criticam o mercado não fazem ideia do que é produzir profissionalmente.

Sobre a Denise, sei que ela ficou um bom tempo produzindo ilustrações para uma coleção de aulas de desenho em estilo mangá para o mercado americano. Atualmente, não sei por onde anda, mas é uma figura muito querida e talentosa.

Valeu! Abração!

Patrick R Paray BR disse...

Oi, Nagado! Fico muito honrado pelo meu estudo ter sido lembrado! Obrigado! O Mangá Tropical é uma antologia que guardo com grande carinho e respeito!

Gustavo Reis disse...

Não sei se é coisa de historiador, mas adoro essas coisas de memória! Lembro de ter visto em uma Saraiva anos atrás, mas era duro hehehehe. Histórias assim devem ser lembradas, muita gente mais nova nem faz ideia de quem esteve por aí antes deles. Ótima matéria!!! Outro tempo, outra mentalidade, mas a mesma paixão pelo mangá!

Alexandre Nagado disse...

Oi, Gustavo!

Naquela época, havia um mercado, mas já estava bem ruinzinho, com poucas alternativas. Ainda assim, tentávamos nos manter na ativa, acreditando em dias melhores. O Cassaro, a Erica, o Arthur e o Daniel HDR seguiram em frente fazendo HQ. O resto de nós foi se dedicando mais a outras atividades, alguns conseguindo sucesso. Eu estou "aposentado" de fazer quadrinhos, só faço algo bem eventualmente, mas quero ver as coisas darem certo pras novas gerações.

Agora, a bola está com vocês, do Shonen Comics e similares. Boa sorte!

Abração!

Alexandre Nagado disse...

Oi Patrick. Eu que fico contente pelo nosso trabalho ter inspirado um estudo acadêmico. Fizemos o melhor que podia ser feito e tenho orgulho do resultado.

Valeu! Grande abraço!

Gabriel disse...

Adora essas histórias de bastidores. Muito obrigado por compartilhar essas experiências.

Só achei o retorno financeiro muito baixo, ainda mais que tinha de dividir entre todos os autores.
Desde sempre, vocês que fazem quadrinhos, são uns heróis. Porque ter todo esse trabalho por um retorno pequeno, fazendo muito mais por amor do que por grana, são poucos os que encaram.

Amaro Braga disse...

Realmente, algo pioneiro e que marcou época!
Ótimo relato dos bastidores.