quinta-feira, 3 de maio de 2018

Comic Girls - Um animê sobre garotas que fazem quadrinhos!

Da esquerda p/ direita: Ruki, Tsubasa, Kaoruko e Koyume.
Dividindo a moradia e os sonhos.
No Japão, terra do maior mercado de trabalho para profissionais dos quadrinhos, muitos jovens sonham em criar suas próprias histórias e ter uma lucrativa carreira. Mas, em um setor altamente competitivo, só os bons conseguem se manter e a maioria fica pelo caminho. Aliás, não basta ter talento, pois é preciso estar antenado com o público e ter muita perseverança para fazer seu nome como autor de mangás (ou mangá-ká). E isso vale tanto para homens quanto para mulheres, sendo que fazer quadrinhos chegou a ser uma das carreiras mais almejadas por jovens japonesas. A história de Comic Girls vai acompanhar o sonho e o cotidiano de quatro dessas garotas.

Kaoruko Moeta, a "Chaos-chan" (ou "Kaos-chan"), é uma adolescente que sonha em fazer carreira com mangás de humor no formato yon koma, que são tiras verticais de quatro quadrinhos. Com apenas 15 anos, chegou a publicar em uma antologia profissional, mas sua série foi cancelada por ter ficado em último lugar na votação de preferência dos leitores. Porém, como sua editora Mayu Amisawa confia em seu potencial, deixou uma porta aberta para ela apresentar outro projeto. 


Chaos-chan: Aprendendo a ser uma
profissional, aos trancos e barrancos!
A fim de encorajar a insegura menina a progredir, a editora sugere que ela se mude para uma pensão feminina onde moram autoras de mangá mais experientes. Pequenina para a idade e um poço de ansiedade combinada com baixa autoestima e pessimismo, Chaos terá que amadurecer tanto como artista quanto como pessoa. Cheia de inseguranças, ela parte rumo ao seu desafio.


Lá chegando, ela conhece outra recém-chegada no Dormitório Bunhousha, a alegre Koyumi Koizuka. Ela produz um mangá shojo (para garotas) romântico e desenha bem figuras femininas, mas é um desastre com personagens masculinos. Apesar do apelido "Koisuru Koyume" ("Apaixonada Koyume"), nunca se apaixonou de verdade. As outras duas moradoras são as veteranas Ruki Irokawa e Tsubasa Katsuki

Koyume, sonhadora e um pouquinho comilona. 
Ruki é secretamente uma autora de mangás eróticos. Seu sonho era fazer mangás infantis, mas seu desenho elegante e seguro fez a editora encomendar a ela histórias eróticas. Bem a contragosto, acabou agarrando a oportunidade, mas fez questão de inserir drama e romance, o que lhe permitiu conquistar um público cativo de leituras jovens adultas. Morre de medo que sua família descubra o que faz e suas heroínas de formas generosas lhe valeram o apelido de Bakunyu ("Peituda") Himeko. Quando é convidada para uma sessão de autógrafos, seu sonho vira um pesadelo. 

Finalmente, Tsubasa Katsuki, conhecida pelos leitores como Wing.V, se consagrou no mercado de mangas shonen (para garotos), criando histórias cheias de aventura e heroísmo. Ela tem um jeito masculino, faz cosplay de seus heróis quando precisa se motivar e desperta estranhos sentimentos em Koyume.

As veteranas Tsubasa (esq.) e Ruki.
Apesar de aparentar serem mais velhas, Ruki e Tsubasa têm a mesma idade das iniciantes e todas frequentam o primeiro ano do ensino médio. Três das jovens autoras, inclusive, estudam na mesma classe. Na pensão, elas ficam sob os cuidados da maternal gerente Ririka Hanazono.

O cotidiano na pensão é corrido, com as meninas tendo que cumprir os rigorosos prazos enquanto tocam os estudos do ensino médio. Elas se ajudam mutuamente como assistentes e as novatas vão ficando cada vez mais encantadas com a profissão.

Comic Girls explora o mundo dos mangás sob a ótica de quatro garotas muito diferentes entre si, mas com o mesmo sonho e o mesmo amor pelos quadrinhos. A ideia do dormitório povoado de desenhistas remete à lendária pensão Tokiwa, onde viveram mestres como Osamu Tezuka, Shotaro Ishinomori, Takao Saito, a dupla Fujiko F. Fujio e tantos outros. 

Guardando as devidas proporções, lá se repete algo que foi diversas vezes narrado pelos ex-moradores: os autores se ajudavam, bancando um o assistente do outro quando os prazos apertavam. E assistentes, no caso, fazem retoques, preenchem espaços de preto, aplicam efeitos gráficos, fazem letras e até completam cenários ou fazem colorização quando necessário, ajudando no que for possível para que o autor se concentre na parte mais criativa do trabalho. 
As meninas, no traço da autora Kaori Hanzawa. 
Trazendo muitas situações pelas quais autores de mangá passam, deve haver toques autobiográficos da autora Kaori Hanzawa. Nascida em 2 de abril de 1985, ela iniciou carreira aos 15 anos, assim como as personagens de Comic Girls

A série começou a ser publicada como tirinhas yon koma na revista para jovens adultos Manga Time Kirara Max, da editora Houbunsha, em 2014. No total, já rendeu três volumes compilando suas histórias e a série ainda está em produção. 

O animê, assinado pelo Studio Nexus, estreou em abril e é transmitido para o Brasil via simulcast para assinantes do Crunchyroll toda quinta-feira, à partir das 13h00. Os não-assinantes devem esperar uma semana para assistir o episódio mais recente, de acordo com os termos de uso do portal. A animação tem boa direção e a série vale um olhar atento, mas cabe aqui fazer algumas críticas pontuais. 

Capa da Manga
Kirara Max,
destacando a série
Comic Girls (2018).
Há o tradicional e quase obrigatório fan service explorando o físico generoso e sensual de uma das garotas e muitas situações maliciosas entre elas. Isso é uma muleta narrativa pra atrair audiência de marmanjos, com um pé na pedofilia. É totalmente desnecessário e apelativo e incentiva atitudes que o Japão tem tido dificuldades para lidar, mesmo com pressões estrangeiras para restringir a erotização de adolescentes na mídia. 


Inclusive, tirando o lado apelativo, a história se sustentaria perfeitamente bem. O dilema que vive a personagem Ruki (fazendo mangá erótico sem gostar) representa algo que acontece com muitos autores, que se deixam direcionar para um nicho de mercado ou um tipo específico de história devido a pressões dos editores. As impiedosas e soberanas votações de público também decretam a permanência ou o fim de uma série ou até de carreiras. 

A produção de quadrinhos no Japão existe em um mercado forte e cheio de regras, modelos e imposições das empresas que publicam as revistas. Na verdade, são poucos os autores que conseguem se estabelecer com um trabalho autêntico e livre de interferências, em maior ou menor grau.

Curiosamente, a presença de fan service nessa série também espelha a situação de Ruki, rendendo-se também à lógica de mercado. E, assim como a autora fictícia que caprichou no drama e romance para dar relevância ao seu trabalho, essa série tem momentos muito divertidos e outros bem tocantes, o que faz a obra ganhar destaque para além do fan service. Não deixa de ser, por isso mesmo, uma obra cheia de contradições, mas que consegue mostrar o valor do esforço e da colaboração entre pessoas que partilham os mesmos sonhos. 

Trailer oficial:



Ficha técnica

COMIC GIRLS ~ こみっくがーるず

Estreia: 05/04/2018
Emissoras: Tokyo MX, BS11, KTV, AT-X
Exibição internacional: Crunchyroll
Total: 12 episódios
Classificação indicativa: 16 anos (sugestão)

Criação: Kaori Hanzawa
Roteiro: Natsuko Takahashi
Trilha sonora: Kenichiro Suehiro
Direção: Yoshinobu Takumoto
Realização: Studio Nexus

Elenco:
Kaoruko Moreta: Hikaru Akao
Koyumi Koizuka: Kaede Hondo
Ruki Irokawa: Saori Oonishi
Tsubasa Katsuki: Rie Takahashi
Ririka Hanazono: Aya Endo
Mayu Amisawa: Minami Tsuda 

4 comentários:

Anderson disse...

Tenho até certo medo de que se Little Witch Academia continuar os produtores fiquem tentados a colocar cenas apelativas para agradar o considerável fandom adulto.Se certas coisas não mudarem os mangás e animes se tornarão alvo preferencial de SJWS.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Anderson!

O fan service virou uma praga. No entanto, acho que a maioria dos SJWs (Social Justice Warriors) é formada por jovens e muitos destes gostam de animê e mangá em geral. Talvez eles vejam só como diferenças culturais ou sua libido se alinhe com a dos coroas babões que ficam alimentando essa indústria do fan service.

O que eu gostaria é que essa "muleta" narrativa fosse banida, em nome da qualidade do roteiro e de um maior respeito às mulheres.

Obrigado pela participação! Abraço!

Usys 222 disse...

Ao ler o resumo também não consegui deixar de pensar na Pensão Tokiwa. Interessante a ideia de fazer algo parecido com desenhistas femininas.

Na verdade antes desse já existia uma série erótica com essa mesma temática e os problemas das desenhistas são bem parecidos. Ora tem uma que é iniciante e conhece o corpo feminino, mas não tão bem o masculino. E tem a veterana que se firmou com histórias mais leves e românticas, mas recentemente mudou para uma linha mais pesada e sombria como ela queria desde o começo, o que fez com que ganhasse mais fãs, mas perdesse outros. E até sofrendo ataques pela internet. Fora isso tem várias outras, cada um com um problema. E nesse, "fan service" chega a soar como uma expressão meiga e graciosa.

Mas para conhecer bem o mercado editorial, inclusive a parte amoral e questionável, ainda acho que o melhor é Hoero Pen, de Kazuhiko Shimamoto. Que mostra que quem chega lá não é necessariamente aquele que tem as melhores técnicas e sim quem sabe jogar o jogo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Sim, "jogar o jogo" é um termo perfeito, que me fugiu na hora de escrever a matéria. É bem por aí mesmo. E você mencionou essa série do Shimamoto... Eu já ouvi falar dela, deve ser muito interessante. Eu me interesso por essa parte de bastidores e processos criativos. Bakuman, que eu só li uma parte, me soa muito romanceado, quase um fabricante de sonhadores. Um sobre o qual eu escrevi aqui faz tempo, o "Henshuu ou", me parece mostrar um contraponto, uma visão do editor. (https://nagado.blogspot.com.br/2010/11/o-rei-dos-editores-henshuu-ou.html)

Comic Girls começa com a Kaos-chan recebendo a notícia de que fracassou na revista, mas terá outras chances. E as conversas com a editora são muito objetivas, são pessoas que sabem o que querem e buscam convencer os artistas. A vida é dura e cheia de privações para quem leva o mangá como profissão e isso é mostrado.

O início da série foi bem legal e por isso escrevi uma resenha e fiz pesquisa. Já o quinto capítulo (que vi hoje) foi um típico episódio de praia - e dá-lhe fan service! - e muito romance entre duas das garotas. Tomou um rumo bem diferente do que os primeiros capítulos mostraram. Talvez se foque mais nos relacionamentos entre as meninas do que no cotidiano profissional. Em todo caso, vou acompanhar.

Falou! Abraços!