quarta-feira, 28 de março de 2018

Operação Mistério - O horror da Tsuburaya

Uma boneca sanguinária, uma das imagens mais
famosas da série, que é um clássico de 1968.
Fundada pelo gênio dos efeitos especiais japoneses Eiji Tsuburaya em 1963, o estúdio Tsuburaya Pro conquistou fama mundial com as Séries Ultra, que se iniciaram em 1966 e prosseguem até hoje como uma das maiores franquias da cultura pop japonesa. 

Independente disso, em seus primeiros anos de atividade e sob a direção de Eiji Tsuburaya, o estúdio fez muitas produções experimentais e uma das mais interessantes foi Kaiki Daisakusen 怪奇大作戦, ou "Operação Mistério". 

Exibido entre 15/09/1968 e 09/03/1969, nas noites de domingo às 19h00, era uma série de terror e sobrenatural que teve 26 episódios de meia hora. Foi a série que sucedeu imediatamente a Ultra Seven na emissora TBS e manteve alto o padrão de qualidade vigente no estúdio. 

A vinheta de abertura, uma criativa animação
que seguia bem o estilo do estúdio, consagrado
com as Séries Ultra.
Com episódios fechados e auto-contidos, a série trazia as aventuras de uma equipe de investigadores de uma organização chamada SRI - Science Research Institute. Com muita astúcia e coragem, eles estavam sempre às voltas com crimes bizarros e com elementos sobrenaturais. 

No elenco, o excelente Akiji Kobayashi, o Cap. Muramatsu do primeiro Ultraman (1966), ao lado de Shin Kishida, que interpretou o inventor Sakata, irmão da namorada do herói Hideki Goh em O Regresso de Ultraman (1971). Vários atores que eram ou se tornariam conhecidos em produções da Tsuburaya participaram e a equipe técnica era a melhor que se podia encontrar na época. Com tantos fatores reunidos, a série conseguiu atingir seu público.
A equipe de agentes da SRI - Science Research Institute.
A audiência foi boa, com média de 22% segundo medição da época, sendo que o penúltimo episódio teve o público mais reduzido, com 16,2% e o último bateu o recorde da série, com 25,1%. Uma variação tão grande e incomum que tem tudo a ver com uma série pautada por situações bizarras e inusitadas.

No entanto, a falta de possibilidades de licenciamento para brinquedos (até porque era uma série para adultos) acabou não dando continuidade ao estilo dentro da Tsuburaya, que sabidamente gastava mais do que podia para entregar episódios de boa qualidade. E o que eles faziam na TV em termos de efeitos especiais estava muito à frente do que qualquer outro estúdio da época conseguia fazer no Japão. 
Os atores Shin Kishida (à esquerda) e Akiji Kobayashi.
No roteiro, nomes como Tetsuo Kinjô, Shozo Uehara e Mamoru Sasaki se destacavam, enquanto no comando dos episódios, estavam diretores como Toshihiro Iijima, Hajime Tsuburaya e Akio Jissouji, entre outros. Na supervisão da produção estava o próprio Eiji Tsuburaya, que foi bastante exigente com os efeitos especiais que, mesmo feitos para a TV, foram realizados no mesmo nível do que se fazia no cinema da época. 

A série era voltada para adultos e tinha cenas que, naquele tempo, eram pesadas e perturbadoras, sendo interessantes até hoje. Em uma fase experimental da TV, a Tsuburaya produziu uma série que se tornaria cult entre fãs de terror, com direito a cenas de efeitos especiais excelentes e altamente funcionais. 

Uma seleção de cenas, ao som do tema "Kyôfu no Machi":


A canção-tema "Kyôfu no Machi"  (恐怖の町 ou "Cidade do Terror") era tocada no encerramento, já que a abertura consistia apenas na vinheta de fundo azul com o título. A letra da música foi escrita pelo roteirista Tetsuo Kinjô, com melodia de Naozumi Yamamoto. A interpretação foi do grupo Sunny Tones, que depois mudaria seu nome para The Blessen Four e seria conhecido por gravar diversas trilhas sonoras

A famosa vinheta de abertura inspirou a capa do novo álbum da banda Katokutai, que fez também uma bela versão para a canção-tema da série. E para promover seu novo álbum, Kaiki to Seigi, a banda gravou um clipe recriando a atmosfera de mistério da antiga série. 

Uma homenagem e tanto, ainda mais por fazer o público se lembrar de que nem só com super-heróis e monstros gigantes a Tsuburaya Pro construiu sua fama na criativa década de 1960. 

::: E X T R A S :::

1) Vídeo promocional para o lançamento da coleção em DVD-Box da série (2012):



2) Confira a canção "Kyôfu no machi", na versão do grupo Katokutai (2018):

12 comentários:

Major disse...

Parabéns novamente Nagado! Gostaria (E muito) de assistir essa série, deve ser ótima! Um abraço em bom feriadão!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Major!

Acho que dá pra encontrar alguns episódios no YouTube, mas sem legendas. Essa série parece muito legal mesmo e os vídeos que selecionei são muito interessantes. A produção era muito superior ao que existia no Japão na época.

Um ótimo feriado pra você também e apareça mais vezes!
Abraço!

César Filho disse...

Ah, descobri a existência dessa série há alguns anos, durante uma pesquisa que fazia sobre a Tsuburaya para um evento local e acabei usando alguns trechos do primeiro vídeo para uma breve amostra. Tenho interesse em assistir Kaiki Daisakusen e Mighty Jack (também da Tsuburaya). Infelizmente nunca encontrei legendas (inglês ou português) pra acompanhar. Vou ter que tirar um tempo pra ver os episódios que estão no YouTube com o áudio em japonês. E esse tema de encerramento? É viciante. Quando ouvi pela primeira vez rodei mais umas cinco por causa dessa pegada "jovem guarda". Demorou pra sair da cabeça e aumentou ainda mais minha curiosidade.

Alexandre Nagado disse...

Fala, César!

Os roteiristas que eu mencionei na matéria são três dos meus favoritos. Gostaria muito de ver histórias adultas de Kinjô, Uehara e Sasaki, pois lá eles puderam experimentar ainda mais do que nos Ultras, pois o programa era voltado a adultos. Só os clipes já dão uma ideia do clima de terror e sobrenatural. E a trilha realmente é ótima e a canção gruda na cabeça. Foi uma boa sacada a Katokutai ter dado essa valorizada em Kaiki Daisakusen, ainda mais que a série está completando 50 anos.

E eu espero que, na falta de material oficial, algum fansub dê uma traduzida e organizada no material da série, assim como aconteceu com o Iron King.

E falando no Mighty Jack, foi uma das raras séries tokusatsu a ter episódios com uma hora de duração (a primeira temporada) e está na mira para uma matéria no futuro.

É isso. Continue com seu bom trabalho no Blog Daileon.
Grande abraço!

Usys 222 disse...

A Katokutai desencavou a série e essa matéria foi mais fundo ainda!

Vejo que o seriado foi feito pela elite da Tsuburaya. Tantos grandes nomes na lista assim é de encher os olhos. Dá vontade de checar, mesmo não sendo muito chegado em filmes de terror. E uma pena que Kaiki Daisakusen foi mais uma daquelas séries que tiveram sucesso, mas não conseguiram capitalizar.

O clipe da Katokutai ficou muito bom, contando uma história. Ver de noite foi assustador. E teve a participação do grande Masami Horiuchi, que participou de Ultraman Nexus e Kamen Rider Drive, além de fazer uma ponta no filme do Ultraman Mebius. Esse ator me exerce uma estranha fascinação. Um carisma difícil de explicar. Ele é simpático, mas tem algo que causa medo. Alguém que parece que está escondendo algum terrível segredo. E é isso que eu gosto nele.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!

Essa série é daquelas preciosidades que atiçam a curiosidade. E não tenho medo de me decepcionar, pois tinha muita gente boa envolvida e a resposta de audiência foi positiva.

Uma coisa que me chateia um pouco na Tsuburaya é que ficou muito presa a Ultras e depois a super-heróis. Não que eu não goste, você sabe que eu adoro. Mas projetos mais soltos são sempre interessantes, desde que bem feitos, como parece que foi o Kaiki Daisakusen.

Vejo nos últimos anos a Tsuburaya trabalhando para ampliar e dar mais variedade à franquia principal. Espero que isso lhes permita ousar mais em conceitos e até produzir coisas mais arrojadas, sem ligação com Ultras ou super-heróis.

Claro que hoje em dia a ligação com brinquedos e patrocinadores é ainda mais essencial do que era no passado, mas acho que coisas assim podem ser resolvidas com criatividade. Espero que celebrem os 50 anos do Kaiki Daisakusen com alguma nova versão, assim como fizeram com o Ultra Q - Dark Fantasy. Vamos aguardar.

E esse ator, bem que eu achava ele familiar, mas não lembrava onde o tinha visto.

Valeu, Usys! Grande abraço!

Bruno Seidel disse...

Olá! Mas que achado interessante, ein? Nunca tinha ouvido falar dessa produção.

Eu tenho a sensação de que, na época, tudo pertencia a um mesmo "gênero" que tinha como elemento central a ficção científica, a fantasia e amedrontador. Isso, claro, foi bem antes da franquia Ultra se consolidar como uma linhagem de super-heróis cinquentenária e com dezenas de produções derivadas. E outras franquias populares do Tokusatsu comoKamen Rider, Super Sentai e Metal Heroes sequer existiam ainda.

Então, ao que tudo indica, Kaiki Daisakusen foi mais uma daquelas tentativas experimentais da Tsuburaya que ainda estava aprendendo a mensurar o sucvesso e a representação icônica de Ultraman na cultura pop japonesa. Tanto é que a terceira produção da franquia Ultra só veio depois da morte do Eiji Tsuburaya.

Repare que vários elementos tradicionais do universo Ultra também estão em Kaiki Daisakusen: uma equipe designada apra resolver as constantes "ameaças", ameaças configuradas no ocultismo e até o estilo de direção das cenas. Quem se acostumou a assistir os Ultras clássicos certamente percebe esses elementos em comum.

Eu curto filmes de suspense e terror. Aliás, em alguns lugares os filmes clássicos de Godzilla eram classificados assim mesmo: como filmes clássicos de "Terror", dividindo a prateleira com Sexta-Feira 13, Tubarão, A Hora do Pesadelo, Brinquedo Assassino, O Exorcista, O Massacre da Serra Elétrica...

Aliás, será que se removêssemos o elemento "super-herói" das produções de Tokusatsu o gênero ficaria mais parecido com séries de "Terror"?

Alexandre Nagado disse...

E aí, Bruno!

Realmente, o elemento terror está no DNA do tokusatsu, pois o primeiro Godzilla tinha tratamento assim. Acho que há várias produções tokusatsu em que, se tirarmos o elemento "super-herói uniformizado", ficaria uma série de terror, apesar de que hoje a maioria das séries e filmes ficou mais infantilizado em relação ao que se fazia antigamente.

O Kaiki Daisakusen eu descobri em um guia de tokusatsu que comprei em 1994 e sempre me despertou certa curiosidade. Como não é de heróis e nem está ligado a uma franquia (além de ser para adultos), é frequentemente esquecido, com exceção dos curtos remakes que a Tsuburaya já promoveu.

Quem sabe se, quando anunciarem a comemoração dos 50 anos de estreia, no segundo semestre, não pinte alguma novidade relacionada?

Valeu! Abração!

Stefano Barbosa disse...

Nagado, confira o podcast
http://www.universohq.com/podcast/confins-do-universo-046-o-manga-no-brasil/
Sobre o terror em tokusatsu....
me lembro que vi episódio de Kamen Rider ("Jovem Guarda", 1971) que há referências ao terror. o vilão é 1 morcego antropomórfico que vampiriza as vítimas.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stefano!

Eu vi o podcast, sim, valeu a dica. O Universo HQ é muito bom!

E Kamen Rider tinha muitos elementos de terror sim, o clima era meio pesado em algumas histórias e isso era mais comum na época. O BLACK retomou um pouco disso, ainda mais no início da série.

Falou! Abraço!

Anônimo disse...

Marcos falando.
Nagado, boa tarde.
Essa dica chegou para mim no momento certo!
Acabei de assistir à série Neo Ultra Q e gostei muito.
A partir dela, comecei a procurar por alguma coisa de midnight tokusatsu, e acabei achando o média-metragem do Skull Man e os longas de tokusatsu de Takashi Miike (Zebraman e Zebraman 2: Attack on Dark City).
Agora, além das outras séries Ultra Q, há o Kaiki Daisakusen para assistir.
Percebi um certo crescimento nesse segmento de tokusatsu para adultos nos últimos anos, e, realmente, acho isso muito bom. Garo está fazendo escola!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Marcos.

Há muita coisa interessante no campo do tokusatsu para adultos, mas raramente ganha relevância. Além de GARO, posso indicar Akibaranger, que é bem interessante pra quem acompanha Super Sentai e séries de super-heróis em geral.

Zebraman é interessante, mas acho que o primeiro filme se perde um pouco no final. O 2 ainda não vi.

Valeu! Abraço!