sexta-feira, 23 de março de 2018

Obrigado, Miranda!

O lendário produtor musical Carlos Eduardo Miranda
O produtor musical Carlos Eduardo Miranda faleceu ontem (dia 22), aos 56 anos. Famoso nacionalmente como jurado de programas como o Ídolos do SBT, ele foi muito importante como produtor e crítico musical, especialmente na década de 1990. Revelou, produziu e divulgou muitos artistas que ganharam relevância na área musical. Mas, para mim, sua importância vai mais além.

Em 1992, eu era um garoto de 21 anos que estava começando na área de desenho e quadrinhos. Já havia publicado roteiros na Editora Abril para adaptações licenciadas de heróis japoneses da TV e estava em busca de oportunidades. Mas eu também tinha um lado fã bem forte, pois em 1991 havia organizado, com alguns amigos, um evento pelo Jubileu de Prata do Ultraman. Pois bem, eu havia comprado a revista bimestral SET Terror e Ficção (da Editora Azul, uma divisão da Abril) e, na última página, havia uma chamada para matérias da edição seguinte. Uma delas, consta, seria sobre Ultraman. Daí, liguei pra redação e pedi pra falar com o editor, que era justamente o Miranda. Expliquei que tinha algum material de referência e ficaria contente se pudesse ceder alguma coisa para a matéria. 

O Miranda contou que iria rolar mesmo uma matéria sobre Ultraman, mas que iriam apenas juntar umas imagens e falar meio de nostalgia, mas que não havia exatamente uma pessoa escalada para isso. Eu disse que era roteirista de quadrinhos e ele rapidamente perguntou se eu não gostaria de fazer um teste de redação. Se rolasse, eu mesmo poderia escrever a matéria. Fui pra lá imediatamente! 

E que figura era o Miranda! Enquanto estava lá conhecendo a redação, ele pediu licença um instante, dizendo que precisava fazer uma "cerâmica" no banheiro. Eu não conseguia parar de rir.

Não me perguntou de diploma, experiência, nada. Confiou em mim e pediu uma resenha sobre algum vídeo. Fiz sobre o animê Macross - A Batalha Final, só a título de teste. Ele curtiu e falou que eu poderia escrever sim a matéria sobre Ultraman, que seria curta, mas poderia ocupar uma página inteira se tivesse uma imagem legal. O texto foi sobre o Ultraman Great, produção nipo-australiana que estava para estrear nos EUA. Depois, combinamos mais alguns textos que seriam publicados.
Editada pelo Miranda, esta é a edição
da SET - Terror e Ficção que marcou
a estreia como redator deste que vos escreve.
Na edição da SET sobre o Jurassic Park (1993), escrevi uma página sobre filmes de kaiju, os monstros japoneses, citando Godzilla, Gamera e outros. Foram poucas matérias escritas na SET, mas muito significativas, pois abriram um leque de possibilidades para minha carreira. E lá na redação da Editora Azul eu conheci o André Forastieri, que, em 1994, iria me chamar para escrever em uma certa publicação que ele estava bolando para sua recém-fundada editora ACME, uma tal de revista HERÓI. Que marcou a vida de muita gente e é lembrada até hoje. 

Se hoje a cultura pop japonesa - que ele também adorava - ocupa grande espaço na vida de muita gente, se isso teve relação com a explosão da revista Herói nos anos 1990 e se eu tive participação relevante nisso tudo, é justo dizer que o Miranda teve sua influência em todo esse processo. 

Eu reencontraria o Miranda em uma festa na editora ACME e ele era um cara muito querido por todos. Não tivemos mais contato e eu vi umas poucas vezes ele como jurado no SBT. Agora, fiquei sabendo de seu falecimento. Uma grande perda.

Nunca lhe agradeci pessoalmente pelo generoso pontapé inicial em uma atividade que seria tão importante na minha vida. Mas, tenho certeza, ele nem se deu conta do bem enorme que fez para mim, pois ele era um cara muito desencanado e ajudava pessoas na maior camaradagem. Pessoas como ele são muito raras e especiais. 

Obrigado, Miranda. Você foi Grande! Até um dia. 

6 comentários:

Marcelo Beat disse...

Muito legal a história, Alexandre. O Miranda era demais, e um grande colecionador de tudo o que a gente gosta: quadrinhos, bonecos, DVDs...

Bruno Seidel disse...

Fiquei surpreso e bem chateado com essa notícia! Um cara tão autêntico, generoso e capaz de impactar a vida das pessoas ir embora assim, aos 56 anos, é realmente muito triste. E eu confesso que você foi uma das primeiras pessoas de quem eu lembrei quando tomei conhecimento do falecimento. Lembro de você ter revelado mais de uma vez que foi ele quem abriu as portas para que você tivesse suas primeiras matérias publicadas em uma revista, que na época foi a SET Terror e Ficção. Quis o destino que ele curtisse seu trabalho, te desse essa oportunidade e depois o tempo se encarregou de fazer outras pessoas influentes cruzarem seu caminho. Sem dúvida, o feeling dele naquele momento fez uma diferença enorme. E taí uma coisa que parece ser uma unanimidade entre aqueles que o conheciam bem. O Miranda sempre foi muito respeitado pela sua capacidade de identificar talentos e potenciais, característica essa que o tornou nacionalmente famoso no programa Ídolos do SBT. Claro que, como todo crítico criterioso e treinado, ele deve ter aborrecido e frustrado muita gente, o que contribuiu para sua fama de "rabugento". Mas histórias como essa que você contou da "cerâmica" (tive que rir alto aqui quando li isso!) e seu jeito bonachão de ser mostram que ele foi, acima de tudo, um cara divertido, atencioso e de um enorme coração.

Que descanse em paz e que tenha seu trabalho reconhecido por muitos anos! O legado daqueles que ele impactou direta e indiretamente é infinito e imensurável.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Marcelo!

O Miranda era muito ligado em cultura pop, quadrinhos, rock e tudo o que é divertido. Sabia tudo de música e era dono de uma cultura abrangente. Na época da SET, eu me impressionei ao constatar que ele era capaz de analisar uma sinfonia clássica e um punk rock de três acordes com a mesma sensibilidade. Realmente, um cara muito diferenciado.

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!

Eu fiquei sabendo do acontecido através de você. Havia dormido cedo ontem e acordei tarde hoje. Ao abrir o Twitter, antes de ler as notícias, vi sua mensagem e aí então fui ver o que havia acontecido. O Miranda era uma figuraça de muito carisma e era um cara sem preconceitos. Um cara no Twitter comentou que ele odiaria ser lembrado como jurado de programa de TV. Bobagem, o Miranda não tinha essa vaidade intelectual. Pelo contrário, ele se divertia com essas coisas.

Valeu! Abração!

Usys 222 disse...

Esse era um homem de visão!

Nem te perguntou nada sobre formação ou experiência e fez apenas um teste simples para ver sua aptidão ao trabalho. Nada de enrolações, frescuras ou perguntas desnecessárias. É assim que deve ser um produtor. Alguém que foca no que é pertinente ao trabalho, sem se importar com o background. E ao ver que era o que ele procurava, apostou, ou melhor, teve certeza absoluta de que seu potencial era grande. E a História provou mais tarde que ele estava certo.

Só de ler esse relato já gostei dele. Pude ver que era uma grande pessoa. Uma homenagem justa e creio que ele aprovaria essa matéria.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Usys!

Veja só como o contato com o Miranda deu um novo rumo pra minha vida e carreira! E ele fez isso com muitas pessoas, que hoje têm demonstrado publicamente sua gratidão para com ele. Um grande sujeito, mesmo!

Era um cara sem frescuras, com foco no trabalho sem perder a diversão de vista. Fará muita falta.

Valeu! Abraços!