domingo, 25 de março de 2018

MAI - A Garota Sensitiva: Um clássico esquecido

Capa da primeira edição nacional.
Fonte: Guia dos Quadrinhos
Na segunda metade da década de 1980, os quadrinhos viveram um período de grande destaque na mídia brasileira. Era comum ver matérias sobre HQs em cadernos de variedades dos grandes jornais, ao mesmo tempo em que proliferavam revistas com histórias americanas, brasileiras, europeias e até japonesas nas bancas. 

Nessa época, o primeiro mangá publicado no Brasil foi o Lobo Solitário (Ed. Cedibra), em 1988 e, pouco tempo depois, veio Akira (Ed. Globo, atualmente republicado pela JBC). Aos poucos os quadrinhos japoneses foram ganhando mais adeptos entre os leitores brasileiros até que, em 1992, a Editora Abril resolveu investir no setor, publicando dois títulos: A lenda de Kamui (uma densa aventura sobre um ninja renegado) e Mai – A garota sensitiva

Com personagens desconhecidos pelos brasileiros, as duas séries acabaram não vendendo o que se esperava e a linha de mangás da Abril foi cancelada, bem como iniciativas similares em outras editoras. 


Mai – A garota sensitiva conta a história da adolescente Mai Kuju, uma adolescente meiga e tranquila que começa a manifestar incríveis poderes telecinéticos, sendo capaz de mover e até explodir objetos à distância. E conforme vai crescendo, vai demonstrando outros poderes.
Todas as capas da edição nacional (Ed. Abril).
Ela acaba sendo descoberta pela organização Aliança da Sabedoria, um grupo secreto que planeja criar uma nova raça de paranormais. Prevendo uma inevitável guerra nuclear entre os EUA e a Rússia, eles desenvolvem em segredo jovens com poderes mentais a fim de que eles sejam os primeiros de uma nova raça a governar a Terra quando a poeira atômica baixar. 

Seu líder, o sinistro Sr. Ryu, é quem comanda as ações da Aliança, protegido em sua base nos Alpes suíços. Ele ordena a captura de Mai a qualquer custo e mobiliza todo seu poderio para conseguir isso. A menina, por sua vez, conta com a proteção de seu pai, Shuichium habilidoso lutador disposto a defendê-la a todo custo. Quando eles se separam, Mai é encontrada pelo estudante universitário Takeru “Intetsu” Haguro, que a acolhe e protege com a ajuda de seus amigos, mesmo correndo sério risco. 

Outro que surge atrás da paranormal é o milionário Senzo Kaiedada Agência Kaieda de Investigações. Mas o ancião logo decide proteger a moça para que ela defenda o Japão contra a Aliança. Para tentar recrutar Mai, ou assassiná-la para que não interfira, a Aliança envia outros adolescentes poderosos que já foram aliciados para sua causa. Entre eles está a alemã Turm Garten, cujo poder e crueldade a tornam muito temida. O confronto entre elas é apenas um aperitivo para uma grande batalha paranormal nos céus de Tóquio, que ocorre no clímax da série.


A dramaticidade dos traços de Ryoichi
Ikegami valorizaram a trama simples.
Com roteiro de Kazuya Kudo e arte do reverenciado Ryoichi Ikegami, Mai é uma história que começa com situações de cotidiano e vai evoluindo para uma grandiosa aventura cheia de reviravoltas e muita ação. Em meio a tudo isso, destaca-se a coragem da jovem de
14 anos que vai se deparando com grandes responsabilidades e ainda descobre o amor de sua vida no valente Intetsu. 

O enredo é simples e sem grandes pretensões, mas é valorizado pela arte de Ikegami, que estava em grande fase. Um pouco diferente do que costuma fazer em seus trabalhos mais adultos, Ikegami fez um traço leve, com menos sombras do que o usual e isso deu espaço para um traçado de pincel mais solto na arte-final. Graficamente, um de seus melhores trabalhos, onde imprimiu leveza até mesmo nas cenas - que hoje seriam polêmicas - que traziam a nudez da personagem central. 
Capa de uma edição americana:
Sucesso inesperado que chegou ao Brasil.
A saga de Mai () foi publicada originalmente na revista semanal japonesa Shonen Sunday (Ed. Shogakukan) em 1985, gerando seis volumes encadernados. A versão brasileira foi similar à norte-americana, publicada em 1987 pela Viz/ Eclipse Comics e teve menos páginas por edição em relação ao original japonês, gerando oito volumes. 

Tendo alcançado um sucesso muito maior nos EUA do que no Japão, Mai chegou a ter um projeto de versão em live-action anunciado pelo diretor Tim Burton. Porém, a ideia nunca chegou a ser desenvolvida, sendo que a única informação divulgada na época é a de que Mai The Psychic Girl seria um filme musical (fato que causaria alergia neste que vos escreve).

Mai, como todos os mangás da primeira leva de publicações do gênero no Brasil, tinha a ordem de leitura ocidentalizada. As páginas eram invertidas como em um espelho para que a leitura fosse adaptada para ser feita da esquerda para a direita. Se, por um lado, isso facilitava a difusão do mangá naquele momento, também tornava os personagens destros em canhotos e causava deformações na arte original. As onomatopeias, tão importantes nos trabalhos japoneses, eram redesenhadas nos EUA e tudo isso era feito antes do material chegar por aqui. 
Capas da edição original do mangá.
No Japão, apesar da série ter tido uma duração razoável (foram 53 episódios semanais, o que equivale a praticamente um ano) na Shonen Sunday, não ganhou nenhuma versão em animê. Verdade seja dita, muito de seu sucesso no ocidente se deveu ao ineditismo e à repercussão da primeira grande onda de adaptações de mangás para o inglês. Mas, para os fãs brasileiros, esse foi um dos títulos visualmente mais bonitos que chegaram às bancas naquela fase ainda experimental - e de curta duração - da implantação da cultura do mangá no Brasil. 

Uma republicação atual poderia ser muito interessante, principalmente para que a nova geração de fãs de mangá possa apreciar um belo trabalho de um dos grandes mestres dessa arte. 


Mai - A Garota Sensitiva ~ 
Roteiro: Kazuya Kudo
Arte: Ryoichi Ikegami

Formato: 15,5 x 21 cm, com 148 páginas 
Total: 8 volumes
Lançamento no Brasil: Agosto de 1992 (somente em sebos)
Editora: Abril
Classificação indicativa (sugerida): 16 anos

- Texto originalmente publicado na revista Henshin (JBC, 2001), devidamente revisado e ampliado para publicação no Sushi POP. 

6 comentários:

Rogério disse...

Oi Alexandre,

Que ótimo você trazer a memória deste mangá de volta. Ainda tenho os meus exemplares guardados aqui.

Lembro como era excitante e diferente ver um título assim chegar às bancas na época.

Ótima sensação de estar descobrindo algo novo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Rogério!

Essa sensação que descreveu praticamente não existe mais hoje. A garotada tem acesso a muita coisa e fica rapidamente entediada. O excesso de informação gerou pessoas entediadas e que consomem tudo superficialmente. Não reclamo da praticidade de hoje ou tenho saudade das dificuldades do passado, mas reconheço que o progresso não tornou o público melhor ou mais exigente. Apenas mais consumista, ansioso e superficial.

E que pena que eu não tenho mais minha coleção, por isso gostaria que fosse republicada. A história é fraquinha, mas a arte é das minhas favoritas no conjunto da obra do Ikegami.

Falou! Abração!

anderson disse...

Lembro de ter comprado o primeiro volume quando era garoto em uma banca com várias revistas antigas por já perceber que tinha o mesmo estilo dos meus desenhos preferidos.Cenas de nudez como as desse mangá não incomodavam minha mãe que sabia perceber que não havia pornografia real.Mas certamente causaria polêmica hoje quando é comum reclamarem até do uniforme de Ladybug.

Mauricio disse...

Só o Nagado mesmo para desenterrar essas pérolas esquecidas.
Tenho até hoje tanto o Mai quanto o Kamui, e são mangas que aprecio muito, apesar da versão espelhada, o que deixa tudo meio esquisito, e da impressão e do papel usados, que não são os melhores.
Mas a arte de ambos é mesmo de encher os olhos. Pena que é raro vermos esse tipo de material sendo publicado por aqui.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Anderson!

Eu descobri a arte do Ikegami por volta de 1984, quando comprei um pacote de revistas Shonen Sunday em uma livraria de títulos importados do Japão, a Sol. Os desenhos me deixaram maravilhado. Então, quando a Abril anunciou Mai, fiquei empolgadíssimo.

E realmente, hoje estão "problematizando" tudo, criando discussões e ressentimentos desnecessários. Costumo abordar esses temas espinhosos em outro blog, o Reflexo Cultural. Se tiver interesse, confira um texto sobre a atual geração de pessoas insuportáveis:

https://reflexocultural.blogspot.com.br/2018/02/precisamos-falar-sobre-gente.html

Obrigado pela participação! Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Mauricio.

Sabe, pela minha idade avançada, sinto-me mais à vontade para falar do passado do que do presente, ah ah!

Falando sério, esse lance do espelhamento de imagem é algo que só quem desenha pode avaliar. Muitos desenhos não ficam tão bons quando são invertidos. E não é raro acontecer isso. Meu professor Ismael dos Santos sempre pedia para conferir os esboços olhando o desenho contra a luz para ver a transparência do papel e, assim, perceber melhor certas imperfeições. Para ele, o desenho devia soar igualmente bom mesmo se visto espelhado. E é muito difícil fazer isso, tanto que em mangá é comum notar alguns erros de construção quando o desenho é invertido. Por isso eu gostaria de ter uma edição de Mai na ordem de leitura original. Deve ficar ainda melhor.

Valeu, apareça mais vezes por aqui. Abraço!