sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Bastidores: Ikue Ootani, a dubladora do Pikachu

Olá! Vamos a mais uma história de bastidores da área editorial, enquanto minha memória ainda permite. Desta vez, é sobre uma entrevista histórica. 


Ikue Ootani é a voz oficial do Pikachu para o mundo todo.
Na época em que trabalhava na revista Herói (Ed. ACME/ Ed. Conrad), uma das coisas que eu mais gostava era poder divulgar nas matérias nomes de autores, criadores, roteiristas, atores e cantores. Enfim, o pessoal cujo trabalho a gente via, mas que não conseguíamos ler nas aberturas das séries. Com a ajuda de amigos ou do professor de japonês, eu ia descobrindo os nomes e fui notando que alguns apareciam com mais frequência. Isso foi na metade dos anos 1990.

Quando fui trabalhar na revista Henshin (Ed. JBC), no começo do ano 2000, o momento era outro. Com uma redação no Japão, passou a ser possível entrevistar artistas japoneses e isso abriu enormes possibilidades. Até então, o que havia nas publicações brasileiras eram entrevistas traduzidas de fontes estrangeiras. Esse mérito da Henshin e da JBC poucos hoje lembram ou valorizam, mas foi um marco para o fandom brasileiro. 


E assim, pude sugerir alguns nomes e enviar perguntas para várias entrevistas que foram realizadas, como os atores Jiro Dan (Hideki Goh de O Regresso de Ultraman) e Yuriko Hishimi (Anne de Ultra Seven) ou o compositor de trilhas sonoras Seiji Yokoyama (de Cavaleiros do Zodíaco, Metalder e Winspector). Mas uma delas me deixou particularmente contente. 
Ikue Ootani: Dubladora, atriz e locutora.
Pokémon era um grande sucesso na época e eu já havia visto e escrito muita coisa sobre o tema. Em minhas pesquisas, havia assistido episódios em inglês e japonês, além daqueles dublados em português, claro. Alguns Pokémon tinham nomes diferentes da versão japonesa para a americana, que era a exibida por aqui. Como uma das características dos Pokémon é falar apenas seu próprio nome, com exceção do falante Meowth da Equipe Rocket, as vozes dos bichinhos no ocidente eram diferentes das vozes originais japonesas. Mas o principal deles, Pikachu, mantinha o nome original. E eu me toquei que a voz do Pikachu era mantida a mesma em todas as versões pelo mundo, o que era óbvio. Era uma baita informação e daria uma excelente pauta. 

Peguei uma ficha em japonês e estava lá o nome da moça: Ikue Ootani. Daí, passei o nome para a redação e disse qual a importância de entrevistar a dubladora, que renderia uma edição especial da seção "A cara da voz", criada pelo Marcelo Del Greco para publicar entrevistas exclusivas com dubladores brasileiros. E deu tudo certo. A entrevista com Ikue Ootani foi conduzida pela repórter Yayoi Wada e foi publicada, com grande repercussão, na edição 12 da Henshin, em 2000. E, salvo engano, era a primeira vez que o nome e o rosto dela eram mostrados em uma publicação brasileira. 


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Ikue Ootani e outro personagem
famoso, o Chopper de One Piece.
Sobre a dubladora:

Ikue Ootani (大谷 育江) nasceu em 18 de agosto de 1965, sendo natural de Tokyo, capital do Japão. Estreou como dubladora em 1986, aos 21 anos, sendo também atriz e locutora.

Profissional destacada, ela tem em seu currículo vários trabalhos importantes, como em Detective Conan (Mitsuhiko), Hello Kitty (Pochi), Rurouni Kenshin (Tokiji), Sailor Moon (Chin Nyanko), Yu Yu Hakusho (Shura) e One Piece (Tony Tony Chopper). 

A entrevista da Henshin (trechos selecionados):

Ikue recebeu a reportagem da Henshin em sua agência, a Mouse Promotion, que fica em Shinjuku, um dos principais centros comerciais de Tóquio. O local escolhido foi uma das salas de aula de dublagem da agência. Depois, ela desceu para o estúdio de gravação, localizado no subsolo, para uma sessão de fotos. Falante e sorridente, Ikue esbanja simpatia, e sua voz pausada e meiga lembra os personagens dos animes que dubla. - Yayoi Wada (Ed. JBC)

Henshin: Como você foi escolhida para o papel?
Ikue: Me chamaram para fazer o teste para fazer o personagem e fui escolhida.

Henshin: E foi no teste o seu primeiro contato com o personagem?
Ikue: Na época já existia um jogo para Game Boy e as crianças já conheciam o personagem, mas eu nunca tinha jogado. Antes de começar a fazer o Pikachu, houve uma apresentação do universo de Pokémon, da história, dos personagens.

Henshin: E o Pikachu do Game Boy já tinha voz?
Ikue: Não. Na época, os jogos só vinham com som eletrônico.


Henshin: De qual dos seus trabalhos anteriores você mais gosta?
Ikue: Não sei dizer agora, mas existem vários.

Henshin: E quanto ao Pikachu?
Ikue: Gosto muito dele. No começo, quando fiz o teste, a idéia era que o Pikachu começasse a falar aos poucos, da mesma forma que o Meowth. Lembro que no teste existiam algumas falas como “Wakaranaidetchu” (em japonês, “wakaranai desu” significa “não entendo”; o “detchu” é uma alusão ao “chu” de Pikachu). Mas como notaram que só as expressões iniciais eram suficientes para que ele fosse compreendido, chegaram à conclusão de que o melhor seria que ele não falasse.

Pikachu: Parte do sucesso do personagem
se deve ao trabalho da dubladora.
Henshin: Como é passar uma mensagem sem usar palavras?
Ikue: Bom, é difícil. Quando quero expressar alguma coisa do tipo “ikouze” (Vamos lá!), tento falar na mesma entonação que usaria para dizer isso. 

Henshin: No entanto, sua voz é a voz do Pikachu em todo o mundo, certo? Como as pessoas entendem?
Ikue: Será que entendem mesmo? Que alegria. O Pikachu é um animal selvagem – pelo menos na origem –, um pocket monster, que é diferente de um ser humano. Procuro sempre ter isso em mente. Sempre imagino se os personagens humanos Ash, Brock e a Misty estão me entendendo ou não. Também procuro pensar o que o Pikachu, enquanto animal, pode ou não entender. Acredito que no Brasil também funcione da mesma maneira – quando se tem um bichinho de estimação, os donos sempre acham que os animais entendem o que eles dizem. E até certo ponto, entendem mesmo. Mas não se pode esperar que eles entendam tudo que é dito. Da mesma maneira, procuro trabalhar o meu personagem. Ele não é exatamente um bicho de estimação, mas também um amigo. Procuro sempre pensar no que ele está entendendo e também no que ele não pode entender. Talvez por isso seja mais fácil para as pessoas, independente da língua, compreenderem o Pikachu.
A edição com a entrevista.
Henshin: Você ficou conhecida no mundo inteiro como a voz do Pikachu. Você sabe disso?
Ikue: É mesmo? Não sei muito bem. Bom, ouço falar que sim. 

Henshin: O que você pensa sobre isso?
Ikue: Em primeiro lugar, fico muito contente. As crianças que assistem ao programa, ou mesmo os pais com filhos pequenos têm me dado um retorno muito bom. Quando essas crianças crescerem, talvez ainda se lembrem que assistiam a Pokémon. Acho que esse é um dos desenhos que vai ficar no imaginário delas, e essa possibilidade me deixa muito feliz.

Henshin: Houve alguma mudança na sua vida desde que começou a dublar o Pikachu?
Ikue: A chance de fazer o Pikachu tem me dado muitas alegrias. Por exemplo, quando estou no trem e olho para o lado e vejo uma criança compenetrada jogando o Game Boy, ou com um tênis do Pikachu, ou segurando com cuidado a pasta do personagem. Elas não me conhecem, mas de certa maneira faço parte daquilo também – e sempre fico agradecida.

Henshin: Como foi o processo de criação da voz do Pikachu?
Ikue: Não sei como funciona em outros países, mas o sistema de dublagem para animação aqui no Japão começa com o desenho. Com ele pronto, os dubladores se reúnem e vão acompanhando o roteiro, que vem com algumas indicações de ação. Assistimos também ao desenho na tela e vamos trabalhando os diálogos. Às vezes acontece de estar escrito “pika pika” no roteiro, mas o movimento labial não parece ser exatamente esse. Esse tipo de coisa é discutido. Estamos, na verdade, participando do processo de criação junto com o diretor e os desenhistas. É claro que também recebemos dicas sobre o tom das falas, a intenção dos personagens. Na verdade, como as imagens passam na tela, não penso muito sobre como fazer – as falas saem naturalmente.

Henshin: Vocês recebem o roteiro no momento da gravação?
Ikue: Geralmente recebemos uma semana antes.

Henshin: Há algum tipo de ensaio?
Ikue: Não. Na hora, acompanho as imagens e o ritmo dos outros dubladores. Às vezes, o rosto do personagem parece preocupado. Então, fico pensando por que ele está preocupado.

Henshin: Quais seus episódios prediletos de Pokémon?
Ikue: Tenho vários, mas acho que o primeiro é um dos que mais gosto. O encontro de Pikachu com Ash. No começo não nos damos bem. Depois que Ash salva Pikachu de um ataque é que começa a nascer uma grande amizade entre eles. Há também um episódio em que o Meowth e o Pikachu se perdem e por algum motivo eles estavam algemados – precisavam sempre andar juntos. A história se desenrola por uns 30 minutos. Como o Meowth fala, ele fazia o papel de apresentador.

Henshin: Você lembra de alguma história divertida?
Ikue: Aqui, as gravações são feitas num estúdio com quatro microfones. As imagens passam em duas telas grandes e a gravação é feita direto por uns 15 minutos, sem intervalos. Ou seja, todos os dubladores interagem – e inevitavelmente, acontecem coisas engraçadas. Por exemplo, alguns monstros já têm falas prontas. Alguns ficam a cargo do próprio dublador. Nesses casos, o dublador não planeja muito. O som sai naturalmente em meio aos diálogos, seguindo as imagens. Algumas vezes, acabam saindo coisas muito engraçadas. Alguns Pokémons tiveram seus sons criados assim. O problema é que como a gravação é contínua, não podemos rir. Outra coisa gozada é que quando esse Pokémon volta a aparecer, precisa continuar com a mesma fala da primeira vez. Às vezes o dublador não é o mesmo, ou quando é acontece de não se lembrar da fala dele – ficamos nos perguntando como era. O melhor é essa sensação de estarmos criando juntos. Às vezes começamos a rir tanto que precisamos parar as gravações.

Ikue Ootani foi homenageada em um episódio de Pokémon
exibido no Japão em 18 de junho de 2015. 
Henshin: Há algum tipo de escola para dubladores?
Ikue: Sim, existem muitas.


Henshin: Você frequentou alguma?
Ikue: Fiz um curso sim – mas não é a escola que ensina. Não é para desanimar os que aspiram a profissão, mas não depende tanto da escola que se freqüenta. Eu fiz curso aqui mesmo na Mouse Promotion, que na época ainda se chamava Ezaki Production. Foi quando entrei em contato com muitos profissionais que eram nossos professores. Acho que mais importante do que a escola é conhecer os professores e os profissionais da área e aprender com eles.

Henshin: Quando você decidiu ser dubladora?
Ikue: Na verdade, eu queria ser atriz. No Japão, a maioria dos atores escolhe uma área de comunicação, do tipo cinema, teatro ou dublagem. Bom, mesmo no caso de “voice acting” existem algumas áreas diferentes: narração em comerciais, “voice over” e animação. Eu não tinha me dado conta de que havia essa área de dublagem. No começo eu queria fazer teatro. E quando me dei conta, estava aqui.

Henshin: Que tipo de estudos você realiza?
Ikue: Uma espécie de observação participante das pessoas. Às vezes fico me observando também – por exemplo, quando estou brava ou discutindo com alguém, e começo a falar rápido. Fora dessa realidade, tem uma parte de mim que analisa o quanto eu consigo falar rápido quando estou brava. Ou no trem, quando vejo alguém bêbado, penso: “nossa, as pessoas ficam assim quando bêbadas”. Ou tento adivinhar o que as pessoas fazem. Observo bastante. Preciso entender e expressar sentimentos que não são sempre os meus para diferentes papéis. Por isso, é importante entender que nessa mesma situação eu faria uma coisa, mas há outros tipos de pessoas e outros pontos de vista e outras reações.

Henshin:
 Você faz algum tipo de estudo para criar vozes diferentes?
Ikue: Vozes diferentes acabam limitando a variedade de personagens e um mesmo personagem precisa variar de voz dependendo da situação e dos sentimentos. Acredito que uma mesma pessoa tenha vários tipos de vozes. Na verdade, acho que embora a maneira de usar a voz varie – dependendo da ação, do personagem, idade e sexo – ela em si não muda tanto. Faço muitos papéis de criança. Sempre me preocupo com o tipo de conhecimento que uma criança dessa idade tem, a maneira de compreender, reagir e sentir. Acho que cada personagem ganha personalidade com a voz, independente de ela ser diferente ou não do outro. O importante é a maneira de falar. Por isso minha voz não muda tanto de personagem para personagem.

4 comentários:

Usys 222 disse...

Ikue Ootani! Uma de minhas dubladoras favoritas!

A primeira vez que eu tive consciência da voz dela foi em um jogo de Sega Saturn quando estava no Japão, fazendo uma personagem que eu gostava. Daí ela foi Pikachu, dando expressão para um personagem que só conseguia falar o próprio nome. E mais tarde eu a encontraria e a acompanharia por mais um ano em Smile Precure!, quando ela faz a voz da mascote Candy, com bastante participação e com muita eloquência.

A entrevista foi altamente instrutiva, mostrando como ela faz para compor seus personagens. Essa de observar e estudar as pessoas em especial foi a que mais me chamou a atenção. Só podia ser uma pessoa de renome no ramo!

E foi bom ter trazido o nome dela na época, afinal era uma das únicas personagens de Pokémon que tinham a mesma voz no mundo inteiro. Bem interessante essa observação de não sabermos exatamente o que o Pikachu pensa. Acredito que foi uma boa decisão essa dele não falar a língua dos humanos.

Excelente trabalho!

Alexandre Nagado disse...

Fala Usys!

Ikue Ootani é sensacional! Só o trabalho dela em Pokémon já lhe vale um lugar de destaque, mas a carreira dela vai muito além.

Outro dia, vendo Pokémon no Cartoon Network, vi que o nome dela aparece junto com os nomes dos dubladores brasileiros, o que é muito legal. Esse reconhecimento aqui do trabalho dela começou com a edição 12 da Henshin. Até então, quase ninguém no Brasil conhecia seu nome. É legal ter feito parte dessa valorização.

Valeu! Abração!

Adelmo Veloso disse...

Muito bacana, Nagado!

Lembro que comecei a prestar mais atenção nos dubladores após uma entrevista com o Hermes Baroli, na revista Herói. Depois disso, sempre ia associando as vozes nos filmes aos personagens de Saint Seiya e só mais tarde fui ver quem eram os donos delas!

Hoje já identifico essas vozes pelos nomes! Foi uma jogada muito bacana por parte da revista mostrar quem é a pessoa por trás da voz.

Parabéns pela entrevista (um pouso atrasado, mas só vi agora)!

Alexandre Nagado disse...

Fala Adelmo.

Sempre digo que o Marcelo Del Greco foi o grande responsável pela valorização da dublagem que houve após o sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco. Hoje eles são tratados como astros nas convenções de cultura pop.

Sobre a entrevista, eu só entrei com a sugestão é elaboração da pauta. Quem fez efetivamente a entrevista foi Yayoi Wada. E toda a logística para que o trabalho acontecesse foi a equipe da JBC.

Valeu! Grande abraço!