sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pinóquio - A Versão Mangá de Osamu Tezuka

A versão do "Deus do Mangá", Osamu Tezuka, para um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil. 
O boneco de pau que deseja virar gente, em
uma versão que transita entre a visão do autor
original e a de Walt Disney.
Uma das histórias infanto-juvenis mais famosas do mundo é a de Pinóquio, o boneco de madeira mentiroso que sonha em virar gente. Criação do escritor italiano Carlo Collodi, foi publicado pela primeira vez em 1881 e ganhou o mundo quando virou um aclamado longa-metragem em animação pelos estúdios Disney em 1940. 

O personagem se tornou um ícone cultural da humanidade, tendo recebido inúmeras versões em várias mídias e em vários países. Sua história de amadurecimento, às custas de muito sofrimento por suas mentiras, ganhou as mais diversas interpretações, incluindo nos quadrinhos japoneses. 

A versão do lendário autor de mangás Osamu Tezuka (1928-1989) foi publicada originalmente em maio de 1952, pela editora Tokodo. O mangá, tanto história quanto traço, são fortemente inspirados no filme de animação da Disney. Porém, a violência presente no livro original, que fora apagada no desenho animado, aparece em diversos momentos, como o enforcamento de Pinóquio. As circunstâncias são diferentes, mas o enforcamento do personagem é mostrado. Em outra cena, Pinóquio experimenta cigarro e álcool, o que foi decisivo para que a edição em português recebesse a classificação para maiores de 16 anos. E isso acaba sendo um tremendo equívoco, visto que não é apologia ao vício e sim um alerta aos jovens. 

Diferenças culturais e ideológicas à parte, Pinóquio é leitura infantil sim e daquelas que podem ser apreciadas por pessoas de qualquer idade. 
Pinóquio conhece enorme crueldade
em sua difícil jornada de aprendizado.
O Grilo Falante de Tezuka é totalmente calcado na versão Disney e aparece como a consciência de Pinóquio. Na versão animê do estúdio Tatsunoko Pro, já exibida no Brasil em duas ocasiões, é mantida a morte do Grilo, causada por Pinóquio. Quando o animê foi reexibido no extinto canal pago Fox Kids, a cena final da morte foi apagada, deixando sem sentido o grilo aparecer como um fantasminha, sem mais nem menos. A exibição brasileira original, na extinta TV Tupi, mostrava a morte do personagem. 
A capa original.

A edição tem ótima apresentação de capa e projeto gráfico, mas o projeto editorial poderia ter incluído informações de bastidores e uma contextualização do trabalho. Houve mais preocupação em usar o espaço para divulgar outros títulos de Tezuka no catálogo da NewPOP, no caso Don Drácula, Metrópolis, Dororo e Kimba, O Leão Branco

Pinóquio é um trabalho da fase inicial de Tezuka e a diagramação é bastante simples e tradicional, mas o ritmo narrativo é impecável. O traço, no entanto, já mostrava a estilização que o tornaria famoso. Para o Deus do Mangá (como é reverenciado no Japão) e criador de ícones como Astro Boy e A Princesa e o Cavaleiro, a narrativa dinâmica e o uso da linguagem cinematográfica foram suas grandes marcas no estabelecimento do moderno mangá. 

O excesso de reverência ao traço do estúdio Disney mostra mesmo um Tezuka que ainda não era o mestre revolucionário que se tornaria nos anos seguintes. Mas, não se trata de um Tezuka menor, muito pelo contrário. É o fascinante retrato de um artista jovem que iria transformar para sempre a indústria dos quadrinhos de seu país e se tornar referência mundial. Para estudiosos de quadrinhos e da arte narrativa, além de leitores de qualquer idade, um pequeno tesouro do mangá. 

PINÓQUIO

Criação: Carlo Collodi (livro original)
Roteiro e arte: Osamu Tezuka
Editora: NewPOP
Formato: 15 x 21 cm, com 136 páginas
Total: Volume único
Lançamento no Brasil: Março de 2017
Preço: R$ 24,90
Classificação indicativa: 16 anos


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8 comentários:

Stefano Barbosa disse...

Curioso que o criador de Pinóquio, Carlo Collodi, caiu no anonimato.
Ele menos famoso que próprio personagem. "Mamma mia !"

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stefano!

Curioso mesmo o caso desse autor. No imaginário popular, Pinoquio é criação de Walt Disney e seu estúdio.


Mas pra mim, a referência que sempre vem à mente é o animê feito pela Tatsunoko. Que era assustador!

Falou! Abraço!

Scant Tales disse...

Muito bom

Usys 222 disse...

Por incrível que possa parecer, nunca vi a versão da Disney (Não, isso não é algo para me gabar e nem nada. Foi só falta de oportunidade). Por isso, a versão da Tatsunoko é a que mais me marcou e que me serve de referência.

Foi realmente uma surpresa saber que Osamu Tezuka também desenhou Pinóquio. Mas eu deveria saber, já que ele era aficionado pelos desenhos da Disney. E noto que o personagem ficou bem parecido, mudando o esquema de cores. Suponho que nem no Japão haja muita gente que conheça esta versão de Pinóquio.

É um bom material para se saber mais sobre o Grande Mestre. O bom é ver que está disponível no Brasil, acessível para muita gente.

Alexandre Nagado disse...

Bom mesmo, Scant, recomendo. Mas não se acanhe, o pessoal aqui geralmente escreve mais, ah ah. Apareça outras vezes.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Olá, Usys!

Sim, me parece que esse material é meio obscuro mesmo lá no Japão. O interessante é que a NewPOP foi quase na contramão do mercado, apostando em material clássico e pouco conhecido. E essa editora tem vários outros títulos antigos do Tezuka, material raro. Aos poucos, quero ler mais.

Valeu! Grande abraço!

Anônimo disse...

hahaha! Como diriam os "Sobrinhos do Ataíde": Pinoculos, O Boneco De Pau De Óculos, baseado em um desenho não tão animado.
Aquele anime era terrível.

Alexandre Nagado disse...

Ah, não, o Pinóquio da Tatsunoko era legal. É "terrível" de acordo com sua expectativa (como qualquer coisa).

Se você conheceu a versão exibida na Fox Kids, não falo nada. Essa versão era cheia de cortes e emendas. E é um animê dos anos 70, tenha isso em mente. Em sua equipe de produção, estava o grande Yoshitaka Amano, de Final Fantasy. E era um desenho com muito drama e crueldade, bem pesado em alguns momentos, como o fuzilamento de Pinóquio em câmera lenta no último episódio. Ou o sacrifício de um cão durante um naufrágio.

Ah, sim, a versão do Tezuka não chega ao nível de crueldade da versão da Tatsunoko. Transita entre a visão Disney e a visão do autor original.

Abraço!