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Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lobo Solitário

Um dos maiores clássicos do mangá volta às bancas. É hora de mergulhar fundo no violento mundo dos samurais, através da saga de Itto Ogami e seu filho Daigoro.
Capa da nova edição de Lobo Solitário,
com a arte de Frank Miller e Lynn Varley.
Em pleno Japão feudal, mais precisamente durante o governo do shogunato do clã Tokugawa (entre 1603 e 1868, também chamado de Período Edo), homens conspiram uns contra os outros em busca de poder. Assassinatos e traições pipocam por todo lado e a vida humana pouco vale, num clima de constante guerra entre feudos. Aparentemente alheio a tudo isso, um homem empurra um carrinho com uma criança pequena dentro. Ele oferece seus serviços a quem lhe pagar e sua especialidade é matar com absoluta precisão. 
Ittô e Daigoro Ogami - Pai e filho na Estrada do Inferno.
Outrora um temido executor oficial do Shogun, o valente Itto Ogami vaga pelo país empurrando o carrinho de bebê com seu filho pequeno. Como um ronin, um samurai sem mestre, ele oferece seus serviços, matando mediante pagamento, não importando quem seja. Vivendo quase como mendigo, poucos sabem que ele fora outrora um nobre a serviço do governo. 

Caindo vítima de um complô que matou sua esposa e manchou o nome de sua família, Ogami busca juntar recursos para consumar sua vingança contra Retsudô Yagyu. Espadachim de primeiro nível e estrategista hábil, Retsudô é o ganancioso líder do clã Yagyu e responsável pela ruína do clã Ogami. 

Assim é o cenário onde se desenrolam as tramas de Lobo Solitário (子連れ狼 ou "Kozure Ookami"), um dos maiores clássicos do mangá de todos os tempos, criado e escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Goseki Kojima
A arte de Goseki Kojima: Economia de traços, expressividade
e força em composições épicas, com uma narrativa grandiosa.
O protagonista da série é um anti-herói no melhor sentido do termo. Frio e calculista, ele também realiza, em muitas ocasiões, atos de justiça e misericórdia, especialmente com pessoas humildes que encontra pelo caminho. Espadachim lendário, carrega como arma preferida uma dootanuki (tipo de espada curta) e sempre cumpre suas missões como mercenário. Se o contrato aceito assim exigir, ele pode matar até mesmo pessoas boas e honradas, mesmo idosos ou mulheres de qualquer posição social. Até mesmo de uma criança ele corta a cabeça friamente, conforme é contado (não explicitamente) em um capítulo onde vemos como era sua rotina de executor oficial do governo. 

Com o gosto amargo das muitas vitórias de Ogami, resta um olhar sobre Daigoro. Inocente e alegre, acostumou-se a ver o pai tirando vidas e ao longo da série vai mostrando talento para as artes do combate. O menino também é usado muitas vezes como parte das estratégias de Ogami, que não se ressente de usar o filho em suas missões. 


Daigoro - Crescendo
em meio a batalhas.
O espadachim sabe que, se falhar e perecer, o destino do menino será trágico. Então, eles devem viver e, se preciso, morrer juntos. 

Não são poucas as vezes em que pessoas estranhas tentam separar os dois, oferecendo um futuro mais seguro para Daigoro. Um deles, apelidado Sakon - O Sem Cabeça, protagoniza um dos mais arrebatadores capítulos de toda a saga, que é repleta de textos fabulosos e narrativa visual cinematográfica. E a arte de Goseki Kojima, com traços rápidos, elegantes e caligráficos, possui grande plasticidade. Há quadros que são verdadeiras obras de arte e exemplos da simplicidade de traço em função da valorização da atmosfera e narrativa. 

No Japão, a publicação original aconteceu entre setembro de 1970 e abril de 1976, na revista semanal Manga Action, da editora Futabasha. Vendeu um mais de oito milhões de cópias na época. Com a popularidade, foi adaptado em filmes para cinema, séries de TV, continuações e até um video game para arcade, em 1987. Anos depois de sua primeira aparição, Kozure Ookami viraria um ícone cultural também do outro lado do mundo. 

Aterrissando no ocidente

A publicação nos EUA - e de lá para o mundo - foi graças à influência do quadrinista (e hoje também cineasta) Frank Miller, à época já endeusado por seus trabalhos com Batman (DC Comics) e o Demolidor (Marvel). 


Arte do renomado
Bill Sienkiewics
para uma capa
da edição americana.
Depois de convencer a First Comics a lançar a obra nos EUA em 1987, Miller assinou o prefácio e também as capas das primeiras edições. Com as cores da esposa Lynn Varley sobre seu traço expressivo e dramático, Miller criou obras de arte em cada capa. Depois, foi sucedido por Bill Sienkiewics, Matt Wagner, Mike Ploog e Ray Lago

A edição americana, chamada Lone Wolf and Cub ("Lobo Solitário e Filhote") trazia um alinhamento de histórias diferente do original, começando a série de um ponto diferente. Porém, a First Comics faliu em 1991, tendo publicado apenas 45 edições. 

Como cada edição americana publicava apenas dois capítulos por edição - contra 8 ou 9 de uma compilação "tankô-bon" japonesa, ficou incompleta a saga. Mas não foi por falta de sucesso, pois a First havia investido muito em uma linha de heróis autorais, como American Flagg!, Badger, Jon Sable e Grim Jack (todos também lançados no Brasil pela Cedibra), que não vingou e levou ao cancelamento de suas atividades. 

Em 2000, a Dark Horse Comics licenciou o mangá, publicando desta vez de modo similar à edição japonesa, com 28 volumes. Em 2013, publicou a versão Omnibus, reunindo tudo em 12 edições luxuosas. [Nota: A Wikipedia em japonês publicou, erroneamente, que Kozure Ookami saiu em 1987 pela Dark Horse, e não pela First Comics.]

Lone Wolf virou referência pop nos EUA, sendo homenageado em trabalhos como a HQ Ronin (de Frank Miller) ou os filmes Kill Bill (de Quentin Tarantino). O sucesso nos EUA foi tão grande que, em 2002, uma "sequência" futurista foi autorizada, intitulada Lone Wolf 2100. Mas continuação verdadeira mesmo viria em 2006, no Japão, e com roteiro do próprio Kazuo Koike. Com o título Shin ("Novo") Kozure Ookami, esse mangá foi desenhado por Hideki Mori, pois Goseki Kojima falecera em janeiro de 2000, aos 71 anos. Esse mangá retomou a história do ponto onde a original havia retomado e mostra o destino de Daigoro. Foram 11 volumes, que estão saindo nos EUA pela Dark Horse. Um terceiro grande arco de histórias está nos planos de Koike, que completa 81 anos em 8 de maio deste ano e não dá sinais de que pensa em aposentadoria. Essas continuações foram motivadas pelo enorme sucesso da obra, que também tem muitos fãs no Brasil.

A primeira edição brasileira,
pela Ed. Cedibra (1988)
No Brasil - Mangá e live-action

Lobo Solitário foi o primeiro mangá oficialmente traduzido para o mercado editorial brasileiro. Isso em 1988, através da Editora Cedibra, que seguiu a edição da First, com formato americano, as capas de Frank Miller e leitura em modo ocidental, graças à inversão de páginas e rearranjo de quadros (quando possível) feita nos EUA. Foram apenas 9 edições até seu cancelamento. A imprensa alardeou bastante o lançamento, mas o mercado ainda não estava no ponto certo para tal publicação. Depois, em formato menor, algumas edições apareceram esporadicamente em bancas, através da editora Nova Sampa, até meados de 1993.

Mas o primeiro contato de brasileiros com a história sangrenta de Itto Ogami foi através de uma de suas adaptações em live-action. Rebatizado aqui de O Samurai Fugitivo, o seriado do Lobo Solitário foi exibido na antiga TVS - Canal 4, o atual SBT. Era exibido às segundas-feiras, às 23h00, e teve mantidas as cenas de violência e nudez. A série, que tinha o mesmo nome do mangá, foi exibida no Japão entre 1973 e 76, totalizando 79 episódios de 55 minutos cada (incluindo comerciais). Depois da TVS, passou brevemente na TV Record e depois na TV Corcovado (Rio de Janeiro). 
Os seis filmes originais, em DVD nacional.
Uma outra adaptação live-action, desta vez feita para cinema, foi lançada no Brasil em vídeo pela distribuidora Continental, que inclusive usou na embalagem um logo semelhante ao das edições da Cedibra e Nova Sampa. Posteriormente, saiu uma coleção em DVD pela Versátil Home Video, que lançou todos os seis filmes originais, produzidos entre 1972 e 74. 

A capa aberta da edição nacional, aproveitando a arte original
de Goseki Kojima e a da edição americana, por Frank Miller.
Voltando ao mangá, a edição fiel ao original veio somente com a publicação pela Panini Comics, iniciada em dezembro de 2004. Dessa vez, formato e adaptação foram feitos a partir do original japonês. E agora, Lobo Solitário volta em nova edição, com atualização ortográfica e novo design editorial. É um daqueles clássicos obrigatórios que o fazem por merecer e, para quem gosta de histórias adultas e dramáticas, talvez seja o clássico absoluto do gênero samurai. 

Lobo Solitário é uma leitura poderosa, cheia de cenas grandiosas, engendradas por dois dos maiores autores de quadrinhos de todos os tempos. É também um mergulho no passado sangrento do Japão feudal, onde a vida humana tinha pouco valor e o conceito de honra era atrelado a uma ausência de sentimentos. Mais do que o retrato de uma época, um grandioso olhar sobre a bravura e o espírito humano.

Lobo Solitário
Roteiro: Kazuo Koike
Arte: Goseki Kojima
Editora: Panini Comics/ Planet Manga
Formato: 13,7 x 20 cm, com 288 páginas
Total de volumes: 28
Lançamento no Brasil: Dezembro de 2016
Preço: R$ 18,90
Periodicidade: Bimestral
Classificação indicativa: 18 anos

E X T R A :

- Confira um vídeo raríssimo encontrado no YouTube com a arrepiante locução de abertura da série. A imagem não está boa, mas vale pela a pena conferir. Dublado nos estúdios da TVS.


10 comentários:

Usys 222 disse...

"Lobo Solitário". Uma daquelas obras que não envelhecem e é parte da cultura popular, não só do Japão. Essa figura do assassino frio e calculista, que mata mediante contrato, é bem usada para ilustrar o conceito de "profissional" no Japão. Um personagem semelhante nesse sentido seria o Golgo 13, também faz parte da cultura popular.

A bem da verdade, me lembro mais da série de TV, O Samurai Fugitivo. Via com a minha mãe quando era criança, na mesma época do Ultraman. Uma tia minha soube que via e ficou chocada. Acho que ela quase pediu a minha guarda nessa hora.

Uma coisa que me lembro bem do seriado era que Yagyu, apesar de tudo, tinha seu orgulho e honra de espadachim. A cena da "promessa do Samurai", quando os dois fincam as espadas no local do duelo para descansarem depois de exaustos da longa luta, ficou marcada na minha memória.

Tomara que consigam lançar até o fim desta vez. Percebo que vai ser longo, com 28 volumes e frequência bimestral, mas vale a pena. Com bem dito, Lobo Solitário é um ícone cultural, reconhecido em várias partes do mundo.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Então, você também assistia ao Samurai Fugitivo! Confesso que não lembro nada relevante sobre a série. Eu assistia eventualmente e claro que, naquela época e com meus 11 anos, as cenas com mulheres nuas atiçavam a curiosidade, mais até do que as lutas com espadas, ah ah. Com certeza sua tia deve ter ficado chocada, pois a série era bem forte mesmo, pra adultos somente.

Ver a locução da TVS (se alguém souber o nome do narrador brasileiro, manifeste-se) deu uma sensação de nostalgia enorme. E eu lembro que, no encerramento, apareciam imagens do mangá. Quando saiu aqui a edição da Cedibra em 88, eu comprei pra ler meu primeiro mangá e só depois que eu associei com a série de TV. Eu me lembro bem da empolgação que eu sentia a cada edição que comprava. A arte de Kojima é inimitável. Foi realmente uma combinação excepcional o roteiro de Koike e a arte de Kojima.

Valeu, abraço!

Aniki disse...

Eis um mangá que sempre quero pegar pra ler inteiro e nunca tenho a oportunidade. No máximo li emprestado algumas edições aleatórias da Sampa e não passou disso.

Não tive a oportunidade de assistir nenhum episódio do Samurai Fugitivo, afinal eu ainda era muito pequeno e no referido horário já deveria estar no sono dos anjos hehehehe.

Mas pelo vídeo postado eu creio que o narrador seja o veterano Araken Saldanha(Space Ghost, Cassius e Mestre Ancião em Cavaleiros do Zodíaco, dentre outros). Já a narração do episódio é do Felipe di Nardo(narrou alguns episódios do Pica Pau, além de ser uma das vozes do Zeca Urubu. Também dublou o Bosgan em Kamen Rider Black RX, o Rei do Crime no desenho do Homem-Aranha dos anos 90 e o mestre Hiko em Samurai X). Tudo que era dublagem da Elenco era narrado por ele. Da mesma forma que as dublagens da Maga tinham a narração do saudoso Marcelo Gastaldi.

Abraços.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Aniki!

Obrigado pela participação! Essa vozes são clássicas, fantásticas, que conferiam um peso dramático arrepiante. Bom registro dos nomes!

Valeu! Abraço!

Rogério disse...

Lobo Solitário de volta às bancas!!!
Junto com AKIRA este é o mangá cuja republicação eu mais esperava.
Obrigado pela matéria Alexandre.
Agora vamos se AKIRA sai por aqui.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Rogério!

Gostei muito da edição do Lobo Solitário, ficou caprichada, fiel ao original e ainda mantiveram as capas do Frank Miller. E espero que também mantenham as dos demais, especialmente o Bill Sienkiewics.

Sobre o Akira... Vai ser estranho ver a nova edição quando ela chegar. Acabei me acostumando com a edição americana, colorizada pelo Steve Oliff. Acho que ele fez um bom trabalho, mas é claro que o mais correto é preservar a forma original em preto-e-branco. Mas vai ser legal ter as capas originais do Katsuhiro Otomo, que é um ilustrador de primeira linha. Só espero que o mercado comporte tantos títulos caros de longa duração.

Grande abraço!

Bruno Seidel disse...

Olha só que curioso! Eu ainda tenho o volume 3 do Lobo Solitário que foi publicado no Brasil em 1993. Nessa mesma edição, o editor Franco da Rosa explica que a primeira edição tinha sido lançada Editora Cedibra e que, posteriormente, foi adquirido pela Sampa, que editou 11 revistas no formato "livro" (14x21). A versão que eu tenho possui 64 páginas.
Outra coisa interessante dessa edição é que temos, nas páginas finais, um texto bem completo e detalhado sobre mangás em geral escrito por Cristophe Champelaux, Além de contar a história de Goseki Kojima, de Crying Freeman e dos filmes live acrtions do Lobo Solitário, Cristophe dedica uma página inteira pra falar sobre Osamu Tezuka e sua inflência sobre a narrativa dos autores de mangá que o sucederam.

Alexandre Nagado disse...

Bruno, eu adorava as edições da Nova Sampa. Achava o formato (um pouco menor) mais legal, com mais páginas e lombada quadrada. Bem no fim, saíram uma ou duas edições de lombada canoa, já parecendo os últimos suspiros. Quando foi relançado pela Panini, estava meio afastado de mangás. Ainda bem que conferi essa edição, que ficou realmente legal. Agora sim, está à altura da obra original. Mas aquelas edições da Cedibra e da Nova Sampa tinham seu charme. Pode ser nostalgia, mas ainda guardo parte desse material com zelo.

Abraço!

Rogério disse...

Ah, o poder da nostalgia. Rsrsrs.

Talvez minha memória me traia, mas eu me lembro de comprar uma destas edições de Lobo Solitário da Nova Sampa e uma coletânea do Demolidor em formatinho a Abril e folheá-las enquanto esperava começar a sessão de Dick Tracy que eu iria ver num cinema em Santo André.

Ou talvez esteja misturando épocas. Rsrrsrs.

Alexandre Nagado disse...

Fala Rogério!

Lendo seu comentário, lembrei que na fase da Nova Sampa, por ser em formato pequeno, Lobo Solitário era colocado junto com os formatinhos de super-herói da Abril. Antes, ficava junto com as Graphic Novels, pelo fato da Cedibra editar em formato americano. Não havia outros mangás sendo publicados. Hoje, mangás ocupam prateleiras inteiras em uma banca.

Sinto falta dos gibis em formatinho, pois remetem a uma fase mais popular dos quadrinhos de heróis no Brasil. Hoje, os mangás voltaram a consolidar tanto o gibi em formatinho quanto o quadrinho em preto-e-branco, coisas que os editores antes diziam que havia morrido. Prova que o que conta mesmo é uma boa história, bem narrada e bem desenhada.

Abraço!