sábado, 3 de dezembro de 2016

Pachinko - Os jogos de azar e a cultura pop

Conheça o PACHINKO, o mais popular jogo de azar japonês, que está profundamente inserido na sociedade e tem muitas ligações com a cultura pop.
Uma casa de pachinko, uma explosão de sons, cores e luzes.
(Crédito: BBC/Getty Images)
Dentre todas as formas de entretenimento populares no Japão, uma que merece um olhar atento é o pachinko (leia "patinko"), uma verdadeira febre com milhões de jogadores. Trata-se de um jogo de azar semelhante a um fliperama caça-níqueis. 

O jogador compra bolinhas de metal que são inseridas na máquina e, como em um pinball vertical, as bolinhas são lançadas e, enquanto caem, vão acionando luzes e sons que marcam pontos até chegarem ao fundo. O nome "pachinko" é resultado da junção da onomatopéia "pachin", que representa o som das bolinhas caindo e "ko", que é um termo para "bolinha". A atividade envolve mais sorte do que habilidade e o jogador ganha seu prêmio em grandes quantidades de bolinhas. 

Jogos com dinheiro são proibidos no Japão, mas isso é facilmente contornável. Perto de uma casa de pachinko sempre há uma loja que troca as bolinhas de metal por brindes ou até mesmo por dinheiro. Uma bolinha custa normalmente de 1 a 4 ienes, sendo que um iene dá cerca de 3 centavos de real (cotação de 02/12/2016). De tão barato, muitos se aventuram só por curiosidade e acabam fisgados. 


Vídeo promocional da rede Pachinko Club


Altamente viciante, é o passatempo favorito de milhões de trabalhadores, estudantes, donas de casa e aposentados. As casas de pachinko são ambientes barulhentos, cheios de luzes coloridas e muita fumaça de cigarro, que é liberado nesses lugares. A entrada de crianças e menores de 18 anos é totalmente proibida, e a utilização de personagens infantis em algumas máquinas se dá pela nostalgia que evoca em muitos adultos. 

As primeiras máquinas de pachinko, mecânicas, surgiram nos anos 1920 imitando similares ocidentais. Nos anos 1940, depois da Segunda Guerra Mundial, começaram a surgir as primeiras casas especializadas nesse tipo de jogo. Na década de 1980, apareceram as máquinas eletrônicas de pachinko, explorando cores e sons como nunca, o que impulsionou muito essa indústria de entretenimento.

Detalhe de uma pachi slot machine com
personagens da franquia Gundam.
Nas casas de pachinko, também existem as pachi slot machines (ou "pachislo"). Nessas máquinas, o jogador deposita dinheiro e aciona um botão de roletas giratórias. Se conseguir a combinação de três ou mais figuras iguais, ganha um prêmio. Em sua origem, essas máquinas também eram mecânicas, mas no Japão de hoje as roletas são animações digitais, e tão imprevisíveis quanto as antigas. Como atrativo, uma explosão exagerada de imagens, luzes, cores e sons tornam as máquinas hipnotizantes para o público.

Segundo levantamento feito em 2012 pela agência de notícias BBC, há cerca de 12.500 casas de pachinko e pachislo no Japão. O lucro gerado por esse mercado é estimado em 30 trilhões de ienes, cerca de 264 bilhões de dólares (cotação de 02/12/2016). Isso representa quase quatro vezes o montante de lucro de todos os cassinos legalizados no mundo. 

Caminhão com grande anúncio de uma das máquinas de
pachinko estampando o grupo AKB48. Mercado gigantesco.
O mercado é tão lucrativo que se tornou um nicho a ser explorado pelas empresas ligadas à cultura pop, de gravadoras a estúdios de animação. Artistas como Ayumi Hamasaki ou a banda AKB48 têm suas máquinas, onde os prêmios cobiçados são fotografias exclusivas ou a possibilidade de assistir vídeos feitos especialmente para as máquinas de pachinko. 


Revista Manga PachiSloPanic
(set./2015)
De tão inserido na sociedade japonesa, existem até mesmo revistas de mangá com temática de pachinko, com histórias ambientadas em casas de jogos e falando sobre personagens que têm esse hobby. Títulos como Manga Pachislo Panic Pachinker World surgiram para incrementar ainda mais esse universo viciante. 


Heróis de mangá, animê e tokusatsu também são licenciados para jogos e existem muitos vídeos criados exclusivamente para veiculação nas máquinas, seja de pachinko ou pachislo

Em muitos casos, o prêmio almejado é assistir a uma produção original para essas máquinas, sejam vídeos musicais, cenas de ação ou mesmo histórias originais em partes. Kamen Rider, Mazinger, Ace Attorney, Macross, Haruhi Suzumiya, Ultraman, Gundam... Muitos dos mais populares heróis da cultura pop japonesa estão licenciados para máquinas de pachinko e pachi slot. E ainda, existem games que simulam esses aparelhos, para que a pessoa sinta a emoção de jogar, mas na privacidade e conforto de seu lar. E sem ficar perdendo mais dinheiro.


Jogo simulador de pachinko
para PlayStation2 com
os Kamen Riders originais
Mas nem todos se esbaldam nesse filão ou aprovam seus métodos. Nobuhiro Watsuki, autor de Samurai X ~ Rurouni Kenshin é um que não permite que suas criações apareçam em máquinas de jogo. Ele já declarou em entrevistas que, como tem grande público jovem, não quer incentivar essa forma de entretenimento, que vicia e leva muita gente a não apenas perder dinheiro e tempo, mas também deixar atividades produtivas de lado. A polícia japonesa, inclusive, tem diversos casos registrados de bebês que morreram asfixiados dentro de carros porque seus pais pararam pra jogar "quinze minutos" e ficaram horas sem perceber. É o lado mais trágico do vício, que nunca foi bem visto pela sociedade, até por ter historicamente associação com o crime organizado.


Até pouco tempo atrás, as casas de pachinko eram em sua maioria controladas pela yakuzá, a máfia japonesa. De alguns anos para cá, a polícia tem agido para afastar os mafiosos desse mercado, dando espaço para empresas sem ligações com o mundo do crime. 

Esse filão lucrativo dos jogos de azar não dá sinais de saturação. Um novo segmento que tem sido explorado é o de casas de pachinko com design mais clean, áreas para não-fumantes e prêmios voltados ao público feminino. De olho nas senhoras que gostam de jogar, essas casas também lutam para mudar a imagem do mundo do pachinko. 

Jogos de azar levam pessoas ao prejuízo, viciam e destroem vidas e famílias. Porém, se o jogador consegue brincar sem se viciar, fazendo isso apenas eventualmente e por pouco tempo, é apenas mais uma forma de entretenimento. A questão depende, como quase tudo na vida, de equilíbrio e bom senso.

V Í D E O S :


MACROSSA abertura da série clássica de Macross (1982), totalmente redesenhada e atualizada para visualização em máquinas de pachinko

Canção: "Macross" - Makoto Fujiwara




SAINT SEIYA - A abertura original de Saint Seiya - Os Cavaleiros do Zodíaco, redesenhada para exibição em slot machines. A música está em versão completa e o vídeo inclui cenas exclusivas criadas para o jogo. 

Canção: "Pegasus Fantasy" - Nobuo Yamada (Make-Up)



ULTRA BATTLE - Exemplo de vídeos bônus com o Ultraman Zero e a Ultimate Force Zero. 

9 comentários:

Stefano Barbosa disse...

Conheci o Pachinko graças a Slam Dunk

Leo Feitoza disse...

Eu soube o que era Pachinko em uma edição dos X-Men nos anos 80 em que os mutantes voltavam ao Japão para o casamento do Wolverine com a filha de um mafioso da Yakuza.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Stefano! Olá, Leo!

Assim como vocês, eu soube do Pachinko em citações e referências que mostravam o jogo como parte da sociedade japonesa. E havia lido um artigo sobre os mangás sobre pachinko uns 20 anos atrás.

Mas apenas recentemente tive contato com os números impressionantes que as cifras atingem. Não me interesso por jogos eletrônicos e games, mas não há como ignorar sua força na cultura pop japonesa.

Abraços!!

Rogério disse...

Boa noite Alexandre,

Texto muito interessante.
Eu lembro de ver pela primeira vez, ainda criança, imagens de Pachinko em documentários sobre o Japão.
Talvez algum Globo Repórter ou talvez na TV Manchete que se não me trai a memória tinha uma série de documentários com uma cara meio cinematográfica sobre o Japão.
O que lembro é de nunca entender claramente como o jogo funcionava e achar o colorido e o barulho dos ambientes fascinantes.
Recentemente assisti a um documentário muito interessante chamado "100 Yen" que mostra como as casas de "arcades", conhecidos aqui como "fliperamas", ainda continuam peculiarmente fortes no Japão.
Mas lendo seu informativo texto, creio que elas pertencem a uma tradição cultural que não se liga a do Pachinko.
O trailer: https://vimeo.com/37762235

Alexandre Nagado disse...

Fala, Rogério!

Agora que mencionou, lembrei que a TV Manchete exibiu, nos anos 1980, o especial em capítulos "Japão - Uma Viagem no Tempo", com narração do grande José Wilker. Era bem interessante, mas ignorou o peso do mangá e do animê na cultura moderna do país.

No Japão, existem as lojas "100 iene", que são similares às nossas "lojas R$ 1,99", mas são infinitamente mais sofisticadas e com produtos incomparavelmente melhores. Fiz a festa quando entrei em uma, ah ah. Já esse documentário sobre arcades japoneses parece ressaltar que games e fliperamas constituem um passatempo barato e extremamente popular. O trailer é bem interessante, mas é importante não confundir essas casas de jogos 100 ienes com as lojas 100 ienes, que são negócios totalmente diferentes.

Obrigado pela participação, apareça mais.
Abraço!

Bruno Seidel disse...

Quando estive em Tokyo, mais precisamente em Akihabara, vi uma imensa fila se formando para entrar numa dessas casas de jogo. Não lembro exatamente se era o Pachinko, mas o nível de fanatismo dos jovens por aquele "cassino high tech" me impressionou demais. É realmente insano o nível do vício que isso desenvolve.

Alexandre Nagado disse...

Olá, Bruno!

Eu não me ligo em jogos eletrônicos, o que é uma despesa a menos para mim. Quando estive no Japão, aproveitei o tempo livre pra ver lojas de CDs, livrarias e lojas "Hyaku Iene", onde comprei muita coisa legal. Se eu tivesse parado num pachinko, e tivesse uma dessas com vídeos exclusivos, ia me acabar, ah ah.

Abração!

Usys 222 disse...

Pachinko... Já estive em uma dessas uma vez quando fui para o Japão. É bem como foi descrito na matéria: um ambiente barulhento, ensurdecedor e com uma asfixiante fumaça de cigarro. Por isso não aguentei ficar lá dentro e acabei saindo sem jogar.

Mais tarde consegui uns simuladores e pelo que entendi, tem a ver com mover aquele botão para controlar o ângulo pelo qual as bolinhas são disparadas. Mas esse ângulo muda a toda hora e por isso é preciso habilidade para que elas caiam no lugar certo. Acho que é isso...

E de fato, pouco antes de abrir são formadas filas enormes na frente desses estabelecimentos. E todos eles têm placas proibindo a entrada de "profissionais" desse jogo. Nem sabia que tinha algo assim.

Essas máquinas com vídeos são um tremendo show. Tem uma do Ultraman Taro com tomadas estonteantes dos Seis Irmãos Ultra com o Regresso usando o Ultra Bracelete de uma forma bem elegante. Pena que deletaram o vídeo.

E tem outra modalidade, os Moe Pachislo. Um deles que ficou famoso e até virou desenho animado, tomando o caminho contrário, foi o Kaitou Tenshi Twin Angel. Saiu um monte de produtos relacionados e até jogos que não têm nada a ver com Pachinko. E no ano que vem vai sair uma nova série com novas personagens, a Twin Angel BREAK.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Usys!!

"Moe Pachislo"? Essa eu não conhecia, mas faz todo o sentido. Aliás, o tema dessas garotinhas "moe" talvez ainda renda uma postagem. É o equivalente em desenho das idols do mundo real e valem uma análise um dia.

Acho que vi esse vídeo do Tarô que mencionou. Cara, eu sou contra jogos de azar, mas que dá vontade de ver esses vídeos exclusivos, isso dá. Os empresários são muito espertos.

Abraço!