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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Diretor Hayao Miyazaki envolve-se em polêmica sobre novas tecnologias

Prestes a largar a semi-aposentadoria para trabalhar em novo longa-metragem, o velho mestre dos animês se envolveu em uma polêmica sobre animação e Inteligência Artificial.
O premiado - e polêmico - diretor e roteirista Hayao Miyazaki.

O renomado e premiado diretor de animês Hayao Miyazaki, que anunciou sua aposentadoria em 2013, pode voltar a dirigir em breve um novo filme de longa-metragem para seu Ghibli Studio. O produtor Toshio Suzuki revelou que haverá uso de CG (Computer Graphics) e já se especula que será uma transição do Ghibli para produções totalmente digitais. 

Adepto da animação tradicional, Miyazaki não é um entusiasta da tecnologia pura e simples, mas se interessa pelas novas possibilidades técnicas aliadas à arte de contar histórias com sentimento. Sobre isso, Miyazaki se envolveu recentemente em uma polêmica, exibida no último dia 13 como parte de um documentário sobre ele para o canal estatal japonês NHK

Convidado pelo produtor Nobuo Kawakami, da Dwango Artificial Inteligence Laboratory, para assistir um teste de animação criado por um programa de I.A. (Inteligência Artificial), o mestre ficou revoltado com o que viu.
Cena da animação criada por I.A. (Inteligência Artificial).
A cena experimental mostrava uma pessoa deformada se arrastando pelo chão, usando a cabeça para se locomover. Isso porque foi programada a informação de que a figura deveria se mover, mas sem poder usar direito pernas e braços defeituosos. Também não havia informação sobre a importância da cabeça, o que levou o programa a usar a cabeça como forma de impulso. Foi um teste para um campo a ser explorado ainda, que é o de sequências de animação criadas totalmente por inteligência artificial seguindo parâmetros estabelecidos. 

A cena é realmente grotesca e deixou Miyazaki enojado. Ele disse que aquilo era um insulto à vida e que conhece pessoas com deficiências, que sentem dor e dificuldades, não sendo algo para se achar interessante ou divertido. Segundo ele, o que viu mostra uma total falta de sensibilidade e respeito pela vida. Kawakami tentou relativizar, dizendo que é apenas um experimento, não algo que pretende mostrar ao mundo. E chegou a comentar a certo ponto que tal cena poderia ser usada, por exemplo, em um game sobre zumbis. 


- Veja o teste de animação aparecer aos 0:35s do vídeo. Miyazaki detestou.

Miyazaki achou tudo de muito mau gosto e o clima ficou pesado na sala de reuniões. O diretor é famoso por sua sinceridade e reações mau-humoradas, mas esse caso mexeu com valores morais e éticos profundamente enraizados. Segundo ele, "Parece que o fim do mundo está próximo. As pessoas estão perdendo sua confiança, sua fé."

Aos 75 anos, Miyazaki não tem mais nada a provar, mas talvez essa demonstração de tecnologia desprovida de valores e sentimento tenha incentivado ele a partir para mais uma produção. 

Contar histórias com sentimento e valores humanísticos usando animê está em seu sangue, e ele disse à NHK estar "pronto para morrer" enquanto trabalha em um novo filme. 

Fonte: Tokyo Reporter (site adulto, em inglês) 

Extra: Relembre aqui outra polêmica de Miyazaki, dessa vez contra os "artistas otaku".

6 comentários:

César Filho disse...

Usar um elemento de games de zumbi está longe do estilo do Miyazaki. Quanto mais pra ser usado como teste para ele. O mais correto seria usar algum elemento que estivesse mais próximo de sua arte. Seria mais sensato nesse caso.

Usys 222 disse...

Ao ver o vídeo, me chamou a atenção o fato do pessoal ter ficado sem resposta por um momento quando o diretor perguntou "aonde eles queriam chegar com isso", assim como o tom hesitante de quem respondeu. Creio que essa falta de convicção também o deixou irritado, aumentando a impressão de que se tratava de uma "tecnologia pela tecnologia".

Tecnologia sem moral pode ser algo extremamente perigoso. Um exemplo seria o daquele programa de IA que conversava com usuários pela internet e acabou "aprendendo" a ser racista e sexista. E já vi usarem Vocaloids para fazerem canções ofensivas.

Sendo sarcástico, isso pelo menos motivou o diretor a fazer um novo filme. Agora é esperar que isso faça com que o pessoal do Dwango repense suas ações e um dia consiga realizar seu projeto. Mas com alma.

Ale Nagado disse...

Fala, César!

Num primeiro momento, achei a reação de Miyazaki exagerada. Mas pensando melhor, eu teria uma reação parecida se, por exemplo, me mostrassem um teste de animação com uma criança sendo espancada ou um animal sendo morto. E Miyazaki é de filosofia humanista, nunca verá tecnologia com um olhar distante, que não considera o ser humano como a coisa mais importante.

Nesse aspecto, o produtor da Dwango foi, no mínimo infeliz ao não imaginar que Miyazaki poderia se incomodar. Aliás, incomodar não: ele achou é extremamente desagradável de se ver. Mas a I.A. é uma ferramenta que precisa ser programada e, nesse aspecto, é mais uma ferramenta. Certamente, teremos muitas novidades sobre isso no futuro.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Usys!

Sim, a tecnologia pela tecnologia pode gerar aberrações, pode ser mau utilizada e perder todo o sentido. Miyazaki enxerga a perda de valores da sociedade e a falta de empatia que impera. Essa empatia, de se colocar no lugar de outro ser humano, é talvez a perda mais dura nestes tempos de redes sociais, informação veloz, perda de foco, interesse e perda de valores. Só isso explica o que leva alguém, por exemplo, a compartilhar um vídeo de execução real de terroristas.

Certamente artistas como Miyazaki sempre serão necessários ao mundo e fico feliz em saber que ele irá colocar sua energia criativa em mais uma produção. Que essas novas gerações reflitam bastante sobre essas questões.

Abraço!

Bruno Seidel disse...

Olha, eu não sou um fã do Miyazaki, mas o considero um artista no sentido mais nobre da palavra, pois seus trabalhos autorais são verdadeiras obras. O seu estilo é bem distante daquilo que mais me agrada na cultura pop japonesa (Tokusatsu, animes de ação, mangás, games, J-Pop...) e talvez por isso muitos fãs do mesmo segmento que eu o reprovem. Seu estilo rabugento, polêmico e ácido também não contribuiu muito com a sua popularidade. Ainda assim, tem uma frase dele que me marcou muito: “Entreter um grupo de pessoas não é melhor ou pior do que entreter uma única pessoa e fazer desse indivíduo alguém feliz.”

Agora sobre essa polêmica em específico: ele tem todo o direito de repudiar essa cena (que eu também achei grotesca) e passar o chinelo na equipe de produção, que ficou nitidamente envergonhada com a situação. Temos que entender também que, pelo contexto da situação, tinha toda chance de dar ruim (como deu): fizeram um trabalho bem bizonho; usaram esse argumento do "game de zumbi" (que não tem NADA A VER com o universo do Miyazaki); e ainda chamaram um crítico conhecido pelo seu mau-humor e aversão a essas coisas.

Prefiro analisar essa situação com mais tolerância: o pessoal da Dwango estava repleto de boas intenções, mas pecaram em todo o resto. A ideia de facilitar a produção de desenhos animados com a I.A. é muito interessante e, na minha opinião, não minimiza a concepção artística da obra. Eu, por exemplo, sempre quis produzir desenhos animados, mas nunca pude fazer isso por causa das limitações técnicas. Com HQs, a coisa foi diferente: graças a softwares de design e diagramação, qualquer quadrinista meia boca pode se aventurar na área.
Fico imaginando uma versão melhorada desse software aí fazendo coisas muito mais interessantes, desafiadoras e "artísticas" do que "zumbis se rastejando" (por exemplo: o Ryu, de Street Fighter, dando um tatsumaki senpukyaku. huehuehuehuehue). Eu seria a primeira pessoa a querer baixar e usar um software assim e tenho certeza de que o mesmo poderia ser muito útil para popularizar a produção de desenhos animados.

Mas talvez essa "popularização" seja vista como "banalização" por alguns "artistas".
É um conceito de banalização semelhante que o Miyazaki aplica aos otakus, comumente criticados por ele.
É bem possível que sua sabedoria e "aura artística", que o conduziram ao status de artista premiado e refenciado mundialmente, tenham aguçado essa rejeição por animações ditas "fúteis" como os animes comerciais. Uma rejeição que virou uma espécie de rancor, aparentemente.

Chamar um cara como Miyazaki para analisar o projeto da Dwango A.I.L. é como convidar um artista plástico renomado a analisar uma "pichação" desastrosa feita por um artista de rua aventureiro: você certamente vai presenciar cenas constrangedoras como essa.

A questão é saber diferenciar uma pessoa "culta" de uma "intelectualmente elitizada".

Ale Nagado disse...

Fala, Bruno!

Você foi preciso em suas colocações. Não concordo com tudo que Miyazaki diz, mas neste caso, dou razão a ele. E realmente, o grande culpado pelo mal-estar foi mesmo o produtor que convidou Miyazaki a ver o teste de animação. É bom ver esse tipo de coisa com a perspectiva correta, pra não virar militância ou patrulha ideológica, algo panfletário.

Abraço!