quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Clássicos do Pop Japonês: "Shima Utá" - Uma canção para Okinawa

Conheça a história de uma famosa canção que homenageia Okinawa, o paraíso tropical do Japão e que foi inspirada por uma grande tragédia local.
Capa do single de Shima Uta - Original version (1993),
uma declaração de amor a Okinawa.
Última região a ser anexada ao território atual do Japão, no século XIX, o arquipélago que forma a província de Okinawa (沖縄県 ou "Uchiná" em dialeto localfica no extremo sul do país. Com uma cultura regional bastante diferenciada, o povo de Okinawa possui um forte sentimento de união, muitas vezes sendo visto como algo à parte do resto do Japão. O povo possui traços físicos ligeiramente diferentes da maioria que compõe a nação japonesa, com pele mais morena e olhos maiores, entre outros traços étnicos. 

Durante muito tempo, foi uma cultura hermética, meio isolada do resto do mundo e do próprio Japão. Mas uma canção pop ajudou a mudar isso, na primeira metade dos anos 1990. Era Shima Uta, ou "Canção da Ilha", interpretada pela banda de pop-rock The Boom. O termo shima uta (leia "shima utá") fora trazido da região de Amami para Okinawa e foi adotado como uma definição para sua música folk regional. E foi esse também o título escolhido para batizar a música que se tornaria a mais emblemática da jovem banda que unia rock com o ritmo ska, mas que também queria agregar sons diferentes a seu repertório. 
Okinawa: O paraíso tropical do Japão foi palco de uma
das grandes tragédias da Segunda Guerra Mundial.
Formada em 1986 por  Kazufumi Miyazawa (voz), Takashi Kobayashi (guitarra e vocais), Hiromasa Yamakawa (baixo e vocais) e Takao Tochigi (bateria), The Boom surgiu na cidade de Yamanashi. Mesmo sem ascendência okinawana, Miyazawa capturou o espírito do povo uchinanchú (como os okinawanos se definem) e sua composição estourou nas paradas de sucesso. Era a época da explosão do J-pop e a música jovem dominava a mídia. 

Em 12 de dezembro de 1992, pela Sony Records, saiu a primeira versão da canção, parte em japonês, parte em uchiná-guchi, o dialeto local de Okinawa. Em 21 de junho de 1993, saiu a "versão original", já que a música fora primeiro escrita apenas em japonês. Com sua mistura inspirada de pop-rock e o tradicional estilo de canto min´yô, foi um sucesso estrondoso e o single vendeu mais de 1.500.000 cópias, sendo o grande hit daquele ano. 

The Boom (da esq.  p/ dir.): Hiromasa Yamakawa (baixo),
Kazufumi Miyazawa (voz), Takao Tochigi (bateria)
e Takashi Kobayashi (guitarra)

A música fala das belezas de Okinawa, mas também fala de despedida e separação. A inspiração veio quando Kazufumi Miyazawa visitou o Himeyuri Peace Museum, em Okinawa, dedicado às enfermeiras - a maioria estudantes - que foram mortas ou se suicidaram na região durante o final da Segunda Guerra Mundial.

O povo de Okinawa foi muito castigado durante o conflito, tendo sido praticamente sacrificado pelo Império Japonês. Os jovens foram levados pelo exército imperial para lutar contra os aliados, enquanto mulheres, crianças e idosos ficaram para defender o lar. A chegada de tropas americanas no arquipélago, pouco protegido, levou a uma carnificina hedionda. Foram mais de 200.000 vítimas fatais, sendo que a maioria dos civis mortos cometeu suicídio seguindo as ordens imperiais. 

Doutrinados para a lealdade a um Imperador que era aclamado como Deus e assustados pela proximidade do inimigo desconhecido, pais de família detonavam granadas abraçados a seus filhos e enfermeiras se matavam de forma igualmente brutal. Tudo para não serem capturados pelos americanos, conforme as orientações que receberam. O resultado foi um banho de sangue de inocentes mortos sem motivo ou de forma covarde. Parte dessa triste história foi narrada na canção Satoukibi Batake (さとうきび畑, ou "Canavial"), composta por Naohiko Terashima e grande sucesso na voz de Ryoko Moriyama em 1969


O clipe original de Shima Uta, filmado na ilha Taketomi, com vegetação e habitações típicas de Okinawa.

A tragédia de Okinawa causou muitos ressentimentos e um sentimento de revolta entre okinawanos, que se sentiram usados e abandonados pelo resto do Japão. Houve também, no passado, muito preconceito racial dos japoneses contra os okinawanos e vice-versa, devido às suas diferenças culturais. A ocupação americana também impôs um pesado fardo ao povo local, prolongando os ressentimentos pelos tempos da guerra. 


Com o tempo, as cicatrizes foram sendo curadas e as relações melhoraram. Atualmente, existem grandes nomes do entretenimento japonês nascidos em Okinawa, como os músicos Namie Amuro, Camui Gackt, BEGIN, Yanawaraba e Rimi Natsukawa, entre outros. Nesse processo, a música Shima Uta foi essencial para uma aproximação através da arte. Miyazawa se disse muito emocionado pela visita à Okinawa, que abriu seus olhos para uma parte da História que ele mal conhecia, sem contar as belezas da região e sua cultura. 
O sanshin: Instrumento típico
de Okinawa, significa literalmente,
"três cordas", e é o precursor
do shamisen japonês
Ele nunca escondeu o que o inspirou a escrever a canção e os versos que falam de despedida e anseio de paz ganham conotações fortes e muito sentimentais. Os toques do instrumento tradicional sanshin, ouvidos na música, também divulgaram ao resto do país o som do ancestral okinawano do shamisen, mais conhecido mundo afora.

Velhos ressentimentos foram melhor encarados e não é exagero dizer que Okinawa se incorporou definitivamente à cultura popular japonesa graças ao The Boom. Shima Utá foi a mais famosa canção da banda, que se manteve em atividade até 2014. 

Muitas versões foram feitas desde o lançamento da música, incluindo por estrangeiros, como o argentino Alfredo Casero, a jamaicana Diane King e os americanos Andrew W.K. e a banda Allister. A composição de Miyazawa marcou para sempre a carreira do talentoso músico, que já criou canções para vários artistas de seu país.

Nascido em 18 de janeiro de 1966, Miyazawa é apaixonado não só por Okinawa, mas também por música brasileira, tendo já feito show com The Boom em São Paulo, em 1996. Fluente em português, possui um projeto pessoal chamado Ganga Zumba, onde mistura ritmos brasileiros, latinos e caribenhos, tendo como colaborador o renomado percussionista carioca Marcos Suzano. Mas aonde quer que vá, é por Shima Uta que ele é reconhecido e aclamado em primeiro lugar.

Tendo surgido como uma homenagem a um povo e uma província específicos, Shima Uta evoca sentimentos de nostalgia e pacifismo e, com grande merecimento, se tornou uma canção universal. 


::: EXTRAS :::

- Uma das canções japonesas mais regravadas de todos os tempos, é difícil eleger quais as melhores interpretações. Aqui, a opção foi pela variedade de estilos nas versões, todas muito respeitosas com a original.

1) Rimi Natsukawa - Grande estrela de Okinawa que alcançou a fama com a canção Nada Sousou, Rimi aparece aqui cantando e tocando sanshin. Algumas palavras são do dialeto de Okinawa, como o termo "kaji" ("vento"), que em japonês é "kazê". 



2) Gackt e Sadao China (2009) - Aqui, o astro do J-Rock oriundo de Okinawa, Gackt, faz uma solene interpretação de Shima Uta, com um veterano do estilo min´yô a seu lado. 



3) May J. - Jovem estrela do J-pop, May J. registrou uma elegante versão de Shima Uta em seu álbum Summer Ballad Covers, de 2013.



4) KAITO (2008) - Aqui, um vocaloid - software de voz sintetizada - é programado para interpretar a famosa música. O timbre eletrônico traz novas texturas sonoras à canção. [Dica: Se você curte vocaloid, confira um post sobre o boneco figma de Kaito, no blog parceiro Casa do Boneco Mecânico.]



5) The Boom e o argentino Alfredo Casero durante o festival anual Koohaku Utagasen de 2002. A canção fez sucesso na Argentina graças ao trabalho de Casero, que canta em japonês com muita convicção:

8 comentários:

Usys 222 disse...

A cultura de Okinawa é fascinante e sua música é altamente característica. Só de ouvir alguns acordes iniciais já dá para ver se uma música é de lá. Conhecia Shimauta, mas não sabia de toda essa história por trás dela e de como ela se tornou conhecida. Foi bem esclarecedora a matéria.

Conheci Satoukibi Batake antes de Shimauta, mas sem prestar atenção na letra. Quando vi o que significava...

Interessante que várias armas que muita gente deste lado do mundo acha que são usadas por ninjas, como o nunchaku e o sai, na verdade são usados no Ryukyu Kobujutsu. Quanto à origem dessas armas, há teorias de que elas teriam vindo da China ou da Índia.

A culinária é outro aspecto característico. E existem vários reflexos aqui no Brasil mesmo. Vejo muito em barracas de pastel o nome "Chinen", tipicamente Uchinanchú. Ah, e eu não dispenso um "nigauri" ("goya") cozido com tofu, missô e carne moída, o Goya Champuru. O original é com carne de porco preto, mas não sei onde conseguir isso por aqui. É meio amargo e não tem muita gente que gosta, mas eu adoro!

Ale Nagado disse...

Fala, Usys! Meu conhecimento - superficial - sobre a cultura de Okinawa veio já na vida adulta. Apesar de ser um uchinanchu, tive uma criação bem brasileira. Mas lembro de meu avô contando histórias de quando morava em Okinawa e ele sempre ressaltava a beleza do lugar. Ele veio muito jovem para o Brasil e durante a Segunda Guerra ele já vivia no Brasil fazia um tempo. Meu interesse acabou vindo depois que eu li o livro Okinawa - Uma ponte para o mundo, escrito pelo meu falecido tio-avô José Yamashiro. Meu pai tem um bom contato com o pessoal da colônia de Okinawa, a mais numerosa e unida que há no Brasil e já vi alguns eventos. É realmente algo diferenciado dentro da cultura japonesa.

De culinária, gosto de alguns pratos que nunca lembro o nome, como um que leva carne de porco agridoce, fora o udon okinawano, que é muito bom.

Ainda sonho em conhecer Okinawa e, quem sabe, assistir a um show do BEGIN ou da Rimi Natsukawa in loco. Deve ser fantástico.

Valeu! Grande abraço!

Bruno Seidel disse...

Tive a chance de conhecer Okinawa em outubro de 2010, quando estive no Japão. Confesso que até tinha interesse em visitar o arquipélogo mas, como acabou sendo uma viagem curta de 10 dias, optei por ficar somente pelas regiões "metropolitanas" de Tóquio, Kyoto e Osaka.

Dizem que o Hikaru Kurosaki, ator que interpretou o Jaspion, mora por lá, né?

Sobre a música do Shima Uta, confesso que achei meio "triste", algo que até me surpreendeu, pois músicas de regiões "litorâneas" costumam ser mais alegres e com aquela pegada animada do "verão" (a exemplo das músicas oriundas do nordeste brasileiro, do Havaí ou da Califórnia).

Considero Okinawa um "outro Japão dentro do Japão", já que possui uma cultura muito peculiar e que difere bastante da imagem estereotipada que se tem do país.

Ale Nagado disse...

Fala, Bruno!

Sim, o Hikaru (Seiki) Kurosaki tem mesmo uma escola de mergulho em Okinawa. E deu tanto certo que ele se recusa a viajar em época de alta temporada, pois a presença dele é fundamental.

O povo de Okinawa é alegre, mas muito sentimental em relação à sua terra natal. O pop de Okinawa tem muitas canções que exaltam a magia e a beleza do lugar. "Shimanchu nu takara" (ou "O tesouro do povo da ilha") é uma canção belíssima do grupo BEGIN que traduz bem esse sentimento.

Falou! Abraço!

Natália Maria disse...

Olá! Tipo, quanto tempo!! hehehe. Ando sumida...
Eu sabia que essa música tinha algum significado, mas não imaginei que fosse tão profundo. Não sabia dessa história sobre a Ilha de Okinawa. Sei que lá ainda hoje é possível encontrar forças americanas por lá, que a ilha em si é diferente do restante do Japão (já vi fotos e o é bem diferente do resto do país), sem contar que sei do preconceito que existe.
Bom, agora já sei os motivos e a música tem mais sentido agora.

Das trocentas versões que existe eu curto bastante a do GACKT, mas como sou fã dele a versão da Rimi Natsukawa não fica atrás...

Shima Uta é aquele tipo de música que gosto de ouvir nos tanabatas da vida e de cantar no karaokê...

Até

Ale Nagado disse...

Fala aí, Natália!!

Sobre o Gackt, confesso que a versão dele foi a que mais me surpreendeu. Conheço pouco da carreira dele, mas quando vi que tinha uma versão de Shima Uta feita por ele, esperava algo bem rock´n roll. E a versão dele é a mais solene das que eu vi. Ponto positivo pra ele, que saiu de sua zona de conforto e gravou com um velho mestre ao lado. O resultado disso certamente foi divulgação cultural, pois muitos de seus fãs devem ter descoberto a canção através dele.

Valeu, apareça mais vezes.
Abraço!

robson marcorin disse...

Alexandre como vai?

achei ótimo o seu blog, muito bem escrito e trazendo uma hist´ria importante para os okinawanos e para os fãs como eu. pensei que shima uta fosse muito mais antiga. durante muito tempo me acostumei a ouvir musicas de okinawa e até arranhava um shamissen. mas imaginava que fossem canções bem antigas e até hoje procuro por uma história da musica em okinawa. por causa da barreira da lingua não encontrei nenhum material, quer dizer, gostaria de investigar as raízes desta cultura fascinante. acho a formação dos grupos folclóricos muito atraente com instrumentistas, cantores e cantoras harmonizando e com o timbre bem agudo das backing vocals. a percussão também bastante característica. a música japonesa me atrai desde o infelizmente extinto imagens do japão da tv gazeta, aliás a nhk tem uma orquestra incrível . atualmente a maior cantora do mundo é natsukawa rimi que também toca shamissen. akira jimbo é o maior baterista do mundo há muito tempo também, ou seja, a música japonesa é grande. legal ter um blog como o seu!

Ale Nagado disse...

Olá, Robson!

Obrigado pelas palavras de incentivo. Se gosta de música de Okinawa, confira os posts sobre a canção "Nada sousou" e sobre a dupla Yanawaraba, que são bem representativos.

Também gosto muito de Rimi Natsukawa e a considero uma das melhores vozes femininas do Japão. Talvez a melhor e mais versátil intérprete do pop/folk japonês. E ela ainda é jovem, tem muito chão pela frente. Tem uma interpretação surpreendente dela no post "Covers Made in Japan". Confere lá.

Espero que encontre mais textos do seu interesse e apareça sempre que quiser para comentar.

Valeu! Abraço!