quarta-feira, 11 de maio de 2016

Silent Manga - O Poder do Silêncio

Fragmentos de trabalhos vencedores da
mais recente edição do prestigiado concurso.
A tradição dos quadrinhos japoneses preza muito a narrativa visual, a técnica que torna uma cena compreensível e que dá ritmo à leitura. 


Uma história bem narrada visualmente pode até dispensar o texto, tornando a força da comunicação ainda mais universal, como uma música instrumental. É com essa premissa - de criar histórias sem diálogos, apenas narrativa visual - que existe o concurso Silent Manga Audition (SMA), que visa divulgar e valorizar autores de mangá de todos os cantos do planeta. Isso mostra que os próprios japoneses reconhecem e apoiam o mangá feito por estrangeiros, um movimento que vai contra a posição de muitos fãs radicais, que acreditam que mangá "de verdade" só é legítimo se for feito no Japão, por japoneses. 

Apoiado por grandes nomes da indústria do mangá, como Tetsuo Hara (de Hokuto no Ken) e Tsukasa Hojo (de City Hunter) o concurso já caminha para a sexta edição. A quinta edição, cujos resultados foram divulgados recentemente, teve três brasileiros entre os vencedores. O prêmio maior, que incluía uma premiação em dinheiro, ficou com Juan Pablo Madariaga, do Chile, com o mangá "Seed". 

"Lend a Hand", de Max Andrade, o brasileiro
melhor classificado na mais recente edição.
Max Andrade, coautor da HQ Múltipla Escolha e autor de Tools Challenge, foi um dos quatro vencedores da categoria Grand Prix Runner UP, com sua história "Lend a Hand". Os cinco primeiros colocados foram receber suas premiações no Japão, com tudo pago. A cerimônia foi no último dia 22 de abril em Fukushima, onde eles plantaram sakurás (cerejeiras) e participaram de atividades com crianças de escolas locais. 

Sobre essa experiência, Max Andrade deu um depoimento exclusivo para o Sushi POP: 
- Muitos clichês podem ser ditos sobre ganhar um concurso e ir para o Japão. Todas aquelas frases de "não acredito ainda" ou "é um sonho se realizando" são todas bem reais. Pra falar a verdade eu não sinto como se tivesse ido. Nunca tinha saído da região centro oeste/sudeste, e agora fui até o outro lado do mundo, e tudo pelo meu trabalho, que não é muito bem visto aqui no meu próprio país. Só posso dizer que estou muito feliz e motivado pra voltar lá ano que vem.
Em Fukushima, os cinco melhores autores posam ao lado do
painel onde desenharam seus personagens:
Da esquerda p/ a direita: Juan Pablo (Chile), Andrea Jen (Argentina),
Salvatore Nives (Itália), Max Andrade (Brasil) e Fahtum Dhalia (Indonésia).
Foto: SMAC! Web Magazine
Os outros brasileiros selecionados no último SMA, João Eddie (com "Thank You") e Juloyola (com "The Promise of Happines"), entraram na categoria Honorable Mention. Além deles, Roberto F. e Ichirou (pseudônimo de Wellington Reis), que já venceram edições passadas, publicaram já como profissionais, com as histórias "Good Dog John" e "The Forest Guardian", respectivamente. Ichirou foi o primeiro colocado no SMA02 e SMA03 e chega a ser lamentável que seu nome - assim como dos demais - seja pouco conhecido na área editorial brasileira. 

O concurso é realizado duas vezes ano ano desde 2013 pela Coamix Co. e SMAC! Web Magazine, sempre com temas diferentes. O tema do SMA Extra Round 2016 foi promovido com a fundação Sakuramori Project, que tem ajudado a província de Fukushima após o tsunami e acidente nuclear de 2011, foi "Sakura + Keep on Smiling" ou "Sakura Returning a Favor". O tema secundário era de escolha de cada autor. 

O evento ainda tem, desde 2015, o programa SMA Master Class, que leva ao Japão os maiores vencedores e destaques para uma série de workshops com artistas renomados e lhes oferece apoio e oportunidades para publicarem profissionalmente no Japão. A última edição, de março passado, levou 18 autores de 14 países diferentes para esse programa extremamente interessante e motivador. 

"The Forest Guardian", de Ichirou
O tema da próxima edição é "When I was a child" e os interessados podem acompanhar as atualizações e informações detalhadas pelo site oficial (link no fim da matéria). É uma oportunidade incrível para profissionais e iniciantes mostrarem seu trabalho para o maior mercado de quadrinhos do mundo. 

O site do projeto, todo em inglês, possui todos os mangás selecionados nas premiações, alguns em versão motion comic (quadrinhos com movimento). Há também vários artigos e entrevistas muito interessantes para autores iniciantes e profissionais. E falando nos profissionais badalados que fazem parte do projeto, há mangás gratuitos deles, traduzidos para o inglês e para leitura on-line, como Angel Heart (de Tsukasa Hojo), Arte (de Kei Ohkubo) e Ikusa no Ko (de Tetsuo Hara). 

Confira aqui os belos trabalhos dos brasileiros que se destacaram na mais recente edição do Silent Manga Audition:






"When I was a child", o tema da próxima edição
do Silent Manga Audition.
Site oficial:
::: manga-audition.com :::

Extra:
- Confira a versão motion comic de "Homesick Alien", mangá do brasileiro Ichirou que venceu o SMA03, em 2014. 


10 comentários:

The Fool disse...

Quer dizer, estrangeiros podem fazer revista, fazer concurso internacional com prêmio, podem pagar viagem pro Japão, podem tudo!
Daí aqui no Brasil, o menino com um traço legal, chega na editora e ganha o quê? Um não na cara porque "não trabalhamos com material nacional."
Lindo, muito bom, sensacional Brasil!
Continue assim! -_-

Usys 222 disse...

O Silent Manga Audition tem uma proposta bem interessante em que não é preciso se preocupar com a barreira da linguagem, dando oportunidade a artistas de vários países fora do Japão.

O trabalho de Ichirou é fascinante. O uso das paisagens para situar o leitor e a maneira como ele usa as expressões dos personagens é excelente. Exemplifica muito bem a proposta do SMA.

Dei uma olhada no site e vi que todos os trabalhos escolhidos são bem sofisticados e as comédias têm um humor bem fino. Foi como ver aqueles desenhos animados que passavam em um antigo programa da TV Cultura, chamado "Os mais belos desenhos".

Os artistas escolhidos souberam usar bem as técnicas do mangá, exatamente como são descritas em seu Almanaque da Cultura Pop Japonesa. E com isso está provado que o mangá agora é mundial, não algo pertencente só ao Japão.

Ale Nagado disse...

Fala, Mr. Usys!

Realmente, esse ponto da universalidade da técnica eu fiz questão de frisar no texto. Até hoje existem fãs xiitas que dizem que "mangá de verdade só pode ser feito por japoneses", o que é uma bobagem desmentida pelos fatos. E os japoneses, com o SMA, estão buscando renovação, abrindo espaço para mais estrangeiros em seu mercado, o que é extremamente benéfico para todos.

No entanto, não deixa de ser triste que, assim como já acontece há anos no mercado de comics, muitos brasileiros só sejam reconhecidos fora do país.

Valeu pela participação! Abraço!

Ale Nagado disse...

Prezado "The Fool":

A grande questão é econômica. Entre lançar um obscuro mas promissor e talentoso autor de mangá desconhecido e estreante e um brasileiro em iguais condições, a editora vai lançar o japonês. Por que é mais barato e garantido. A editora vai pagar royalties (com ou sem adiantamento) pra lançar, o que é bem mais em conta que pagar um valor por página. Ganhando por página, que é o que acontece no mundo todo, o cara produz em tempo integral e consegue cumprir o volume de trabalho necessário. Quando o trabalho é compilado em tankobon, ele ganha por royalties, mas até lá ele ganhou por página e isso garantiu seu sustento.

Uma editora que queira investir num brasileiro para um mangá ou gibi regular não pode esperar que ele fique meses produzindo sem ganhar nada. Historicamente as editoras brasileiras preferem pagar royalties por algo que já teve alguma aceitação e tem material pronto lá fora do que realmente fomentar a produção local.

Eis aí outra diferença entre editores brasileiros e estrangeiros. O editor americano, europeu ou japonês dialoga com autores, ajuda a formatar o trabalho e tem um diálogo criativo e comercial. No Brasil, os editores de mangá e comics apenas selecionam o material e acompanham tradução, adaptação e impressão, mas não têm como se envolver nos aspectos criativos, pois o material vem pronto. Temos pouca gente qualificada (se é que temos alguém) para exercer o papel de editor nos moldes americanos ou japoneses.

Editoras existem, claro, para ganhar dinheiro como uma empresa qualquer. Mas as editoras brasileiras, historicamente, optaram por um caminho que não fez bem ao mercado de artistas locais. Concursos de novos talentos só são efetivos se há um mercado de trabalho remunerado capaz de absorver esses talentos.

Abraço!

The Fool disse...

Nagado, vc foi publicado pela Trama, tu sabe que grana é tudo, menos a razão principal de não publicarem.
Isso é tão verdade, mas tão verdade, que a Luluzinha Teen teve investimento de 1 milhão de reais, durou 5 anos nas bancas.
Nas bancas cheias de mangás, super-heróis, Maurício de Souza, etc, etc.
E mesmo editoras menores, como a Rica de Taubaté, publicaram mangá nacional e veja só, durou 23 edições.
Grana não é problema. O caso é que os caras são mal-caráter mesmo e não estão nem aí.
E isso vem de longe, hein? Desde a época da Editora Abril, eita vício editorial maldito!
Pessoal hoje em dia corre pro independente, fanzine, webcomic porque não tem pra onde ir.
Mas pro meu horror eu vejo editoras licenciando umas coisas que beiram a irrelevância, mas poderiam no lugar dessas coisas bancar um gibi com o pessoal daqui.
Só que não querem.
De resto, concordo contigo, nossa "cultura editorial" (se é que posso chamar assim) é horrível.
Até mais!

Stefano Barbosa disse...

"Eis aí outra diferença entre editores brasileiros e estrangeiros. O editor americano, europeu ou japonês dialoga com autores, ajuda a formatar o trabalho e tem um diálogo criativo e comercial. "

E como é na Argentina ? (citei-a por ser o maior mercado de HQ da América Latina)

Ale Nagado disse...

Stefano, eu não faço ideia de como é na Argentina. E por favor, lembre que eu bloqueio comentários off-topic.

Ale Nagado disse...

Prezado The Fool:

Fui publicado pela Trama, mas também (e por muito mais tempo) pela Editora Abril e Escala, além da Via Lettera. Posso dizer que o fator econômico é o mais importante, mas também a cultura editorial, de fazer a opção pelo que já foi testado em outro mercado, que oferece um pacote mais interessante do ponto de vista do merchandising. É o selecionar algo pronto que seja bom do que criar do zero algo até o ponto em que fique tão bom quanto o que já está pronto fora. O investimento é maior.

E cansei de ver projetos que não foram pra frente porque o valor de página era tão baixo que os autores não podiam se dar ao luxo de largar outros trabalhos para se dedicar integralmente aos quadrinhos. Aí reclamam da qualidade e irregularidade de muitos autores nacionais, mas só se pega volume de qualidade perante grande volume de produção. E aí tem que arriscar.

Não gosto de misturar julgamento de caráter em questões comerciais, capitalistas ou profissionais, mas respeito seus pontos de vista.

Abraço!

The Fool disse...

Obrigado por deixar eu me expressar no seu blog Nagado, é por isso que volta e meia apareço aqui.
Até mais!

Ale Nagado disse...

The Fool: Você é sempre bem-vindo com seus comentários. Como já disse, apenas vigio comentários que fujam do assunto, mas suas colocações se apoiaram na parte do post em que lamento que autores como Ichiro e Max sejam mais reconhecidos lá fora do que aqui no Brasil. Citações pessoais ofensivas e propagandas ideológicas também são evitadas.

Fora isso, as opiniões dos leitores são mais do que bem-vindas. Sem comentários, este blog perde muito do seu sentido.

Abraço e até breve!