quarta-feira, 27 de abril de 2016

Knights of Sidonia

Chega ao Brasil o mangá que
deu origem ao animê de sucesso na Netflix.
No distante ano de 2394, gigantescos alienígenas transmorfos conhecidos como Gaunas exterminam a humanidade e destroem o Sistema Solar. Os últimos sobreviventes da raça humana fogem para o espaço em busca de um novo planeta para viver. 

Dez séculos se passam e uma colônia de humanos, que vive na espaçonave Sidonia, encara seu maior medo. Em 3394, uma nova batalha contra os Gaunas se anuncia e ameaça Sidonia, que se desenvolveu como uma sociedade de castas. Lá, os que vivem nos níveis inferiores têm pouca chance de ascensão social, a menos que se tornem militares destacados.

Esse é o caminho trilhado pelo jovem Nagate Tanikaze após a morte de seu avô, que o criou isolado do resto de Sidonia. A ele é confiado o posto de piloto do robô gigante guardião de batalha Tsugumori, uma das peças de defesa da última sociedade humana conhecida. Hábil nas simulações eletrônicas, ele é mandado para os níveis superiores, onde descobre que sua vida será tudo, menos fácil. Ele se acidenta e é agredido várias vezes, além de passar mal diversas vezes. Quase tudo por seu desconhecimento das rotinas e costumes locais, mas ele também é vítima de preconceito, especialmente por parte do arrogante Kunato, representante dos cadetes de Sidonia. 

Nagate Tanikaze com seu robô Tsugumori ao fundo. 
Mas nem tudo é dor e provação na nova vida de Nagate e ele conhece pessoas mais confiáveis, como a Capitã Kobayashi, uma mulher misteriosa que usa máscara para aparecer em público, ou a simpática piloto Shizuka Hoshijiro. Nagate faz amizade com Izana Shinatose, uma pessoa hermafrodita, pertencente a um terceiro gênero sexual comum em Sidonia, com características biológicas masculinas e femininas, podendo escolher também uma forma definitiva. 

Nessa realidade, até então desconhecida para Nagate, também existe a reprodução assexuada, conseguida por meio de clonagem. Ainda existem seres antropomórficos e inumanos vivendo normalmente na sociedade. Mas é Izana que realmente o deixa intrigado. A orientação sexual de Izana aparenta ser feminina, o que é demostrado por suas roupas, e ela logo se apaixona por Nagate, que se vê em uma situação com a qual não sabe lidar. Ele também se sente muito próximo de Shizuka e ela não será a única "rival" de Izana. 

Durante uma missão, o grupo do qual Nagate e Izana fazem parte é atacado por um poderoso Gauna, desencadeando uma violenta batalha, a primeira de muitas que estão por vir. 

Em Knights of Sidonia há o militarismo presente em muitas outras obras recentes de mangá, o que reflete um pouco o momento político do país. No mundo da série, a maior aspiração de um jovem é se tornar um soldado, para lutar em uma guerra onde não há nuances, sendo o inimigo uma aberração inumana cujo único propósito é destruir pessoas. Uma guerra idealizada, que só tem um lado certo e justo, o que não ocorre na vida real.

A gigantesca nave Sidonia, lar dos últimos seres humanos.
É assim como os homens-barata de Terra Formars, os gigantes de Ataque dos Titãs, ou os monstros Mimetizadores de All You Need is Kill, os Gaunas são uma ameaça a ser aniquilada, simples assim. Mas a saga dos Cavaleiros de Sidonia guarda também um traço visto em Terra Formars, que é o nacionalismo, mas não tão declarado. Em Sidonia, ao menos no volume 1, os últimos sobreviventes da raça humana são todos japoneses, vivendo em uma sociedade artificial que emula muitos aspectos do Japão contemporâneo. O futuro imaginado pelo criador Tsutomu Nihei contempla a diversidade sexual, mas não a diversidade étnica. Papos-cabeça à parte, Knights of Sidonia é, acima de tudo, uma grande e divertida história em quadrinhos capaz de agradar em cheio a quem gosta de ficção científica e batalhas espaciais.

Episódio 47: Uma das
muitas ilustrações que
mostram aspectos
da arquitetura vista em
Knights of Sidonia.
A arte de Tsutomu Nihei é elegante e serena, com forte influência de autores europeus, especialmente o francês Jean Giraud, o Moebius. Seu acabamento é por vezes intencionalmente impreciso, com um senso de design muito bonito e apurado. A narrativa é pausada, com momentos silenciosos e introspectivos. Mesmo a ação violenta não é explosiva como em mangás shonen, para a garotada adolescente, e tudo segue um ritmo próprio e cadenciado. 

Tsutomu Nihei nasceu em 1971 e tem vários fãs na Alemanha, tendo sido publicado na França, Itália, Espanha e EUA. Entre seus trabalhos, estão títulos como Blame!, NOiSE, Biomega e Abara (publicado no Brasil pela Panini Comics/ Planet Mangá). Ele também produziu uma HQ fechada de Wolverine para a Marvel, que foi publicada nos EUA em 2004.

A atmosfera visual que ele consegue ilustrar é fantástica e a ambientação de Sidonia é muito interessante, conforme vão sendo reveladas as camadas sociais, os comportamentos, a arquitetura e os detalhes da vida militar e civil. Sobretudo, a forma como a sociedade de Sidonia se desenvolveu reproduz muitas injustiças existentes no mundo atual. Isso evidencia que o ser humano pode até evoluir em muitos aspectos mostrados (como fazer fotossíntese para não depender de alimentos), mas poderá continuar preso a sentimentos egoístas e mesquinhos. O resultado desse trabalho cheio de nuances é um mangá adulto no melhor sentido do termo, sendo elaborado e permitindo reflexões e diversas interpretações.
O guardião espacial Tsugumori, na versão animê.
Knights of Sidonia (ou Shidonia no Kishi ~ シドニアの騎士) foi publicado na revista masculina mensal para jovens adultos (a demografia seinen) Afternoon, da Editora Kodansha, entre 2009 e 2015, gerando 15 volumes encadernados. Teve uma série de TV com 12 episódios produzidos pela Polygon Pictures em 2014. Depois, em 2015, ganhou um longa para cinema e uma segunda temporada de TV, com mais 12 capítulos. No Brasil, os 24 episódios das séries combinadas fazem parte do catálogo do portal Netflix, que representa o título mundialmente

Com drama e ação bem dosados,um senso narrativo único e um design criativo, Knights of Sidonia pode ser considerado o mangá mais europeu em publicação atualmente. E ainda assim, é extremamente japonês, com personagens, ideias e conceitos próprios dos quadrinhos japoneses. Uma combinação poderosa, incomum e de sucesso. 

Knights of Sidonia
- Roteiro e arte: Tsutomu Nihei
Editora: JBC
Formato: 13,5 x 20,5 cm, com 184 páginas
Total de volumes: 15
Lançamento no Brasil: Abril de 2016
Preço: R$ 17,50
Periodicidade: Mensal (Distribuição nacional)
- Classificação indicativa: Para maiores de 16 anos.



Amostra grátisConfira aqui um preview oficial de Knights of Sidonia.

4 comentários:

Ricardo disse...

Quando comecei a ler a matéria logo lembrei de Ataque dos Titãs - não conheço os outros títulos mencionados, como Terra Formars e All You Need is Kill.

Lembro de ter lido um texto a respeito de Ataque dos Titãs que teorizava que os inimigos indestrutíveis seriam uma espécie de alegoria do momento político vivido naquela região do continente asiático, com a crescente expansão da China e as constantes ameaças da Coreia do Norte. Provavelmente isso pode se aplicar a todas essas sagas.

Falando especificamente sobre Sidônia, o visual é muito interessante, bem como o universo criado para a série. Acho que não vou encarar 15 volumes do mangá, mas seu texto me incentivou a acompanhar o anime via Netflix.

Usys 222 disse...

Esse é outro que ouvi falar através de figuras, mas nunca me aventurei a ver.

E pelo visto é recheado de elementos. Robôs, uma "Arca de Noé", seres hermafroditas e antropomórficos, predadores espaciais de origem desconhecida, uma sociedade de castas... Deve dar um tremendo trabalho fazer uma história com tudo isso e ainda assim manter a coesão, fazendo com que cada aspecto tenha alguma importância na história.

Quando vi as amostras dos desenhos pensei mesmo em estilos europeus, como em Moebius. Não só o traço, como a perspectiva usada nesse quadrinho me lembrou disso.

Ale Nagado disse...

Olá, Ricardo!

Não vi ainda a série, pois não assino Netflix. Mas vi trailers no YouTube e constatei que a produção parece boa mesmo. Foi feita divulgação em cima do nome do roteirista, diretor e produtor Sadayuki Murai, o que é sinal de qualidade em uma obra. Quando puder, vou dar uma conferida nesse animê.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Usys! Realmente, o trabalho de roteiro do autor Tsutomu Nihei é complexo e ele tece uma trama bastante abrangente, mas sem perder o foco, ao menos nesse início de saga que eu li. O design é muito interessante e os personagens são bem delineados.

Estou inclinado a querer ler mais histórias desse autor, que tem um trabalho bem consistente. E é bacana que ele traga influências europeias, pois deu uma atmosfera bem diferente ao trabalho.

Abraço!