sexta-feira, 25 de março de 2016

Bate-papo: Diferenças entre editoras do Japão e dos EUA

Cartaz da edição 2013 do evento Jump Festa, mostrando
a força de seu universo de personagens. 
Por quê as editoras de mangás no Japão não são famosas como a DC e a Marvel (na mesma proporção)?
- Stefano Barbosa

Olá. Essa pergunta é interessante e vai servir para falarmos sobre algumas grandes diferenças entre estilos e mentalidades editoriais.

O Japão possui o maior mercado de quadrinhos do mundo. Os mangás vendem no Japão muito mais que os comics vendem nos EUA e no resto do mundo. Os mangás também têm mostrado muita força nos mercados editoriais de vários países (incluindo os EUA), mas a popularidade dos personagens não se estende às editoras. Os fãs sabem quais as editoras que publicam suas séries favoritas ou que deram origem a seus animês preferidos, mas essas editoras não possuem fãs diretos.

A Marvel e a DC Comics são conhecidas do grande público basicamente porque seus personagens estão no cinema e TV há décadas. Os Vingadores, Batman, X-Men, Superman, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Liga da Justiça, Wolverine e outros são ícones mundiais licenciados massivamente em vários países há muito tempo, em diferentes mídias e com diferentes versões. A Marvel e a DC pertencem, respectivamente, à Disney e à Warner, dois dos maiores conglomerados de comunicação do mundo. E cada uma dessas editoras possui seu universo coeso de personagens que interagem entre si. O que tem sido feito no cinema em filmes como Os Vingadores e Batman vs Superman apenas está repetindo o que já acontecia nos quadrinhos há décadas. 

Heróis da Marvel e DC Comics. Ter seus personagens de
diferentes títulos interagindo normalmente criou um
forte senso de identidade para as editoras, com seus
universos em comum.
Tanto a Marvel como a DC Comics se estabeleceram com universos de super-heróis que vivem em mundos compartilhados. Seus super-heróis se encontram, fazem alianças, eventualmente lutam entre si e vivenciam acontecimentos em comum. E as grandes decisões sobre esses lucrativos encontros são tomadas muito mais por homens de negócios do que por criadores. Tais conceitos, levados ao cinema e à TV, têm feito a festa do público, como o que foi feito com o universo cinematográfico da Marvel, que dialoga também com suas séries de TV. 

Já para os japoneses, não existem universos compartilhados e nem crossovers de diferentes universos de histórias de mangá. A Shueisha publica a Shonen Jump, mas cada história dessa antologia segue rigorosamente um universo criado por seu autor, sem que os personagens de séries diferentes precisem interagir entre si. 
Sunday vs Magazine:
Jogo de 2009 marcou o
cinquentenário de
ambas revistas em
um game para PSP
que colocou seus
personagens em
confrontos improváveis
de acontecer
no mangá.

Nas editoras americanas, os personagens são trabalhados por autores diferentes, contratados para as diferentes etapas de produção. Os personagens não pertencem aos artistas, são todos corporativos. Diferente disso, no Japão é forte a ideia da autoria de um personagem, com os criadores retendo os direitos por suas criações. No entanto, a presença corporativa também existe e é comum que royalties de merchandising sejam compartilhados entre autor e editora. E há certas interferências também no processo criativo, mas numa escala menor que nos EUA. 

As empresas publicadoras, através de seus editores, podem pressionar autores a prolongar a duração de suas séries ou interferir em rumos de uma  história, mas a palavra final é sempre do autor, dependendo de sua personalidade. E as séries japonesas normalmente têm um final, enquanto os grandes personagens americanos nunca terão um final, com Batman, Homem-Aranha e tantos outros sendo eternamente repaginados e reestruturados para novas gerações. 

As editoras japonesas têm presença forte no mundo do entretenimento, mas não fazem um marketing próprio da forma como as americanas. Existem fãs da Marvel e fãs da DC, mas soa estranho falar de fãs de Shueisha, Shogakukan ou Kodansha, só pra citar essas três grandes editoras. Elas nunca desejaram criar universos compartilhados para seus personagens, respeitando cada visão autoral. 

Encontros de personagens diferentes acontecem apenas em imagens promocionais de eventos ou em games, como no caso do jogo Sunday vs Magazine (para PSP), com personagens da Shonen Sunday e Shonen Magazine. E antes que se fale em idealismo por parte dos japoneses, vale lembrar que a fórmula de associar o autor a seu personagem tem dado certo desde os primórdios da indústria nipônica de quadrinhos. Esse respeito ao autor tem uma sólida base comercial. 

Os mangás de maior sucesso atingem vendas de milhões de encadernações e não seria assim se não houvesse uma forte identificação do trabalho com seu criador. Naruto é obra de Masashi Kishimoto, Dragon Ball é de Akira Toriyama, Rurouni Kenshin é de Nobuhiro Watsuki e assim por diante. Mesmo que existam derivados de algum grande sucesso feitos por artistas contratados, como no caso de Ataque dos Titãs - Antes da Queda, isso é exceção, não regra. 

A relação das editoras com seus produtos e autores tem peso decisivo nessa percepção pública sobre as empresas. As editoras americanas se tornaram marcas de peso identificadas com seus personagens. As japonesas sempre preferiram promover apenas seus personagens e criadores, apostando no caráter autoral individual para promover identificação com os leitores. São visões diferentes que, cada uma a seu modo, buscam potencializar melhor seus lucros. 

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Bate-papo Sushi POP 

13 comentários:

Adelmo Veloso disse...

Excelente matéria!

Passei a entender essa onda de universos distintos há pouco tempo. Com a chegada da Marvel e DC aos cinemas, pude entender porque o Homem-Aranha não podia aparecer nos filmes da Marvel, já que a Sony detinha os direitos. Também pude separar os tons distintos entre a Marvel (mais cômica e leve) e a DC (mais sombria).

Já no mercado japonês, posso dizer que entendi bem isso aí após ter lido Bakuman. O mangá descreve muito bem como funciona o mercado editorial japonês (eu acredito que seja daquele jeito lá), o que me fez dar mais valor ao material original. Tanto que, após também me tornar artista, pude ver as dificuldades de perto do quão difícil é manter seu próprio negócio, bem como também passei a valorizar mais os autores nacionais.

No mais, acho que é isso!

Stefano Barbosa disse...

achei legal isso! personagens pertencem aos autores!
ah li o livro de Sonia Luyten sobre o mangá... Luyten disse que o mangaka é dono dos personagens. Se ele se aposentar ou morrer, o mesmo ocorre com os personagens. Motivo: assim abre espaço pra novos mangakas e personagens.

Ale Nagado disse...

Fala, Adelmo Veloso!

Bakuman... Ainda preciso ler esse até o fim. Só li o volume 1. No entanto, li artigos explicando que alguns autores se revoltaram com Bakuman, por florear muito o mundo da Shonen Jump. Há outros trabalhos relatando bastidores do mundo editorial. Um que me intrigou descobrir foi Henshuu-Oh (O Rei dos Editores), que foi tema de um post bem antigo aqui. Infelizmente, ainda não consegui encontrar o material em inglês para conferir.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Stefano!

A diferença de mentalidade é grande e, para seus respectivos mercados, tem funcionado. No entanto, a forma japonesa me parece muito mais justa e honesta com os autores. Ainda bem que financeiramente tem sido bom lidar assim com os autores e o mercado está sempre se renovando.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Pessoal, eu havia incluído nesta postagem uma imagem que achei na internet com uma capa de jogo "Jump vs Sunday", apenas para ilustrar. Mas um leitor, o @guineto, me avisou via Twitter que a imagem era falsa. Daí, retirei a figura e corrigi a citação no texto. Não mudava em nada o desenrolar da matéria, mas ia dar margem à difusão de um erro e críticas por parte de outros.

Eu tenho a sorte de ter leitores que me avisam quando sai algum erro. Sendo na web, tenho como corrigir. É isso. Bola pra frente!

Stefano Barbosa disse...

e como é o mercado brasileiro? você pode me tirar dúvida?

Usys 222 disse...

É realmente interessante essa diferença, sendo que cada uma tem suas vantagens e desvantagens.

Quando era menor, vi em vídeo um especial de cinema do Mazinger Z Vs Devilman e uma história em quadrinhos de Great Mazinger Vs Getter Robo G. Por isso por muito tempo acreditei que os personagens da Dynamic Production faziam parte de um universo compartilhado. Só muito mais tarde vi que isso não seria possível, considerando como acaba cada um deles.

Stefano Barbosa disse...

valeu pela matéria! ah incrivel que Angeli e Baraldi não cresceram no cenário da HQ a exemplo de Mauricio de Sousa!

Ale Nagado disse...

Stefano, que pergunta complicada!

O mercado de quadrinhos brasileiros, tirando Mauricio de Sousa, praticamente inexiste. Há muitos gibis independentes e álbuns, mas geram prêmios e badalação, raramente geram pagamentos justos. Já me desentendi com muita gente que fala que o mercado de HQ brasileira está fantástico. Eu não imagino uma categoria profissional que diga que seu mercado de trabalho está fantástico mas ninguém que está nele consegue ganhar dinheiro pra viver.

Enfim, esse assunto já foi tema de um "Bate-papo" antigo:
http://nagado.blogspot.com.br/2015/07/bate-papo-o-mercado-de-quadrinhos-no.html

Confere lá!
Abraço!

Ale Nagado disse...

E aí, Usys!

Realmente, crossovers assim só acontecem em aventuras especiais, fora de cronologia. Fora dos quadrinhos, a Toei tem criado um universo compartilhado, onde suas franquias podem se reunir, sendo a coisa mais próxima que existe no Japão dos universos de super-heróis americanos da Marvel ou da DC.

E falando nisso, lembrei do Cyborg 009 vs Devilman. Uma hora preciso conferir esse.

Abraço!

Bruno Seidel disse...

Que baita pauta pra discussão. Acho que você tocou numa das principais diferenças entre as editoras estadunidenses e japonesas, Nagado! Eu reconheço que ambas têm suas estratégias particulares e ambas lucram muito aos seus modos. Mas tem horas que, como fã de produções japonesas, confesso que me bate um pouco de "invejinha" dos super-heróis americanos. Falo especificamente de alguns crossovers que ocorrem com tanta frequência por lá. Gosto da ideia de cada título pertencer a um universo isolado, mas gostaria muito de poder ver, pelo menos de vez em quando, um crossover entre DBZ e Cavaleiros, por exemplo. Ou até entre Saitama (One Punch Man) e Goku. Esse tipo de coisa é muito legal e leva os fãs ao delírio.
Em Tokusatsu, não é nada raro ver Kamen Riders se encontrando, mas crossovers como Ultraman versus Godzilla, por exemplo, jamais foram vistos. E olha que existe um certo "parentesco" entre ambos, já que foram idealizados (direta e indiretamente) pelo Eiji Tsuburaya. O mesmo valeria para Kamen Rider versus Cyborg 009.
Alguns heróis americanos até conseguem se destacar tanto em seus respectivos universos que até conseguem uma "emancipação" (caso do Wolverine dos X-Men, a Elektra do Demolidor, o Robin do Batman), gerando spinoffs como os Teen Titans e o Esquadrão Suicida.
Esse tipo de coisa, confesso, gostaria de ver com uma frequeência maior em produções orientais.

Ale Nagado disse...

Fala, Mr. Bruno Seidel!

Em animê alguns crossovers são mais fáceis. No mangá mensal ou semanal é que a coisa pega. Para que aconteçam crossovers, tem que haver uma coordenação editorial que priorize isso e aí bagunça o esquema de cada autor, a menos que se pense em edições especiais, assim como tem essas poucas aventuras especiais que comentou-se aqui.

Um crossover de mangá que eu me lembro é o encontro do Capitão Harlock com os personagens de Galaxy Express 999. Eles são parte do chamado "Leijiverso", o universo de personagens do autor Leiji Matsumoto. O Yamato não faz parte, pois foi trabalho encomendado pelo produtor Yoshinobu Nishizaki (e pelo qual eles lutaram por anos). Mas o Matsumoto não liga para cronologia, ela é um fio tênue que não é levado muito a sério.

Crossovers no nível em que há nos quadrinhos, e agora no cinema, com os heróis americanos, provavelmente nunca vai existir no mangá.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Complementando, vi que o crossover Cyborg 009 vs Devilman vai sair no Brasil, via Netflix:

Link pra notícia:
http://www.infoanimation.com.br/2016/03/netflix-lancara-no-brasil-cyborg-009-vs.html